Eric Gil
Colunista
Compartilhar
Economia 18/Dec/2015 às 14:25
21
Comentários

Quem será o novo ministro da Fazenda?

Joaquim Levy Ministério Fazenda
Saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda deverá ser oficialmente anunciada nesta sexta-feira (divulgação)

Eric Gil*

Ontem, na reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), Joaquim Levy comentou, segundo os jornais, que talvez não esteja na próxima reunião do Conselho, um claro sinal de que sairá em muito breve do maior cargo de direção econômica do país, a Fazenda.

Joaquim Levy iniciou seu mandato em janeiro deste ano, vindo diretamente do Bradesco, como indicação do presidente deste banco, Luiz Carlos Trabuco. Levy é um homem do mercado, e defendeu com unhas e dentes a pauta única do mercado: o ajuste fiscal. Mas e com sua saída, o que vai acontecer?

Antes de qualquer coisa é importante entender um pouco mais sobre a lógica da nomeação dos ministros da Fazenda no Brasil. Este ministério data ainda do Império, surgindo em 1808, quando o cargo de chefe ainda era denominado ministro e secretário de Estado dos Negócios do Brasil e da Fazenda do Real Erário.

O perfil dos ministros da Fazenda passou a ter mais semelhança com o atual a partir da chamada Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas assumiu o comando do país. Apesar do primeiro nomeado ter sido um dentista de formação, Agenor de Roure, que passou apenas dez dias no comando, o padrão desde então é a nomeação de banqueiros, economistas e pessoas com experiência de comando de instituições e empresas públicas. Antes disto, a pasta era dominada por políticos profissionais, como o próprio Getúlio Vargas, que passou mais de um ano a frente da Fazenda no governo Washington Luís. Os políticos profissionais a partir de 1930 correspondem apenas a 27% do total de nomeados.

Mas a atual conjuntura, em uma mescla de crise econômica e política, não garante nenhuma previsão a partir desse padrão passado, pois a presidente Dilma Rousseff precisa de apoio parlamentar e social para se manter no cargo. Então vamos às opções.

A primeira opção parece ser o seu atual ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Um economista de orientação heterodoxa, mas que desde a formação da dupla (nada harmoniosa) Levy-Barbosa aceitou um pingo de ortodoxia para que os mercados dessem o aval para Dilma o nomeá-lo. É um nome frágil, pois apesar de ser da preferência de Dilma não é base de nenhum setor social (aqui digo especialmente industriais e banqueiros) e nem parlamentar (não representa nenhum partido de apoio, apesar da Fazenda normalmente não entrar como moeda de troca de apoio parlamentar).

Trocando em miúdos, apesar de ser do gosto de Dilma, a sua escolha poderia atenuar a oposição de classes dominantes e de parlamentares (que apesar de brigar com Levy, este agrada muitos dos seus financiadores de campanha).

A segunda opção posta por diversos jornais é Alexandre Tombini. No entanto, parece ser arriscado para a presidente retirar o presidente do Banco Central do Brasil de seu cargo, pois o BC é uma das áreas com menor crítica por parte dos partidários do ajuste fiscal, principalmente o mercado financeiro. Isto é, se Dilma levar em consideração a máxima de “time que está ganhando não se mexe”, não irá desestabilizar o Ministério dos Banqueiros (termo que usei em artigo nesta coluna para designar o Banco Central do Brasil) para o alívio desses manda-chuvas.

A terceira opção visa pessoas próximas ao mercado, para manter fielmente a política defendida pelo atual ministro. Os dois principais nomes são do ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, e do atual diretor-executivo do FMI para o Brasil, Otaviano Canuto. Ambos já eram nomes que apareciam desde a reeleição de Dilma, para rivalizar com Armínio Fraga e Eduardo Gianetti, representantes dos então candidatos Aécio Neves e Marina Silva, respectivamente. A escolha por um dos dois, ou alguém com este perfil, seria a sinalização para o mercado de que a prioridade continuaria a ser o ajuste fiscal, com a garantia de que a política de pagamento de juros se sobressairia às políticas sociais, custe o que custar.

Por fim, uma nova opção, especulada ontem pela Folha de São Paulo, é do atual ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Armando Monteiro Neto (PTB-PE). Esta seria uma opção “caseira” e que poderia aumentar (ou ao menos manter, o que já anda sendo difícil, hoje) o apoio parlamentar, já que Monteiro é atualmente senador pelo estado de Pernambuco. No entanto, Monteiro não é um simples político profissional, ele já foi presidente diversas vezes da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ou seja, um representante de uma determinada fração de classe, a industrial (não é à toa que é ministro do MDIC). Em um contexto onde a FIESP acaba de assumir o apoio ao impeachment, Monteiro parece ganhar uma nova vantagem: trazer de volta Paulo Skaf e cia. à sua base de apoio.

Leia aqui todos os textos de Eric Gil

Bem, as opções parecem ser algo em torno destes quatro conjuntos: (i) que agrade ideologicamente a presidente; (ii) que agrade parcialmente Dilma e o mercado; (iii) que agrade somente ao mercado, mas que garanta o apoio deste à presidente; e (iv) que garanta apoio parlamentar e de uma fração de classe, a industrial, mas que não garante o apoio dos mais poderosos do país, os banqueiros.

Nesta crise política, a escolha do novo titular da Fazenda deverá fazer toda a diferença para o desfecho desta novela que parece não querer acabar.

*Eric Gil é economista do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) formado pela Universidade Federal da Paraíba, mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná; escreve quinzenalmente para Pragmatismo Político

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. Daniel Vianna Postado em 18/Dec/2015 às 11:46

    Gostaria muito que Dilma, pelo menos cogitasse a possibilidade de nomear Ciro Gomes para a pasta da fazenda.

    • Onda Vermelha Postado em 18/Dec/2015 às 19:54

      Daniel o escolhido foi o economista Nelson Barbosa, deslocado do Ministério do Planejamento, em minha humilde opinião, a melhor escolha possível dadas as condições atuais de temperatura e pressão. O "Deus Mercado" vai reagir (já reagiu!), mas vai absorver o impacto durante o fim de semana e deverá voltar mais calmo na segunda-feira. Assim, espero! Já setor produtivo vai respirar aliviado. É preciso dar algum fôlego a economia real, e a ortodoxia do Levy era incapaz de se permitir qualquer inflexão mínima que seja. Entretanto, penso que se a Dilma somente cogitasse o Ciro Gomes na Fazenda. Veja bem falei "cogitasse". Não digo sequer "nomeação". Penso que no dia seguinte teríamos o PMDB todo unificado em torno do Impeachment em pleno recesso...rsrsrs. E aí? O que achas? Valeria a pena? As coisas não tão simples e fáceis quanto parecem! O Brasil não é um país para amadores! Está aí o senhor Eduardo Consentino Cunha que não me deixa mentir. Não é mesmo?

      • Rafael Postado em 18/Dec/2015 às 21:38

        Apesar de não simpatizar muito com o Ciro, ele tem uma qualidade: Tem opinião própria. Não aguentaria ser ministro da Dilma por uma nem uma semana. A Dilma trabalha somente com gente submissa a ela. Basta ver a cara de triste do Levy e a cara de tonto de todos os outros ministros. Aliás, o único candidato de toda a esquerda em 2014 que não possui ar autoritário é o Eduardo Jorge.

      • Filipe Postado em 21/Dec/2015 às 01:50

        Oi Rafael, cuidado com isso! A "cara" que você vê dessa gente, é o que sai no jornal. Ou seja, é uma seleção, feita entre centenas de fotos. Cuidado com isso, porque é a coisa mais fácil do mundo construir uma "narrativa" ou uma idéia, através de uma escolha cuidadosa de imagens.

    • Porraldo Postado em 20/Dec/2015 às 16:43

      Concordo, mas imagino que isso seria para fazer o nome dele à eleição e sem Lula não concorrendo em 2018 somando aceitar o risco de desgaste da imagem por conta da perseguição da mídia reacionária que capitalizaria os percalços do cargo de ministro da fazenda.

  2. Junio Postado em 18/Dec/2015 às 12:09

    Esqueceram de citar Jaques Wagner! Mas, para tirar a economia brasileira do fundo do poço, talvez só importando Thomaz Piketty.

    • Eric Gil
      Eric Gil Postado em 18/Dec/2015 às 14:00

      Jaques Wagner entrou na corrida só depois que terminei de escrever o texto. Mas de fato...

  3. Onda Vermelha Postado em 18/Dec/2015 às 12:55

    "Quem será o novo ministro da fazenda?" Esse é a pergunta que vale um milhão de dólares! Ou 200 milhões de vidas num projeto de país! A Dilma, recomenda-se, não adiar essa definição por muito mais tempo para não piorar o cenário econômico já deteriorado. E reverter as expectativas o quanto antes! Mas sabe-se também que não poderá errar mais. Dessa decisão depende todo o resto de seu mandato, e de como entrará para história. Que a sabedoria, a virtude, a ousadia e o interesse público iluminem a sua escolha. Não gostaria de estar no lugar dela nessa hora. Boa sorte a todos nós!

  4. Sérgio Beno Malschitzky Postado em 18/Dec/2015 às 14:47

    O Ministro Levy, como economista foi um ótimo banqueiro! A escalada da Taxa Básica de Juros foi vertiginosa e absurda, encarecendo o crédito e agravando a inflação, juntando assim dois dos piores mundos, inflação com recessão! Obviamente o empresário com medo nas quedas das vendas, partiu para a especulação financeira ao invés de investir no aumento da produção. Conclusão, demissões e estagnação! Não entendo como ficou tanto tempo, fazendo o que mais parece uma sabotagem da economia, onde quem ganha é o mercado financeiro com altas taxas de juros, que nada produz, e quem perde é o trabalhador, com seu emprego. Enquanto nos EUA as taxas de juros são derrubadas à zero para ajudar a Economia, as empresas e os consumidores, aqui vão às nuvens para enriquecer ainda mais os agiotas! Já vai tarde Levy, infelizmente!

    • Rafael Postado em 18/Dec/2015 às 21:45

      Amigo, concordo que o Brasil foi eleito pelo mercado financeiro como paraíso das taxas de juros. Mas taxas de juros muito baixas geram endividamento elevado. Os EUA vão pagar caro por essa política suicida. Acha que é a toa que protelaram tanto esse aumento da taxa de juros por lá? E tem mais, se baixarmos muito a taxa de juros por aqui haverá fuga enorme de capital, pois aqui só compensa com taxa básica alta. E de onde o país tirará grana para financiar programas de desenvolvimento? Lembre-se que injetar dinheiro na economia artificialmente gera inflação. A coisa não é tão simples assim. Não basta dizer que os banqueiros são malvados...

  5. Júlio P. Postado em 18/Dec/2015 às 14:49

    Todas as opções dispostas são terríveis.

  6. Gustavo Rezende Postado em 18/Dec/2015 às 15:19

    O novo continuara sendo a Dilma. O proprio Jaques Wagner declarou publicamente que e a presidente quem comanda a economia, pendindo que deixem de apontar os fuzis aos ex ministros da economia. Dilma, infelizmente, nao ouve Lula. O Meirelles seria um otimo ministro, no entsnto ele nao aceita subserviência.

  7. Ywri Postado em 18/Dec/2015 às 18:16

    Pela situação que se encontra, acho mais provável ser o Nelson Barbosa

  8. Eric Gil
    Eric Gil Postado em 18/Dec/2015 às 19:42

    O escolhido foi a opção um, Nelson Barbosa.

    • Rafael Vieira Âmbar Postado em 18/Dec/2015 às 21:44

      "Trocando em miúdos, apesar de ser do gosto de Dilma, a sua escolha poderia atenuar a oposição de classes dominantes e de parlamentares (que apesar de brigar com Levy, este agrada muitos dos seus financiadores de campanha)." Atenuar por quê?

  9. Thiago Teixeira Postado em 19/Dec/2015 às 07:10

    Ciro Gomes seria a melhor escolha política. Não conheço esse ministro escolhido portanto não posso dar opinião. Mas traga Ciro Gomes e Requião para os ministérios CARALHO!!!!!!! Tá esperando o que Dilma? Perder o apoio das ruas?????

    • poliana Postado em 19/Dec/2015 às 16:50

      Thiago, acredito q o ciro gomes n iria se expor nesse momento, num cargo tão complexo como o de ministro da fazenda. Ele está de olho na presidência em 2018 e já confirmou q irá se candidatar. O país está em uma crise tenebrosa em sua economia, e eu já vi vários especialistas dizendo q antes de 2018 eh muito difícil o país se recuperar...ser ministro da fazenda nessa situação o exporia demais. Acho q ele n aceitaria o cargo neste momento...mas falo isso como leiga...creio q o ciro gomes vai ser um forte candidato em 2018, e uma alternativa à polarização pt x psdb. Seria muito arriscado pra ele exercer esse cargo neste monento.

    • Thiago Teixeira Postado em 21/Dec/2015 às 10:15

      Subestimar o adversário é a cara da Direita, meu caro. Se as pessoas que estavam na passeata do dia 16/12 são pagos, chapa branca, as passeatas coxinhas são quê? Chapa preta? Representantes do "povo"??????? Para de desqualificar os movimentos sociais sem ao menos conhecer.

  10. julio Postado em 19/Dec/2015 às 12:53

    Lugar de banqueiro e em banco ! Reducao de juros, incentivo a producao, respeito aos direitos trabalhistas; Dilma recupera apoio popular , o impedimento termina, a economia aquece, o dolar cai!

  11. Raimundo Tiburcio Postado em 19/Dec/2015 às 20:07

    Boa análise, obrigado pelos esclarecimentos

  12. Carlos Eduardo Cardoso Postado em 20/Dec/2015 às 10:59

    Luiz Gonzaga Belluzo seria o cara. Se a Dilma não buscar alguém que esteja do nosso lado, ai sim, ela estará fadada a queda.