Redação Pragmatismo
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Polícia Militar 03/Dec/2015 às 16:36
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Chacina no Rio e repressão em São Paulo: duas faces de uma política anacrônica

A relação entre o fuzilamento dos jovens cariocas e a violência da PM contra os estudantes de São Paulo são duas faces da mesma moeda, duas faces do sistema que permite que tenhamos uma Polícia Militar que não presta contas a ninguém. Ou as PMs mudam a sua essência, ou mais cedo ou mais tarde, a população que a cada dia que passa não suporta mais apanhar tanto, irá clamar pelo seu fim

Rio São Paulo repressão PM
No Rio, carro dos jovens fuzilados pela PM tinha dezenas de perfurações (Pragmatismo Político)

Rafael Alcadipani, Ponte

Jovens são literalmente fuzilados sem mais nem porque por PMs no Complexo da Pedreira, Rio de Janeiro. Estudantes que protestam contra uma mudança imposta pelo Governo do Estado de São Paulo em suas escolas em diferentes “incidentes insolados” sofrem várias formas de violência em ações conduzidas pela PM paulista quase que diariamente desde que as ocupações de escolas públicas e outros protestes relacionados começaram no estado.

Em um olhar desatento, ambos eventos não tem nenhuma relação: ocorreram em diferentes unidades da federação, foram perpetrados por polícias diferentes e possuem níveis de gravidade diferentes. Não resta dúvida que cada uma das forças policiais do Brasil possui as suas peculiaridades tanto positivas quanto negativas.

Porém, se ampliamos um pouco a análise podemos perceber que tais eventos não estão tão desconectados. PMs, só em 2015, praticaram atos de extrema violência contra professores de escolas públicas em greve no Paraná e em Brasília, apenas para citar alguns casos mais escabrosos. No caso de Brasília, o Secretário de Segurança pediu demissão do cargo porque queria punir os policiais que flagrantemente atuaram de forma desproporcional. O Governador do Estado ficou do lado da PM.

PMs também estão, direta ou indiretamente, envolvidos em execuções extrajudiciais que aconteceram em Osasco e Barueri (Grande São Paulo), Manaus (AM) e Fortaleza (CE), relembrando alguns casos que ganharam notoriedade.

As PMs do Brasil reprimem manifestações com constante uso desproporcional da força e pessoas são diariamente executadas pelas armas da PM. É incrível a facilidade com que PMs usam spray de pimenta, cassetetes, balas de borracha e bombas contra pessoas desarmadas que reivindicam direitos, assim como é impressionante a facilidade com que matam.

É impossível esquecer a execução sumária de um menino em uma favela do Rio de Janeiro ou PMs uniformizados filmados “montando” uma cena de resistência seguida de morte após executarem friamente uma pessoa. Só não vê quem não quer: há um claro e nítido padrão de atuação violenta e ilegal por parte das PMs do Norte ao Sul do Brasil. Algumas forças são menos violentas, outras um pouco mais, mas o padrão de atuação é marcado pelo abuso, violência e desrespeito com as leis e com as pessoas ao redor do país. A pergunta que fica é porque este padrão se mantém?

Há inúmeros fatores que devem ser levados em conta para responder a pergunta. Primeiro, parte de nossa sociedade compactua com a violência policial e, inclusive, percebe tal violência como solução adequada para nossos problemas. Dentro desta lógica , policiais são fruto do meio em que estão. Segundo, os controles sobre os PMs é, na sua maioria, interno e cheio de vícios de origem.

Muitos membros da PM defendem que sua corregedoria é rigorosa, mas análises acadêmicas consistentes, como a do Prof. Sandro Cabral, da UFBA, mostra que as corregedorias atuam fortemente em crimes de corrupção, mas têm uma atuação muito mais tênue em casos em que envolve violência policial.

Corregedorias internas ficam reféns, sempre, da lógica corporativista. Não precisamos ir muito longe: quais foram os policiais punidos após as manifestações de Junho de 2013? Ninguém tem a resposta. Terceiro, nenhum governo controla efetivamente as PMs no Brasil. Muitas delas rodam a sua própria folha de pagamento e muitos de seus comandantes possuem benefícios muito além do que seria razoável supor para um agente público. Um coronel, em vários estados, possui mais benefícios do que um secretário estadual.

A falta de controle acontece pelo fato de que as PMs realizam, como estamos assistindo em São Paulo, o “trabalho sujo” em nome do governo contra movimentos sociais. No limite, as PMs não trabalham para o Governo, elas trabalham para os governantes que sabem contar com uma proteção bastante efetiva das PMs.

Quarto, as PMs foram sequestradas por seus comandantes. Os comandos das PMs acreditam que eles são donos da polícia e esquecem que a PM é da sociedade, não dos comandantes. Os comandos das forças policiais sabem quem são os PMs que mais matam, mas pouco fazem para retirá-los da corporação. Ser violento é um valor para muitos PMs. Os oficiais que tentam fugir desta lógica, muitas vezes, têm uma vida muito difícil dentro da corporações, sendo perseguidos por seus chefes.

Quinto, o Ministério Público tem uma atuação extremamente fraca e conivente quando se tratam de crimes cometidos por policiais. A violência da PM é secundada pelo MP. Como disse o cineasta José Padilha em entrevista recente, o absurdo foi naturalizado no Brasil.

É inconcebível pensar que em qualquer lugar minimamente civilizado o secretário de segurança e o chefe de polícia iriam permanecer em seus respectivos cargos após o fuzilamento sumário de jovens que não confrontaram ou tentaram confrontar as forças policiais.

Resumindo a história, a relação entre o fuzilamento dos jovens cariocas e a violência da PM contra os estudantes de São Paulo são duas faces da mesma moeda, duas faces do sistema que permite que tenhamos uma Polícia Militar que não presta contas a ninguém. O problema se dá no fato que de as pessoas confiam cada vez menos na polícia e cada vez mais irão cobrar mudanças. Ou as PMs mudam a sua essência, ou mais cedo ou mais tarde, a população que a cada dia que passa não suporta mais apanhar tanto, irá clamar pelo seu fim.

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 03/Dec/2015 às 17:59

    Chacina Rio ... Secretário Incompetente, culpa também das UPP´s, policiais assassinos, todos na cadeia, que horror. Chacina em SP, que chacina? Foi troca de tiros com a polícia, é o Governo de SP trabalhando por você, palmas da Rede Globo / BAND / SBT / RECORD (novo integrante do PiG).

  2. Eduardo Ribeiro Postado em 03/Dec/2015 às 19:15

    É o fundo do poço isso aí. Mais de cem tiros contra 5 jovens, mortos pra nada, por nada, porque são negros e só por isso...estudantes adolescentes lutando para que suas escolas não sejam fechadas, e levando "tiro, porrada e bomba"...pra piorar um cenário desse tem que fazer um esforço cavalar. É o fundo do poço sim. Acho improvável que piore....deve ser a "obra-prima" da PM isso aí...mesmo sendo uma instituição tão amoral, dessa vez eles se superaram e vai ser difícil fazer pior....mas alguns dirão que "é apenas mais um caso isolado, houve exageros, mas não vejo ninguem chorando quando morre um PM...salve a PM"....fora os canalhas de sempre pra desvirtuar a porra toda...."nhééé coisa boa esses pretinhos não estavam fazendo...alguns tem até passagem...5 a menos" ....... "nhééé tudo vagabundo que não quer estudar...baderneiros....se pedir pra mostrar a carteira de estudante não sobra um...tudo militante bolivariano tentando tumultuar...borrachada neles"...

    • poliana Postado em 03/Dec/2015 às 20:44

      esse caso do rio de janeiro foi grotesco, eduardo. eu n sei até qdo o estado irá ser conivente com essa barbaridade. o curioso é q a maioria das vítimas dos homicídios cometidos pela pm no brasil são negras. pq será, hein? mas há quem insista em dizer q não há racismo no brasil!!! CRUEL!!!

      • Thiago Teixeira Postado em 04/Dec/2015 às 07:24

        Poli, em São Paulo é muito pior, mas a mídia daqui abafa tudo, os repórteres são todos amiguinhos do policiais. Mês passado aqui em Sorocaba a polícia levou 4 jovens da periferia para um matagal e fuzilaram os 4 desarmados, a cidade inteira sabe disso, na TV passou que ouve troca de tiros com a polícia e que os mesmos estavam fortemente armados (mentira, nenhum deles tinha dinheiro para comprar aquelas armas ou se quer integravam alguma facção com poder financeiro para tê-las). E mais, a ancora golpista ainda falou que todos tinha passagem pela polícia, sendo que um deles por latrocínio e outro ladrão de carro forte (será?). Resumindo, a polícia fez um belo trabalho e são 4 bandidos a menos. No Rio, como o governo eleito não é do partido da Globo, a tendência é repercutir ao máximo qualquer atrocidade da PM, que sua vez não merece ficar impune desse atos logicamente.

      • Eduardo Ribeiro Postado em 04/Dec/2015 às 11:06

        Grotesco demais. Era pra se tornar algum tipo de marco contra as ações da PM, era pra milhões sairem pras ruas e botar pressão pra que algo de concreto seja feito. Dar um basta. Mas não foi um médico branco do Leblon que levou um facada e causou comoção nacional, foram apenas 5 pretinhos debaixo de uma rajada de mais de 100 tiros....coisa a toa, não pega nada. Voce sabe melhor que eu...a MÁQUINA DE MATAR PRETO E POBRE segue firme e forte. Isso aí foi apenas "um caso isolado".

      • Eduardo Ribeiro Postado em 04/Dec/2015 às 11:10

        http://3.bp.blogspot.com/-mLiD1bsA7ic/Vly3n9A-M3I/AAAAAAAABSQ/2E7BJ7qTH0k/s640/Screenshot_2015-11-30-01-35-56.png

      • poliana Postado em 04/Dec/2015 às 21:41

        nooossaaaa!!!! q fotos horrorosas, eduardo! e a policial ainda se orgulha do q fez!!!!! q absurdo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

      • Thiago Teixeira Postado em 05/Dec/2015 às 09:28

        É piada isso né Eduardo? Operação por um Rio mais limpo?!?! O Brasil tolera esses tipos de correntes na internet fascistas?

  3. Brunno Postado em 04/Dec/2015 às 07:49

    E o pior é que não temos uma visão otimista para uma possível mudança! Pelo contrário, cada vez mais 'militares' no congresso, legalização do porte de arma, apoio às intervenções. Horrível

  4. George Postado em 04/Dec/2015 às 08:33

    e a repercussão na mídia é "daquele" jeito. Se fosse no bairro do leblon tava cheio de câmeras da RGT mostrando reportagens e falando que "abalou a opinião pública"

  5. Juliana Postado em 04/Dec/2015 às 12:22

    Confesso que estou farta de ler este tipo notícia, é inacreditável, inaceitável, injustificável. Luto por estes jovens, luto pelas famílias e luto pelo Brasil.

  6. ALFREDO DE VITA Postado em 05/Dec/2015 às 11:46

    Voltamos ao molde da ditadura militar dos anos 1964.

  7. Carlos Postado em 05/Dec/2015 às 21:46

    A PM pode acabar na a violência dela é reflexo da sociedade em que vive, a outra polícia vai ser tão violenta quanto, ser policial no Brasil é para poucos. O numero de todos dados indica policiais que enfrentam criminosos com fuzis todos os dias, nem em guerra soldados passam por isso, somado as condições precárias que trabalham e a hipocrisia da esquerda que não mostra policiais mortos e trabalhadores em geral. Ou seja essa parcela hipócrita da sociedade está contra a polícia nada pode ser feito, se virem com a violência diária.