Redação Pragmatismo
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Terrorismo 17/Nov/2015 às 15:44
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De onde vem nossa fraternidade seletiva?

Por que a vida de um queniano vale menos que a de um francês? A culpa é dos meios de comunicação do Brasil? Da mídia internacional? Dos governantes do ocidente? Nossa compaixão seletiva precisa ser discutida

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Jovens protestam contra crime bárbaro em Garissa (Quênia) que deixou mais de 140 estudantes mortos. Motivação foi a mesma alegada nos atentados em Paris, mas não houve indignação mundial (Pragmatismo Político)

Armando Antenore, Revista Samuel

Imagine que, numa madrugada de quinta-feira, quatro radicais muçulmanos invadissem uma universidade dos Estados Unidos, da Alemanha ou da Inglaterra. Imagine que carregassem explosivos e armas automáticas. Imagine que seguissem para os dormitórios estudantis e perguntassem a religião de cada rapaz ou moça que encontrassem por lá. Imagine que, se o jovem respondesse “sou cristão”, os atiradores o matassem. Imagine que os insurgentes permanecessem no campus durante 16 horas e mantivessem centenas de reféns, entre alunos e professores. Imagine que, depois de a polícia e o Exército tomarem conta da situação, a horrorosa jornada terminasse com um saldo de 148 mortos.

Como o Ocidente — incluindo o Brasil, claro — enxergaria a carnificina? De que maneira nossos jornais, revistas, televisões, rádios e sites noticiosos relatariam o fato? Cobririam a tragédia em tempo real? Enviariam correspondentes para a cidade onde se deu a tenebrosa investida? Continuariam destacando o assunto por quanto tempo: dias, semanas, meses? O que os internautas comentariam nas redes sociais e com que frequência? O Facebook estimularia campanhas de apoio às vítimas? Os chefes de Estado se pronunciariam imediatamente? Em que tom? Falariam que o atentado maculou não apenas o campus, mas todas as sociedades que se proclamam civilizadas? O infortúnio viraria um marco, sempre mencionado por gerações futuras?

Infelizmente, o crime bárbaro aconteceu há sete meses em Garissa, no Quênia. A república africana — e negra — reúne 47,3 milhões de habitantes, mais ou menos a mesma população da Espanha. Como dispõe de praias, savanas, florestas, lagos, montanhas e desertos belíssimos, atrai um número considerável de visitantes (não à toa, converteu o turismo num dos pilares de sua economia, majoritariamente agrícola). Ocupa a 82ª posição no ranking do Fundo Monetário Internacional que compara o Produto Interno Bruto de 183 nações. Embora não se trate de um país miserável, está longe de figurar entre as potências e enfrenta dificuldades severas em diversas áreas: educação, saúde, infraestrutura, segurança. Mesmo assim, exibe uma classe média pujante, o que faz crescer os olhos de investidores estrangeiros. Politicamente, é uma democracia, mas disputas étnicas, corrupção e fraudes eleitorais costumam ameaçá-la.

Os terroristas que tomaram o campus, na fronteira com a Somália, integravam o Al-Shabaab, grupo somali ligado à Al-Qaeda e combatido pelo Quênia desde o fim de 2011. Consideravam a universidade “um território muçulmano”, que precisava se libertar “dos infiéis”. Daí a ação sanguinária. Os quatro extremistas acabaram assassinados durante o cerco policial. Entre os 148 mortos, contavam-se 142 estudantes.

Há 17 anos, o país da África Oriental sofre ataques jihadistas de imensas proporções. Por que, então, pouquíssimos de nós mencionam o Quênia quando esbravejam contra o terrorismo? Você tomou conhecimento do que se passou na universidade? Recordava-se do episódio? Eu tomei, mas só me lembrava vagamente daquele 2 de abril. E a descoberta de não o guardar vivo na memória me angustiou pela manhã, quando avistei uma fotografia dos alunos mortos em meio à enxurrada de informações que ando consumindo sobre os recentes e terríveis acontecimentos da França. “Como posso não lembrar?!”, indaguei-me, perplexo. O ato escabroso ocorreu no primeiro semestre de 2015 e dentro de uma universidade, território que sempre julguei sagrado, que sempre quis ver protegido da intolerância, da brutalidade e da desesperança.

Para o Ocidente, um campus não agrega simbolismos parecidos com os do Bataclan, casa de espetáculos parisiense onde o Estado Islâmico provocou dezenas de mortes? Não representa a liberdade, a promessa de diálogo e o apelo à convivência pacífica? Não abriga a alegria e o inconformismo juvenis? No entanto, apaguei da mente e do coração tudo o que se desenrolou em Garissa. Aliás, antes da matança, nunca ouvira falar da cidade e não retive o nome dela após a pavorosa quinta-feira. Assim que recebi as notícias do massacre, não me preocupei em aprender mais sobre o Quênia e não procurei os testemunhos de quenianos na internet (uma das línguas oficiais de lá é o inglês). Tampouco vasculhei a mídia local atrás de análises, opiniões e histórias de solidariedade ou heroísmo. Não observei direito o rosto dos garotos e garotas que morreram antes de deixarem os próprios quartos. Não cogitei pintar meu retrato no Facebook com o vermelho, o preto e o verde que tingem a bandeira da república africana — até porque Mark Zuckerberg não me ofereceu nenhuma ferramenta capaz de efetivar a metamorfose nem minha curiosidade se prontificou a checar quais as cores nacionais do país.

Agora, à medida que faço essas pesquisas tardias, sinto-me como se desbravasse Marte. Percebo que o Quênia é, para mim, tão distante quanto o planeta alaranjado. Garimpo inúmeras reportagens e artigos sobre a terra das girafas, dos rinocerontes e das zebras, mas não consigo avaliá-los, tamanho meu gap de referências. Devo confiar no que leio? O que me afirmam as fontes britânicas, norte-americanas, espanholas, portuguesas e mesmo quenianas merecem crédito? Não tenho ideia, já que estou me aventurando por aquelas bandas pela primeira vez.

Lógico que Paris me soa infinitamente mais familiar. A questão, porém, não é conhecer melhor a França. O problema é não conhecer nada do Quênia nem nutrir uma empatia avassaladora pelos que moram ali. Afinal, no Brasil, negros e pardos ainda constituem a maioria da população. Dizem os historiadores que parte deles se origina de escravos “moçambiques”, assim designados porque vinham justamente de Moçambique e arredores, uma região que hoje engloba a Tanzânia, o Malauí, a Zâmbia, a África do Sul, o Zimbábue e… o Quênia! A França, em muitos sentidos, é aqui. Mas o Quênia também não é? Estima-se que, no século 19, entre 18% e 27% dos africanos que habitavam o Rio de Janeiro pertenciam à linhagem dos “moçambiques”.

Eu poderia culpar os meios de comunicação brasileiros, a opinião pública internacional e os governantes ocidentais pela apatia com que encarei a chacina de Garissa. Praticamente todos, de um modo ou de outro, abordaram a selvageria, mas sem persistência e sem aquilo que Aristóteles chamava de “a justa indignação”. Seria cômodo lhes atribuir o ônus da minha fraternidade seletiva. Ocorre que já possuo cabelos brancos suficientes para admitir o óbvio: a compaixão — a minha, a de você, a de Zuckerberg, a de Barack Obama, a do Papa — não deveria nascer somente do jeito como a mídia e a geopolítica descrevem o mundo. Eu soube do que aconteceu com a meninada do Quênia. Nós soubemos. A notícia nos chegou logo depois de o inferno baixar naquela universidade. Entretanto, conscientemente ou não, preferi esquecê-la. E tal escolha, à luz de como reagimos diante das atrocidades em Paris, se tornou inesquecível.

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Comentários

  1. Luciano Postado em 17/Nov/2015 às 16:57

    Nenhum comentário, cadê o povo???

  2. Thiago Teixeira Postado em 17/Nov/2015 às 17:58

    Nada contra as vitimas do atendado, mas a Globo News ficou sábado e domingo o dia inteiro repercutindo este episódio, além de dois blocos do Fantástico. Parece proposital a repercussão exagerada de alguns povos e indiferença total aqueles que nos doutrinam desde sempre a serem menos que os europeus (Asiáticos pobres, africanos, filipinos, indianos, oriente médio e latino americanos). Quando no Brasil é a mesma coisa, jogue uma criança branca de um prédio e uma ribeirinha de um barco lá no Rio Amazonas e veja qual será notícia por semanas.

  3. Helder Postado em 17/Nov/2015 às 17:58

    Mas por que você fala do Kênia e não da Turquia, onde mais de cem morreram em uma passeata pela paz neste ano? E lá a maioria é de brancos. A questão é que esses países não fazem parte da cultura ocidental. Só isso. Não precisa dar uma volta ao mundo para tentar entender, ou achar que uma questão racial. ´E simples: se acontecer no Brasil, ninguém no jundo vai se importar também. Aqui morrem 60 mil por ano assassinados. O que são 100 a mais ou a menos? É assim o raciocínio. Ah, na Filipinas também uma bomba matou 200. E ninguém sequer se lembrou desse atentado....

    • Thiago Teixeira Postado em 18/Nov/2015 às 07:57

      Turquia teve repercussão sim senhor. Quanto ao Quênia (no qual escreveu propositalmente errado por indiferença ao pais negro) fiquei sabendo neste post.

      • eu daqui Postado em 19/Nov/2015 às 09:53

        Turquia e Líbano: muito menos repercussão sim. E libanes tende a se ainda mais branco do que turco........Se isso acontece, imagina se eu sabia do caso do Quenia.......

  4. gustavo0 Postado em 17/Nov/2015 às 19:20

    Grande escolha do tema, já não era sem tempo! Está sim na hora de refletirmos acerca deste assunto. De onde vem nossa fraternidade seletiva? Embora seja uma pergunta complexa, e que por definição não se contenta com uma resposta simples, eu acredito que posso iluminar um pouco a discussão. Na minha opinião, o fenômeno de compaixão seletiva ou empatia coletiva é gerado por vários fatores em cadeia. O primeiro e principal fator é a abordagem da imprensa, é a mídia quem decide o que irá ou não ser noticiado e o quão intensamente serão repercutidos os fatos. O segundo fator, a fama, a fama gera empatia, portanto em uma cidade tão famosa quanto Paris o peso aferido aos acontecimentos é infinitamente maior aos acontecimentos ocorridos em Garissa, no Quênia. Tudo o que representa a França, sua sociedade, seus valores, sua contribuição cultural e sua influência no mundo ocidental garantiram esse papel de destaque aos franceses. O terceiro fator é o efeito cascata, empatia por osmose, trocando em miúdos, é a consequência do bombardeio midiático, a repetição de um discurso e a ideia de um sentimento que devem ser assimilados, mesmo que de forma superficial e temporária. Portanto, nunca se trata do que ocorre, e sim, onde ocorre. Em tempo, embora triste a conclusão é que sim, uma vida na cidade luz vale muito mais do que na sua ou na minha cidade.

  5. clara Postado em 17/Nov/2015 às 22:37

    adorei o texto

  6. Mateus Postado em 18/Nov/2015 às 05:42

    Porque a vida de bandidos valem mais que trabalhadores no Brasil? Vamos passar a postar os nomes de pessoas mortas pelas " vítimas do capitalismo malvado" uns 80000 nomes por ano?

    • Thiago Teixeira Postado em 18/Nov/2015 às 07:53

      Certamente a palavra bandido vem em sua mente um neguinho com a arma na mão. E "trabalhadores" está implantado na sua cabeça oca o pai de família branco, vulgo homem do bem. Na minha, bandido é o "homem de bem" branco que não emprega ou dá oportunidade aos jovens da periferia, e trabalhadores são aqueles que deixam o bandido mais rico a cada dia com sua exploração.

      • eu daqui Postado em 19/Nov/2015 às 09:56

        Ah então o branco que só emrpega brancos é mais bandido do que o terrorista genocida. Então tá: fica com o terrorista - quem prefere merece.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 18/Nov/2015 às 10:42

      """"""""""aff....não se pode nem matar mais um pretinho da favela que esses safados dos direitos humanos já caem matando em cima...mas não vejo ninguem chorando quando matam um pm....a familia brasileira e os homens de bem ficam trancados em casa enquanto esses marginais estão a solta...e se as pessoas de bem se unem pra amarrar um desses pretinhos no poste e linchar, aí já viu né...."""""""""""""

      • Thiago Teixeira Postado em 18/Nov/2015 às 12:15

        Script mais manjado do que "andar pra frente" esse dos coxinhas. Produção em série!

  7. Alfa Postado em 18/Nov/2015 às 13:11

    É. Eu me lembro de que, na época, fiquei bastante triste com o que aconteceu no Quênia e senti o horror do EI tanto quanto agora. Mas não sei se é apenas questão de indignação ou "fraternidade" seletivas a repercussão dos acontecimentos na França. Muito menos é questão de racismo. O que aconteceu na França tem mais potencial de reestruturar a questão do EI, é um acontecimento histórico mais relevante, pelo simples fato de que a França é mais poderosa que o Quênia deverá reagir - como já fez. Mais que indignados, as notícias, as análises etc podem nos deixar preocupados, e são importantes porque pode haver desdobramentos mais profundos. Criticar jovens que botam bandeira da França no Facebook pode ser uma maneira de chamar a atenção para alguma indignação seletiva - embora a indignação de agora também seja justa (injusto é não se indignar com o que ocorreu no Quênia); mas a cobertura da mídia, a pesquisa sobre o ocorrido, os desdobramentos... estas coisas têm outros motivos mais profundos.

    • Carlos Postado em 18/Nov/2015 às 22:47

      Já e um comentário com sentido, sobre os pretinhos das favelas tidos como bandidos, boa parte dos terroristas eram ricos ou seja argumento coitadista invalido.

      • eu daqui Postado em 19/Nov/2015 às 09:58

        No brasil muitos pretinhos das favelas são bandidos sim. Como niguém nasce bandido, há que se assumie essa realidade pra então resolvê-la atacando as causas. Coidadismo e escapismo é negar essa realidade e ficar mascarando sintomas.

    • Carlos Postado em 18/Nov/2015 às 22:50

      Quando os coxinhas retomarem a america latina, lembre-se que a segurança e a criminalidade é o que elege a direita, pois o povo morre todo dia e são chamados de " opressores" e por ai vai pela esquerda.

    • Carlos Postado em 18/Nov/2015 às 22:50

      Quando os coxinhas retomarem a america latina, lembre-se que a segurança e a criminalidade é o que elege a direita, pois o povo morre todo dia e são chamados de " opressores" e por ai vai pela esquerda.

  8. sidney Postado em 19/Nov/2015 às 16:51

    Bravo! Boa reflexão sobre a realidade do "Terror" nessa porcaria chamada "democracia midiatica terrorista do ocidente". TE RESPONDEREI CURTO E GROSSO. "TERRORISMO" SÓ EXISTE QUANDO É PARA OS RICOS OCIDENTAIS, PARA O RESTO É SÓ MAIS UMA NOTICIA MEDICORE.