Redação Pragmatismo
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Corrupção 28/Aug/2015 às 16:41
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Corrupção: os 4 erros mais comuns nas interpretações dos “escândalos”

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por Jean Wyllys*

Existem quatro erros comuns que se repetem cada vez que um caso de corrupção vem à tona e se transforma no “escândalo”, sobre os quais precisamos refletir:

1) O problema da corrupção não são os casos individuais, porém, cada vez que um caso de corrupção estoura na mídia, é tratado como se fosse um caso isolado. Assistimos, então, à construção de um “vilão”, sobre o qual recai a culpa por algo que não é mais do que um sintoma de um problema sistêmico. Nenhum partido (nem o PSOL) está isento de ter, em suas fileiras, um corrupto. Se o problema fosse apenas existirem pessoas corruptas, não seria tão grave: a solução seria apenas identificar e expulsá-las. Mas sabemos que o problema não é esse.

A corrupção é um componente inevitável de um sistema de governo em que as campanhas são financiadas por bancos, empreiteiras, empresários do agronegócio, igrejas fundamentalistas milionárias e todo tipo de lobistas; a governabilidade se garante comprando votos no Congresso (e o “mensalão”, seja petista ou tucano, não é a única maneira de se fazer isso; existem formas indiretas, como a distribuição, entre partidos aliados, de ministérios e órgãos públicos em função não do mérito, mas do orçamento) e governantes e parlamentares se preocupam mais em agradar empresários e corporações do que em manter o espírito republicano.

2) O problema da corrupção não é só moral. O “udenismo” costuma dominar o debate sobre a corrupção, e tudo é reduzido a desvios éticos individuais. A corrupção é também um problema econômico (porque são bilhões de reais que “somem” do orçamento da União, dos estados e dos municípios) e, sobretudo, um problema POLÍTICO. Não é por acaso que o PT, que antigamente era visto como o partido da ética, passou a se envolver cada vez mais casos de corrupção desde que chegou aos governos.

A corrupção acompanhou a aliança com o poder financeiro e o agronegócio; veio junto com submissão ao fundamentalismo religioso e com os acordos cada vez mais escandalosos com pilantras disfarçados de pastores que dominam o Congresso; acompanhou o uso da repressão contra o povo nas ruas e a adoção do discurso da “segurança nacional” que, no passado, foi usado para reprimir aqueles que hoje estão no governo. Ou seja, o que houve não foi uma degradação moral, mas uma renúncia ideológica e programática.

E, por isso, a grana e os privilégios do poder substituíram, em muitos petistas (não em todos nem mesmo na maioria militante!), as convicções e a vontade de mudar o mundo como razão para se engajar na política. Então, se realmente quisermos acabar com a corrupção, o primeiro passo é voltar a dotar a política de sentido e conteúdo, para que mais gente entre nela desejando mudar o mundo e não ficar rico.

3) O problema da corrupção não é apenas a violação das normas, mas o fato de ela muitas vezes ser as próprias normas. Um bom exemplo disso é o financiamento de campanhas, que está sendo julgado pelo STF: se um candidato faz uma campanha milionária financiada por empreiteiras e empresários do transporte e, já eleito, tem que decidir entre aumentar ou não a passagem de ônibus ou tem de escolher entre os direitos dos moradores e os interesses de uma empresa cujo projeto imobiliário implica em removê-los, qual será mesmo a escolha dele? Se um senador teve sua campanha financiada pelo agronegócio, vai votar a favor de que tipo de Código Florestal?

Sendo assim, esse sistema eleitoral, que leva à formação de mega-coligações para garantir a governabilidade, não pode prescindir da corrupção. Ou vocês acham que o partido do sistema, que já foi aliado de petistas e tucanos, vai votar as leis porque lhe parecem boas se não tiver mais dois ministérios em troca? Tem inúmeras condições estruturais que favorecem ou até impõem a corrupção como combustível necessário para o funcionamento do sistema. Por isso, de nada adianta fazer, da corrupção, um problema apenas moral se não fizermos mudanças estruturais; se não mudarmos as regras do jogo.

4) A corrupção não é o único nem o mais importante problema da política. Vamos supor, por um instante, que fulano, candidato a presidente, governador ou prefeito, é uma pessoa comprovadamente honesta, no sentido mais restrito do termo: jamais usaria do cargo para se beneficiar ou beneficiar amigos e familiares; jamais enriqueceria com dinheiro público; jamais roubaria ou seria cúmplice ou partícipe de um roubo. Contudo, esse mesmo fulano defende uma política econômica que prejudica os trabalhadores; é fundamentalista, racista, homofóbico, tem ideias ultrapassadas sobre as relações humanas; é autoritário, personalista e etc. logo, a honestidade dever ser um dos requisitos para se escolher um político, mas não podemos nos esquecer de que o mais importante é a política que ele faz ou propõe: as ideias, o programa, a visão de mundo, os interesses em jogo.

Colocar a corrupção, como já dissemos, como um problema moral, exclusivamente individual, identificado apenas com um determinado setor político e, ao mesmo tempo, despolitizado no sentido mais amplo, é também uma forma de esconder os verdadeiros debates de que o país precisa, como se todos os nossos problemas se reduzissem a três ou quatro escândalos convenientemente destacados nas manchetes.

*Jean Wyllys é professor universitário e deputado federal pelo PSOL

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Comentários

  1. Wellington Postado em 28/Aug/2015 às 20:22

    3 problemas da corrupção:Moral,Político e Econômico. Mas no Brasil o que estamos vendo atualmente é o problema político e moral.O problema político decorrido do aparelho burocrático do Brasil já o problema moral decorrido do afastamento da pessoa política dos seus valores éticos e morais quando entra na Política e substitui pelas atitudes maquiavélicas cujo fim é a preservação do poder e acaba usando todos os meios possíveis para manter-se no poder e a corrupção acaba sendo este meio.

  2. Rodrigo Postado em 28/Aug/2015 às 20:42

    Fico muito impressionado com o Wyllys. Nunca achava que alguém que se sujeitaria a ser BBB pudesse ser tão eloquente. Fico muito feliz por ter me enganado. Parabéns.

    • Marquinho Postado em 29/Aug/2015 às 03:40

      Tirou as palavras de minha boca.

  3. Jurgen Postado em 29/Aug/2015 às 12:36

    Texto mto lúcido, parabéns wyllys.

  4. ALGOPI Postado em 29/Aug/2015 às 22:21

    Excelente texto, Jean Wlillys. Muito bem colocadas as questões. Eu morro de rir quando vejo os indignados com a corrupção: 1) dos ultimos 12 anos, 2) do PT 3) dos outros. Os indignados praticam os mais diversos atos de corrupção mas fazem sua catarse ao declarar em alto e bom som que que são contra os politicos corruptos. Morro de rir porque eles querem enganar principalmente a si mesmos. E, é claro,qualquer texto, que se aprofunde e questione os lugares-comuns da midia burra, é considerado capcioso. Muito engraçado. Mas se ainda não encontrei ninguém que defenda a corrupção publicamente, pelo menos encontrei alguém que pensa inteligentemente sobre esse cancer alma nacional.

  5. wladimir teixeira Postado em 30/Aug/2015 às 12:16

    Parabéns Jean Willis , mas o problema real da corrupção é a Hipocrisia . Os que gritam contra corrupção o fazem porque queriam estar no lugar dos corruptos; porém impunes, já que são eles que controlam "o sistema" .

  6. gloria Postado em 30/Aug/2015 às 16:46

    Excelente texto, Jean Wlillys. Isso explica todo o ranso que alguns fundamentalis tem em relação a sua pessoa, pois vc é uma pedra no sapato deles.

  7. Pedro Accioli Postado em 31/Aug/2015 às 09:00

    Podem falar mal do Jean Wyllys, mas atualmente ele é o melhor de todos os parlamentares deste país! Ele falou tudo neste texto!

  8. Eduardo Ribeiro Postado em 31/Aug/2015 às 10:49

    Belo texto de JW. Mais que um chute na boca dos revoltados seletivos - indignados com a corrupção do PT, e fecham os olhos quando é conveniente - , ou dos revoltados de 12 anos ou menos - que dormem na aula de história e acham que a corrupção é um troço aí que foi inventado pelo PT - , mais que isso, é um chute na boca desses analfabetos políticos que insistem nesse suposto "combate a corrupção", a qual, usando as sábias palavras do JW, é meramente "um “vilão”, sobre o qual recai a culpa por algo que não é mais do que um sintoma de um problema sistêmico". Ou seja: JW desenhou pros analfabetos. "Combater corrupção" é um furo n'agua, meninotes...e como ideal moral, é algo completamente abstrato, porque é lutar contra um inimigo sem cara, sem corpo, sem dono, completamente amorfo, e portanto, inatingível...corrupção é componente fundamental de algo muito maior, é base sustentadora, é parte indissociavel do sistema capitalista..o combate a corrupção sob a ótica "moral", como proposto pelos nossos reacinhas analfabetos, é algo que atende somente a direita canalha, a burguesia que se reagrupa sob o mote do "ui ui combate a corrupção". JW gabaritou de novo.

  9. Juliana Postado em 31/Aug/2015 às 16:47

    Sempre lúcido e coerente em seus artigos. Passei a admirá-lo quando comecei a ler seus textos. Parabéns Jean! De fato, a questão é estrutural. Mas, como esta estrutura corrupta consolida o poder das elites e boa parte da população é dotada do mais profundo analfabetismo político, vejo poucas possibilidades de mudança a curto e médio prazo.

  10. Luiz Mello Postado em 09/Sep/2015 às 14:22

    Ótimo texto do deputado Jean Wyllys. De uma lucidez rara, infelizmente muito rara no atual debate (?) brasileiro. Minha única ressalva, bem pequena, seria quanto ao uso de aspas ao redor da palavra "escândalos". Aspas que, diga-se de passagem, nem sei se compõem a intenção original do autor. Mas que, de todo modo, considero desnecessárias, uma vez que os escândalos são escândalos sim, sem tirar nem pôr.