Redação Pragmatismo
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Aborto 13/Jun/2015 às 19:09
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Uma evangélica a favor da legalização do aborto

"O meu Deus é o que ama e honra as mulheres. Não o que as subestima ou tenta domá-las. Esses são os religiosos, que não merecem a minha fé, voto ou apoio". Jornalista evangélica que não concorda com a bancada religiosa do Congresso explica por que é favorável à legalização do aborto no Brasil

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Talita Ribeiro, Brasil Post

Não comente antes de ler. Este é o meu primeiro pedido, porque sei que muitos terão vontade de fazer isso após verem o título desse post. Mas, por favor, tente aguentar só um pouquinho a necessidade de impor a sua opinião e sua “moral” antes de entender o que o outro, nesse caso eu, pensa. Sei que com esse texto estou abrindo um imenso teto de vidro para pedras que virão de variados lados, porém, acho importante lançar este debate no meio das mulheres cristãs.

Eu não sou a favor do aborto, mas sou a favor da legalização dele até o início do terceiro mês de gravidez, para que mulheres não continuem morrendo após a intervenção em clínicas clandestinas e em condições precárias, para que mulheres não continuem sendo marginalizadas após um ato de escolha sobre o seu corpo, com base nas suas crenças e realidade. Sou absolutamente contra a imposição da minha fé e meus preceitos morais a todxs.

Se Deus, que é Deus, deu livre arbítrio aos seres humanos, por que eu, que sou apenas uma “pessoa”, defenderia intervenções legais que limitam e, muitas vezes, condenam mulheres à morte e a complicações psicológicas e de saúde? Com base na minha fé eu faço as minhas escolhas e espero que todos tenham esse direito. Porém, sei bem que como sociedade temos que viver de acordo com algumas regras, baseadas em algo comum a todos, como a racionalidade, por isso a observação sobre a legalização até a 8ª semana de gestação, quando o embrião é o que eu chamo de “possibilidade de vida”, não um “ser vivo”, já que ainda não tem atividade cerebral.

Segura o dedo antes de me xingar! Quando uma pessoa deixa de ter atividade cerebral nós a consideramos morta, não é? É morte cerebral e ninguém discute isso. Por que eu deveria tratar um embrião – ele ainda não é nem um feto -, como um ser humano vivo, se ele não tem sinapse e é apenas uma possibilidade de vida, que depende 100% do corpo da mulher para se desenvolver? Um embrião não se desenvolve se a mulher que o carrega não estiver… Viva. Quem nós devemos proteger, então?

Sempre quando leio “a favor da vida”, fico pensando porque quem consegue ver vida até em um embrião não consegue enxergar o óbvio, a vida da mulher que o carrega, mesmo sem querer. “Mas ela deveria ter evitado.” Você sabe em que contexto esse embrião foi gerado? Em uma cultura em que a mulher é “sempre culpada”, não é de se estranhar que ninguém se dê ao trabalho de olhar de forma mais ampla a questão do aborto e da sexualidade no Brasil e no mundo.

A violência sexual contra mulheres ainda é um tabu para boa parte da nossa sociedade, que prefere dizer que nós “provocamos”, “procuramos”, “não evitamos”… A encarar que NADA justifica um estupro. “Ah, mas nesse caso a mulher já pode abortar.” Pode mesmo? Mas só se ela assumir que foi estuprada e estender a humilhação de ter sido violentada por delegacias machistas, juizados de um estado que finge ser laico, hospitais superlotados, médicos que não querem realizar a intervenção, os vizinhos que “desconfiam”, religiosos que a condenam…? E só se der a “sorte” de morar em uma cidade com centros de referência, não é?

É injusto. É violento. É desumano. E se eu sou cristã e a bíblia diz que nós vivemos através da compaixão, da misericórdia e do perdão que compartilhamos, não posso aceitar isso. E mais, não posso apoiar que o Estado intervenha nas decisões de uma mulher com base nas minhas crenças. Porque, como o Pr. Ed René Kivitz colocou em uma entrevista, “se quiserem construir uma sociedade que apedreja e condena pecadores, nós vamos apedrejar uns aos outros e o último apedrejará a si mesmo e morrerá. Não se constrói uma sociedade que discute pecado e penaliza o pecado. Não se deve julgar, mas discernir o que é certo, o que eu quero ou não pra minha vida, e respeitar e acolher o outro que escolhe diferente”.

É disso que estou falando, do direito do outro fazer inclusive o que eu acho errado. Até porque faço várias coisas que são condenáveis em outras religiões e, sendo sincera, na minha também. E ficaria muito incomodada se o estado quisesse tomar o lugar de Deus e me julgar por esses atos ou impor como devo ou não me relacionar com o meu corpo. “Mas isso é só a sua opinião contra a bíblia”, não, isso é só a minha opinião com base na história de Jesus que é contada na bíblia. Duvida? Então leia a passagem João 8, do versículo 1 ao 11.

O meu Deus é o que não deixa uma mulher ser apedrejada em praça pública, que levanta uma juíza como Débora para libertar seu povo, que escolhe uma prostituta para andar ao seu lado, que cura uma mulher que todos evitavam, que ressuscita/sara uma menina considerada morta, que ama e honra as mulheres. Não o que as subestima ou tenta domá-las, esses são os religiosos, que não merecem a minha fé, voto ou apoio.

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Comentários

  1. Luís Postado em 13/Jun/2015 às 19:13

    Sou contra o aborto mas venho pensando em mudar essa posição, não por toda essa baboseira "mimimi direitos reprodutivos da muher mimimi" mas após ler o livro Freakonomics, que mostra que o aborto pode ter contribuído para reduzir drasticamente a criminalidade nos EUA.

    • Lopes Postado em 13/Jun/2015 às 21:03

      Nunca tinha pensado nessa ótica! Mas, mesmo que contribua para a redução da criminalidade, continuarei a ser contra pois sou contra a pena de morte.

  2. Mary Postado em 15/Jun/2015 às 10:01

    Faço minhas as suas palavras talita, sou contra o aborto e sou contra a pena de morte, mas a ciência prova que até aos 3 meses não existe vida cerebral, e muito mi mi mi e pouca ação, com a legalização o poder público saberá quem são as mulheres que fazem do aborto um vício, podendo tratar física e psicologicamente essas mulheres e conseqüentemente diminuíndo a quantidade de abortos. Excelente matéria.

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 15/Jun/2015 às 10:27

    """""não posso apoiar que o Estado intervenha nas decisões de uma mulher com base nas minhas crenças.""""" .....Mas que tapa na cara foi esse? É de uma lógica tão simples e contundente, que não há o que se argumentar contra isso. É uma paulada na nuca dos moralistas de plantão, e vindo de onde menos se esperaria. Eu não sei como esses que são contra a legalização conseguirão encarar a vida cientes de que existe um gabarito tão simples, curto e efetivo. Nem desenhando fica mais elucidativo do que essa frase: """""não posso apoiar que o Estado intervenha nas decisões de uma mulher com base nas minhas crenças.""""". Agora parem de passar vergonha, deixem de ser moralistas retrógrados, parem de emperrar uma pauta necessária como essa, e comecem a encarar o aborto do jeito que ele é: não como uma questão religiosa, mas como uma questão de SAÚDE PÚBLICA cuja única solução é a legalização.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 15/Jun/2015 às 10:49

      Poxa...o primeiro indignado já se manifestou. Diga aí, essa bela e inteligente moça "traiu o movimento" sendo racional e dizendo coisas tão óbvias? É uma embusteira? Poxa...eu nunca vi alguém tão revoltado diante de uma frase tão curta e tão ululantemente óbvia. """""não posso apoiar que o Estado intervenha nas decisões de uma mulher com base nas minhas crenças."""""........será que limitar-se a dizer o truísmo mais óbvio dentro de um mar de obviedades ululantes faz de um religioso menos religioso? Que curioso...

    • Eduardo Ribeiro Postado em 15/Jun/2015 às 14:19

      Negar que o componente religioso é o maior entrave, mas o maior DE LONGE, para a legalização do aborto é de um descaramento que não se mede. Mais estranho que isso é falar de "essência humana".....por que falas de essência humana, menino? Essência humana você vê até num espermatozóide isolado, o que dirá num aglomerado de células de 2 ou 3 semanas...isso é o componente religioso falando e reverberando, "esse aglomerado amorfo de células é um ser humano, é vida"....meu problema é que mulher com grana aborta, e mulher pobre morre. Mulher pobre sim, é vida humana, é essência humana. E manter do jeito que está é apenas uma forma de oficializar genocídio de pobre.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 15/Jun/2015 às 14:23

      E não fique tão irritadiço tentando desqualificar uma evangélica que usa a racionalidade e que não permite que sua própria fé crie obstáculos no seu julgamento de coisas que deveriam ser direitos desde muito tempo atrás. Ela é evangélica e sabe que legalizar o aborto é conceder as mulheres um direito que elas já deveriam possuir e salvar a vida de muitas que já estão fazendo sem condições. Desqualifica-la enquanto evangélica não muda o fato de que ela disse uma verdade curta, grossa e matadora. """""não posso apoiar que o Estado intervenha nas decisões de uma mulher com base nas minhas crenças."""""

  4. Line Postado em 24/Jun/2015 às 09:07

    Essa evangélica desse sofrer muito no meio religioso em que ela vive por essa opinião.