Redação Pragmatismo
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Racismo não 13/May/2015 às 15:35
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Racismo na infância: o dia em que minha mãe mudou minha vida!

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M.ª Tatiane Pereira de Souza*, Pragmatismo Político

Não escolhi estar na educação à toa, trabalhar a favor da diversidade e da equidade social e racial na escola foi uma escolha intencional e política, cuidadosamente educada e instruída pelos livros, mas sobretudo pelo exemplo e militância da minha mãe Maria Abadia Ferreira da Costa.

Minha maior motivação dentre várias, foi perceber que a escola era para mim e é para outras crianças negras, um ambiente hostil que em muitos momentos por meio dos alunos, funcionários e professores impõe o racismo, a discriminação e o preconceito as milhares de crianças que ali se instruem, seja no âmbito da escola pública e/ou das escolas particulares.

Durante minha infância, passei por longos períodos e cotidianamente por preconceito e discriminação, tudo me colocava em desvantagem, até nos momentos em que eu tirava boas notas estava em desvantagem. A professora ou o professor inventava desculpas para justificar pejorativamente “a moreninha que fugia a regra”, e que por ser inteligente tinha alma branca. As várias experiências que tive na escola me conduziam a diversos questionamentos sobre minha existência e o porquê que tudo isto acontecia.

Sempre me vinha a cabeça as seguintes indagações: – “Mas se as pessoas da minha sala são da cor branca e eu da cor preta, fica mais fácil da professora me ver, e porque a professora não me vê e não me escuta quando eu falo? Nossa sou tão preta desse jeito e mesmo assim essa professora não me vê? Por que ela sempre me confunde com outras negras, somos diferentes, eu uso tranças, minha amiga alisa o cabelo”. Eu era invisível dentro da sala de aula, principalmente nas situações de violência simbólica quando me submetiam a invisibilidade na minha própria identidade e pertencimento. Por outro lado, em muitos momentos me tornavam visível para as chacotas e piadas que buscavam desqualificar meu fenótipo, meus cabelos trançados, minha roupa colorida, meus traços culturais que serviam para as brincadeiras de mal gosto e rejeição.

Até que um dia eu passei por humilhação muito grande diante de todos os colegas de sala. Fiz um exercício na lousa e acertei, mas a professora não havia acreditado que eu sabia de fato fazer, foi até minha carteira pegou minha folha com todos os exercícios, rasgou minha folha e a jogou no lixo, argumentando que eu tinha errado três tópicos de equação e por isso eu não era inteligente para matemática. Detalhe, a folha que ela rasgou continha de 15 tópicos equação, e eu havia errado somente 3 dos exercícios.

Cheguei em casa aos prantos e contei para minha mãe. Na época, eu tinha 12 anos. Foi neste dia que minha mãe mudou minha vida, contei a ela tudo o que havia me acontecido naqueles meses na escola, justificando que não havia contado nada antes porque achava que poderia superar, mas que não aguentava mais a dor que a situação havia me causado, além dos xingamentos que passei a escutar na perua ao voltar para casa. Após me escutar minha mãe chorou comigo e dizendo que a consciência é algo que devemos exercitar. Assim sendo, penso que ela exercitou sua consciência, pois em dois dias minha mãe mobilizou familiares e outros mães de alunos negros que se reuniram na escola para conversar com o diretor. Lembro dessa passagem e me emociono, porque em dois dias minha mãe estava com uma carta do então juiz da infância de São José de Rio Preto, que exigia retratação por parte da escola, do diretor e da professora. Naquele dia fui iniciada pela minha mãe no movimento negro e no movimento de mulheres negras. Minha maior lição foi aprender que não podemos ficar calados mediante uma injustiça, aprendi isso na prática, exercitando a justiça tal como diz a frase de Desmond Tutu: “Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”.

Assim, naquele dia, a escola foi obrigada a ministrar palestras sobre a cultura e a história dos africanos e seus descendentes no Brasil e na África. A solicitação das mães negras em sua maioria e a demanda do movimento negro local foi obrigatoriamente atendida, pude ver minha mãe e outras mães falando sobre a importância da cultura negra para o desenvolvimento do país e de como nossos antepassados sofreram neste lugar.

Diante desse fato é que passei a entender melhor as atuações e ações do movimento negro. Sempre acompanhei minha mãe, mas não entendia muito bem, depois dessa situação em sala de aula fui me atentando para o que era ser negra, para além da cor da pele. E aos 15 anos comecei a atuar politicamente como jovem-mulher-negra, na esfera da consciência, do refletir, do agir, do posicionamento político, participando ativamente dos movimentos sociais: da juventude estudantil, da juventude negra, de mulheres, mulheres negras, dos movimentos da cultura negra que sempre me envolviam para militar. E nesses contextos minha mãe continuou mudando minha vida, pois ela sempre nos acompanhava nas atividades e participava das discussões. Até hoje ela é ativa em nossas vidas e nos ensina pelo exemplo do que é ser mulher, mãe e negra.

Esse é meu relato em agradecimento a minha Rainha Mãe Bá, pelo despertar da nossa consciência, pelos ensinamentos aprendidos com a vida, com as mais velhas da família, pela educação transmitida por meio da fé, pela disposição em ensinar com amor, paciência e dedicação. Ofereço esse agradecimento para as mulheres de minha família! Dedico esse texto para todas as mães que deixam fluir a força dos nossos ancestrais! Ubuntu!

*M.ª Tatiane Pereira de Souza é pedagoga, mestre em Educação pela UFSCar, doutoranda em Ciências Sociais pela UNESP e colaborou para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. Auricéa Postado em 14/May/2015 às 09:15

    Todos nós considerados diferentes dos padrões, sofríamos na escola...

    • maria Postado em 14/May/2015 às 10:03

      Eu morei no Pará na infãncia e sofri muito preconceito por ser branca, era chamada de bicho de côco, lagarta descascada, galinha de granja, vovozinha pois tinha cabelos brancos, tudo isso com a conivencia da professora que me humilhava diante de qualquer atividade que errava, um dia na volta da escola todos tinham que voltar juntos em companhia da professora pois passava por um pedaço de mata até chegar na agrovila onde moravamos, neste dia não me lembro o motivo só sei que todos iam mexendo comigo me cutucando com varas jogando folhas secas e terra na minha cabeça etc e a professora fingindo que não via, foi aí que apareceu um anjo negro como a noite que era a moça que ajudava minha mãe em casa a Ritinha, ela tinha só 16 anos e não sabia sequer ler minha mãe que ensiva ela, essa menina mandou todos pararem com aquilo e falou tanta coisa pra professora, nem me lembro direito só sei que ela falou que meus pais eram pessoas boas que minha mãe era uma das melhores pessoas que ela conhecia e que Deus não escolhe as pessoas pela cor da pele, minha mãe nunca soube o acontecido mas a partir desse dia passei a ter amigas na escola e numca mais usei chapeu de burra no canto da sala, também foi depois disso que passei a reparar na diferença da cor de pele, repudio todo tipo de preconceito, sou casada a 27 anos com maria moreno filho de uma negra, mas passei muito tempo tendo vergonha de ser tão branquela. Não importa a cor da pele onde vc é minoria o preconceito existe aqui onde moro vejo isso contra os bolivianos que moram na vizinhança!

    • eu daqui Postado em 14/May/2015 às 12:20

      Eu sofri pouco pq a zoação era lisonjeira: por ter eu um dos melhores boletins da escola. Meu irmão sofreu mais do que eu por ser louro e baixo para o padrao, mas por pouco tempo pq logo logo comecei a distribuir pancada nos zoadores dele. E é claro que a diretoria estava sempre do lado da aluna cdf.

    • Felipe Postado em 14/May/2015 às 16:42

      Auricéa, todos sofremos, na escola, na rua, na vida.. nao se trata disso o texto.. O tema em questão é racismo... entende a diferença???

      • Ernani Postado em 15/May/2015 às 13:46

        Pois é Felipe, acho que essa turma só entende se estiver desenhado, e olhe lá. Querer comparar gozação por ser branquela com racismo é dose. Dá vontade de perguntar se essa gente imbecil algum dia já foi ofendida em restaurante, em ônibus, em supermercado, escola, metrô, se já foi preterida em emprego, estágio e concurso porque era canhoto, tinha espinha, tinha sardas ou verruga na cara. O prazer de ler a reportagem é logo diminuído ao se ler os comentários. Que classe média terrível essa que habita nosso país. Não basta quererem justificar o injustificável. Querem ainda listar exemplos ridículos e bostas a fim de desqualificar e diminuir a gravidade que é julgar e comprometer o futuro de pessoas com base na cor da pele.

    • Daniel Duarte Postado em 14/May/2015 às 20:29

      Que raio de padrão é este moça? Eu até entendo de quias padrões você fala, o que é absolutamente animalesco e perverso. Se tais injúrias partem de crianças agente entende, agora partindo de mestres e educadores, me faça uma garapa.

  2. vilmar Postado em 14/May/2015 às 10:05

    querem e se os opressores não fossem ladrões e covardes, estes direitos já estaria em mãos dos oprimidos e tal vês não fosse preciso estar comentando o assunto hoje...!

    • Élica Postado em 14/May/2015 às 13:18

      Direitos que os brancos sempre tiveram! Sou branca, à favor de TODAS as cotas para negros. Poderíamos pagar a dívida desses direitos de outra forma... trabalharíamos para negros sem receber nada, diríamos aos brancos que a sua cor, cabelo, traços físicos são feios, por 300 anos!

      • Felipe Postado em 14/May/2015 às 16:37

        Élica... isso ai... tb suo branco, e homem ainda por cima.. mais beneficiado que voce... sou a favor de todas as cotas para negros...

      • eu daqui Postado em 15/May/2015 às 10:13

        Aposto que ainda assim brancos teriam a autoestima melhor do que a do negros ao final desses 300 anos..........autoestima não vem do sistema........é algo de dentro pra fora.........por isso muitos não tem, pq ficam esperando vir do outro.

        • eu daqui Postado em 15/May/2015 às 12:33

          O post acima é resposta a Elica.

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 14/May/2015 às 10:30

    poxa...quantos racistinhas discipulos de Ali Kamel bostejando por aqui...impressionante..

    • eu daqui Postado em 14/May/2015 às 12:22

      Relatar a prórpia experiencia de bullying é bostejar somente pra um fracassado por merecimento que nem uma experiencia de bostejação tem pra contar.

      • José Ferreira Postado em 14/May/2015 às 14:26

        Concordo com a "eu daqui".

      • Eduardo Ribeiro Postado em 14/May/2015 às 15:37

        Eu gostaria de pedir desculpas por zombar do bullying que você e seu irmão sofreram por serem...err...brancos e loiros. Loirofobia deve ser um negócio ainda mais terrível, degradante, avassalador do que a Brancofobia. Não posso imaginar o quanto vocês sofreram. Faz todo sentido do mundo você fazer esse relato - cruel - exatamente aqui, nessa matéria, que fala sobre o racismo secular no Brasil, institucionalizado, contra negros. Eu como branco, inclusive, deveria ser mais sensível a sua causa, e por esse erro também quero me desculpar.

      • Felipe Postado em 14/May/2015 às 16:34

        Eduardo Ribeiro. Vc está corretíssimo.... é inconveniencia ou falta de compreensao falar sobre bullyng num topico que fala sobre racismo.. a tonica aqui nao é bullyng, ou sofrimento por ser diferente... a tonica é racismo... nao podem comparar bullyng com racismo... sao desproporcionais....

      • eu daqui Postado em 15/May/2015 às 10:10

        Vá estudar pra aprender a ler e interpretar, cotista. Onde está postado aqui que sou loira de olhos claros, cota coitadista sem esforço nem mérito? Vc deve ser desses que frequenta instituições de ensino pra zoar dos bons alunos aos quais vc não consegue se igualar nem ao cocô

      • Eduardo Ribeiro Postado em 15/May/2015 às 16:38

        Recapitulando: alem de sofrer brancofobia e loirofobia junto com o irmão - um bullying terrível, quase não consigo terminar de escrever de tão emocionado e com as mãos trêmulas que fiquei com seu relato - , és contra as cotas e defensora da "meritocracia"? Que bacana.

      • JULIANA C Postado em 17/May/2015 às 00:36

        Pobrezinha da moça que sofreu racismo (?!?) por ser branca e loira. Sou solidária ao seu sofrimento, afinal, ninguém merece ser alvo de nenhuma espécie de violência. Mas é curioso ver alguém que sofreu na pele esse tipo de coisa (?!?) vir falar sobre COTISTAS e meritocracia. Parabéns, contradição ambulante

      • eu daqui Postado em 18/May/2015 às 14:06

        Cada vez mais analfabeto: agora além de entender do meu post que sou loira, entende também que sou meritocrata. Onde foi que escrevi isso, cavalgadura cotista?

  4. thays Postado em 14/May/2015 às 14:35

    Não foi no teu lombo que deram chibatas né? Seu imbecil....

  5. gidele Postado em 14/May/2015 às 14:38

    O Dr. Ben Carson, autor de "Sonhe Alto" e "Ben Carson" publicados pela CPB . Adquira os livros em nossa loja virtual www.cpb.com.br é uma história de total superação do racismo!

  6. Alex Sandro Postado em 14/May/2015 às 14:43

    Direitos extras? de onde saem tantos ignorantes assim? Ela não é "tadinha", é uma mulher, negra e muito corajosa, envolvida na luta pelo reconhecimento pleno de seus direitos. Não existem direitos "extras" seu animal, o que existe são privilégios, e o movimento pelo qual ela atua reivindica o fim deles, pois enquanto os tais direitos não forem para todos, continuarão sendo privilégios!

  7. LELCO Postado em 16/May/2015 às 00:30

    O racismo no Brasil ainda é negado por essa raça branca imunda e covarde, que não tem coragem de assumir o próprio preconceito, pois são medrosos demais para admitir isso.

  8. Luiz Postado em 18/May/2015 às 16:11

    O Pragmatismo! ô Pragmatismo! Os comentários do racista José Ferreira sempre aprovado! Qual é? Os meus nunca são. Mandem-me as razões para o e-mail solicitado no cabeçalho.

  9. Beatriz Postado em 20/May/2015 às 09:43

    “Eu daqui”, vc está tentando ofender o Eduardo o chamando de cotista, mesmo ele já tendo dito que é branco, errado daí.... Se vc acha q ser cotista é uma ofensa vc é MERITOCRÁTA SIM !!! EU SOU COSTISTA DE UMA UNIVERSDADE FEDERAL e não me sinto nem um pouco inferior a ninguém, mesmo que a sociedade tente fazer com o q eu me sinta assim o tempo todo... Não sou contra vc, mas acho q há um problema muito grande se não consegue ler um relato como este acima e não se sensibilizar para causa, ou ao menos conseguir interpretar o a autora tenta passar. Sou negra e me sensibilizo, não sou gay, mas me sensibilizo com a causa gay...Ou seja, vamos para de olhar para o nosso umbigo e tentar ouvir o q o outro diz sem diminuir e fazer comparações absurdas que tentem justificar, ou pior naturalizar uma porra q é tão séria q é o racismo, que existe sim !!