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Mulheres violadas 15/May/2015 às 11:16
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O desabafo de uma estudante humilhada na USP por ser mãe

"Sou mãe e mereço estar na USP igual a todos os outros que não têm filhos e passaram no vestibular". O desabafo de uma estudante de Gestão Ambiental da Universidade de São Paulo, humilhada por ser mãe

mãe humilhada usp
Aline Conte e suas filhas (reprodução/divulgação)

Aline Shirazi Conte*, Brasil Post

Eu pensei em nunca escrever isso. Primeiro porque 99% dos professores da USP são maravilhosos e não queria ferir reputação. Segundo porque fui humilhada por ser mãe.

Nesta quarta-feira, fui fazer uma prova e meu nome tinha sumido da lista de presença. Eu não sei o que você sentiria ao saber que aquela prova que vai te dar um diploma em dois meses você não poderia fazer por ser MÃE (isso, por ser mãe). Eu tirei licença na USP – pela segunda vez, é verdade – e, concordando ou não, é um direito que tenho por uma lei federal e pelas diretrizes da universidade. Minha licença foi aprovada diretamente pela coordenação de graduação.

Porém, nesta quarta-feira, fui assinar uma lista que continha meu nome um mês antes e tinha sumido. O professor olhou para o teto e falou que eu não deveria fazer a prova e que não existe essa história “de lei federal”. Também comentou que não ia me dar nota.

Foi como se um elefante tivesse sentado na minha cabeça, e minha vontade era sair correndo igual criancinha, chorando pelos corredores.

Fiz melhor, fiquei, assinei a lista atrás e fiz a prova.

A prova continha quatro questões de exatas que eu tinha visto algumas centenas de vezes naquela semana enquanto amamentava, jantava, via Madagascar, recebia visitas, ouvia música alta na casa dos outros e enquanto eu cantava para ninar uma das crias. Porque sou mãe de duas.

Duas meninas que me são motivo de ORGULHO e não de humilhação.

Esse é o ambiente que eu estudo faz três anos, e faz três anos que minhas notas melhoraram horrores de quando eu não era mãe.

As quatro questões eram fáceis e eu estava preparada. Meus olhos embaçados de água me feriram, mas não me atrapalharam ao resolver aquelas questões. Tive que dividir 1 por 2,88 mais de 10 vezes na calculadora com medo de ter errado, de tanto que eu tremia e não controlava meus dedos.

Saí da prova em 40 minutos, fui a primeira a sair, com todas as questões feitas e nenhuma dúvida sobre como resolvê-las. Tentei mais uma vez conversar em vão.

Pensei em chamá-lo de algo horroroso, mas eu só disse: “não fique bravo comigo, professor, fique bravo com a lei”.

Ele fez que ia me ignorar e falou que não ia conversar agora.

Assim como não conversou enquanto eu estava grávida, nem no primeiro dia de aula, nem na primeira prova e nem respondeu nenhum e-mail que eu mandei ou que a USP mandou.

AH! ele já tinha ignorado minha licença três anos atrás. E eu havia aceitado por não saber lutar.

Não tive alternativa. Formalizei reclamação por escrito, entrarei com processo e já pedi um revisor para a correção das minhas provas. A coordenação já esta sabendo, a reunião será em junho e já terá minha pauta.

Ainda estou com medo de sair daquela instituição com nota, com 100% de matérias feitas e sem diploma, mas não vou sair quieta. Essa é uma briga que me certifiquei de estar certa, me certifiquei que não estou sozinha nessa e que eu não abaixarei a cabeça por ser mãe. Não mais, nunca mais.

Eu mereço fazer e estar naquela universidade mais ou igual a todos aqueles que não são mães e que passaram no vestibular.

Em contraponto, e isso é a maioria, tive uma professora que na prova pegou minha filha no colo com toda a delicadeza do mundo e outro professor que me disponibilizou monitores e seminários com todo o carinho e disponibilização do mundo virtualmente – e ainda se preocupa com a saúde dela.

Se escrevo isso é para que esse 1% NUNCA MAIS humilhe alguém por ser mãe. Por ser mulher. Por ser qualquer coisa.

Pelas minhas filhas, essa luta eu vou até o fim. Para que se elas quiserem ser mães – ou não – na universidade, esse problema seja pertencentes apenas a elas.

*Mãe e estudante de Gestão Ambiental na USP

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Comentários

  1. Charles Postado em 15/May/2015 às 11:36

    Ai mora um grande imbróglio desse país, o funcionalismo público. Assumindo que mãe tem razão e tem a regulamentação ao seu lado, o professor vacilou feio. A mãe vai buscar seus direitos, justamente. O porém é o que acontece agora com o professor e funcionário público que literalmente caga para a situação Nada sério, no máximo um remanejo, um breve período sabático. Fato é que frequentemente não há sanção decente pelos descabimentos do funcionalismo público e assim temos tantos casos quanto esses em universidades e outras repartições...

    • poliana Postado em 15/May/2015 às 12:09

      tá, a culpa dessa estupidez é de todo o funcionalismo público!!! e todos os servidores cagam para qq tipo de situação estúpida! enqto servidor público, esse "professor" está sujeito a um processo administrativo disciplinar, e com certeza ele será aberto...vc acha q servidor público está acima do bem e do mal, e nada pode atingi-lo!!!???

      • Lanna Postado em 15/May/2015 às 12:26

        "todo" é generalizar! sou funcionária publica e cumpro muito bem meu dever como deveria qualquer profissional na minha area, executando sua tarefa sendo em iniciativa publica ou privada, quem se "prevalece" de qualquer coisa pra mostrar quem verdadeiramente é, mostra somente o que verdadeiramente é.Esse tipo de situação lamentávelmente ocorre em todos os setores, ser mulher é dificil.Parabéns a menina por denunciar, nossa luta é todo dia!

      • poliana Postado em 15/May/2015 às 12:56

        lanna, acho q sua resposta foi pro charles né?! pq tb sou servidora e concordo com tudo q vc falou!

      • Samuel Henrique Postado em 15/May/2015 às 14:58

        Concordo com o Charles. Isso não ocorre só com professores, mas também com policiais e políticos. Ele não quis "insultar" os funcionários públicos. Apenas disse uma verdade: Muitos são absurdamente relaxados e usam suas próprias vontades para dizer o que é correto ou não ! Tenho militares e professores e diretor de escolas como IFRJ na família, e sei que falta de vontade acontece muito ! Felizmente existem, como em todos os lugares, pessoas que trabalham de verdade. E essas pessoas são absurdamente admiradas por mim, e tenho certeza de que por todos que tem o prazer de conhecer !

    • eu daqui Postado em 15/May/2015 às 12:31

      Vire servidor concursado, produtivo e legalista pra depois venha falar do imbroglio, tá?

      • Charles Postado em 15/May/2015 às 13:17

        Gente, leiam novamente por favor, eu não falei em momento algum que todo servidor público é ruim ou qualquer coisa do tipo, o serviço público é algo necessário. O que expressei é que a estabilidade dos servidores públicos frequentemente permite esse tipo evento. Se o professor corresse algum risco real - não venha falar em processo disciplinar, porque o processo fatalmente será aberto mas isso não quer dizer que haverá sanção - certamente o evento nem teria ocorrido.

      • Rafael Postado em 15/May/2015 às 13:21

        A questão problematizada no texto passa longe da questão do funcionalismo público. O problema que ela sofreu é machismo, misoginia e abuso de poder. (qualquer professor, público ou privado, tem poder sobre os alunos)

      • Salomon Postado em 16/May/2015 às 08:36

        Charles, entendi seu ponto de vista. Aqui cabem algumas explicações, como de resto a todos os que não são servidores públicos. A 'estabilidade' é uma qualidade necessária a todo o servidor porque impede que sejam constrangidos a praticar atos ilegais por pressão política ou de autoridade. Explico: sem a estabilidade o servidor seria uma marionete na mão do político de plantão, obrigado que estaria a obedecer ordens ilegais, pena de demissão sumária. Ou dito de outro modo, a estabilidade não é privilégio, é uma prerrogativa em favor do povo brasileiro que paga seus vencimentos, eis que é a garantia de que o servidor vai cumprir a lei, independente de qualquer pressão em contrário. É o único instrumento que o servidor tem para dizer "não" ao que entender errado, sem medo de perder o cargo. Os legisladores também têm essa prerrogativa para que possam falar (parlamentar) sem receio de serem alvos de crimes contra a honra, por exemplo. Os juízes, para que possam julgar com imparcialidade, têm a vitaliciedade (mais que estabilidade), a inamovobilidade e a irredutibilidade de salário. Não fossem essas qualificações, não poderiam prolatar sentença contra um político ou uma autoridade qualquer, sem medo de sofrerem perseguições, transferências ou algo pior. Ao cabo, a estabilidade, bem como o concurso público, evitam o "trem da alegria". Portanto, a estabilidade, para o servidor, é uma prerrogativa (não um privilégio) em favor do povo, e em desfavor da ilegalidade. Tudo para o bom e fiel desempenho das funções constitucionais do servidor público (do latim publicus, do povo). além disso, vale dizer que o 'processo administrativo disciplinar' existe e funciona, é regulado pela lei 8.112/90 em âmbito nacional e anualmente muitas centenas de servidores são demitidos a bem do serviço público.

      • eu daqui Postado em 19/May/2015 às 10:20

        PAD só não funciona pra gestor publico corrupto e assediador: os psicopatas institucionais tão interessados no fim da estabilidade. SEu CHARLES, VAI VIVER DE TRABALHO, BOLSISTA, PRA DEPOIS FALAR DE TRABALHADOR.

    • clovis Postado em 15/May/2015 às 13:28

      Ou pior: o professor vai alegar que ELE está com problemas psicológicos, vai conseguir uma boa licença remunerada e sair ileso.

    • Ricardo Pereira Postado em 15/May/2015 às 14:11

      Charles, a estabilidade nao tem nada a ver com isto. A estabilidade so serve ao Estado para garantir que seu corpo tecnico especializado nao seja desfeito pela melhor remuneraçao do setor privado. Agora, qdo se trata de professor universitario dentro da Usp, Unesp e Unicamp, sobressai a mentalidade coronelista e elitista destes que se julgam donos do espaço publico. Infelizmente nossa cultura é recheada de exemplos de arbitrariedade tipica de uma sociedade onde a escravidao era norma a menos de 150 anos. Nao interessa se o corpo docente é composto de pessoas supostamente esclarecidas. A preservaçao da estrutura de poder é defendida nos conselhos universitarios e em outras instancias e a tentaçao de submeter alunos e funcionarios a suas vontades faz com que ocorram estas situaçoes vexatórias. Ser funcionario publico concursado nao dá direito a ninguem de ser desumano como este cara foi. Mas nao espere da parte do Zago, este despota cretino, qualquer atitude no sentido de se sensibilizar com o problema da aluna. Quem ta no poder tá ignora a plebe.

  2. Carlos Postado em 15/May/2015 às 11:50

    Força aí, estou longe mas você tem todo meu apoio. Esse professor deve ser um sem-mãe. Admiro sua coragem e você vai ganhar essa. Só acho que faltou dizer o nome do professor. A gente tem que mostrar quem nos oprime até para ele e os outros saberem que estamos de olho e não ficar uma sensação de impunidade.

  3. poliana Postado em 15/May/2015 às 12:07

    nossa, q absurdo!!!! esse "professor" é um doente! q cara idiota!!!!!!!!!!

    • eu daqui Postado em 15/May/2015 às 12:31

      ele nasceu de onde pra nunca ter precisado de mãe?

    • enganado Postado em 15/May/2015 às 14:50

      Cara Poliana. O professor não foi parido, foi cuspido! Acho que doente é pouco, porque um professor universitário agir desta forma, é muito estranho. Camisa de força deve ser o problema dele.

  4. Eduardo Silva Postado em 15/May/2015 às 12:13

    A 20 anos trabalho em uma Universidade pública e este tipo de idiota sem existiu e ninguém faz nada para punir uma criatura destas, ainda bem que são minoria, é um idiota que se faz de professor e bota uma máscara e que no fundo não sabe nada além daquela matéria que decorou a duras penas e passa para os alunos atrás de uma máscara se superioridade, se espremer não sai nada, nada, mas exulta em humilhar os outros.

  5. Roseli Postado em 15/May/2015 às 12:18

    Nossa, esse é o nosso Brasil com professores, muita das vezes estúpidos e sem educação!!! Eles deveriam ser o primeiro a lutar pela educação e não ter preconceitos. AFF, esse Brasil cada vez pior!

  6. Sidinei Postado em 15/May/2015 às 12:45

    Importante a fala dela que ratifica a postura correta e coerente 99% dos professores, citando dois exemplos concretos e positivo. Importante também que este 1%, que teve esta atitude lastimável, reprovável e covarde, seja rechaçado tanto por ela, quanto pela instituição! Ainda que seja um, esta barbaridade não pode passar batido. Agora também é lamentável este discurso generalizador...

  7. serena Postado em 15/May/2015 às 12:56

    querida mãe, uma vez li que a melhor forma de acabar com a moral de uma pessoa é expô-la publicamente. Eu fosse você, além desta entrevista, escreveria um manifesto sobre tal comportamento e espalharia por todos os lados. Não precisa dizer o nome do prof, faça do mesmo modo como fez aqui no seu relato só que cole na porta do departamento, no corredor, em todos os lados para ele sentir que este comportamento dele irá perseguí-lo pelo resto da vida. Sera que um cara deste tem mãe? será que tem filha? ele faz isso porque nao tem motivo para se sentir envergonhado então dÊ este motivo para ele!!! este é o tipo de coisa que JAMAIS devemos deixar passar. Tive uma amiga querida que desistiu da universidade por conta de coisas assim! que ele sofraaaaaa o repúdio social, o que este cara fez é nojento!!!!!

  8. Laverne Postado em 15/May/2015 às 13:07

    Faltou dizer o nome! Força e boa sorte

  9. danyela Postado em 15/May/2015 às 13:46

    http://www.tudointeressante.com.br/2015/05/quando-o-bebe-de-uma-aluna-comecou-a-chorar-esse-professor-tomou-uma-atitude-incrivel.html

  10. divino borges Postado em 15/May/2015 às 14:20

    Põe o nome desse camarada aí.

  11. Alda Duarte Postado em 15/May/2015 às 14:37

    Força e avante!!! Denunciar arbitrariedades não é uma conquista individual e sim coletiva! Agradeço Aline seu empenho e coragem por todas as mães e filhas que sofreram, sofrem ou poderão sofrer com esse tipo de arbitrariedade e abuso de poder de professores universitários!

  12. Esmael Leite da Silva Postado em 15/May/2015 às 16:23

    Isto se chama cidadania, e é muito, mas muito bom de se ver, parabéns, Aline Conte. exemplo de mulher para todas as pessoas.

  13. Thiago Teixeira Postado em 15/May/2015 às 22:56

    Aline, não fique assim e não jogue no lixo a sua graduação por causa de um babaca. Já tive problemas sérios com professores da Unicamp no qual atrasaram 1 ano de minha vida por pura picuinha e inflexibilidade. Fui atropelado e tive zero nas primeiras provas enquanto estava de cama, retornei, fiz a prova final, alguns me deram outra primeira prova e outros somaram com o zero e dividiram por dois. Beleza, fiz o exame e tirei 8,0 numa delas. Ao ver a minha média final estava 5,8 mas adivinhe? Reprovado por excesso de faltas. Quis matar, chutar, tacar fogo, agredir o professor, sair da faculdade mas decidi não fazer nada disso. Matriculei no ano seguinte, fiz o curso sem olhar ou trocar palavras com os professores e passei. Fica a minha dica, faça isso, a pior coisa é você querer comprar briga com professor universitário de instituições públicas, eles sempre ganham e você acaba sendo perseguida de vez. Passe com 9 ou 10 e no final, se sentirá melhor!!!!!!

    • enganado Postado em 17/May/2015 às 23:21

      Caro Thiago. Nota 10! Irrepreensível!

    • eu daqui Postado em 18/May/2015 às 14:19

      Seu relato me cheira, alias me fede, a assédio moral academico........

  14. Elza Augusta Postado em 16/May/2015 às 18:06

    Cadê o nome do energúmeno???

  15. Aparecida Postado em 16/May/2015 às 21:57

    Toda minha solidariedade a você , por ser mulher e mãe e também por ter sentido na pele o mesmo tipo de discriminação. Também me graduei numa universidade pública e engravidei no ultimo ano. Como isso aconteceu há mais de 30 anos , desconheço qual era a legislação em vigor naquela época,mas a grande maioria dos professores agiram de forma a não me prejudicar, menos UMA professora que além de procurar dificultar minha vida se comprazia em me chamar de "moçoila casadoira" na frente da turma, algo que me deixava bastante constrangida. A minha preocupação foi em ser reprovada foi tamanha que deixei meu filho com 15 dias de nascido, em casa com minha mãe, pra fazer a prova final dessa senhora. Graças a Deus consegui a aprovação. Admiro muito o que você está fazendo vindo a público denunciar esse tipo de atitude , que no meu entender só pode ser de um ser humano doente e que caso não seja punido continuará prejudicando pessoas a troco sabe-se lá de que. Força !

    • Thiago Teixeira Postado em 18/May/2015 às 15:36

      A troco de Status Aparecida. Essas universidades são assim, valorizam os professores que reprovam meia classe e atrasam a vida dos outros. Os paraninfos, pode reparar, sempre tem suas verbas e pesquisas reduzidas.