Redação Pragmatismo
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Geral 02/Jan/2015 às 15:20
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Uma nova civilização ou o fim do mundo?

Fim de uma era, uma nova civilização ou o fim do mundo? Para não destruir a si mesma e grande parte da biosfera, a humanidade elabora um contrato social mundial, com instâncias plurais de governabilidade planetária

Por Leonardo Boff*

Há vozes de personalidades de grande respeito que advertem que estamos já dentro de uma Terceira Guerra Mundial. A mais autorizada é a do Papa Francisco. No dia 13 de setembro deste ano, ao visitar um cemitério de soldados italianos mortos em Radipuglia perto da Eslovênia disse: ”a Terceira Guerra Mundial pode ter começado, lutada aos poucos com crimes, massacres e destruições”. O ex-chanceler alemão Helmut Schmidt em 19/12/2014, com 93 anos, adverte acerca de uma possível Terceira Guerra Mundial, por causa da Ucrânia. Culpa a arrogância e os militares burocratas da União Europeia, submetidos às políticas belicosas dos USA. George W. Bush chamou a guerra ao terror, depois dos atentados contra as Torres Gêmea, de “World War III”. Eliot Cohen, conhecido diretor de Estudos Estratégicos da Johns Hopkins University, confirma Bush bem como Michael Leeden, historiador, filósofo neoconservador e antigo consultor do Conselho de Segurança dos USA que prefere falar na Quarta Guerra Mundial, entendendo a Guerra Fria com suas guerras regionais como já a Terceira Guerra Mundial. Recentemente (22/12/2014), conhecido sociólogo e analista da situação do mundo Boaventura de Souza Santos escreveu um documentado artigo sobre a Terceira Guerra Mundial (Boletim Carta Maior de 22/12/2014). E outras vozes autorizadas se fazem ouvir aqui e acolá.

A mim me convence mais a análise, diria profética, pois está se realizando como previu, de Jacques Attali em seu conhecido livro Uma breve história do futuro (Novo Século, SP 2008). Foi assessor de François Mitterand e atualmente preside a Comissão dos “freios ao crescimento”. Trabalha com uma equipe multidisciplinar de grande qualidade. Ele prevê três cenários: (1) o super-império composto pelos USA e seus aliados. Sua força reside em poder destruir toda a humanidade. Mas está em decadência devido à crise sistêmica da ordem capitalista. Rege-se pela ideologia do Pentago do ”full spectrum dominance” (dominação do espectro total) em todo os campos, militar, ideológico, político, econômico e cultural. Mas foi ultrapassado economicamente pela China e tem dificuldades de submeter todos à lógica imperial. (2) O superconflito: com a decadência lenta do império, dá-se uma balcanização do mundo, como se constata atualmente com conflitos regionais no norte da Africa, no Oriente Médio, na Africa e na Ucrânia. Esses conflitos podem conhecer um crescendo com a utilização de armas de destruição em massa (vide Síria, Iraque), depois de pequenas armas nucleares (existem hoje milhares no formato de uma mala de executivo) que destroem pouco mas deixam regiões inteiras por muitos anos inabitáveis devido à alta radioatividade. Pode-se chegar a um ponto com a utilização generalizada de armas nucleares, químicas e biológica em que a humanidade se dá conta de que pode se autodestruir. E então surge (3) o cenário final: a superdemocracia. Para não se destruir a si mesma e grande parte da biosfera, a humanidade elabora um contrato social mundial, com instâncias plurais de governabilidade planetária. Com os bens e serviços naturais escassos devemos garantir a sobrevivência da espécie humana e de toda a comunidade de vida que também é criada e mantida pela Terra-Gaia.

Se essa fase não surgir, poderá ocorrer o fim da espécie humana e grande parte da biosfera. Por culpa de nosso paradigma civilizatório racionalista. Expressou-o bem o economista e humanista Luiz Gonzaga Belluzzo, recentemente: “O sonho ocidental de construir o habitat humano somente à base da razão, repudiando a tradição e rejeitando toda a transcendência, chegou a um impasse. A razão ocidental não consegue realizar concomitantemente os valores dos direitos humanos universais, as ambições do progresso da técnica e as promessas do bem-estar para todos e para cada um” (Carta Capital 21/12/2014). Em sua irracionalidade, este tipo de razão, constrói os meios de dar-se um fim a si mesma.

O processo de evolução deverá possivelmente esperar alguns milhares ou milhões de anos até que surja um ser suficientemente complexo, capaz de suportar o espírito que, primeiro, está no universo e somente depois em nós.

Mas pode também irromper uma nova era que conjuga a razão sensível (do amor e do cuidado) com a razão instrumental-analítica (a tecnociência). Emergirá, enfim, o que Teilhard de Chardin chamava ainda em 1933 na China a noosfera: as mentes e os corações unidos na solidariedade, no amor e no cuidado com a Casa Comum, a Terra. Escreveu Attali: ”quero acreditar, enfim, que o horror do futuro predito acima, contribuirá para torná-lo impossível; então se desenhará a promessa de uma Terra hospitaleira para todos os viajantes da vida (op.cit. p. 219).

E no final nos deixa a nós brasileiros esse desafio: ”Se há um país que se assemelha ao que poderia tornar-se o mundo, no bem e no mal, esse país é o Brasil”(p. 231).

*Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor

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Comentários

  1. Jonas Schlesinger Postado em 02/Jan/2015 às 18:03

    Um dia os países corruptos tomarão vergonha na cara e aplicarão o estilo de vida nórdico de ser. É fato mais que comprovado que a Europa Ocidental, especificamente a Escandinávia, é a verdadeira civilização do globo. Com monarquias bem definidas e a laicidade vigorando plenamente nos governos. Diferentemente da América Latrina que já diz tudo: uma latrina; a Ásia (exceto Japão, Israel e CS) que só é conhecida porque o cara só come baiacu com carne de cachorro (imundicie) por lá. A África é a definição: somos marginalizados; e a Oceania é o berço do canibalismo. Por que o Brasil seria exemplo para o mundo? Já pensou um Genuíno a nível mundial... corrupção a 1 cm de nós. Enfim, viva a Europa, ela que define o mundo.

    • Yrae Nascimento Postado em 02/Jan/2015 às 20:13

      Jonas Schlesinger a Escandinava também é cheia de defeitos como todos os países do mundo. O problema é a mídia nacional e internacional serem parciais. Do Brasil, da Ámerica Latina, África e Oriente Médio mostra-se os pontos negativos. Da Europa, EUA e Australia mostra-se somente os pontos fortes.

      • Jonas Schlesinger Postado em 02/Jan/2015 às 21:26

        Talvez porque na África, OM e AL seja difícil procurar pontos positivos.

      • eu daqui Postado em 05/Jan/2015 às 10:57

        Deixe de ser pobretão, Jonas, e vá viajar para conhecer o mundo...........

      • Jonas Schlesinger Postado em 05/Jan/2015 às 13:46

        Só se vc ir comigo. Mas já fui à Europa, não preciso dos outros lugares. Ah, lá na Ásia tá caindo avião. Não vou me arriscar :P

      • eu daqui Postado em 06/Jan/2015 às 13:05

        Então vamos os dois. Mas Europa pra mim só serve o bem temperado e intercultural leste. É o bom, bonito, barato e inspirador. Dos voos até lá só me faz medo o primeiro que é transoceanico. Os trechos seguintes são pura brincadeira.

    • JoaoMineirim Postado em 02/Jan/2015 às 20:26

      Escandinávia é um exemplo de país soberano. Lá os representantes do povo representam a vontade do povo, diferentemente da maioria dos países que você citou em que os representantes do povo representam a vontade do capital somente. Acredita mesmo na soberania brasileira ? Até que ponto ? Acha que o maior problema do Brasil,atualmente, é a corrupção do PT ? Imagino pelo seu nome que você não é brasileiro ou se for deve sentir vergonha de ser o que é. Acredita que essa pessoas que vivem nesses locais subdesenvolvidos são as culpadas pela situação em que vivem ?

    • JoaoMineirim Postado em 05/Jan/2015 às 11:25

      És um ignorante ou és um estrangeiro ?

      • Jonas Schlesinger Postado em 05/Jan/2015 às 13:47

        Coma carne de cachorro ou espetinho de grilo pra ver uma coisa...

      • eu daqui Postado em 06/Jan/2015 às 13:06

        A fritada de gafanhotos do México é super: mas também o que poderia ser ruim numa gastronomia como aquela?

  2. Jean Postado em 02/Jan/2015 às 23:44

    O apocalipse!

  3. Ismael Postado em 03/Jan/2015 às 00:06

    A América Latina só é ruim aos olhos de um pragmatismo ideologico que prega uma suposta higiene moral e civilizatória. Nos paises nórdicos não ha diversidade alguma e a cultura deles só atende a eles mesmos. Não da pra comparar. Masa solução e simples. Muda pra lá. Eu ainda prefiro as contradições tropicais do Brasil, mas de longe. Nunca seremos europeus, se Deus quiser.

    • eu daqui Postado em 06/Jan/2015 às 13:09

      Os escandinavos são exemplos de muita coisa boa mas a América cucaracha é encantadora mesmo com todos os problemas por causa de uma qualidade rara: a interculturalidade, que faz com que as diferentes culturas se conversem e se influenciem. No leste europeu também se vê, mas em menor grau.

  4. Abdiel Postado em 03/Jan/2015 às 10:47

    caro jonas por que vc continua vivendo no Brasil? emigre para a europa e será realmente feliz

  5. Guilhermo Postado em 03/Jan/2015 às 12:29

    Jonas eu concordo contigo. Só que você também precisa enxergar que a África, A.L e várias partes da Ásia foram colônias. Ou seja, foram bastante exploradas há não muito tempo atrás. Em contrapartida, a Europa, que eu também admiro muito, se beneficiou com a riqueza de suas colônias bem como com a supremacia que exerceram durante grande parte da história (da medieval à contemporânea pelo menos). Na verdade, o único país que foi "recentemente" colônia e se deu bem foi os Estados Unidos.

    • Jéssica Postado em 04/Jan/2015 às 06:52

      Mas a diferença dos Estados Unidos como colonização se dá ao fato que lá os colonos foram construir uma sociedade nova, já que muitos foram expulsos da Inglaterra por divergências políticas (os chamados "quackers"), já nas demais colônias americanas, africanas e asiáticas o objetivo era fundamentalmente extrativista, sem objetivo de construir morada definitiva e portanto sem necessidade de organizar uma estrutura social independente do colonizador.

  6. marcelinho_de_marley_RS Postado em 03/Jan/2015 às 20:33

    Muito bom que alguém tenha tocado nesse assunto. Afinal, o que será do planeta se o consumo/produção exagerado, poluição e guerras por matéria prima continuar? Se os líderes não se unirem num ideal fraterno e social igualitário ninguém se salva da força da natureza. Como é difícil deixar ganância, culturas, conceitos e praticar o bem ao próximo! Mas mantemo a fé gurizada \o/

  7. João Postado em 04/Jan/2015 às 13:10

    Justamente ! Mudou alguma coisa ? Apenas EUA são realmente potência esperem 100 anos e lá terá uma raça humana feita em laboratório tecnologia alien sociedade com regras que funcionem muito bem igual os nórdicos e daí?? Pra que vai servir o Brasil ?? Vai ser apenas mais uma favela no planeta !!

  8. Luiz Mourão Postado em 04/Jan/2015 às 14:52

    Temos que perceber que 0,01% (talvez menos...) da Humanidade determinam o caminho que os demais 99,99% (se tanto...) devem trilhar... Essa minoria só pensa em DINHEIRO e PODER, e são mais próximos aos predadores do mundo animal do que do mundo humano... Enquanto essa minoria dirigir o destino do mundo não entraremos numa era superior para o Homem... Temos que criar instrumentos democráticos para que seu PODER seja reduzido, e a vontade da maioria possa realmente prevalecer... O problema é COMO fazer isso sem ameaçar direitos...

  9. Luna Postado em 05/Jan/2015 às 20:35

    Se este é o conflito devido a razão ocidental, digo a todos bem vindos ao armageddon. Dizer que europeus são superiores á brasileiros é no mínimo ingenuidade ou má vontade de comparar os fatos. Vejamos então: quem colonizou o Brasil foram europeus, toda a américa do sul também foram europeus. Logo, não tivemos colonizadores nórdicos porque os mesmos não conseguiram se impor nesta época no cenário europeu ou seja, eram fracos. Nenhuma colônia de fracos poderia vingar, portugueses, espanhóis, ingleses e finalmente holandeses, por mais defeitos que tenham eram a melhor expressão europeia para colonizações. Apesar de nossos colonizadores serem estes, que sejam bem ditos pois nós existimos. E com certeza nada devemos, pelo modo de pensar a nenhum germânico, ainda bem. Nossa afirmação como nação ainda não acabou, estamos a pleno vapor nesta direção e graças a Deus longe do objetivo final. Pois, se dependêssemos dos ditos europeus para termos uma vida melhor, coitados de nós, que não passam de sanguessugas envelhecidos nas velhas histórias de exploração. Que não venham dizer que os nórdicos fariam colônias de povoamento, suprassumo da evolução, vejam o que aconteceu nos EUA com relação aos ingleses, no final a independência só surgiu depois de um banho de sangue. Toda colonização, no fundo é de exploração, não existe isso de ser mais humana ou não. Esclarecido o fato, agora digo, não acredito num mundo melhor direcionado por esses caras, esse mundo está entregue em nossas mãos, os colonizados, para ser mais claro, américa latina, África, China, Rússia e assemelhados.