Redação Pragmatismo
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História 14/Jan/2015 às 14:54
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A história de um massacre esquecido em Paris

Há 50 anos, cerca de 100 a 200 argelinos que se manifestavam pacificamente em Paris foram assassinados pelas forças policiais. Ocultado durante muito tempo pelo poder, este massacre integra progressivamente a memória coletiva

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A história de um massacre esquecido em Paris (Imagem: Pragmatismo Político)

Durante as décadas de 1970 e 1980, a lembrança de 17 de outubro de 1961 esteve envolta numa espessa mortalha. Quem se lembra ainda daquele dia de outono em que homens, mulheres e crianças que se manifestavam em família, desarmados, nas ruas de Paris, foram mortos à coronhada pela polícia, lançados vivos ao Sena, enforcados em árvores?

Depois do século XIX, esta foi uma das raras vezes em que a polícia atirou contra operários, em Paris”, afirma o historiador Benjamin Stora. Nas semanas seguintes, dezenas de cadáveres de argelinos com rostos tumefactos foram retirados do Sena. Benjamin Stora supõe que a repressão fez uma centena de mortos, o historiador inglês Jim House pensa que, “no mínimo”, os mortos foram 120 ou 130, Jean-Luc Einaudi, autor de La Bataille de Paris [A Batalha de Paris], diz que foram mais de 150. Nesse dia, os “franceses muçulmanos da Argélia”, convocados pela federação de França da FLN, manifestaram-se contra o recolher obrigatório que lhes tinha sido imposto pelo diretor da polícia de Paris, Maurice Papon. Habitualmente confinados aos bairros de lata dos subúrbios, mais de 20 mil homens, mulheres e crianças desfilaram, então, pacificamente pelas ruas do Quartier Latin, pelas grandes avenidas e próximo dos Campos Elísios.

A violência da polícia foi inaudita: os agentes esperaram-nos nas saídas do metro e nas ruas para os espancarem e insultarem. “Aos mais fracos, aos que já estavam cheios de sangue, batiam-lhe até à morte, eu vi”, contou Saad Ouazen em 1997. Apesar de não terem oposto a mínima resistência, dezenas de manifestantes foram mortos a tiro, outros foram afogados no Sena. Ao todo, mais de onze mil argelinos foram presos e levados para o Palácio dos desportos e para o estádio Pierre-de-Coubertin. Mantidos durante vários dias em condições de higiene assustadoras, foram violentamente espancados pela polícia, que lhes chamava “porcos árabes” e “ratos”. No Palácio dos desportos, os detidos, aterrorizados, nem sequer ousavam ir à casa de banho, porque a maioria dos que ali iam era morta. Na manhã do dia seguinte, a polícia contava oficialmente três mortos – dois argelinos e um francês da metrópole. A mentira instala-se. O silêncio depressa a cobre. Perdurará por mais de 20 anos.

Uma campanha de dissimulação

Esta longa ausência, nas consciências, do massacre de 17 de outubro não surpreende Benjamin Stora. Nessa altura havia [em França] um imenso desconhecimento daquilo a que chamamos o indígena ou o imigrante, ou seja, o outro. Quando se tem esta perceção do mundo, como é que alguém se interessa pelos imigrantes que vivem nos bairros de lata da região parisiense? Os argelinos eram os “invisíveis” da sociedade francesa. A esta indiferença de opinião junta-se, nos meses que se seguiram ao 17 de outubro, uma campanha de dissimulação lavada a cabo pelos poderes públicos. Os relatos que põem em causa a versão oficial são censurados. A amnistia que acompanha a independência da Argélia, em 1962, sela, depois, o silêncio da sociedade francesa: todas as queixas foram arquivadas. Apesar do silêncio, a memória do 17 de outubro sobrevive aqui e ali, fragmentada, explosiva, subterrânea. Continua viva, evidentemente, entre os imigrantes argelinos da região parisiense. “Esses homens conversavam entre si, mas a maior parte deles não transmitiu essa recordação dos acontecimentos aos seus filhos. Na década de 1980, sabem que os seus filhos ficarão em França e têm medo de lhes comprometer o futuro contando-lhe a violência policial a que foram submetidos”, explica o historiador inglês Jim House. Foi necessária a chegada à idade adulta desta segunda geração de imigração argelina para agitar profundamente a paisagem da memória. Estes jovens frequentaram a escola da República, são eleitores e cidadãos franceses, mas intuem que os preconceitos e os olhares desconfiados de que são vítimas estão ligados à guerra da Argélia. Pouco a pouco, a memória desperta: na década de 1980, Jean-Luc Einaudi inicia um imenso trabalho de investigação. Quando o seu livro sai, no ano do trigésimo aniversário do 17 de outubro, provoca choque: La Bataille de Paris [A Batalha de Paris], que descreve hora a hora o desenrolar dos acontecimentos e o silêncio que se lhe seguiu, gera o debate sobre a repressão contra os argelinos.

O Estado nunca reconheceu o massacre

Com este livro e alguns outros, a memória do 17 de outubro de 1961 começa a entrar no espaço público. Dois documentários vêm, depois, alimentar a recordação do 17 de outubro: Le Silence du Fleuve [O Silêncio do Rio], de Agnès Denis e Mehdi Lallaoui, em 1991, e Une Journée Portée Disparue [Um Dia Perdido], de Philip Brooks e Alan Hayling. No entanto, as autoridades da época mantiveram a versão oficial. Depois dos historiadores e dos militantes da memória, é a justiça que entra em cena: durante o processo do antigo responsável de Vichy, em 1997, em Bordéus, os juízes debruçam-se longamente sobre o 17 de outubro de 1961. Confrontado com Jean-Luc Einaudi, o ex-diretor da polícia acaba por admitir “quinze ou vinte mortos” durante esse “infeliz dia”, mas atribui-os a ajustes de contas entre os argelinos.

Pela primeira vez, o poder faz um gesto: o primeiro-ministro, Lionel Jospin, abre os arquivos. Baseando-se unicamente no registo de entrada do instituto médico-legal – a maior parte dos arquivos da polícia e da brigada fluvial desapareceram misteriosamente –, conclui, em 1998, que houve pelo menos 32 mortos. Dois anos mais tarde, Maurice Papon decide processar Jean-Luc Einaudi por difamação. Desta vez, Papon admite que houve 30 mortos, mas o tribunal não lhe dá razão: prestando homenagem ao caráter “sério, pertinente e completo” do trabalho de Jean-Luc Einaudi, os juízes concluem que “alguns membros das forças da ordem, relativamente numerosos, agiram com violência extrema, sob o império de uma vontade de represálias”. A versão oficial do 17 de outubro está agora desfeita. Chegou o tempo da comemoração. Por altura do 40º aniversário, em 2001, o presidente do município de Paris, Bertrand Delanoë, colocou na ponte Saint-Michel uma placa “em memória dos muitos argelinos mortos durante a sangrenta repressão da manifestação pacífica de 17 de outubro de 1961”. Na região parisiense, cerca de 20 placas lembram, agora, à memória coletiva, esses dias de outono. O quebra-cabeças da memória coletiva acabou por se refazer mas, para muitos, ainda falta uma peça: o reconhecimento do Estado. [O site Mediapart, lançou, com esse intuito, a 12 de outubro, um apelo ao reconhecimento oficial da tragédia de 17 de outubro de 1961, em Paris].

Ariane Chemin – Le Monde, VoxEurop

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Comentários

  1. testemunha binocular Postado em 15/Jan/2015 às 17:38

    Cara... Que estória sinistra... O "Charlie" falou dela alguma vez ?...

    • liliangelika Postado em 19/Jan/2015 às 11:30

      Se você estudar a história da França ou de qualquer pais, verá que é como aqui, muitas coisas são veladas. Por isto sempre digo os cidadães do mundo que lutam pelos direitos humanos não gostam de identidade de país, pois lutam pela melhoria da qualidade da vida humana, não importa de onde. Se não querem imigrantes que feche as portas.Complicado... quando, quem faz a diplomacia e parcerias e entidades, que enviam empregados ( escravos) com preços baixos, para qualquer lugar do mundo? Pra quem interessa?Quem lucra? os franceses também, como nós, também suas reivindicações e reclamações, pois ser humana bom tem em qualquer lugar do mundo, principalmente os que tem consciência e altruísmo.

  2. Mary Postado em 15/Jan/2015 às 21:55

    Quem pensaria nesta barbaridade acontecendo na dita "cidade luz"? Não é a toa que se diz que a França é sim um país racista e excludente!! Estou tomada pelo mais puro NOJO ... Meus profundos sentimentos a família daqueles argelinos massacrados no país de Liberdade- Igualdade e Fraternidade.

    • mani Postado em 19/Jan/2015 às 13:29

      Pois é... Poderiam falar agora.

  3. marcelo Postado em 16/Jan/2015 às 13:57

    Pois é. Liberdade de expressão no dos outros é refresco...

    • moni Postado em 20/Jan/2015 às 12:30

      O que tem o cu a ver com as calças ?!!

  4. leonardo Postado em 19/Jan/2015 às 11:04

    De fato envergonha a França mas o Brasil também é muito violento.

  5. Ronaldo Postado em 19/Jan/2015 às 11:21

    Quero ressaltar o importante trabalho de pesquisa realizado pelo Historiador Jean-Luc Einaudi, no sentido de trazer a discussão, e principalmente ao conhecimento geral, desta trágica ação de repressão ao muçulmanos argelinos.

    • mani Postado em 19/Jan/2015 às 13:31

      Concordo.

  6. Madalena Postado em 19/Jan/2015 às 11:31

    Interessante, quando na mesma época muitos brasileiros foram brutalmente assassinados nos porões da ditadura, ninguém morreu de nojo. Vamos olhar para o próprio rabo minha gente.

  7. NILTON BR Postado em 19/Jan/2015 às 12:03

    O extermínio de 2000 índios brasileiros - da etnia Waimiri-atroari - ocorrido entre os anos 1968 1972, ocorreu por motivação econômica. A rodovia BR 174, que hoje liga Manaus a Boa Vista, foi construída para atrair investimentos de companhias mineradoras internacionais à região compreendida entre Manaus e Boa Vista. O projeto da estrada atravessaria área habitada por indígenas, localizada sobre a província mineral de Pitinga, uma das mais ricas do planeta em minérios, onde se localiza a quinta maior reserva de estanho do mundo. Em vez de alterar a rota original do projeto, contornando o sítio em que moravam os indígenas a fim de evitar conflitos entre eles e os operários, o governo da época iniciou as obras. Quando as previsíveis hostilidades contra os trabalhadores da estrada começaram, o Exército utilizou contra os índios táticas de guerra que incluíram aviões, metralhadoras e bombas napalm. Ao fim das operações militares, a população original dos indígenas, estimada em 2000 indivíduos, foi reduzida a menos de 500 seres humanos. Ao contrário dos franceses, que choraram a morte de 12 compatriotas, os brasileiros não lamentaram o massacre dos 2000 índios waimiris, que sequer foram incluídos na lista de mortos e desaparecidos da Comissão Nacional da Verdade, prova de que a sociedade brasileira preserva o conceito de “guerra justa” usado no Período Colonial – este dava aos colonizadores autorização para matar índios que obstruíssem a chegada do progresso - sob o ponto de vista dos “civilizados” - ou se opusessem à invasão de suas terras, à destruição das matas onde caçavam e à violação dos cemitérios onde enterravam seus mortos - sob o ponto de vista dos índios.

    • moni Postado em 20/Jan/2015 às 12:34

      Ótimo comentário Nilton. Porque ao invés de apontar o dedo a outros países, não falamos das mazelas da nossa própria história ?! Parabéns por fazer lembrar aqui desse triste momento da nossa história!

  8. Thales Postado em 20/Jan/2015 às 11:29

    Só para acrescentar, o governo Frances reconheceu o massacre em 2012

    • Rogério Maestri Postado em 16/Nov/2015 às 14:42

      Leiam em: http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPE89G09D20121017

  9. Rogério Maestri Postado em 16/Nov/2015 às 14:40

    François Hollande reconheceu publicamente o Massacre em 17 de outubro de 2012. http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPE89G09D20121017