Redação Pragmatismo
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Terrorismo 09/Jan/2015 às 17:18
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Charlie Hebdo, apenas a ponta do iceberg

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Charlie Hebdo, apenas a ponta do iceberg (Imagem: Pragmatismo Político)

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie Hebdo francês, em Paris, que também provocou a morte de um funcionário da revista, de dois policiais no ato e possivelmente de mais um em tiroteio posterior, é apenas a ponta de um iceberg.

A Europa inteira está assentada sobre uma bomba-relógio. Não é uma bomba comum, porque casos como o do Charlie Hebdo mostram que ela já está explodindo. Nas pontas da bomba estão duas forças antagônicas, com práticas diferentes, porém com um traço em comum: a intolerância herdeira dos métodos fascistas de antanho.

De um lado, estão pessoas e grupos fanatizados que reivindicam uma versão do islamismo incompatível com o próprio Islã e o Corão, mas que agem em nome de ambos. Os contornos e o perfil destes grupos estão passando por uma transformação – o que aconteceu também nos Estados Unidos, no atentado em Boston, durante a maratona, e no Canadá, no ataque ao Parlamento, em Ottawa.

Cada vez mais aparecem “iniciativas individuais” nas ações perpetradas. Este tipo de terrorismo se fragmentou em pequenos grupos – muitas vezes de familiares – que agem “à la cria”, como se dizia, em ações que parecem “espontâneas” e até “amalucadas”, mas que obedecem a princípios e uma lógica cuja versão mais elaborada, para além da “franquia” em que a Al-Qaïda se transformou, é o Estado Islâmico que se estruturou graças à desestruturação do Iraque e da Síria. São fanáticos que negam a política consuetudinária como meio de expressão de reivindicações e direitos: negam, no fundo, a própria ideia de “direitos”, inclusive o direito à vida, como fica claro no gesto assassino que vitimou o Charlie Hebdo.

Do outro, estão os neofascistas – ou antigos redivivos – que se agarram à bandeira do anti-islamismo também fanático como meio de arregimentar “as massas” em torno de si e de suas propostas. Agem de acordo com as características próprias dos países em que atuam, mobilizando, de acordo com as circunstâncias, as palavras adequadas. No Reino Unido, criaram o United Kingdom Independence Party – UKIP, Partido da Independência do Reino Unido, nome malandro que oculta e ao mesmo tempo carrega a ojeriza pela União Europeia. Na França têm a Front Nationale da família Le Pen, que mobiliza o velho chauvinismo francês que lateja o tempo todo desde o caso Dreyfus, ainda no século XIX. Na Alemanha é feio ser nacionalista alemão, desde o fim da Segunda Guerra. Então criou-se um movimento – PEGIDA – que se declara de “Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente”, procurando uma fachada pseudamente universalista para seus preconceitos anti-Islã e anti-imigrantes.

Esta, aliás, é a bandeira comum destes movimentos: fazer do imigrante ou do refugiado político ou econômico o bode-expiatório da situação de crise que o continente vive, assim como no passado se fez com o judeu e ainda hoje se faz com os roma e sinti(ditos ciganos). Na Itália este fascismo latente se organiza com o nome de “Liga Norte”, mobilizando o preconceito social contra o sul italiano, tradicionalmente mais empobrecido. São movimentos que, embora busquem por vezes o espaço da política partidária, como é o caso do UKIP e da Front Nationale, ou mesmo da Liga Norte, têm como cosmovisão a negação da política como espaço universal de manifestação de direitos e reivindicações. Negam a política como campo de manifestação das diferenças, barrando ao que consideram como alteridade o direito à expressão ou mesmo aos direitos comuns da cidadania. O exemplo histórico mais acabado disto foi o próprio nazismo que, chegando ao poder pelas urnas, fechou-as em seguida.

O caldo de cultura em que vicejam tais pinças contrárias à vigência dos princípios democráticos é o de uma crise econômico-financeira que se institucionalizou como paisagem social. Na Europa a tradição é a de que crises deste tipo levam a saídas pela direita. O crescimento do UKIP e da Front Nationale, partidos mais votados nas respectivas eleições para o Parlamento Europeu, em maio de 2013, é eloquente neste sentido. Na Alemanha as manifestações de rua do PEGIDA vêm crescendo sistematicamente, atingindo o número de 18 mil pessoas na última delas, na cidade de Dresden, reduto tradicional de manifestações nostálgicas em relação ao passado nazismo devido a seu (também criminoso) bombardeio ao fim da Segunda Guerra pelos britânicos.

Deve-se notar, como fator de esperança, que manifestações contra estas formas de intolerância – o terrorismo que reinvindica o Islã como inspiração e os movimentos de extrema-direita – têm tomado corpo também. Houve manifestações de solidariedade aos mortos na França em várias cidades europeias e na Alemanha manifestações contra o PEGIDA reuniram milhares de pessoas em diferentes cidades. Mas pelo lado da exprema-direita cresce a aceitação de suas palavras de ordem na frente institucional (líderes do novo partido alemão Alternative für Deutschland têm acolhido reivindicações do PEGIDA) e junto à opinião pública. Na Alemanha recente pesquisa trouxe à baila o dado preocupante de que 61% dos entrevistados se declararam “anti-islâmicos”.

Como ficou feio alegar motivos racistas, o que se alega agora no lado intolerante é a “defesa da religião” ou a “incompatibilidade cultural”. Os assassinos do Charlie Hebdo gritavam – segundo testemunhas – estarem “vingando o profeta”, referência a caricaturas de Maomé consideradas ofensivas. Na outra ponta jovens da Front Nationale, também no ano passado, recusavam a pecha de racistas e declaravam aceitar o mundo muçulmano – em “seus territórios”, não na Europa agora dita “judaico-cristã”, puxando para seu aprisco a etnia ou religião que a extrema-direita europeia antes condenava ao ostracismo, ao campo de concentração e ao extermínio.

Os partidos e políticos tradicionais, em sua maioria, estão brincando com fogo, sem se dar conta, talvez. Não aceitam o reconhecimento, por exemplo, que grupos por eles apoiados na Ucrânia são declaradamente fascistas, homofóbicos e até antissemitas. Preferem exacerbar o sentimento antirrusso e anti-Putin. Durante mais de uma década as duas agências do serviço secreto alemão concentraram-se em esmiuçar a vida dos partidos e grupos de esquerda (além dos possíveis terroristas islâmicos) e negligenciaram criminosamente o controle sobre os grupos e terroristas alemães. No momento o “grande terror” que se alastra no establishment europeu não é o de que a extrema-direita esteja em ascensão, embora isto também preocupe, mas é o provocado pela possibilidade de que um partido de esquerda, o Syriza, vença as eleições na Grécia (marcadas para 25 de janeiro), forme um governo, e assim ponha em risco os sacrossantos pilares dos planos de austeridade.

Nega-se o pilar da democracia: contra o Syriza agitam-se as ameaças de expulsão da Grécia da zona do euro e até da União Europeia; ou seja, procura-se castrar a livre manifestação do povo grego através da chantagem política e econômica.

Se as coisas continuarem como estão, poderemos estar assistindo o suicídio da Europa que conhecemos. O que nascerá destes escombros ainda se está por ver, mas boa coisa não será, nem para a Europa, nem para o mundo.

Flávio Aguiar, Carta Maior

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 09/Jan/2015 às 18:36

    (Outro Rodrigo) É uma situação preocupante, para a qual já alertei aqui, várias vezes: combater o "fogo com mais fogo". A resposta ao extremismo vem sendo mais extremismo, mais abuso ao abuso, mais intolerância à intolerância. Assim, pois, deliberada e livremente escolhemos nos cindir, seja enquanto membros de uma comunidade, eleitores, cidadãos, seres humanos, julgando que detemos a razão e falamos em nome da verdade (aqui uma reparação, quanto ao trecho "pessoas e grupos fanatizados que reivindicam uma versão do islamismo incompatível com o próprio Islã e o Corão, mas que agem em nome de ambos", pois essas pessoas julgam-se no direito de dizer que agem em nome de uma fé, um norte político, mas, em verdade, agem em nome dos seus particulares e excludentes interesses, com distorção total de estatutos, de lemas da fé etc.). Falta ver no outro o que nos iguala, a nossa humanidade. Falta entender que os direitos, como de modo muito salutar vi alguns aqui dizerem, não se colidem, mas devem ser harmonizados (liberdades de crença e religiosa, no caso, que não devem ser confundidas com libertinagem, com abuso de direito). Falta entender que o outro é nosso igual e que devemos, no mínimo, tolerá-lo, se não conseguirmos amá-lo (algo realmente difícil de ser feito, reconheço). Extremismo trocado, pois, não capacita as partes envolvidas a alcançarem equilíbrio algum. Enxerguemos nossos defeitos, aceitemos nossa falibilidade humana e, então, com esse mesmo olhar enxerguemos nosso próximo, compreendendo a comum falibilidade e, principalmente, sabendo enxergar a capacidade própria e alheia de acertar.

  2. Felipão Postado em 10/Jan/2015 às 11:02

    Aqui no Brasil também não estamos muito diferentes não, com as últimas eleições acirrou-se posições que vinham sendo mantidas ocultas por parte da própria imprensa. Antagonismos afloram, ideias separatistas Sul x Norte ganham novo fôlego. Há de se ter lucidez e coerência para enfrentar esses desafios que aí estão postos, só não vale ficar como o avestruz.

  3. Marcus Valerio XR Postado em 13/Jan/2015 às 02:31

    Péssimo artigo. Um esforço colossal para não ver o real problema, do qual a extrema direita e a própria imigração muçulmana são apenas efeitos colaterais. O problema É A TAXA DE NATALIDADE, STUPID! Não dá pra pra comparar com outros momentos passados porque é a primeira vez que a população européia está em progressiva retração, tornando impossível que sobreviva sem imigração em massa. Mas uma vez dentro da Europa, as famílias muçulmanas se multiplicam em taxas vistosas enquanto as originais européias diminuem, de modo que a substituição da população é mera questão de tempo. Só que o Islã NÃO VAI ASSUMIR o modo de vida Europeu da mesma forma que latinos o fazem nos EUA, continuarão mantendo sua cultura intocada enquanto a Europa já abandonou a dela. Os atentados terroristas em questão são apenas os primeiros sinais de que a cultura recém chegada veio pra ficar e não vai aceitar a permanência da cultura original. O Islã vai continuar crescendo dentro da Europa e assim que esta se tornar a falada Eurábia, com seus novos califados, adeus secularismo, liberdade sexual, igualdade de gêneros, Estado laico etc. Esse quadro ainda é teoricamente reversível, mas NÃO SERA REVERTIDO. A União Européia está aí para garantir a continuidade do real suicídio civilizacional da Velho Mundo. http://www.xr.pro.br/Ensaios/Hipotese_Benevolente.html

    • João Postado em 13/Jan/2015 às 13:26

      Marcos Valério, só faltou você deixar claro a solução para o problema apontado por você.