Mailson Ramos
Colunista
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Eleições 2014 10/Nov/2014 às 18:54
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As viúvas intransigentes do pós-eleição

Lutar pelo Brasil não significa passar por cima da vontade da maioria e achincalhar a democracia; lutar pelo Brasil não é exigir a intervenção militar que arranque do seu posto uma presidente eleita com os votos da maioria; lutar politicamente pelo Brasil é fazer oposição ideológica e política baseada em debates claros e não em xingamentos e depreciações

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Imagem: Pragmatismo Político

Mailson Ramos*

Viúvas cumprem com desvelo a tarefa de lamentar a morte dos maridos; os sufrágios pela alma do falecido representam uma maneira de não esquecê-lo e de mostrar a todos que naquele momento de dor ninguém deve fazê-lo. Por idealização da santidade, qualquer um é capaz de, à beira do túmulo, féretro sucumbindo, lançar em voz alta as últimas palavras de dignidade direcionadas a quem se vai.

Funérea esta introdução, mas autoexplicativa por exemplificar as atitudes de algumas pessoas que se colocam como grandes entendedoras de política e mal sabem o significado de democracia, melhor: mal sabem perder. Bom papel faz quem arrumou as malas e promete desistir do Brasil. É melhor partir para Miami do que permanecer engrossando o coro das viúvas da ditadura militar.

Pois nem mesmo o candidato derrotado Aécio Neves se posicionou a favor daquela meia dúzia de manifestantes que desejavam a volta dos militares, nas ruas de São Paulo. É que as viúvas atuais não devem ter ouvido falar das viúvas verdadeiras, mulheres que tiveram seus maridos assassinados por uma simples oposição ideológica e política ao militarismo. Imploram e pedem intervenção militar como se boa coisa fosse.

Todas as alternativas de protesto foram esgotadas desde o fatídico domingo, 26 de outubro, quando Dilma Rousseff foi reeleita presidente. Desde o assédio preconceituoso ao Nordeste às passeatas fascistas no centro paulistano, o repertório não muda, aos poucos se oxida.Vale ressaltar que as viúvas não se cansam e não devem se cansar nem mesmo quando as possibilidades democráticas, ainda que antidemocráticas em seu conteúdo, se extinguirem.

Existem duas possibilidades para o aumento das vozes das viúvas: o Congresso Nacional, especialmente o Senado, adquiriu uma perspectiva ainda mais conservadora após as eleições; parece cada vez mais o reduto das oligarquias cafeeira e leiteira do final do século XIX. Para completar, o PMDB assumiu de fato sua posição de mercador da política nacional. Sempre exerceu esta prática, mas agora é muito pior.

Leia aqui todos os textos de Mailson Ramos

Na Câmara Federal, a iminente vitória do candidato à presidência da casa, Deputado Eduardo Cunha, coloca sobre a relação PT/PMDB uma interrogação; Cunha faz crer que não terá fácil diálogo com as proposições do governo. E os deputados comemoraram, na última semana, a derrubada do decreto dos conselhos populares, sob a alegação de que ele feria as prerrogativas do Legislativo. Ode à participação popular, razão do conservadorismo.

Uma família paulista, segundo matéria da Folha de S. Paulo, parte para Miami em 15 de novembro; dizem desistir do Brasil e das dificuldades que o país vai enfrentar a partir de agora. Eleitores de Aécio, eles não esperavam que muita coisa fosse feita, mas pelo menos mudasse o panorama. Esta família tem todo o direito de ir embora, assim como aqueles que ficam tem o direito de protestar; eles só não têm o direito de desistir do Brasil.

E lutar por este país não significa passar por cima da vontade da maioria e achincalhar a democracia; lutar pelo Brasil não é exigir a intervenção militar que arranque do seu posto uma presidente eleita com os votos da maioria; lutar politicamente pelo Brasil é fazer oposição ideológica e política baseada em debates claros e não em xingamentos e depreciações.

Independente do pranto convulso das viúvas, a política nacional segue em frente, com desafios cada vez maiores. O país anseia por lutas cujo prêmio seja seu crescimento e desenvolvimento. Em vez de chorar, prantear uma vitória que não aconteceu, é hora de abrir caminho para auxiliar o governo eleito, que tem seus deméritos, mas ainda assim é aquele que está no poder.

*Mailson Ramos é escritor, profissional de Relações Públicas e autor do blog Opinião e Contexto. Escreve semanalmente para Pragmatismo Político.

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Comentários

  1. Alberto Araujo Postado em 10/Nov/2014 às 19:22

    Elas nunca usaram black-tie, nunca choraram pelos maridos e filhos torturados, desaparecidos e assassinados, elas sabem o que fazem, querem o golpe para ver os negros novamente na senzala, os pobres retornando a miséria...

  2. JoaoMineirim Postado em 10/Nov/2014 às 20:03

    A senhora de cabelos brancos na foto, tenho a impressão de tê-la visto, durante os protestos de 2013, naquela manifestação pedindo intervenção militar. Suspeito que seja uma das "filhas solteironas" de militares que recebem pensão vitalícia, enquanto não casarem.

  3. Denisbaldo Postado em 10/Nov/2014 às 20:06

    Eleitores do Aécio são: negativos, preconceituosos, descrentes, vira-latas, pessimistas, chatos, ruins de cama, mal-amados. Eleitores da Dilma são: positivos, orgulhosos, otimistas, bons de papo, alto astral, felizes com a vida, pessoas realizadas!!! Coxinhas gritando em 3, 2, 1,...Hahahahaha!

    • Vera Postado em 12/Nov/2014 às 01:17

      Estas pessoas são extremamente autoritárias (não aceitam a democracia), conservadoras no mau sentido: da estagnação e do retrocesso. O sonho delas é voltar ao passado para manter seus privilégios e continuar a explorar os menos favorecidos, não se conformam com as mudanças sociais da última década.

  4. Carlos Postado em 10/Nov/2014 às 22:31

    Intervenção militar é diferente de impeachment.

    • João Almeida Postado em 10/Nov/2014 às 23:52

      Intervenção militar para derrubar um governo é golpe. Impeachment é resultado de processo feito pelo Congresso. Nos dois casos, as viúvas não têm nada a ganhar nessas passeatas. Ou estão pedindo um golpe, ou estão pedindo uma finalização de um processo que nem existe. Elas só estão mostrando para a sociedade o quão más perdedoras são.

  5. Maria do céu Postado em 11/Nov/2014 às 00:50

    Apesar de ser completamente contra a atitudes dessas mulheres que pediram a volta da ditadura achei lamentável que aqui só elas foram repreendidas. E os homens que também estavam lá? Chega de comparações entre mulheres dizendo que tipo é melhor, já somos suficientemente jogadas umas contra as outras na mídia convencional.

  6. Oscar das Neves Eustachio Postado em 11/Nov/2014 às 03:26

    Muito bom. Esse luto que não termina já passou das medidas. De apenas patético, no seu início, já perdeu a graça, na medida em que demonstra o arregaçar de dentes dos setores mais retrógrados.

  7. Mauro Lúcio de Oliveira Postado em 11/Nov/2014 às 08:02

    Quer uma pessoa mais mentirosa e cínica que Aécio? Cassação já! Aeroporto de Cláudio, nepotismo, desvio de 7 bilhões da saúde de Minas, 166 milhões desviados das prefeituras de Minas para sua campanha, Andréa Neves como funcionária, CEMIG, Gásmig, Furnas etc... Cassação para Aécio já! Lugar de Corrupto é na cadeia!

  8. Priscila Postado em 11/Nov/2014 às 09:21

    Este povo é muito influenciado pela mídia... Principalmente pela globo... Porque se realmente investigassem a vida política dos candidatos, jamais votariam no Aécio. Fico revoltada com tamanha ignorância. Eu sei que estamos sofrendo com a inflação, tbém sei que a corrupção corre solta, mas diante das opções que temos pra política, é preciso fazer uma comparação, investigação e estar sempre lutando e cobrando dos políticos. Pedir intervenção militar é o cúmulo da ignorância, criticar os nordestinos é falta de respeito com o próximo. Estamos no século XXI e as pessoas ainda se diferem por etnia, cultura, opção sexual. Que perda de tempo!!! Temos que protestar contra essas pessoas, porque estão implantando o ódio, incentivando a guerra... Vamos pra rua!!!

    • CARLOS Postado em 11/Nov/2014 às 11:30

      Naro, o voto é obrigatório.

  9. Priscila Postado em 11/Nov/2014 às 12:33

    O que aconteceria se não votássemos em nenhum deles? Estaríamos fugindo da participação política. E cobraríamos de quem? Naro, concordo que está difícil escolher um representante, mas não escolher não é solução!

  10. Priscila Postado em 12/Nov/2014 às 08:30

    É vdd! Com certeza a participação política não se resume somente ao voto, mas é um começo... Infelizmente o povo brasileiro é acomodado e as pessoas costumam pensar no seu próprio "umbigo"... Fica fácil manifestar pelos próprios interesses, quando na verdade não fazem nem sua parte para contribuir com o mundo!!!!