Redação Pragmatismo
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Política 11/Nov/2014 às 12:23
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O encontro de Stedile e dos movimentos sociais com o Papa Francisco

100 dirigentes populares de todo o mundo (maioria de não católicos) foram recebidos pelo Papa Francisco. Em 2.000 anos, nenhum papa jamais organizou uma reunião desse tipo com movimentos sociais

pedro stedile papa francisco vaticano
João Pedro Stedile e o Papa Francisco (divulgação)

Salvatore Cannavò*, do jornal Il Fatto Quotidiano

João Pedro Stedile olha a primeira página do jornal Il Fatto Quotidiano em que se vê Maurizio Landini enfrentando a polícia. “Um líder sindical sem gravata? Sério?” A piada sintetiza muito o perfil e a história desse dirigente, já de nível internacional, do movimento “campesino”.

O Movimento dos Sem-Terra, é uma organização fundamental do Brasil, imortalizada pelas históricas imagens de Sebastião Salgado e com uma história de 30 anos feita de vitórias e de derrotas, mas sempre no primeiro plano da organização dos agricultores.

Stedile é o seu dirigente mais importante. Ele nunca usou gravata e sempre concebeu o seu papel como porta-voz de uma realidade pobre, muito em busca da sua própria emancipação.

VEJA TAMBÉM: Papa Francisco critica capitalismo e vira vilão nos EUA

Marxista ligado à história da teologia da libertação, ele foi um dos organizadores do Encontro Mundial de Movimentos Populares que ocorreu no Vaticano na semana passada. Em uma das sessões desse debate, que ocorreu entre as curvas sugestivas da sala do Velho Sínodo, ele sugeriu aos purpurados presentes que canonizem até “Santo Antônio… Gramsci”.

Os Sem-Terra, a imponente organização que ele dirige, com cerca de 1,5 milhão de membros, têm uma história antiga de ocupações de terra, de lutas e conflitos também duros. Mas também cultivam uma relação “leiga” com o poder, ou, como ele explica, de “autonomia absoluta”. Por isso, na última eleição brasileira, apesar de não se envolver muito no primeiro turno eleitoral, depois apoiaram Dilma Rousseff no segundo.

Chegando na Itália para o encontro no Vaticano, ele fez uma turnê de encontros na península apresentando o livro La lunga marcia dei senza terra [A longa marcha dos sem-terra] (EMI Edizioni), de Claudia Fanti, Serena Romagnoli e Marinella Correggia.

No sábado à tarde, foi visitar a Rimaflow, em Trezzano sul Naviglio, a fábrica recuperada que Stedile, diante de 300 pessoas, batizou como “embaixadora dos Sem-Terra em Milão”.

Como nasceu o encontro no Vaticano?

Tivemos a sorte de manter relações com os movimentos sociais da Argentina, amigos de Francisco, com os quais começamos a trabalhar no encontro mundial. Assim, reunimos 100 dirigentes populares de todo o mundo, sem confissões religiosas. A maioria não era católica. Um encontro muito proveitoso.

O senhor é de formação marxista. Qual a sua opinião sobre o papa e a iniciativa vaticana?

O papa deu uma grande contribuição, com um documento irrepreensível, mais à esquerda do que muitos de nós. Porque afirmou questões de princípio importantes como a reforma agrária, que não é só um problema econômico e político, mas também moral. De fato, ele condenou a grande propriedade. O importante é a simbologia: em 2.000 anos, nenhum papa jamais organizou uma reunião desse tipo com movimentos sociais.

O senhor foi um dos promotores dos Fóruns Sociais nascidos em Porto Alegre. Há uma substituição simbólica por parte do Vaticano em relação à esquerda?

Não, acho que Francisco teve a capacidade de se colocar corretamente diante dos grandes problemas do capitalismo atual como a guerra, a ecologia, o trabalho, a alimentação. E ele tem o mérito de ter iniciado um diálogo com os movimentos sociais. Eu não acho que há sobreposição, mas complementaridade. Em todo caso, assumo a autocrítica, como promotor do Fórum Social, do seu esgotamento e da sua incapacidade de criar uma assembleia mundial dos movimentos sociais. Do encontro com Francisco, nascem duas iniciativas: formar um espaço de diálogo permanente com o Vaticano e, independentemente da Igreja, mas aproveitando a reunião de Roma, construir no futuro um espaço internacional dos movimentos do mundo.

Para fazer o quê?

Para combater o capital financeiro, os bancos, as grandes multinacionais. Os “inimigos do povo” são esses. Como diria o papa, esse é o diabo. Mesmo que todos nós vivamos o inferno. Os pontos traçados do encontro de Roma são muito claros: a terra, para que os alimentos não sejam uma mercadoria, mas um direito; o direito de todos os povos de terem um território, seu próprio país, pense-se nos curdos de Kobane os nos palestinos; um teto digno para todos; o trabalho como direito inalienável.

Os Sem-Terra organizam cursos de formação sobre Gramsci e Rosa Luxemburgo. Nenhum problema para trabalhar com o Vaticano?

Nós vivemos uma crise epocal. As ideologias do segundo pós-guerra se aprofundaram. As pessoas não se sentem mais representadas. No entanto, essa crise também oferece oportunidades de mudança, desde que ninguém se apresente com a solução pronta no bolso. Será preciso um processo, um movimento de participação popular. E qualquer pessoa disposta a participar dele deve ser incluída.

No Brasil, vocês apoiaram a eleição de Dilma Rousseff. Qual é a sua opinião sobre o governo do PT e o seu futuro

A autonomia, para nós, é um valor importante. O PT geriu o poder com uma linha de “neodesenvolvimentismo”, mais progressista do que o neoliberalismo, mas baseada em um pacto de conciliação entre grandes bancos, capital financeiro e setores sociais mais pobres. A operação de redistribuição da renda favoreceu a todos, mas principalmente os bancos. Agora, porém, esse pacto não funciona mais, as expectativas populares cresceram. O ensino universitário, por exemplo, integrou 15% da população estudantil, mas os 85% que ficaram de fora pressionam para entrar. Só que, para responder a essa demanda, seria preciso ao menos 10% do PIB, e, para levantar recursos desse tamanho, se romperia o pacto com as grandes empresas e os bancos.

Então?

O governo tem três caminhos: unir-se novamente à grande burguesia brasileira, como lhe pede o PMDB, construir um novo pacto social com os movimentos populares ou não escolher e abrir uma longa fase de crise. Nós queremos desempenhar um papel e, por isso, propomos um referendo popular para uma Assembleia Constituinte para a reforma da política. A força do povo não está no Parlamento.

Qual é a situação do Movimento dos Sem-Terra hoje?

A nossa ideia, no início, era a de realizar o sonho de todo agricultor do século XX: a terra para todos, bater o latifúndio. Mas o capitalismo mudou, a concentração da terra também significa concentração das tecnologias, da produção, das sementes. É inútil ocupar as terras se, depois, produzirem transgênicos. Não é mais suficiente repartir a terra, mas é preciso uma alimentação para todos, e uma alimentação sadia e de qualidade. Hoje visamos a uma reforma agrária integral, e a nossa luta diz respeito a todos. Por isso, é preciso uma ampla aliança com os operários, os consumidores e também com a Igreja. Somos aliados de qualquer pessoa que deseje a mudança.

SAIBA MAIS: Os 10 segredos da felicidade, por Papa Francisco

Tradução: Moisés Sbardelotto, página do MST

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Comentários

  1. Flávio Prieto Postado em 11/Nov/2014 às 13:48

    Stédile e sua análise equivocada sobre o suposto esgotamento do modelo do PT para o Brasil. A alternativa à 'conciliação de classes' que ele menciona seria, na realidade, uma guerra fratricida de classes. Ele ainda vê a sociedade como um modelo binário (ricos vs pobres, detentores do capital vs detentores do trabalho), abstraindo todos os estratos intermédios como pequenos e médios produtores autônomos, agricultores familiares, profissionais liberais, servidores públicos, pequenos rentistas e assalariados com bom poder aquisitivo. Então é uma falácia. Não há como convocar tal luta no Brasil e na maior parte dos países do mundo, na atualidade, nesses moldes. Seria mais uma revolução de vanguarda, destinada ao fracasso. O que se tem é que lutar por governos cada vez mais redistributivos e garantidores de acesso social. Inclusão automática de todos é impossível, mas se você consegue retirar 40 milhões da miséria por década e incluir outros tantos em termos de educação, moradia, saúde ... vc está dando passos de gigante.

    • melissa Postado em 11/Nov/2014 às 23:49

      seu comentario é realmente muito mais realista que esse discurso infantil de o bem contra o mal.

      • Angelo Frizzo Postado em 19/Jan/2015 às 19:40

        Infantil? Não existem os genocídios promovidos por multinacionais contra Povos indefesos? Não existem bancos roubando (juros de 12 a 15% ao mês no Brasil) indiscriminadamente sem que haja PODERES para segurá-los? Não existem matanças de milhares de sem terras anualmente no Brasil por latifundiários ilegais? Não existem ainda (hoje bem menos)Brasileiros morrendo de fome?

  2. Caio Postado em 11/Nov/2014 às 19:25

    O papa é 10!! s2

  3. leonardo Postado em 11/Nov/2014 às 23:33

    Stedile anda lendo muito Mao Tse Tung aja Papa para aguentar só Francisco mesmo !!

    • Angelo Frizzo Postado em 12/Nov/2014 às 00:20

      Imagine que bom se o Brasil tivesse um Mao. Ele salvou o mundo que hoje teria , no mínimo , SEIS BILHÕES só de Chineses famintos, analfabetos e o pior: inteligentes e com cultura milenar. SEM dúvida MAO foi o Homem MAIS importante de todos os tempos. Construiu um NOVO PAÍS que já é o segundo do mundo e , em breve, o PRIMEIRO.

      • rodrigo Postado em 12/Nov/2014 às 01:59

        Parabens pelo esclarecimento Angelo. Com dificuldades, e sem usurpar os direitos de outras nacoes, a China vai passar a ser a numero um rm breve.

  4. Angelo Frizzo Postado em 12/Nov/2014 às 00:16

    Que abandono? Que críticas?Ouviu a "grobo"? Ela apenas fez suas considerações, a maiorias muito corretas, pois precisamos mesmo alguns redirecionamentos. Só globidiotas não mudam nunca.

  5. Bruno Postado em 12/Nov/2014 às 08:05

    Stedile reforça sua critica ao sistema financeiro que drena nossa economia através de juros altíssimos,e da transferência de recursos da sociedade para os detentores de papéis da dívida pública.Stédile sabe que se o governo não enfrentar esta situação o modelo Dilma se esgotará. Eu acredito em uma aliança entre governo, movimentos sociais e o empresariado verdadeiramente produtor assumindo a vangarda da economia e afastando os atravessadores financeiros como já o fizeram outros paises aqui mesmo na America do Sul.