Redação Pragmatismo
Compartilhar
Cuba 11/Nov/2014 às 11:03
5
Comentários

EUA fazem oposição, mas Cuba deve participar de Cúpula das Américas

Apesar das múltiplas pressões dos Estados Unidos, a América Latina se nega a organizar a próxima Cúpula das Américas sem a presença de Cuba. Esta poderá ser a primeira participação de Cuba no encontro em todos os tempos

cúpula das américas 2012 cuba
Última Cúpula das Américas realizada na Colômbia, em 2012 (Imagem: divulgação/dpa)

*Salim Lamrani, Opera Mundi

Pela primeira vez na história, a próxima Cúpula das Américas, que acontecerá em maio de 2015, no Panamá, poderá contar com a presença de Cuba, vítima de ostracismo por parte dos Estados Unidos desde o triunfo da Revolução em 1959. Com a expulsão da OEA (Organização dos Estados Americanos) em 1962, Havana não pôde participar das edições anteriores, de 1994, 1998, 2001, 2005, 2009 e 2012. Esse sétimo encontro, que agrupa os 34 países membros da OEA a cada três ou quatro anos, sucede a Cúpula de Cartagena, na Colômbia, de abril de 2012, na qual virulentos debates opuseram os Estados Unidos (apoiados pelo Canadá) aos demais Estados, que não aceitavam a ausência de Cuba. As nações do continente decidiram, por unanimidade, que novas reuniões não poderiam acontecer sem a presença do governo de Havana, isolando, assim, Washington.

Durante décadas, Cuba esteve isolada pelas pressões da Casa Branca. Assim, em 1962, todas as nações romperam suas relações com Havana, com a notável exceção do México. Hoje, todos os países da América têm relações diplomáticas e comerciais normais com Cuba, menos os Estados Unidos.

VEJA TAMBÉM: 28 dados sobre Cuba ignorados pelo Jornal Nacional

Washington multiplicou a pressão sobre o Panamá para que Cuba não fosse convidada em 2014. Além das intensas negociações diplomáticas diretas, os Estados Unidos emitiram várias declarações públicas se opondo à participação de Havana na próxima Cúpula das Américas. O Departamento de Estado, mediante sua secretária de Estado para os Assuntos do Hemisfério Ocidental, Roberta Jacobson, reiterou sua oposição à presença da ilha.[1]

Juan Carlos Varela, o presidente do Panamá, não cedeu às pressões estadunidenses e reafirmou a vontade de acolher Cuba. “A América é um só continente, inclui Cuba e é necessário ser respeitoso neste sentido.” A chanceler Isabel de Saint Malo disse ao secretário de Estados dos EUA, John Kerry, em visita a Washington que “todos os países devem estar presentes. […] Temos de buscar o que nos une e deixar por alguns dias qualquer divisão política para enfrentar desafios em conjunto. A participação de Cuba é importante porque poderia contribuir muito para o debate de situações políticas. Por exemplo, as negociações de pacificação da Colômbia acontecem em Havana”.[2]

O Panamá, inclusive, mandou a Cuba Isabel de Saint Malo, vice-presidente da República e também chanceler, para estender o convite ao presidente Raúl Castro.[3] “A família americana estaria incompleta sem Cuba. O Panamá manifestou como anfitrião que quer contar com todos os países. Se a Cúpula é das Américas e Cuba é um país membro das Américas, para que esteja completa a participação é necessária a presença de Cuba. Se você convida uma família para uma refeição e deixa um membro de fora, a família não está completa”, declarou Isabel de Saint Malo. Por sua vez, Martin Torrijos, presidente do Panamá entre 2004 e 2009, celebrou o “triunfo coletivo” da América Latina, que soube resistir às pressões provenientes do Norte.[4]

Até Miguel Insulza, secretário-geral da muito dócil OEA (Organização dos Estados Americanos), declarou seu desejo de ver Cuba na Cúpula: “não há nenhum motivo legal” que impeça a participação de Havana. Insulza lembrou que era tempo de os Estados Unidos “tentarem outra coisa”, depois de meio século de política hostil à ilha do Caribe e optar pelo “diálogo”.[5]

Durante a última Cúpula, de 2012, vários países como Argentina, Venezuela, Bolívia e Nicarágua condicionaram a participação na edição de 2015 à presença de Cuba. Em maio de 2014, os membros da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), que agrupa 12 nações, publicaram uma declaração na qual expressavam “vontade de que a irmã República de Cuba esteja presente na próxima Cúpula das Américas de forma incondicional e em plano de igualdade”.[6]Haiti e Nicarágua expressaram o mesmo ponto de vista. Segundo Manágua, “uma Cúpula das Américas sem a presença de Cuba não é uma Cúpula das Américas”.[7]

O Equador já boicotou a Cúpula de Cartagena, de 2012. Seu presidente, Rafael Correa, explicou os motivos: “é inadmissível uma Cúpula das Américas sem Cuba, como era inadmissível uma Organização de Estados Americanos sem Cuba”. Em 2009, a OEA decidiu revogar a resolução relativa à exclusão da ilha. “A América Latina não pode tolerar isso. Decidi que, enquanto for presidente da República do Equador, não voltarei a assistir nenhuma Cúpula das ‘Américas’”, acrescentou.[8]

A solidariedade expressa pela América Latina a Cuba é emblemática da nova era, que o continente atravessa há 15 anos, marcada pela vontade de emancipação, independência e integração, e rejeição da hegemonia estadunidense. Ilustra também o isolamento total no qual Washington se encontra e o repúdio que suscita sua política obsoleta e cruel de sanções contra Havana, que afeta as categorias mais vulneráveis da sociedade, a começar pelas mulheres, as crianças e os idosos.

*Salim Lamrani é Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista

[1] EFE, « U.S. Reaffirms Opposition to Cuba Attending Americas Summit », 26 de setembro de 2014.

[2] EFE, « Juan Carlos Varela quiere a Cuba en la Cumbre de las Américas », 8 de setembro de 2014.

[3] Granma, “Recibió Raúl a la Vicepresidenta de Panamá”, 19 de setembro de 2014.

[4] EFE, « Canciller panameña: familia americana estaría incompleta sin Cuba », 19 de setembro de 2014.

[5] EFE, « ‘No hay motivo legal’ que impida a Cuba ir a la Cumbre de las Américas, dice Insulza », 5 de setembro de 2014.

[6] UNASUR, “Declaración de los cancilleres de UNASUR”, 23 de maio de 2014.

[7] Cubadebate, “Países de la región exigen presencia de Cuba en próxima Cumbre de las Américas”, 6 de junho de 2013.

[8] Cubadebate, « Exige Correa presencia de Cuba en Cumbre de las Américas 2015 », 5 de junio de 2014.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook.

Recomendados para você

Comentários

  1. Marcos Vinicius Postado em 11/Nov/2014 às 11:16

    Agora vão chamar os presidente do Panamá de PTralha! kkkkk

  2. carem Postado em 11/Nov/2014 às 16:42

    Concordo em 'gênero, número e grau' ,com a Participação de Cuba, já que os eua negociam com muitas ditaduras , e até PATROCINARAM várias ditaduras, e negociam com a CHINA ,então NÃOO tem nenhuma razão em querer isolar Cuba, coisa esta que está OBSOLETA e Anacrônica, ainda mais q Cuba está, a cada dia, mais igual à China, nas suas politicas econômicas !!!, Cuba na OEA e na Cúpula das Américas, já e com atraso ..... a Inglaterra e diversos países do mundo estão cada vez mais, ampliando o comércio com Cuba, acertadamente..

  3. Targino Silva Postado em 11/Nov/2014 às 19:13

    Essa marcação com Cuba ja esta cansando, cansou demais. 50 anos, o povo não se rebelou é porque aceitou.

    • Luis Postado em 12/Nov/2014 às 01:41

      Amigo, uma população não se revelar contra um regime por longos períodos não reflete apoio ao mesmo. Se fosse por isso , a população da Coreia do Norte ou da China morreriam de amores pelo governo, o que não é o caso ( se bem que na CN, com sua lavagem cerebral orwelliana, isso não está muito longe da realidade..) Acho que o governo americano, em vez de continuar com esse embargo interminável e que, sim, prejudica muita gente pobre de Cuba, devia nessas cinco décadas simplesmente ter invadido o pais , destruído aquele regime horripilante e levado Fidel & companhia a julgamento por todos os crimes que cometeram. Mas para ele, Cuba não vale uma invasão militar em grande escala, infelizmente.

    • Felipe Peters Berchielli Postado em 12/Nov/2014 às 15:55

      Concordo com o Luis. E ao meu ver,os Castro deviam se tocar e pedir o boné,ja estão a muito tempo roendo o osso.