Redação Pragmatismo
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Preconceito social 17/Sep/2014 às 10:56
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São Paulo fez o que de melhor faz: reprimir pobre

Violência policial contra os sem-teto recebeu apoio de parte da população. São pessoas que gostam de se enganar; se sentem mais seguras com o Estado agindo assim e seguem a doutrina: “se você apanhou da polícia, é porque alguma culpa tem''

Leonardo Sakamoto

Foram bizarras as cenas de violência policial contra os sem-teto na desocupação de um prédio, na região central de São Paulo, nesta terça (16).

Daí, dou uma fuçada na rede e vejo que há muita gente defendendo o que houve. Dizendo que a pancadaria foi justa (pancadaria, sim, porque não existe confronto possível entre bombas e balas e paus, pedras e móveis usados). Ou que os sem-teto estavam “pedindo” para apanhar ao ocuparem um edifício.

Quando vejo pessoas ocuparem um prédio ocioso, não consigo deixar de ficar feliz porque aquele imóvel, finalmente, poderá ter uma função social. Com exceção do dono do prédio, de outros donos de edifícios ociosos e de seus representantes políticos, legais e econômicos, ou das pessoas que pertençam às mesmas classes sociais desse pessoal já citado ou que é por eles pagos para defender seus interesses, é difícil entender a razão de ter gente que sai atacando uma ocupação de sem-teto como essa, fazendo o papel de soldadinho não-remunerado.

VEJA TAMBÉM: A culpa por você ser pobre e sem estudo é totalmente sua!

Vou dar um exemplo que já trouxe aqui. Atenção para a declaração abaixo:

“Trabalhei a vida inteira e nunca tive uma casa própria. Agora, vem um bando de desocupado e invade um prédio para chamar de seu? A polícia tem que descer o cacete nesse povo para aprender que patrimônio só surge do suor e do trabalho.”

Nada como uma sociedade doutrinada para servir de cão de guarda, não? Já eu prefiro esta versão mais sincera:

“Se eu sou um covarde e não tenho coragem de lutar pelo que acredito ser uma vida digna, permanecendo na ignorância (que é um lugar quentinho) e preferindo ruminar silenciosamente entre os dentes a minha infelicidade, quero que o mundo faça o mesmo.”

Vocês acham realmente que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade, que podem propiciar alternativas de vida, são alcançáveis a todos e todas desde o berço? E que todas as pessoas ricas e de posses conquistaram o que têm de forma honesta? Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação? Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica?

Então, saiba que sem essa vigilância invisível feita pelos próprios controlados (que não refletem, apenas repetem), é impossível um grupo se manter no poder por tanto tempo e de forma aparentemente pacífica como ocorre por aqui.

Bem, já coloquei aqui meu ponto de que acho que lançar famílias ao relento enquanto a especulação imobiliária corre solta é ridículo.

Mas há outra coisa importante. A polícia tem que ser mais fria que o cidadão em uma desocupação ou um protesto. Se a sua missão for garantir a segurança de todos, ela deveria cumprir isso evitando o confronto. Engolindo mais sapos se for necessário, afinal ela não está em guerra com a sua própria gente. Muito menos em uma competição para ver quem tem mais poder.

Porque isso já deveria ser claro: o povo.

E, para isso, a polícia tem que estar preparada, principalmente psicologicamente. Mas não está.

Não, policiais não são monstros alterados por radiação após testes nucleares em um atol francês no Pacífico. Não é da natureza das pessoas que decidem vestir farda (por opção ou falta dela) tornarem-se violentos. Elas aprendem.

No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua herança mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na exploração diária como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter o status quo.

Investido de poder para cumprir essa missão, o policial aprende a não ser contrariado ou atacado. Foi hostilizado por famílias que não têm nada, nem onde morar, revoltadas por estarem sendo colocadas na rua? Manda bomba. Recebeu uma resposta atravessada em uma blitz? Esculacha. Achou que a presença da imprensa é uma afronta à sua atuação como profissional? Atira bala de borracha.

O problema não se resolve apenas com aulas de direitos humanos e sim com uma revisão sobre o papel e os métodos da polícia em nossa sociedade.

E com mudanças políticas. Porque, por mais que a polícia faça o que quer, ela responde a ordens. E ordens de quem?

Setores da polícia estão impregnados com a ideia de que nada acontecerá com eles caso não cumpram as regras. Outra parte sabe que a mesma sociedade está pouco se lixando para eles e suas famílias, pagando salários ridículos e cobrando para que se sacrifiquem em nome do patrimônio alheio.

Parte da população apoia esse tipo de comportamento policial. Gosta de se enganar e acha que se sente mais segura com o Estado agindo dessa forma. Essas pessoas são seguidoras da doutrina: “se você apanhou da polícia, é porque alguma culpa tem”.

E se não se importam com inocentes, imagine então com quem é culpado. Para eles, é pena de morte e depois derrubar a casa e salgar o terreno onde a pessoa nasceu, além de esterilizar a mãe para que não gere outro meliante. Enfim, mais do que um país sem memória e sem Justiça, temos diante de nós um Brasil conivente com a violência como principal instrumento de ação policial.

Ou talvez isso nem seja um problema, não é? Afinal, com algumas exceções, isso é uma briga envolvendo pobres (policiais) contra pobres (quem é baleado ou é mandado para a cadeia).

Que já é muito útil normalmente para manter as coisas como estão. Em período eleitoral, então, nem se fala.

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Comentários

  1. Luciano Postado em 17/Sep/2014 às 11:30

    Tem que citar aí que nem todos esses chamados sem-teto são pessoas realmente sem-teto,muitos já tem o seu teto,mas não se contentam somente com isso,eles querem mais para explorar outro sem-teto,isso é um circulo vicioso,na favela isso é muito comum,terrenos invadidos,onde é muito comum um deles serem donos de vários barracos e aluga-los para pessoas que nada tem.

    • eu daqui Postado em 12/Dec/2014 às 13:16

      O vitimista é um saco sem fundo: quanto mais vc faz por ele mas ele te odeia e te extorque. O oportunocoitadista prefere passar de vítima a vilão, e não a herói, que pra parasitagem dele é bem mais vantajoso. Tenho essa praga bem por perto e afirmo com a convicção da experiencia que essa imundídice é todo a desgraça da civilização.

  2. Mari Postado em 17/Sep/2014 às 11:39

    Muitos estavam certos quando criticaram aqueles que amarraram o rapaz no poste fazendo justiça com as próprias mãos. Repito, as críticas foram corretas. Mas será que aqueles que invadiram prédios desocupados também não estão fazendo justiça por conta própria? Por que não vemos críticas a atitudes como essa? As pessoas tem o direito de moradia, mas diante da omissão do Estado agem por conta própria. Quanto a ação da polícia, realmente é lamentável.

  3. Denisbaldo Postado em 17/Sep/2014 às 12:02

    O que a polícia sabe fazer muito bem é reprimir pobre, sendo criminoso ou não. O resto não sabe, não quer ou não pode aprender.

  4. Jonas Schlesinger Postado em 17/Sep/2014 às 13:10

    Tá mas por exemplo já vi muito esses pé rapados invadirem terrenos particulares e quando o dono quer fazer algo eles botam o maior queixo do mundo pra sair. Só a polícia pra botar pra fora mesmo. Agora que tem policial escroto, isso eu concordo. Detesto quando eles batem em jornalistas, pois acham que é bandido. Mas enfim eu to meio a meio nessa matéria. É dever do Estado arranjar um teto pra esse tipo de gente morar.

    • eu daqui Postado em 12/Dec/2014 às 13:17

      Não. É dever do estado investir em educação, sáude e nos setores produtivos pra esse pessoal poder conquistar seu teto com trabalho.

  5. Antônio Postado em 17/Sep/2014 às 18:36

    Uma melhor distribuição de renda e imposto sobre grandes fortunas é o melhor caminho para que todos os brasileiros tenham uma casa para morar. Acabar com a especulação imobiliária o mais urgente possível. Onde a justiça e a fraternidade se ausenta a violência aparece. Observem que a violência é somente contra os menos favorecidos da sociedade, os párias, os ninguens.

  6. Danilo Postado em 18/Sep/2014 às 15:50

    Então por ser pobre a pessoa não pode ser punida ?

    • eu daqui Postado em 12/Dec/2014 às 13:18

      Nazipobrismo: a mais nova ideologia da m contemporanea.