Redação Pragmatismo
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Racismo não 15/Sep/2014 às 12:33
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(Des)encontro com Fátima Bernardes ensina a como não debater o racismo

Programa global se dispôs a debater o racismo, mas convidou para o debate apenas brancos e não abordou as consequências para as vítimas de agressões racistas. Ao contrário, justificou o racismo dentro de um “determinado contexto” - tudo com o carimbo de um “médico especialista”

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Yure Romão, Mamapress

Venho acompanhando o decorrer do caso de racismo contra o goleiro Aranha através dos blogs, jornais, sites e programas de televisão e acredito que bons debates e boas discussões vêm sendo colocados em cena, sobretudo no que diz respeito ao racismo dentro do esporte e ao racismo que opera incessantemente no Brasil, seja através de xingamentos, humilhações, prisões sistemáticas e genocídios cotidianos que não param.

Nesse texto em especial gostaria de abordar o programa matinal do dia 9 de setembro da apresentadora Fátima Bernardes, que convidou Patrícia Moreira, a “gremista (,) acima de tudo” para dar suas “explicações”. Quero analisar o programa como um todo, em especial a fala e a presença de um médico.

VEJA TAMBÉM: Por que é racismo chamar um negro de macaco?

Primeiramente, o que me saltou aos olhos em um programa que debaterá o racismo, foi o fato de não haver nenhum negro compondo o palco onde estariam os convidados. Nenhum negro. Este fato já nos dá em primeira mão a intenção do programa, que certamente não estava disposto a realizar um debate, mas sim uma amplificação de um monólogo de amenização do racismo, onde cada fala só busca reforçar e embasar a fala do outro.

A parte da comoção popular, da utilização sensacionalista da imagem de uma pobre menina branca, com olhos lacrimejantes, beiços trêmulos, que acima de tudo ama seu time e pede perdão, já era de se esperar e não me causou espanto. É televisão, e parafraseando o teatrólogo Augusto Boal a respeito das novelas, só é preciso certa dose de empatia entre personagem e espectador para que a máquina de culpa, redenção dos pecados e final feliz comece a funcionar. Claro, dentro da televisão.

A discussão do programa se limitaria então a um apelo sensacionalista, colocando o racismo como um Mal intrínseco, que somente pessoas diabólicas, de aparência medonha e chifres na cabeça poderiam concretizar. – “Uma menina que é auxiliar de dentista, que ama futebol assim como todos os brasileiros, que pediu perdão e está chorando em rede nacional não pode ser malvada a esse ponto.” Pronto! Tá pronta a arapuca!

Só entra nessa quem quer. Só cai nessa arapuca quem não quer ver que o racismo no Brasil está muito além de bem e de mal, que na verdade ele está impregnado em todas as relações e todas as instituições, desde as escolas maternais onde crianças negras são vistas como “futuros marginais”, “hiperativas”, “com dificuldades de aprendizagem”, “encarnações do mal”, até a instituição máxima de nossa punição social: a cadeia, onde negros são amontoados como animais, como é o caso de Rafael Braga, um negro, morador de rua preso (e já cumprindo pena) por porte de detergente e substâncias inflamáveis durante uma manifestação no Rio de Janeiro. Isso claro, se não forem julgados e sentenciados a morte antes de chegarem aos tribunais, como foi o caso dos dois menores levados por dois policiais no centro da cidade há pouco tempo e um deles foi executado na floresta da Tijuca. Essas prisões e mortes estão previstas dentro de nossas instituições racistas e propagadoras do racismo. São amenizadas e muitas vezes naturalizadas.

Ser racista independe da índole ou do carácter da pessoa, é algo independente de ter amigos negros ou não, se você transa com negros ou não. Na hora em que o “bicho tá pegando” e que o teu está na reta, o racismo não aparece simplesmente. Não brota do nada como algo impensado e inconsciente, mas é o resultado de algo trabalhado e repetido todos os dias, em todos os lugares e necessário para que o “modus operandi branco” se mantenha no topo e a relação se mantenha vertical. Trata-se apenas de uma resultante instantânea de um racismo institucional e cotidiano.

O racismo não é um sentimento que aflora em determinados momentos, como as pessoas vêm tentando dizer. Ele é nada mais, nada menos que o não-sentimento por aquilo que é considerado um não-humano no momento da agressão. O racismo está presente em nossas vidas 24 horas por dia, 365 dias por ano. Não existe falar sem intenção ou não ter noção do peso de algo que vem sendo dito e propagado há mais de 500 anos nesse país. A intenção é extremamente forte, pesada e antiga, mesmo que pronunciada com doçura e carinho. Aqueles que alegam dizer algo racista sem intenção, estão duplamente errados: uma pelo insulto racista e outra pelo pouco caso que fazem do efeito desse insulto e do peso dele, ao usar essa justificativa.

Voltemos ao programa de Fátima Bernardes. Após o chororô apelativo e algumas frases sem nexo, ditas por Patrícia e possivelmente ditadas por seu advogado, entra em cena o personagem que me chamou atenção: o Doutor. A voz da ciência.

Se em um primeiro momento tentaram nos fazer engolir que havia uma “incoerência” no fato de uma menina de ar “angelical” ter um ato racista, apelando para nossas crenças e para as imagens de bondade com cabelos lisos e pele branca que reproduzimos do jogo televisivo, das revistas, clipes e afins; em um segundo momento temos a Ciência para carimbar o passaporte de inocência e de pureza de Patrícia, usando o argumento do “Inconsciente” ou de uma possível “histeria coletiva”, em que tomada pelo impulso, a jovem foi quase que obrigada a insultar o goleiro Aranha. Nas duas explicações, Patrícia não estava no controle de suas ações. Nas palavras do “Doutor” :

-“Essa não é a primeira história, existem diversas histórias de pessoas que se envolvem em confusões, manifestam uma opinião que muitas vezes não é dela e acaba arcando com as consequências por ter sido flagrado ou detectado […]” (Médico Fernando Gomes Pinto-neurocirurgião e neurocientista);

O “Doutor” continua sua explicação, amenizando a situação dizendo que não é a primeira vez que esse comportamento acontece. Pausa dramática. Puta que o pariu! Se esse é um comportamento que se repete, isso deveria nos chocar e nos inquietar na busca de uma solução para esta merda e não nos apaziguar, naturalizando a gravidade do ocorrido, que inclusive gerou consequências jurídicas para a equipe e para os torcedores. Mais uma vez é a voz do programa gritando em nosso ouvidos.

O que esse médico faz nessa fala e nesse programa específico, cujo o tema era o racismo é absurdamente grotesco. Ele simplesmente legitima uma atitude racista de qualquer pessoa, sob a alegação de que em situações como essa o cérebro não é controlado mais pela pessoa e passa a agir sozinho. É a biologia mais uma vez controlando as ações sociais do ser humano. Digo “mais uma vez” porque no início do século XX, baseado no discurso cientificista, o mundo acreditou por muitos anos que fatores biológicos determinavam ou não tendências criminosas e por conta disso, pessoas com nariz largo, cor mais escura, lábios grossos tinham maior propensão a serem criminosos ou a cometer delitos. Estudos “comprovados” dessa época, diziam que o cérebro do negro era menor que o do homem branco. Racismo fantasiado de ciência. Agora o argumento é o mesmo, mas com o objetivo de inocentar aquele que comete o crime e curiosamente não se trata de um negro, mas de uma menina branca.

Para finalizar, gostaria de compartilhar com vocês, leitores, as estratégias que meus olhos e meus ouvidos não conseguiram deixar passar em branco nesse programa que se propõe a falar sobre o racismo. Com apenas convidados brancos, o programa apresenta a imagem de uma jovem indefesa, oprimida e arrependida, não promove um discussão real sobre o racismo, sobre suas consequências para as vítimas de agressões racistas e legitima a atitude da jovem que grita “macaco” influenciada pela euforia da massa e pelo calor do momento. Tudo isso carimbado e assinado pela presença de um médico que justifica e naturaliza a atitude da moça dentro de um determinado contexto.

VEJA TAMBÉM: Racismo e caso Aranha: O que Luciano Huck e Danilo Gentili têm a ver com isso?

Note-se que nesse programa não se coloca em dúvida se o ato foi racista ou não, mas tenta-se o tempo todo amenizar a situação frente a população, ao dizer que trata-se de um ato frequente em situações como essa. Está na hora de atacarmos de frente essas estratégias de apaziguamento, amenização e relativização do racismo, que acabamos aceitando muitas vezes em nossas vidas por conta das complicações e dores de cabeça que podem nos causar. Nossas cabeças estão a prêmio há muito tempo com dores ou sem. Não importa o que façamos sempre se dá um jeito de inverter a situação para amenizá-la. Ataquemos então esses mecanismos de apaziguamento, essas estratégias de inversão, essas estruturas pré-prontas que dizem discutir o racismo e que não apresentam nada além de explicações e justificativas para atos racistas, essas mesas de debate que só possuem uma única voz e dizem contemplar a todos sob a fantasia da neutralidade.

Combatamos esse neutro que nos silencia em todas as esferas políticas, esse “Somos todos da raça humana” que inclui todos somente até o momento em que somos desumanizados, animalizados e então o discurso de igualdade do ser humano vai por água abaixo e os direitos deixam de existir. Xingar de “macaco” dentro de um estádio é um ato de animalização através do discurso, mas que ultrapassa a esfera do mesmo sempre que se amontoam negros em celas da prisão, sempre que “Candelárias” se repetem, sempre que “Cláudias” são arrastadas pelas ruas da cidade, sempre que falam por nós, sobre nós em programas de televisão e nos silenciam ou fingem não entender o que falamos, como se fôssemos animais. O chamar de “macaco” é muito mais do que uma simples ofensa oral. É reflexo de todo um pensamento de animalização do negro desde o período da escravidão e que perdura até os dias de hoje. Não há nada para amenizarmos, o caso é muito mais grave do que imaginamos e o buraco é muito mais embaixo. Façamos ouvir nossas Vozes!

NENHUM PASSO ATRÁS.

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Comentários

  1. Leici Postado em 15/Sep/2014 às 13:08

    Sem dúvida, podemos dizer que esse é um dos piores programas da televisão brasileira!

  2. moriatti Postado em 15/Sep/2014 às 13:20

    Boa a percepção. Somos da espécie humana e não somos todos macacos. O fato é que disfarçar a falta de disposição para discutir o avanço de atitudes racistas como essa por meio da máscara da "neutralidade" só nos afasta cada vez mais de construirmos uma sociedade com equidade de direitos para todos. Muito sóbrio e potente o seu texto, Yure; A segregação e genocídio de negros no Brasil é real e precisa ser analisada sem colocarmos panos quentes.

  3. sleiman Postado em 15/Sep/2014 às 13:46

    Texto encharcado de indignação. Jamais um branco escreveria assim, e isso. Imagino que seu autor seja também negro. E, mesmo que não o seja, não há contradição. A empatia é uma grandessíssima virtude.

    • André Anlub Postado em 15/Sep/2014 às 20:13

      Seguindo a sua lógica de vidente, estou vendo aqui na minha bola escrotal que o sr. é branco e tem um balão em cima da cachola escrito: ""tanta palhaçada, tanto mimimi... essa menina com certeza tem amigos negros, e ainda deve dizer bom-dia ao porteiro escurinho.""

  4. julio cesar montenegro Postado em 15/Sep/2014 às 14:02

    detesto INSENSÍVEIS que depois de morder e de ouvir nosso sentido gemido sopram "é de brincadeira"

  5. poliana Postado em 15/Sep/2014 às 14:41

    Cara, (obviamente), n assistir o programa, mas so em ler a descrição do "debate sobre o racismo" proposto pela pauta, já me deu (ainda mais) nojo da rede globo. Caramba, qta merda!! Essa emissora se supera a cada dia. N sei como tem gente q ainda assiste esse lixo! Q raiva meu deus. Depois dessa merda, até fiquei com mais raiva dessa moci ha, pobre cotadinha, branquinha de cabelos lisos e olhar angelical, q teve a casa incendiada "só" pq chamou um carinha de macaco! Como pode..ela sim é uma pobre vítima da sociedade!!!

    • Júlia Postado em 15/Sep/2014 às 17:35

      Acho que não é justificável incendiar a casa dela, mas o resto eu concordo. Pressão, uma ova! Se ela xingou, é porque é racista mesmo. Poderia citar vários exemplos de pessoas que fazem a coisa certa mesmo sob "pressão" de histeria coletiva.

      • eu daqui Postado em 16/Sep/2014 às 13:13

        Apedrejamento e incendio criminoso é desproporcional em qualquer legislação/cultura desse planeta. Prova que que o odio nazinegrista é semrpe maior do que o brancoracismo.

  6. Jonas Schlesinger Postado em 15/Sep/2014 às 15:17

    Realmente tudo isso deu em nada. Muita merda pra pouca privada. Ps: Fátima tá uma beleza hein kkk

    • KARINA BB Postado em 15/Sep/2014 às 15:33

      Sempre xavecando a mulherada neh jonas schlesinger ashuashuashusa,,,,,a tia fatima xuxu rsrsss sem graça esssa mulher,é tipo sandy,angelica,,,,,mulher XUXU..Gente a globo é racista,hipocrita,suja,preconceituosa e promove preconceitos em toda a sua programaçao ,,,,QUAL A NOVIDADE !!!!!!!!

    • luisa valdor Postado em 19/Sep/2014 às 14:58

      Pois é, e seu profundo comentário é idêntico a outros preconceituosos como o seu. Vc certamente deve nutrir uma grandessíssima empatia com a corja nazi-fascista racista. Eu sou branca, nível superior, com pós-doc em economia por uma universidade europeia e me solidarizo com o Aranha e todos os negros e negras vítimas da sordidez racista. Só mais uma coisa: realmente seu comentário é muita merda pra pouca e pequena privada que deve ser sua mente.

  7. Leonardo Postado em 15/Sep/2014 às 15:53

    Não se pode esperar nada que preste da Rede Globosta, que ao lado da Revista inVeja, estão entre as piores coisas que existem no Brasil. Resumo: programa medíocre e péssimo, padrão "Globo" mesmo. E parabéns por esse texto excelente!

    • Charles Postado em 17/Sep/2014 às 20:14

      kkkkkkkkkkkkk

  8. Rodrigo Eiras Postado em 15/Sep/2014 às 16:14

    Como diria Fanon, a virtude é branca como o pecado sempre será negro. Excelente texto, o melhor sobre o tema envolvendo o caso Aranha. Parabéns.

  9. Leandro Rodrigues Postado em 15/Sep/2014 às 17:22

    Concordo com o texto acima,mas querer tirar algo útil de um programa de tv como esse é querer demais né?

  10. Deisi Postado em 15/Sep/2014 às 17:56

    Felizmente nunca assisti o programa (Des) encontro, nem à estreia, me lembro que foi um alvoroço, todo mundo no horário da manhã preocupados com audiência. Inclusive comentei em casa não sei porque os apresentadores estão preocupados com a Fátima Friboi ela não tem carisma nenhum, minha previsão se confirmou os índices de audiência são pífios. O texto definiu perfeitamente a nossa realidade, é assim mesmo que acontece, muitos dizem ter amigos negros e não ser racistas, pura balela, e o fato de chamar um negro de macaco num momento de raiva só vem demonstrar que acredita muito em sua superioridade e esse é o jeito do branco lembrar um negro que ele é um animal inferior. Quanto um debate na Globo sobre racismo não ter nenhum negro e um médico branco com essa conversinha não é surpresa, sim a cara da Globo.

  11. Marcelo Coutinho Postado em 15/Sep/2014 às 18:51

    O mais absurdo é que tem pessoas que assistem a esse lixo global!!

  12. Paulo Postado em 15/Sep/2014 às 21:31

    A última vez que vi um julgamento tão "justo" foi o dos assassinos de Emmett Till.

  13. Pereira Postado em 16/Sep/2014 às 10:31

    "Gente a globo é racista,hipocrita,suja,preconceituosa e promove preconceitos em toda a sua programaçao ,,,,QUAL A NOVIDADE !!!!!!!!" Claro, colocar duas mulheres lindas como a tainá muller e a geovana antonele como protagonistas de homossexualismo é de um "preconceito" berrante !!!! Bem como colocar personagens crentes em papéis de caráteres duvidosos sempre. E ainda a esquerda reclama da globo, sua principal apoiadora !!!.

  14. Jose Santos Postado em 16/Sep/2014 às 11:17

    Com esse discurso de neutralidade e amenização promovido neste programa, essa emissora tenta mascarar suas próprias posturas racistas. Muito conveniente, às vésperas da estréia de sua nova minissérie: "Sexo e as nega". Fez muito bem o goleiro Aranha em recusar o convite do Fantástico, de ficar cara a cara com sua ofensora. Como se não bastasse ter suportado os insultos no estádio, teria que suportar todo esse cinismo, ainda mais ultrajante. No circo "global", além do papel de macaco, um papel de palhaço a ser assumido.

  15. Mara Postado em 05/Nov/2014 às 13:15

    Caros escritores de plantão. Muito me assusta o alto nível intelectual destes comentários mas mesmo assim vou tentar me fazer entender. Alguém pode me responder como ainda existe racismo nos dias de hoje? Não vale falar da Africa, Lei Áurea ou escravidão tá? E se tudo isso foi matéria escolar de anos passados ,então foi aula vista. Daí, como explicar essa onda cresceeeeente de racismo, principalmente entre os jovens brasileiros?