Redação Pragmatismo
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Eleições 2014 20/Aug/2014 às 10:28
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Comparando as entrevistas de Aécio, Campos e Dilma no Jornal Nacional

Uma análise das entrevistas de Aécio Neves, Eduardo Campos e Dilma Rousseff para William Bonner e Patrícia Poeta, no Jornal Nacional

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Eduardo Campos, Aécio Neves e Dilma Rousseff entrevistados pelo Jornal Nacional (Imagem: Pragmatismo Político)

Glauco Faria e Maíra Streit, Revista Fórum

O diabo mora nos detalhes, diz um famoso provérbio. No entanto, às vezes não é preciso descer tanto a eles para verificar a validade de uma determinada situação. No caso das entrevistas feitas com os presidenciáveis no Jornal Nacional até segunda-feira (18), rever os programas e verificar quais perguntas foram feitas a cada um e como se comportaram os entrevistadores pode revelar muito sobre o direcionamento do programa e da Rede Globo.

A postura e a forma incisiva como são feitas as questões, muitas vezes beirando a falta de educação ou simples pirraça, como nas ocasiões em que o entrevistador aparenta não gostar da resposta dada, pode passar a impressão de que William Bonner e Patrícia Poeta são “imparciais” e “apertam” os entrevistados de forma indistinta. No entanto, os temas e até mesmo as palavras mostram que a igualdade de tratamento passou longe.

ASSISTA:
A entrevista de Dilma no Jornal Nacional
A entrevista de Aécio Neves no Jornal Nacional
A entrevista de Eduardo Campos no Jornal Nacional

Na entrevista de segunda-feira (18), o tema central que ocupou quase metade da entrevista (7 minutos e 16 segundos dos 15 minutos e 58 totais) foi corrupção. Desde a pergunta inicial de Bonner, que enumerou sete ministérios e uma estatal onde teriam havido “escândalos”, durante um minuto e sete segundos, até a pergunta de Patrícia Poeta sobre saúde, que se iniciou com um “Corrupção não é o único problema”, o termo foi dito dez vezes pela dupla do telejornal, sete somente na primeira questão. Na entrevista com Aécio, a palavra apareceu somente em três oportunidades em uma pergunta de Poeta – em uma das vezes, relacionada ao PT –, e nenhuma na participação de Eduardo Campos.

Uma resposta dada por Aécio na primeira entrevista, aliás, parece ter “pautado” uma das perguntas feitas por Bonner ontem a Dilma. Veja a semelhança de conceitos entre ambos:

Patrícia Poeta: Candidato, o seu partido é crítico ferrenho de casos de corrupção que envolvem o PT. Mas o seu partido também é acusado de envolvimento em escândalos graves de corrupção. (…) Por que o eleitor iria acreditar que exista diferença entre os dois partidos quando o assunto é esse: corrupção?

Aécio Neves: Patrícia, eu acho que a diferença é enorme. Porque no caso do PT houve uma condenação pela mais alta corte brasileira. Estão presos líderes do partido, tesoureiros do partido, pessoas que tinham postos de destaque na administração federal, por denúncia de corrupção. (…) O que eu posso garantir é que, no caso do PSDB, se eventualmente alguém for condenado, não será, como foi no PT, tratado como herói nacional. Porque isso deseduca.

Nos grifos nossos da resposta acima estão os mesmos conceitos de “grupo de elite”, corrupto do PT e “tratamento de herói” dado pela legenda, embutidos na questão de Bonner sobre o tema feita ontem:

William Bonner: Então, me deixa agora perguntar à senhora. E em relação a seu partido? O seu partido teve um grupo de elite de pessoas corruptas, comprovadamente corruptas, eu digo isso porque foram julgadas, condenadas e mandadas para a prisão pela mais alta corte do Judiciário brasileiro. Eram corruptos. E o seu partido tratou esses condenados por corrupção como guerreiros, como vítimas, como pessoas que não mereciam esse tratamento, vítimas de injustiça. A pergunta que eu lhe faço: isso não é ser condescendente com a corrupção, candidata?

Para não haver dúvidas, o âncora do JN chama o que ele considera um grupo de elite petista de corrupto três vezes, para o telespectador, que um dia ele julgou ser Homer Simpson, entender bem. Um comportamento similar ao de qualquer apresentador de telejornal policial.

O consenso dos “economistas” do JN

A certa altura da entrevista de ontem, Bonner reclamou com a presidente: “Nós vamos falar de economia”, cortando a fala da petista e mesmo sua colega de bancada para fazer seu questionamento a respeito. Embora parecesse estar preocupado com a falta de tempo que restaria ao assunto, economia foi prioridade de fato nas duas entrevista anteriores do JN. Diferentemente do que ocorreu com Dilma, este foi o assunto que abriu as conversas com os presidenciáveis tucano e pessebista.

Sempre com diagnósticos sombrios sobre o panorama econômico do país, os jornalistas da Globo quase exigiram dos outros dois candidatos compromissos com o corte de gastos públicos, adiantando a quem assistia que “medidas impopulares” teriam que ser tomadas. Para Aécio, a pergunta incluiu o trecho:

(…) economistas que concordam com o seu diagnóstico para a economia brasileira dizem que essas medidas que o senhor tem anunciado não bastam, elas não seriam suficientes para resolver. Que seria necessário que o governo fizesse um corte profundo de gastos. Que seria necessário que o governo também eliminasse a defasagem de tarifas públicas como preço da gasolina e energia elétrica. A questão é a seguinte: o senhor não vai fazer essas medidas que os economistas defendem? Ou o senhor está procurando não mencionar essas medidas, porque elas são impopulares?”

Para Eduardo Campos, Patrícia Poeta não citou os “economistas que concordam com o senhor”, mas o termo “economistas” foi colocado de forma genérica, como se todos concordassem com a retração de gastos públicos:

Candidato, vamos começar a entrevista com a lista de algumas promessas que o senhor já fez, eu anotei algumas delas: escola em tempo integral, passe livre para estudantes do ensino público, aumento dos investimentos em saúde para 10% das receitas da União, manutenção do poder de compra do salário mínimo e multiplicar por 10 o orçamento da segurança. Tudo isso significa aumento dos gastos públicos. Mas o senhor também promete baixar a inflação atual para 4% em 2016, chegando até 3% até 2019. E isso, segundo economistas, exige cortar pesadamente gastos públicos. Ou seja, essas promessas se chocam, se batem. Qual delas o senhor não vai cumprir?

Quando falou com Dilma a respeito de economia, Bonner citou “analistas”, de novo de forma genérica, para justificar sua avaliação embutida na questão: “(…) os analistas dizem que 2015, ano que vem, vai ser um ano difícil, um ano de acertos de casa, que é preciso arrumar a economia brasileira e portanto isso vai impor algum sacrifício, vai ser um ano duro”.

Não há problema em um jornal ou veículo ter determinadas posições a respeito de temas diversos, como a condução da política econômica por parte de um governo. Seria ótimo, aliás, que todas as posturas fossem transparentes. No entanto, em uma série de entrevistas na qual se pretende dar condições de igualdade para todos, tocar logo de início em um assunto no qual o diagnóstico do entrevistador e do entrevistado parece ser similar, além de um conceito preestabelecido, dá vantagem óbvia a quem concorda com a tese. E deixa o telespectador sem margem para julgar que aquilo está longe de ser verdade inconteste, como a postura do perguntador sugere.

Tempo e intervenções

Mas o que talvez tenha saltado aos olhos na entrevista de ontem, comparando-se com as outras duas, foi a postura de William Bonner. Ele realizou pelo menos 21 intervenções em respostas de Dilma, ou interrompendo a fala da candidata ou voltando à questão, insatisfeito com a resposta dada. Na entrevista com Campos, o âncora fez isso cinco vezes, mesmo número de ocorrências na conversa com Aécio.

Também impressionou o ímpeto em acuar Dilma, se sobrepondo muitas vezes a Poeta. Bonner tomou ou tentou tomar a palavra durante 4 minutos, reservando meros 47 segundos a sua colega de trabalho (números aproximados). Na participação de Aécio no JN, Bonner falou durante 3 minutos e 9 segundos, e Patrícia Poeta durante um minuto e 46, mais que o dobro de ontem. Com Eduardo Campos, a distorção foi ainda maior: o âncora ocupou 2 minutos e 16 segundos, enquanto a jornalista ocupou 2 minutos e 8, quase o mesmo tempo que o companheiro de bancada. Na entrevista, Bonner deixou de ser entrevistador para se investir de sua outra função, a de editor-chefe. No caso específico, mais chefe que editor.

O modelo de entrevista

Millôr Fernandes dizia que “o xadrez é um jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez”. O modelo de entrevistas do Jornal Nacional é quase isso. Na prática, testa a capacidade do candidato de se portar em uma entrevista do programa. Pode ser útil sim, já que um candidato pode cometer um ato falho, se trair em alguma resposta, passar uma insegurança estranha ao eleitor etc. Mas está longe de elevar o nível do debate político.

VEJA TAMBÉM: Jornal Nacional surra Dilma por 82 a 3

E em geral são os jornalistas, justamente, que reclamam do vazio das propostas, dos programas, de posições pouca convictas dos candidatos. Mas entrevistas como estas, nas quais o entrevistador se traveste de inquisidor e desfila cobranças como a de que um candidato “se cerque de gente honesta”, como se este fosse o problema central da corrupção, contribuem muito pouco para que o embate político saia do raso.

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 20/Aug/2014 às 11:56

    Foram 21 interrupções de Bonner na fala de Dilma contra 6 de Aécio e 7 de Eduardo Campos. Existe algum idiota neste país que duvida da existência de uma mídia golpista?

  2. Allysson Wandeberg Postado em 20/Aug/2014 às 12:07

    Dilma bem que poderia ter dado uma alfinetada quando perguntada sobre corrupção lembrando que sonegar de impostos também é corrupção... Mas até que ela não se saiu mal. Bonner pressionando-a, interrompendo-a e tentando fragilizá-la só reforçou o lado obscuro da posição política da Globo... No mais, apenas alegrou meia dúzia coxinhas que viram a entrevista como uma espécie de chicote nas costas da presidenta, onde o algoz era o jornalista...

  3. Jonas Schlesinger Postado em 20/Aug/2014 às 12:26

    Isso foi na segunda. Ontem foi terça.

  4. Rafael Postado em 20/Aug/2014 às 12:32

    3 candidatos que não valem nada! Já na hora do Brasil ter um partido de direita que lute por justiça e pela família!

    • João Renato Postado em 21/Aug/2014 às 05:37

      partido de direita luta pelo individualismo, temos que ter um partido que lute pela sociedade como um todo (embora o PSOL sirva para essa finalidade) se direita quer dizer: fazer com que os ricos fiquem cada vez mais ricos, e os pobres, cada vez mais pobres (slogan da época da ditadura militar), eu digo; não, obrigado. o ideal mesmo é o partido de centro, que não vá á nenhum dos dois extremos.

  5. Max Vanner Postado em 20/Aug/2014 às 14:02

    Eu já disse e repito aqui: trocar merda por bosta não nos traz vantagem nenhuma,só sei que quando a coisa está degringolando é melhor trocar o time porque senão vai pro buraco. Quando se está ganhando não se mexe no time mas estamos descambando pro comunismo e o povo pensando que ainda estamos em democracia. A censura está por toda parte pra quem quer ver. Todos os poderes estão sob o jugo do executivo quando deveriam ser autônomos. Tudo o que temos a mais hoje em dia, no contexto geral, é apenas consequencialismo e não produto de um governo, a classe média aumentou, sim claro, mas aumentou as custas de rebaixamento de parâmetros de medição e o programa mais médicos não passa de programa eleitoreiro e lavagem de dinheiro pra cuba, sem contar o envio "secreto " de dinheiro pro porto de Mariel l(cuba), envio de dinheiro pra ditadores de angola, etc... Tudo isso faz parte do "FORO DE SÃO PAULO" (GOOGLE) onde o pt compactua com as FARC, FIDEL e maios alguns a fim de "CUBANIZAR" A AMÉRICA LATINA. Acredito que temos que mudar e se não der certo com outro, mudamos de novo, e de novo, e de novo até dar certo; o que não podemos é fazer como os macaquinhos = cego, surdo e mudo = ou como o avestruz... são os nossos filhos e netos que sofrerão as consequências e não a nossa vaidade em apoiar esse ou aquele partido sempre querendo que a verdade dos outros seja a nossa verdade... OLHEMOS AO REDOR, O BRASIL ESTÁ RUINDO E SOMOS PARTE DISSO... 6 de julho de 2014 12:47 Andei estudando a filosofia da praxis e achei intetessante ver a administracao do pais, dos estados como empresa, contratando-se profissionais qualificados e competentes para tal. A questao eh como fazer isto. Qum contrata? Um conselho representativo? Muitos detalhes organizacionais a serem pesquizados....! O problema maior do Brasil ej historico, fomos descobertos pra sermps explorados. Desde entao se entrega tudo desde as plantas raras ate o suor do trabalhador, os impostos, o silencio a subserviencia. Eh imoral ! A lei da vantag para apenas sobreviver leva a corrupcao generalizada do povo e a classe dominante se aproveita e faz a festa.

  6. Miguel Postado em 20/Aug/2014 às 15:18

    "o diabo mora nos detalhes, diz o famoso provérbio". Sempre achei isso estranho, o mais coerente seria Deus mora nos detalhes, uma vez que Deus não é um sistema, mas abertura ao infinito, ao passo que o diabo poderia ser associado à tormenta e à prisão da consciência. Bom deus está nos detalhes também é popular. Vendo na wiki-en, parece que o original é "deus está nos detalhes" mesmo, e o diabo foi uma releitura, uma revisão. http://en.wikipedia.org/wiki/The_Devil_is_in_the_detail

  7. Gustavo Postado em 20/Aug/2014 às 15:35

    O que tem que se levar em conta é a resposta do candidato também. E Dilma simplesmente não respondia sobre corrupção e mentiu sobre a CGU. Dilma só ficava enrolando e enrolando para não dar tempo de ter mais perguntas. Bem orientada, mas desempenho fraco em comparado aos outros entrevistados. Isso porque teve vantagem ainda de não ter que se deslocar até a Globo. A montanha foi até maomé.

  8. leon Postado em 20/Aug/2014 às 17:24

    Vê-se que assuntos de corrupção são vistos pela militância do PT como casos de uma mão lava a outra...

    • Thiago Teixeira Postado em 20/Aug/2014 às 19:12

      E porque a mídia acusa só e exclusivamente o PT de corrupção?

  9. Lourival Pereira Postado em 20/Aug/2014 às 20:59

    Deu mesmo pra notar que a nossa dignissima "presidenta" esquivou-se das respostas filosofando termos de palanque. Aliás, pra quem é anencéfalo de didática o recurso é esse mesmo, filosofar e nunca descer do palanque. Vamos ver no desenrolar da campanha se esse recurso surtirá efeito. Mas o PT não precisa se preocupar, porque sua candidata vair ganhar de novo, haja vista a quantidade enorme de dependentes prequiçosos da cesta basica, e vales gas, vale camisinha, vale creche, e outros vales etc. Esses parasitas devido sua maioria de votos elegem qualquer sujeito que lhes dêm sustento a troco de votos. Pra reforçar minha tese, temos que Marina não tem mais aquele tsunami de votos de 2010 aquela foi uma fase, um epsódio, a ordem agora em 2014 é muito diferente. O sr. Aécio, carece de certo carisma político, não encontro nele esse otimismo que os eleitores apregoam. O falecido candidato Campos talvez seria o que melhor se posicionou até agora, longe de comoção por seu desaparecimento o mesmo me parecia a melhor opção entre os demais. É esperar pra ver, oxalá eu esteja errado. Até as eleições poderá chover.

  10. Maria Amelia Silva Silvei Postado em 22/Aug/2014 às 15:41

    Depois de conhecer os dois períodos de governo do FHC, incluindo os mais de 400(quatrocentos) processos criminais engavetados, o FMI espoliador, o arrocho salarial, a inflação galopante, o desemprego em massa, a quebra de empresas, a falta de investimentos importantes, a privatização de importantes estatais a preço de banana, etc, etc,; depois de constatar como o Aécio e seu títere, o Anastasia, deixaram MG, quebrada e endividada até o pescoço, desviando verbas da saúde e educação, descumprindo o acordo com os professores, deixando mais de 70.000(setenta mil) trabalhadores na rua da amargura, construindo aeroportos particulares(de Montezuma e de Cláudio) com dinheiro público, abafando os escândalos de Furnas, em que houve até assassinato, do helicóptero com quase meia tonelada de pasta de cocaína, do primo do Aécio, ligado ao tráfico de droga, do juiz que vendia sentenças para libertar os traficantes presos; depois de ver como está São Paulo, a USP, a UNICAMP, a Santa Casa, a falta de investimento em mais tranportes urbanos com qualidade, a falta de água, os escândalos sempre abafados do propinoduto, do trensalão, do superfaturamento de ambulâncias,do crescimento do PCC,da violência no caso de Pinheirinho, etc; depois de ver como o Pirillo, governador de Goiás, tirou os pobres coitados de uma área ocupada por eles, com tiros e bombas de gás lacrimogênio, desrespeitando mulheres e crianças desesperados, chorando, sem ter para onde ir, etc, etc, etc, ainda tem beócio(ou fake?) defendendo esses políticos neonazistas,que quando governam, só deixam um rastro de desgraça, embora saiam do poder cada vez mais ricos, poderosos e intocáveis e ainda querendo entregar nossas riquezas ao Tio Sam, depois de receberem sua polpuda parte e depositá-la em offshores e paraísos fiscais? Repito: só beócios, iletrados, analfabetos políticos, coxinhas alienados e burguesia antidemocrática é que defendem esses inimigos do Brasil e de seu povo!!

  11. Thiago Teixeira Postado em 20/Aug/2014 às 19:13

    TODOS pressionados? O que me diz de 21 interrupções da Dilma contra 6 do Aécio?

  12. J Ferreira Postado em 22/Aug/2014 às 06:06

    Naro Solbo, tu tens lado e este lado é o mesmo da globo, portanto do Bonner e da Poeta. Agora vir aqui dá uma de neutro querendo corrigir os dois canalhas e este comportamento ridículo da globo é querer implantar a teoria do Bonner de que nós somos tolos. Eu tenho lado, ante que você me critique. Sou Lula e Dilma e não escondo de ninguém.