Redação Pragmatismo
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Copa do Mundo 07/Jul/2014 às 15:41
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Vila Madalena: quando o xaveco vira agressão sexual

Apertões, puxões de cabelo, tentativas de beijos forçados e encoxadas. Vila Madalena vira micareta em dia de jogo da Copa do Mundo

vila madalena copa do mundo 2014

Verônica Mambrini

A Copa do Mundo no Brasil foi a Copa das Copas? Goleadas, zebras, hinos a capela e confraternização generalizada dizem que sim. Mas esse clima de festa irrestrita, regada a álcool e, muitas vezes, com pessoas falando línguas diferentes, teve um aspecto condenável que só as mulheres viveram: o xaveco transformado em assédio sexual.

Em alguns casos, a agressão é real. Mas acabava mascarada pelo clima de carnaval, de micareta, de ninguém é de ninguém. Se no início da noite, as torcedoras brasileiras mais exaltadas perguntavam aos rapazes se eram “gringos” antes de se atirar aos braços daqueles que respondiam “Yes”, “Si” ou “Oui”, com o nível alcoólico subindo o jogo mudava.

Veja também: Praticantes de “encoxadas” se espalham e marcam até “rolezinhos”

Qualquer mulher, estivesse ela pronta para a balada, de vestidinho curto e decote, ou uniformizada como repórter, de tênis, calça jeans e camiseta, virava um alvo. É preciso não só desviar de homens embriagados, que tentam fechar a passagem com o próprio corpo e roubar um beijo à força. Mas também ignorar provocações e xingamentos.

Ao desviar de um deles, ouvi uma bronca: “O que foi? Está com medo de mim?” Estava: primeiro, porque tentou me puxar à força. Segundo, porque gritou comigo, como se eu não tivesse o direito de recusar a abordagem.

Toda mulher tem esse direito. Além do mais, eu estava trabalhando. E a função exige olhos atentos, escaneando a movimentação de torcedores, vendedores ambulantes, estrangeiros, varredores de rua e policiais. E os olhares que, frequentemente, acabavam se cruzando, para alguns frequentadores, eram sinal de disponibilidade. Mais de uma vez, agarraram meus braços, puxaram meus cabelos: “Ô repórter!”, “Ô fotógrafa”. Ao serem ignorados, os homens atiravam: “Sua escrota”.

Muitas mulheres cedem. Talvez por vontade. Talvez para não levar esse tipo de repreensão. Conversei com uma moça, cadeirante, que recebeu um beijo e carinhos de um desconhecido. “Preferia que ele não me abordasse assim, né? É bem melhor quando o cara chega conversando em vez de colocando a mão”. Na esquina seguinte, menos de 5 minutos depois, o mesmo rapaz estava aos beijos com uma loira vistosa.

A cena se repetia a cada quarteirão, todos os dias: homens se aproximam de mulheres, forçam o contato, tentam passar a mão no corpo e lutam para arrancar um beijo à força. Muitas cedem e vão se desvencilhando aos poucos. Nem sempre conseguem se livrar do contato forçado. Não dá para saber o quanto é consentimento e qual a parcela de medo de uma retaliação em cada abordagem bem sucedida. Nesse ambiente, homens rejeitados muitas vezes são agressivos. Aconteceu comigo.

A imprensa publicou reclamações de mulheres contra estrangeiros agressivos na abordagem. No jogo da Argentina contra a Suíça, a Vila Madalena estava salpicada de camisetas brancas e celestes. Um hermanito, de 6 ou 7 anos, começou a jogar charme. Se escondia atrás do irmão quando eu olhava e fazia manha quando apontava a câmera para tirar foto. Menos sutis, outros argentinos, mais velhos, terminavam as entrevistas com elogios e abraços um pouco além da cortesia. Forçavam beijos no rosto e insistiam para pegar dados de contato.

No mesmo dia, flagrei uma briga entre duas brasileiras e uma dupla, formada por um brasileiro e um argentino radicado no Brasil. Os quatro estavam no mesmo bar, em mesas diferentes. Elas alegavam que os dois homens teriam se aproveitando de uma adolescente alcoolizada, tocando-a e tentando levantar sua blusa. Quando cheguei, a menina em questão não estava mais lá. As mulheres estavam revoltadas com a atitude e quase foram agredidas pelos dois homens. Garçons e o gerente entraram no meio. Eles foram expulsos, mas continuaram cercando o bar aos gritos de “vagabundas”, “vai arrumar macho” e “você é lixo”. Nenhum dos dois quis dar entrevista.

Duaney Santos disse que estava difícil frequentar a Vila Madalena nos dias de jogos. “Estamos em festa, estrangeiros são bem vindos. A Copa é pública, mas nosso corpo não. Eles assediam mulheres na rua, passam a mão, ameaçam agredir se você reclama”.

Câmera, crachá e bloquinho não serviam muito como salvo conduto nas baladas de rua da Copa. Apertões, puxões de cabelo e encoxadas eram difíceis de defender. Frequentadores que cobravam uma foto e atenção especial, xingando quando eu só acenava ou passava batido, eram parecidos com aqueles zagueiros violentos, que até mesmo pontas habilidosos têm dificuldade para driblar. Nessa Copa, jogo de corpo e jogo de cintura, definitivamente, não são habilidades necessárias apenas dentro das quatro linhas.

Uol Copa

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Comentários

  1. Pereira Postado em 07/Jul/2014 às 15:57

    Essa é a "maravilhosa" imagem que as mulheres brasileiras passam para fora do Brasil. imagem que é diretamente construída pela "cultura do funk" que as exploram, ou então pela apelação sexual do carnaval e músicas que sensualizam qualquer coisa como os axés. É por causa desse tipo de "cultura" que estrangeiro acha que a brasileira é fácil e se acha no direito de fazer essas coisas. E quando vemos mulheres protestar, pasmem !! não é para acabar com essa imagem, não é contra o funk e nem contra a super exposição do corpo no carnaval e sim para que se libere aborto. Lamentável.

    • Rafael Postado em 07/Jul/2014 às 16:05

      A culpa é sempre das mulheres, do Brasil, da cultura, do funk... jamais dos taradões de plantão.

      • Pereira Postado em 07/Jul/2014 às 16:12

        A culpa é das mulheres na parte que elas não protestam contra quem as explora. Não protestam contra quem lucra milhares de reais com a exposição de seus corpos.

      • Rafael Postado em 07/Jul/2014 às 16:57

        A Marcha das Vadias, por exemplo, é um movimento que, além de ter pautas como a descriminalização do aborto e o combate à cultura do estupro, luta contra a objetificação da mulher, do corpo feminino – anúncios de cerveja são os maiores exemplos do corpo feminino objetificado. Elas lutam para serem reconhecidas como sujeitos, e não meros objetos. Então acho que não dá pra dizer que "elas não protestam contra quem as explora".

      • Pereira Postado em 07/Jul/2014 às 17:06

        Eu nunca vi aquelas cabeças oca dos peitos murchos protestarem contra a falta de igualdade no mercado de trabalho, contra os funkeiros ostentação que as tratam como objetos ou a super exposição do carnaval. Nunca, o que elas querem é ter o direito de matar(aborto) um inocente que não tem nada haver com sua promiscuidade e de seus parceiros homens. Isso sim elas reivindicam.

      • Pereira Postado em 07/Jul/2014 às 17:09

        Claro, Pudera. Esse feminismo atual foi fundado pela ilustre jararaca Simone de bouveir, que não fazia nada na vida, a não ser chifrar o sartre e promover orgias com adolescentes.

      • Rafael Martini Postado em 07/Jul/2014 às 18:18

        "Esse feminismo atual foi fundado pela ilustre jararaca Simone de bouveir, que não fazia nada na vida, a não ser chifrar o sartre e promover orgias com adolescentes." Huahahahahahaha... Pereira e sua zoeira sem limites!

      • rafa Postado em 08/Jul/2014 às 03:09

        os taradões de plantão estão inseridos nessa cultura. mas não vejo o funk como menos machista do que a novelinha global, o jornal nacional, a revista veja, o cineminha hollywoodiano, o mundo futebolístico, o do play station, o do MMA... gente inteligente LÊ COISAS INTELIGENTES, e não se liga na telinha que você tudo a crer, e nem lê muito bost-seller.

      • fecoutinho Postado em 10/Jul/2014 às 17:16

        Verdade Rafael! Os homens precisam saber se comportar quando sai para uma festa. Ouvir "não" é umas das possibilidades numa paquera.

    • rafa Postado em 08/Jul/2014 às 03:23

      a música pop americana também explora a mulher. algumas acham que são elas as exploradoras - a começar pela mandonna. kelly key, britney spears, miley cyrus, rihanna, beyoncé - vá dizer que isso é feminismo... feminismo é o dos 70s, hippongo, que buscava igualdade com homens feministas carinhosos, e não uma idealização adolescentóide de atletas sexuais exibicionistas em ambos os sexos. o feminismo atual resulta de manipulação midiática. seu discurso predominantemente clichê não enxerga o fundo das coisas. ao invés de tratar a todos os homens como estupradores, em nada atingindo os verdadeiros estupradores, as feministas deveriam TAMBÉM buscar istruir as mulheres não-feministas no sentido de fazerem um uso inteligente de sua liberdade. assaltar é crime, mas ir a uma favela em um carrão de janela aberta é pedir para ser assaltado. a exposição do corpo feminino, consciente ou inconscientemente, visa SEMPRE à sedução. um homem como eu resiste à sedução. outros não. mulher sensata se veste com sensatez: não quer ser apreciada sobretudo por sua bunda ou peitos por qualquer um sem controle. não é culpa de nenhuma mulher o fato de que haja estupradores, mas os há, e é sensato da parte delas serem cautas. sei que a competição é braba, mas admiro muito, e é relativamente frequente, uma mulher bela que se preserva um pouco dos olhares. ninguém chega a deixar de considerá-la bela. não falo de burca, mas de uma saia ou vestido médio/moderado, de uma gola média/moderada... ninguém a considerará "careta", e ela atrairá homens menos fascinados por suas "partes" expostas como em um açougue pela própria açougueira. jamais direi que alguém tenha qualquer direito sobre ela. a mulher tem a liberdade de vestir o que quiser. e eu tenho a liberdade de achar que algumas usam tolamente a sua liberdade.

  2. tiago Postado em 07/Jul/2014 às 16:06

    quem passa essa imagem é a imprensa, a mídia, as empresas comerciais.. cultura machista, você quer o que? agora culpar as vítimas, é sempre a melhor e mais fácil maneira do hipócrita lidar com a situação. que nos reeduquemos, os culpados são os agressores, os que assediam. acorda camará!

  3. maria Postado em 07/Jul/2014 às 16:08

    Perdeu uma bela oportunidade para ficar calado! O fato de a mulher dançar e usar shorts não dá direito aos tarados de tentar contato forçado. Deixa de ser mané e de achar que a culpa é sempre da mulher! Os homens andam sem camisa e nem por isso são atacados, sacou? E a liberação do aborto, pra quem é inteligente e pensa, é um caso de saúde pública!

  4. Dianne Postado em 07/Jul/2014 às 16:21

    Protestam sim, e o nome disso é feminismo.

  5. Florencio Postado em 07/Jul/2014 às 18:03

    A culpa infelizmente é dos dois lados.

  6. Luísa Postado em 07/Jul/2014 às 18:38

    Obrigada, Verônica, por escrever este texto retratando o muitas de nós vivemos nestes dias de copa. Ao contrario do que muitos, como este "Pereira", pensam, há sim no Brasil muitas mulheres lutando contra a exploração e a violência sexual sistematicamente praticadas contra mulheres de todas as gerações. É preciso ir além da culpabilização das mulheres e pensar como fomos retratadas pelos grandes meios de comunicação como mais uma atração turística do Brasil, sem esquecer das contínuas tentativas das empresas globais em nos vender junto de seus produtos, inclusive para os próprios brasileiros.

  7. leilane Postado em 07/Jul/2014 às 18:48

    Olha eu fui lá com minhas amigas em vários jogos. O que acontece não é bem assim como descreve esta página. Acho que quem escreveu o texto não se deu o trabalho de ir até a vila. O "jornalista" quis dar a sua opinião sobre idéias pré concebidas que ele tem sobre assédio X xaveco e o mito "brazilian women are hot" e escreveu esse conjunto de palavras. Está faltando empenho.

    • Thiago Teixeira Postado em 07/Jul/2014 às 19:28

      Bêbado chato tem em todo lugar! Seja gringo ou brasileiro, mas no seu caso e de suas amigas tenho certeza que curtiram de boa e evitaram aborrecimentos, mas que existe gente que passa dos limites ... isso tem!

    • rafa Postado em 08/Jul/2014 às 03:05

      como é o que acontece lá?

  8. André Postado em 07/Jul/2014 às 23:42

    Qdo o Catra as chamam de cachorras e outras coisas impublicáveis em suas "músicas", nenhuma mulher reclama, muito pelo contrário... Decidam o que vcs querem: respeito ou avacalhação?

    • Pereira Postado em 08/Jul/2014 às 08:08

      Correto !

    • fecoutinho Postado em 10/Jul/2014 às 17:14

      Desculpe se o nível das pessoas que você conhece é das que escutam esse tipo de música. Ninguém que vale a pena perde tempo com esse tipo de cultura.

  9. rafa Postado em 08/Jul/2014 às 02:59

    ENQUANTO AS mulheres preferirem malandros (que são os corruptos/corruptores) a homens mansos e gentis (algumas acham que preferem, mas você vai ver, e é um malandro que elas não enxergam como tal)... as feministas (sou um feminista) deveriam ensinar mulheres a usar a razão e dar preferência a homens mais civilizados, civis, cordiais, pacíficos, românticos, idealistas, mansos, brandos, afáveis... o combate à mídia do capitalismo e ao próprio capitalismo é chave. é o capitalismo que pagará sempre mais ao trabalhador braçal por tarefa mais ao homem do que à mulher, visto o braçal homem produzir mais. em uma tribo indígena de posse coletiva dos meios de trabalho, homens e mulheres partilhavam da produção produzida em complementaridade. índios com frequência eram "machistas" - não proponho tornarmo-nos índios, mas adotarmos a posse coletiva, assim como adotamos a democracia, mas não a pederastia ateniense (homem com menino).

    • Thiago Teixeira Postado em 08/Jul/2014 às 09:44

      Não vou tirar a sua razão pois tudo que falou é verdade. Eu sei come é isso. Na minha comunidade onde morava era tido como ET, NERD, pois estudava muito, tirava 10 em todas as provas de matemática, geografia ... não fumava, não bebia, trabalhava depois da escola, não estava nas sextas e sábados nas baladas muito menos desfilava com moto ou carros para se exibir. Quando entrei na universidade pública então, parece que eu tinha tornado um ex-presidiário (esses eram o oposto, tinha churrasco quando eles saiam de reduto), eu chegava e turma saia (lá vem o Nerd). Os maconheiros, vagabundos, repetentes, ladrão, traficantes sempre faziam sucesso, pois para as mulheres (não todas, apenas 99,85%), e sem exceção de classe social ou época, homem canalha é mais excitante! Não tem como mudar a humanidade, se você se julga como eu, não-canalha, basta-nos aguardar essa mulherada curtir, engravidar, apanhar desses caras e assumi-las depois dos 35 anos de idade, pois depois dessa faze elas começam a olhar para os lados.

  10. rafa Postado em 08/Jul/2014 às 03:04

    pra mim, exposição do corpo é machismo: "liberdade" de precisar da aprovação do olhar masculino (mas muita mulher mente para si mesma sobre isso - diz que é calor, mas somos maiores, e se usarmos shorts tão curtos, elas nos ignoram como ridículos, pois não é moda - querem homens bem vestidos... frequentemente). sou um feminista hipponga 70s... o feminismo atual me parece menos inteligente e mais "conduzido de cima", pela mídia, pelo cinema hollywoodiano. me impressiona a relativa ausência de mulheres em comentários sobre política.

  11. fecoutinho Postado em 10/Jul/2014 às 17:12

    Não sei se vocês sabem, mas existem vários tipos de mulheres no Brasil (ohhhh) e cada uma, na sua individualidade, tem seu próprio comportamento. Falo isso porque tem umas pessoas que generalizam, dizendo que as mulheres se desvalorizam e as culpam pelos abusos, jogando a culpa da agressão na vítima. Apenas homens ignorantes e machistas podem pensar dessa forma.