Redação Pragmatismo
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Barbárie 01/Jul/2014 às 16:21
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Professor é obrigado a 'dar aula' para não morrer em linchamento

Acorrentado, espancado por uma multidão e acusado de um crime que não cometeu, professor de história 'dá uma aula' de Revolução Francesa para não continuar sendo linchado

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O professor de História André Ribeiro (Reprodução)

Na quarta-feira passada (25 de junho), o professor de história André Ribeiro saiu de casa por volta das 19h pra correr pelo bairro do Balneário São José, como faz todos os dias. Quando passou pela Rua do Acontecimento, percebeu que as pessoas o olhavam de maneira estranha. Ouvindo música alta nos fones, ele não imaginava que em questão de segundos seria espancado por uma multidão, acorrentado, acusado de um crime e preso. Pior: para ser resgatado, teve que provar ser professor de história dando uma aula pública sobre revolução francesa para um dos bombeiros que o ajudou a levantar do chão.

“Corro dez quilômetros todos os dias. Quando você faz cooper, você não corre rápido, como se estivesse fugindo de alguém. Vi um fusca em alta velocidade. Quando percebi que o carro ia me atropelar, levantei a mão e esperei. Achei até que era um roubo”, conta. Dentro do veículo, segundo André, estava Djalma dos Anjos Nonato, um senhor de aparentemente 60 anos, e seu filho, um cara grande e forte. “Perguntei o que estava acontecendo. Eles sequer conversaram comigo. Já foram me batendo. O filho dele me deu um mata-leão, fiquei sem ar. Aí me derrubaram no chão e foi bicuda pra todo lado. Tomei bicuda no corpo inteiro. Apanhei muito.” O professor estava sendo confundido com um ladrão que supostamente roubou o bar desse senhor.

Veja também: Jovem revela como impediu um linchamento no Rio de Janeiro

De repente, Djalma foi até o carro, pegou uma corrente e colocou André de barriga para o chão, amarrando seus braços e pernas. A surra continuou. “Era muita gente. A vizinhança toda tirou uma casquinha. Posso falar entre 15 e 30 pessoas. Tinha mulheres também. Acho que apanhei por uns três minutos. É difícil saber.”

As coisas podiam ficar piores, principalmente quando André ouviu de um dos homens a frase “pega o facão pra mim”. Nesse momento, os bombeiros apareceram e dispersaram a multidão que o espancou, inclusive pai e filho. O professor conta que, mesmo destruído, ainda estava acorrentado e deitado no chão. “Foi quando um dos bombeiros falou para mim ‘Então dá uma aula de revolução francesa aí já que você é professor mesmo’. Eu tinha tomado tanta pancada na cabeça… Mesmo assim, falei que a revolução francesa era simples: a França era o lugar onde o antigo regime tinha maior força. A burguesia tornou-se guia da população para tomar o poder da monarquia. Ao mesmo tempo, houve apenas uma mudança de ordem social, até porque as desigualdades permaneceram. Enquanto eu não dei a aula, continuei deitado no chão. Só depois da aula que eles me levantaram e me colocaram sentado na calçada.”

André foi levado ao pronto-socorro pelos policiais, a quem ele se refere como “muito gentis”. De lá, foi encaminhado para o 101º DP, onde diz ter ficado numa cela minúscula com outra pessoa, mesmo tendo curso superior – deveria ter ido pruma cela individual, como prevê o artigo 295 do Código de Processo Penal. No dia seguinte, teve acesso à cela individual e acabou sendo transferido para o 31º DP. “Lá, já tinha me conformado. Achei que ia ficar preso mesmo, por três meses ou sei lá quanto tempo.” Na prisão, ele diz que a pior parte era imaginar que seria tolhido do que mais gosta de fazer na vida. E com a voz trêmula, desabafa: “Só pensava que eu não ia mais dar aula”.

Dois dias depois, foi solto. Acusado de roubo, artigo 157, agora responde em liberdade. Hoje, irá se apresentar com duas testemunhas a seu favor. Diz que não sente raiva de quem o espancou, mas que irá processar pai e filho. “Foi pesado. Via ódio no rosto daquelas pessoas. Parecia que os caras estavam sedentos por sangue mesmo.”

Débora Lopes, Vice
com informações de O Globo

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Comentários

  1. joanna iglesias Postado em 01/Jul/2014 às 16:32

    o texto tá digitado 2 vezes!!

  2. raquel xera cola Postado em 01/Jul/2014 às 17:03

    Agora só falta ele mandar uma carta agradecendo a Sherazade

  3. Farias Postado em 01/Jul/2014 às 17:08

    ISSO É UM ABSURDO!!!

  4. Adriano Vito Postado em 01/Jul/2014 às 17:13

    Os Bolsonaros e as Racheis curtiram isso. Esperava que esses ignorantes, imbecis, que se julgam justiceiros passem pelo menos pela justiça criminal.

  5. Cláudia Postado em 01/Jul/2014 às 17:42

    Que triste, a que ponto nós seres humanos chegamos? Apenas uma ressalva a que, escreveu," Pruma" que palavra é essa ???

  6. Marlon DeMello Postado em 01/Jul/2014 às 17:47

    Tem que processar TODOS OS ENVOLVIDOS NO LINCHAMENTO. Não podem sair impunes. Qdo todos forem condenados, talvez as pessoas pensem duas vezes antes de cometerem essas atrocidades.

  7. Gabriela Postado em 01/Jul/2014 às 18:42

    Alguém que seja advogado(a) em direito penal, por favor, me explique: porque ele está sendo acusado? basado em quê? com quais fundamentos e provas? quem o acusa? sendo vítima, é acusado?! não entendi nada!

    • Breno Postado em 01/Jul/2014 às 23:50

      Gabriela, baseado no testemunho das pessoas ele está sendo acusado de roubo. Qualquer um pode denunciar qualquer um e prejudicar as pessoas simples assim. Depois, vao averiguar e ver que nao tem provas e soltar o sujeito. Mas o que eu nao entendi é o motivo do bombeiro ter mandado ele dar a aula. Nao tem importancia se o linchado estava dizendo a verdade ou não. Era obrigação do bombeiro dispersar e soltar o sujeito antes de tudo.

    • Aken Postado em 02/Jul/2014 às 15:28

      Bom, o 157 é um crime de ação penal pública, ou seja, cabe aos representantes do Estado, qual seja o Ministério Público, intentar a ação. Primeiramente é feita a denúncia do ocorrido e depois ela é recebida para dar curso ao processo.

      • Aken Postado em 02/Jul/2014 às 16:09

        O que ele pode fazer também é processar o dono do bar pelo crime de calúnia, que é imputar falso crime a outrém

    • carlos Postado em 02/Jul/2014 às 19:42

      A resposta é simples: como grande parte dos artigos veiculados neste site são tendenciosos, algumas informações importantes são ocultadas para induzir o leitor a erro. Ao ser salva do linchamento pelo PM BOMBEIRO, a vítima não portava documentos, apenas se identificou como professor de história. Daí a razão de o policial ter pedido que ele falasse algo sobre a Revolução Francesa. Logo, foi uma medida de precaução e não uma violência cometida pela PM assassina, como o site e alguns de seus seguidores gostam de classificar a corporação. Outro "detalhe" que o artigo também escondeu foi que as vítimas do assalto que se desdobrou no linchamento reconheceram o pobre professor como um dos bandidos. Diante dessa situação, a Polícia deveria fazer o que, a não ser abrir um processo investigativo?

      • Fernando Postado em 02/Jul/2014 às 20:18

        So pra colocar em perspectiva, André foi meu colega de faculdade. Nai é bandido. Abraço.

  8. cristiano volff Postado em 01/Jul/2014 às 23:48

    Professor nosso desse Brasil, processa todos os envolvidos SIM, assim como tudo no Brasil as pessoas só começam A COLOCAR O CINTO DE SEGURANÇA QUANDO É OBRIGATÓRIO ,QUANDO DA MULTA, QUANDO DÓI NO BOLSO, ASSIM É COM PENSÃO E INÚMEROS CASOS, ninguém tem o direito de fazer justiça com as próprias mãos .VAI PRA CIMA E LUTE PELO SEU BRASIL SER MELHOR. NÃO SERÁ JÁ, MAIS UM DIA FARÁ PARTE DOS QUE PRECURSIONARAM.

  9. Cezar Postado em 02/Jul/2014 às 10:13

    Estamos falando de Brasil, entes queridos. Isso aqui não é Suíça!!!! Caso ele processe todos, pode ser que não saia vivo no próximo linchamento.

  10. JOSE PEDRO SOARES FILHO Postado em 03/Jul/2014 às 12:24

    O ESPANCAMENTO DO PROFESSOR É RESULTADO DE FALTA DE INCOMPETENCIA DA POLICIA E A POPULAÇAO ESTAR CANSDADA DA INCOMPETENCIA DA JUSTIÇA E DA POLICIA.

  11. Aldo Postado em 03/Jul/2014 às 22:29

    Carlos, a ação do bombeiro não justifica, de forma alguma, se o professor, acusado, estava com documento ou não. Linchamento é crime. Independente de qualquer coisa. Não se pode fazer justiça com as próprias mãos. Por isso estamos num Estado de direito, onde, até que se prove o contrário, ninguém será privado de sua liberdade, muito menos linchado. Precaução? Não Carlos, sinto em informa-lo, mas foi sim uma continuação da violência, só que essa, psicológica e moral. Outra coisa Carlos, o fato das pessoas no auge de suas emoções confirmarem, se assim mesmo aconteceu, que o professor era o bandido, nada, absolutamente NADA, justifica a ação. Se coloque no lugar Carlos. E se fosse com você? Será que pensaria da mesma forma?

  12. Hilario Fonceca Postado em 10/Jul/2014 às 22:57

    Ai Carlos, que pena de você!