Redação Pragmatismo
Compartilhar
Saúde 31/Jul/2014 às 11:17
7
Comentários

Por que somos campeões em cesarianas?

Brasil ultrapassa em larga escala a quantidade de cesarianas recomendada pela Organização Mundial de Saúde. Mais grave: há uma Indisfarçada intenção de aumentar as cesarianas

cesariana brasil sus

Conceição Lemes, Viomundo

Anualmente, realizam-se no Brasil cerca de 3 milhões de partos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no máximo, 15% – 450 mil – deveriam ser cesarianas. Mas passamos longe dessa recomendação.

Em 2013, dos 1,9 milhão de partos realizados no Sistema Único de Saúde (SUS), 58% foram normais e 41,9%, cesarianas.

O estudo Nascer no Brasil, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o maior já feito no País sobre parto e nascimento, (portal.fiocruz.br/pt-br/content/pesquisa-revela-numero-excessivo-de-cesarianas-no-pais), confirma o abuso. No SUS, as cesarianas representam 52% dos partos; na rede privada, chegam a 88%.

A Casa de Saúde Santos, no litoral paulista, foi além. Extrapolou todos os limites.

Em março, a sua direção comunicou ao corpo clínico a desativação do pronto-atendimento em Ginecologia e Obstetrícia. Também determinou horário para os partos: tinham de ser das 8h às 16h.

Para quem não a conhece, a Casa de Saúde Santos é tradicional na região. Costuma-se se dizer que metade da população da baixada santista nasceu aí. Só atende pacientes particulares e de planos de saúde. Realiza por mês cerca de mil partos. Nada se SUS.

cesariana brasil sus

A proposta indecorosa só não prosperou, porque a gritaria foi muito grande. Várias forças se juntaram para revertê-la. Desde a Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp), usuários, entidades que atuam na defesa do parto natural, profissionais de saúde, Câmara dos Vereadores ao Ministério da Saúde.

“Se a situação não tivesse sido revertida, seria o caos”, avisa o médico Sérgio Floriano de Toledo, presidente da Regional de Santos e Santos da Socesp. “Um precedente muito grave que pode se repetir em Santos e em outras cidades.”

O médico e vereador Evaldo Stanislau Affonso de Araújo (PT), presidente da Comissão de Saúde e Higiene da Câmara de Santos, afirma: “Decisão totalmente na contramão das boas práticas e do parto natural. Uma indisfarçada intenção de estimular o aumento do parto cesariano e legitimá-lo bem como todas as suas complicações. Afinal, ele associa-se com maior prematuridade, mais complicações para o recém-nascido e a parturiente”.

Evaldo vai mais fundo: “Do ponto de vista moral e ético, tal medida subverte o princípio básico da Medicina, que é, primeiramente, não causar o mal. Como pode um hospital estimular uma prática nociva às gestantes e seus recém-nascidos? Injustificável, sobretudo porque é uma medida que eles justificam baseado em custos. Precificam, literalmente, a vida humana!”.

HOSPITAL “INOVOU” DA PIOR MANEIRA POSSÍVEL

Santos já foi vanguarda na área de saúde, inclusive de saúde da mulher. E não faz muito tempo. Foi nas gestões de Telma de Souza (1989 a dezembro de 1992) e David Capistrano (1º de janeiro de 1993 a 31 de março de 1996) à frente da Prefeitura.

De lá para cá, de modelo em inovação e humanização em saúde se tornou o retrato da saúde sucateada. De exemplo do que fazer se transformou em símbolo do que não fazer.

É nesse contexto que a Casa de Saúde Santos resolveu “inovar”. E da pior maneira possível.

“Só que, apesar da aparente normalidade do SUS em Santos, temos nele um cenário equivalente ao da rede que atende planos de saúde”, adverte Evaldo.

Ele mesmo demonstra:

*O número de partos a cargo da Secretaria Municipal de Saúde foi reduzido.

*A Maternidade Silvério Fontes funciona de forma precária no Hospital Arthur Domingues Pinto. O Instituto da Mulher e a Casa da Gestante são equipamentos feios, sujos e desestimulantes, tanto para o usuário quanto para os profissionais de saúde.

*Além disso, as equipes de saúde perderam o caráter plural e multiprofissional.

*Resultado: O SUS atende menos de 50% de cidadãs de Santos e não suportaria demanda maior, caso os planos de saúde deixem de cumprir as suas obrigações

“A resolução da crise da Casa de Saúde Santos deixou sequelas e aprendizados”, diz Evaldo. “Estamos construindo possibilidades para que essa situação não se repita.

O que fazer? Fiscalizar e gerir de forma competente.

“As entidades médicas locais muitas vezes se perdem ações midiáticas e miram em focos além de seu alcance. Seriam mais úteis olhando para a gestão local da saúde, pública e privada”, defende o doutor Evaldo. “Ao amparar os usuários e fiscalizar os prestadores de serviços, as entidades de classe, os usuários e os agentes públicos evitarão novos episódios como o da Casa de Saúde Santos, que é um mau exemplo a não ser seguido.”

Tags

Recomendados para você

Comentários

  1. eu daqui Postado em 31/Jul/2014 às 11:44

    Po que nossos médicos são brasileiros.

  2. Danila Postado em 31/Jul/2014 às 16:37

    Rodrigo eu concordo e discordo de você, rs. Concordo que o valor pago através do SUS é ridículo. E isso estimula os médicos a preferirem a cesárea. Fazem 2 ou 3 por dia e garante o dinheiro na conta. Enquanto que o trabalho de parto pode durar mais de 1 dia. Por isso não sou contra a cobrança da tal "taxa de disponibilidade". Porém discordo que seja necessário toda essa estrutura para o parto humanizado. No meu parto, para ser sincera, eu nem precisava do médico. Só a enfermeira era suficilente. Nos países desenvolvidos, por exemplo, muitos partos são domiciliares, e os hospitalares são acompanhados pela enfermeira obstétrica. O maior mito sobre o parto é julgá-lo difícil, complicado, exigindo assistência de vários profissionais. Parir é normal. Em raras excessões exige assitência médica de verdade.

  3. Thiago Teixeira Postado em 31/Jul/2014 às 16:58

    Na minha cabeça oca quem deveria decidir se será parto normal, de cócoras ou Cesária é o profissional da saúde em consentimento da mãe. Agora, dizer que Cesária é o melhor de todos, eu discordo, num parto normal a mãe em 2 ou 3 horas está de pé. Cesária já vi parentes minhas passar uma semana na cama e a criança sem poder mamar.

  4. Danila Postado em 01/Aug/2014 às 12:21

    Rodrigo (eu não consigo responder seu post) eu concordo... o problema é bem mais profundo!! Não acho mesmo que essa situação seja responsabilidade da classe médica. As condições de parto na maioria dos casos é precária. Nossa saúde pública é um caos. Massss... ainda acho que devemos olhar o parto com algo fisiológico!! Toda gestação de baixo risco (grande maioria) tem condições de terminar com um parto domiciliar. Isso é muito comum em países de "1º mundo". É claro que para atestar o baixo risco é preciso um pré-natal. Isso diminuiria muito os custos, e quem sabe sobraria verba para investiver na estrutura hospitalar para aqueles que realmente precisam de hospital. Enquanto o parto for visto com necessidade de intervenção médica... essa realidade não vai mudar!! Ótima dica de filme: O renascimento do parto

  5. poliana Postado em 02/Aug/2014 às 12:57

    concordo rodrigo! excelente a sua colocação! de uns temos pra cá a sociedade está romanceando demais em cima do parto humanizado. chega a ser ridículo. mas fazer o q né?!

  6. Zico Zanelli Postado em 24/Aug/2014 às 20:25

    Brasil dos paliativos e de quem defende os paliativos...

  7. Felipe Postado em 24/Aug/2014 às 21:48

    Há no Brasil uma cultura do parto cesariana. Em primeiro lugar, uma pessoa aqui levantou uma questão importante. Muitas vezes o falta de estrutura dos hospitais brasileiros pode tornar o parto normal um sofrimento longo e desnecessário. Não sou médio e não conheço muitos hospitais, mas ao mesmo tempo que tenho que concordar com o que foi dito, eu também me pergunto sobre a estrutura que um parto cesariana precisa, não seria algo também complicado? Ademais, cabe aqui o levantamento de um dado: na rede privada, onde obviamente as condições são melhores, quase 90% dos partos são cesariana - o que denota que é muito mais forte a nossa cultura do que propriamente uma necessidade média, seja na rede pública ou na privada. Nenhum homem na terra vai saber como é dar a luz, seja a dor ou seja a emoção. Não é também nenhuma forma de emancipação ou valorização da mulher dizer que o parto é a "pior dor do mundo". Isso é uma grande mentira, uma perigosa mentira que se divulga para tentar de foram muito leviana valorizar o sexo feminino. O parto normal pode ser sim muito ruim, pode até matar, a mãe e o bebê e é por isso que temos a cesariana - mas arrisco dizer que na maior parte das vezes o parto normal é a melhor alternativa para a saúde de ambos.