Redação Pragmatismo
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Copa do Mundo 27/Jun/2014 às 19:17
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Por que Benzema não canta o hino da França?

Benzema, artilheiro da França na Copa do Mundo, não canta o hino do seu país em protesto contra a xenofobia

Karim Benzema copa 2014 hino
O artilheiro da França na Copa do Mundo no Brasil, Karim Benzema (Reprodução)

Na primeira vez que a Marselhesa foi entoada na Copa do Brasil, Karim Benzema ficou calado. O artilheiro e principal jogador da seleção francesa escolheu não cantar o hino nacional de seu país em um protesto silencioso contra a xenofobia presente na letra e na sociedade multicultural da França.

Benzema, como milhões de franceses, é filho de imigrantes de uma das colônias que o país teve no século 20, no caso dele, a Argélia. E a letra da Marselhesa diz: “Às armas, cidadãos / formai vossos batalhões / marchemos, marchemos! / Que um sangue impuro / banhe o nosso solo.”

As palavras são de 1792, uma época em que a França estava dominada por exércitos estrangeiros, contra os quais a Marselhesa invocava sua ira. Mas, na leitura moderna, a expressão “sangue impuro” é interpretada como uma referência aos imigrantes e seus filhos, cujos direitos civis vêm sendo cada vez mais ameaçados com a ascensão de grupos políticos de ultradireita.

O protesto de Benzema ganhou o centro do debate político no ano passado, quando Jean Marie Le Pen, o presidente de honra do partido ultraconservador Frente Nacional, sugeriu que ele não fosse mais convocado por não cantar o hino.

Le Pen, em sua fúria contra aqueles que não considera “os verdadeiros franceses”, é o mesmo que exigira, em 1998, que não fossem convocados à seleção jogadores negros ou de origem árabe. Mas é a essa geração Black-Blanc-Beur (negros, brancos, árabes) que o futebol francês deve seu único título mundial.

“Se eu cantar o hino, não significa que vou marcar três gols”, disse Benzema ao ser questionado sobre a questão. “E se eu não cantar, mas quando o jogo começar, fizer três gols, não acho que alguém vá dizer que eu não cantei a Marselhesa. Ninguém vai me obrigar a cantar. Mesmo alguns torcedores não cantam. Zidane, por exemplo, não cantava necessariamente. E há outros.”

Há mesmo. Zidane, também filho de argelinos, é o mais proeminente da lista. Franck Ribery, cuja mulher é argelina, também apenas murmurava a canção, exibindo um entusiasmo muito menor do que o empregado em suas orações islâmicas antes dos jogos.

E Michel Platini, outro ídolo do país, já disse que em sua geração nenhum jogador cantava o hino, mesmo aqueles sem nenhuma ascendência senão a francesa.

O episódio ajuda a dimensionar a extensão da controvérsia que toma conta das conversas no país.

Karembeu

Christian Karembeu, um dos principais nomes do título mundial de 1998 e nascido no território da Nova Caledônia, parou de cantar em 1996 logo depois de um dos primeiros ataques de Le Pen ao multiculturalismo da seleção.

A seleção, dizia Le Pen, estava “cheia de falsos franceses que não cantam a Marselhesa.”

“A partir daí, eu não cantei mais a Marselhesa”, disse Karembeu. “Para mostrar para as pessoas quem nós [imigrantes] somos.” Foi ele quem melhor verbalizou o desconforto que sentem os jogadores com origem nas colônias que defendem a seleção.

Ele sabia a letra de cor, porque mesmo em sua terra natal, as crianças eram ensinadas sobre o hino desde muito cedo, mas quando o ouvia pensava em seus ancestrais, os indígenas Kanaks da Nova Calendônia que foram levados à Segunda Guerra Mundial para morrer pela França.

“A história da França é a história de suas colônias. Acima de tudo, eu sou Kanak. Eu não consigo cantar o hino francês porque eu conheço a história do meu povo.”

A polêmica sobre cantar ou não a Marselhesa vai além dos campos de futebol, como bem percebeu Christiane Taubira, a ministra da Justiça, nascida na Guiana Francesa. No mês passado, ela ouviu o hino calada durante uma cerimônia pública. Virou alvo da ira da Frente Nacional, que exigiu sua demissão.

Mas é nos gramados que essa questão ganha uma alegoria perfeita na medida em que a seleção reflete, como poucas outras instituições, a diversidade étnica do país.

Laurent Dubois, professor de História da Duke University, resumiu da seguinte forma a polêmica sobre o comportamento dos jogadores antes dos jogos.

“Eles vão rezar a Jesus, Alá ou Zaratustra? Fiquem à vontade. Querem invocar seus ancestrais, ou o espírito do fundador da Copa do Mundo, o francês Jules Rimet, ou o deus da guerra africano Ogun? Tudo certo. No fim do jogo, como Benzema aponta, se eles marcarem três gols e trouxerem a vitória, ninguém vai lembrar o que eles estavam cantando quando o jogo começou.”

Uol Esportes

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Comentários

  1. adriana Postado em 27/Jun/2014 às 22:24

    pessoal do pragmatismo, dêem uma olhada só porque a primeira parte do texto está duplicada! abraços

  2. André Postado em 27/Jun/2014 às 22:56

    Em pleno séc. XXI e ainda existe isso... Lamentável!

    • Souza Postado em 28/Jun/2014 às 21:15

      Ainda em pleno séc XXI existe quem tem zelo pela sua própria cultura, sua própria história, seus próprios antepassados. Tá ceto Le Pen dizer isso, afinal a França é dos franceses, a Alemanha é dos brasileiros, a China é dos chineses etc. Corrretíssima as críticas de Le Pen

      • Edinho Postado em 01/Jul/2014 às 16:41

        Viva a globalização! Ops, não! Pera... Feudalismo! Feudalismo! Feudalismo! Feudalismo! Que cheiro de século XII... Se o Le Pen zela tanto pela história francesa, por que nega o devido reconhecimento àqueles que foram massacrados e explorados para que a França construísse seu poder político e econômico? A História não tem um lado só. Assim como a Terra não é plana...

      • Diego Postado em 01/Jul/2014 às 17:05

        Temos um manjador. Alemanha dos brasileiros...

  3. Denisbaldo Postado em 27/Jun/2014 às 23:49

    Limpando a sujeira debaixo do tapete. Le Pen é o típico conservador, para ele o jogador pode vestir a camisa da França independentemente de sua origem mas deve cantar e celebrar a sua própria extinção, a sua cultura. Conservador??? O que o ser humano tem para conservar a não ser hábitos antiquados, preconceituosos e poeira???

    • Sousa Postado em 28/Jun/2014 às 21:17

      Le Pen é típico conservador da sociedade que tem alguma vergonha na cara como família heterossexual, a não intromissão do Estado em assuntos de foro ínitmo da família, educação religiosa cristã sim etc. Vá estudar e pensar com a própria cabeça.

      • Edinho Postado em 01/Jul/2014 às 16:45

        Se Le Pen tivesse capacidade de sentir vergonha de algo, teria vergonha de si mesmo e da vergonha que faz a França passar. Um idiota que levaria o mundo à terceira guerra mundial pra "limpar" a Europa, se pudesse. E há quem aplauda.

  4. Cezar Postado em 28/Jun/2014 às 09:49

    E não é só na França. Mario Balotelli foi achincalhado pelos internautas depois da derrota da Itália. Isso só demonstra que estamos um passo bem largo na frente dos europeus.

    • José Ferreira Postado em 28/Jun/2014 às 10:40

      O Balotelli quer ser melhor que os outros na seleção italiana. Ele tem que jogar mais futebol e causar menos.

      • Cezar Postado em 28/Jun/2014 às 11:31

        Companheiro, a questão não é essa. Vamos raciocinar, só um pouquinho, tá?!

      • Valdeir Morais da Luz Postado em 29/Jun/2014 às 17:15

        O Balotelli não quer causar nada, os Idiotas Preconceituosos sim, ou será que você acha que ele gosta do que fazem com ele ??, como tem o velho ditado Pimenta nos Olhos dos Outros é Refresco.

    • André Postado em 28/Jun/2014 às 20:24

      Porém, os brasileiros que estiveram hj no Mineirão deram uns 10 passos para trás...

      • Souza Postado em 28/Jun/2014 às 21:13

        Foi muito feio que os brasileiros fizeram. Tem nada que achincalhar os outros enquanto cantam seu hino. Vergonhoso

      • Maite Lindo Postado em 29/Jun/2014 às 16:54

        concordo André, uma atitude onde demonstra a total falta de conhecimento, um HINO NACIONAL seja do Brasil ou de qualquer outro pais, é um simbolo Nacional, portanto vaiamos ( porque lá representava a nação brasileira) O PROPRIO CHILE...NÃO APENAS UMA EQUIPE DE FUTEBOL.

    • Daniel Postado em 29/Jun/2014 às 20:27

      Ledo engano meu amigo, aqui a segregação principalmente voltada a poderio econômico segue encarnada na sociedade e irrustida por falsas aparências e discursos moderados.

    • Felipe Postado em 30/Jun/2014 às 09:04

      Infelizmente, caro Cézar, o Brasil não está tão avançado em relação aos europeus. Há muito racismo por aqui. É que nós não o percebemos em razão de ser frequente.

  5. José Ferreira Postado em 28/Jun/2014 às 10:38

    Se ele reclama de França, então por que ele não joga pela Argélia. Essa coisa de não cantar o hino é apenas para aparecer, pois, se ele quisesse mesmo protestar, ele vestiria a camisa da seleção argelina e cantaria do hino do país. No caso dele o dinheiro e a possibilidade (remota, mas maior que da Argélia) de ser campeão mundial de futebol o fizeram ser "coxinha".

    • Ícaro Melo Postado em 28/Jun/2014 às 12:42

      Concordo, complexo demais..

    • Denisbaldo Postado em 29/Jun/2014 às 12:56

      Eu sou um conservador também, conservo comida congelada. Só que se eu demorar muito para consumi-la ela estraga, igualmente ao pensamento de muitos. Pelo que você diz é tão complexo todo o raciocínio por trás da cultura conservadora que você mesmo não consegue explicar e exemplificar coisa alguma. Falou, falou e nada disse. Me lembra um candidato do PSDB à presidência do Brasil.

    • João Souza Postado em 29/Jun/2014 às 19:15

      Ele tem o direito de defender a seleção que tiver vontade é o direito de se manisfestar como acredita ser coerente também, ele com o gesto de não cantar o hino levantou discussões e chamou a atenção para um problema ele jogando pela Argélia conseguiria isso? Podia causar um borburinho que passaria logo quando a Argélia fosse desclassificada, mas com a França ele teve um valor maior e não só ele outros jogadores também o seguiram. Agora se a pessoa não protesta como o outro acha que deve ele é um coxinha...perdeu a mão ele não é desinformado e manipulado muito pelo contrário.

    • Rafael Neves Postado em 29/Jun/2014 às 20:12

      Óbvio. Porque ele é francês e só quer que a história de seus antepassados seja respeitada. Para protestar contra as atrocidades cometidas no passado não é preciso renegar a pátria mas é dever impedir que os crimes se repitam no presente.

    • Thiago Teixeira Postado em 29/Jun/2014 às 21:16

      Ferreira, faço minhas vossas palavras. Mas Xenofobia na Europa é algo surreal, todos os povos sem exceção circularam em todo continente a longo de séculos devidos as guerras, invasões, feudalismos, politicas de expansão dos inúmeros imperadores que dominaram o mundo em suas gestões. Raça pura é idiotice.

    • poliana Postado em 30/Jun/2014 às 11:07

      denisbaldo: "eu sou conservador tb, conservo comida na geladeira". kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk! ri litros..obrigada por alegrar a minha manhã denisbaldo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!kkkkkkkkkkkkk

    • Bruno Garcia Postado em 15/Jan/2015 às 14:30

      Na verdade, ele é francês, não Argelino. Nascido no dia 19 de dezembro de 1987, em Lyon, França. Ele joga pela seleção do país dele. Só discorda do que algumas frases do hino do país dele canta, porque isso ofende a ele, pessoalmente. Consegue entender?

  6. Yrae Postado em 28/Jun/2014 às 17:23

    Se a Frente Nacional diz que estes jogadores não são franceses de verdade, por que exigir que eles cantem o hino da França? Não faz sentido. Trata-os como bárbaros depois os exigem patriotismo... estratégia de desumanização do "estrangeiro".

    • Souza Postado em 28/Jun/2014 às 21:23

      E por que permitir que jogem? Devem então serem expulsos da seleção.

    • José Ferreira Postado em 29/Jun/2014 às 10:58

      Se está na chuva é para se molhar. Se não gosta da França, que volte para a Argélia.

      • Anderson Silva Postado em 29/Jun/2014 às 14:33

        Mas o que é a França hoje, senão aquilo que os imigrantes construiram?! Perturbador seu pensamento colega, e até perigoso. Não há palavra alguma que exemplifique que Benzema não gosta da França, mas sim que não concorda com a letra do hino, carregada de preconceitos. Faria o mesmo.

      • Fausto Postado em 29/Jun/2014 às 17:44

        Tipo "Brasil, ame-o ou deixe-o", correto? Pensamento idiota. Ele, como cidadão tem o direito (e dever) de se posicionar sobre o que não concorda em seu país.

      • José Eduardo Postado em 29/Jun/2014 às 19:10

        Interessante o que seria da grande Europa sem a exploração de suas colonias por seculos? Será que seriam tão ricos, tão cultos sem milhões vindo do sangue derramado, do extrativismo, da exploração? E hoje o que seria sem a mão de obra barata que faz a economia deles girar? Interessante quando o estrangeiro faz a economia crescer é bem vindo, mas se ele reclama, adoece aí saia desse país...O mais interessante é ouvir isso de alguém que é de uma outra Argélia uma colonia também explorada.

      • José Ferreira Postado em 30/Jun/2014 às 00:07

        Isso é anacronismo. E o hino faz parte da História da França, logo ele está renegando a sua pátria (se bem que ele é argelino).

      • Eduardo Abreu Postado em 30/Jun/2014 às 00:20

        A FIFA bem que poderia rever essa de dupla nacionalidade no futebol, daqui a pouco teremos brasileiros jogando em todas as seleções do mundo.....se ele é Argelino, porque defende a França, se a Argélia está na copa......são direitos meio torto em se tratando de um esporte.....

      • Yrae Postado em 30/Jun/2014 às 17:29

        Partindo de seus princípios, os brancos devem voltar para a Europa? Os negros para a África? E os nipos para o Japão? Afinal, quem não é descendente de estrangeiro no Brasil, além dos índios? Álias todos os humanos são estrangeiros, porque o Homo Sapiens branco surgiu no Caucaso, o que eles fazem na França, Itália, Alemanha, Inglaterra? O homo sapiens africanos nasceu na Etiópia. O que ele faz em Angola, Moçambique e os demais países??

      • Bruno Garcia Postado em 15/Jan/2015 às 14:31

        Ele não pode voltar para a Argélia, porque ele nunca esteve lá. Benzema é Francês, nascido em Lyon.

  7. DMHA Postado em 29/Jun/2014 às 17:18

    se não fosse os imigrantes, a seleção francesa nem pra copa se classificaria e nem teria sido campeã, com certeza benzema será o bode expiatório de uma eliminação francesa

  8. Gleison Postado em 29/Jun/2014 às 17:41

    O Le Pen é o Bolsonaro francês!

  9. Marcos Ordonha Postado em 29/Jun/2014 às 18:50

    "Mas é nos gramados que essa questão ganha uma alegoria perfeita na medida em que a seleção reflete, como poucas outras instituições, a diversidade étnica do país."

  10. Alexandre Fortes Postado em 29/Jun/2014 às 19:30

    O Sr. José me lembra uma turma que vive em São Paulo. Aqueles que consideram os migrantes do Nordeste uma chaga na capital paulistana mas que se esqueceram de que a cidade só é uma potência porque o suor e o sangue desprendidos para isso come farinha e rapadura. Patético!

  11. Eduardo Abreu Postado em 30/Jun/2014 às 00:17

    é o PRIMEIRO MUNDO, O TÃO COMPARADO COM O BRASIL, QUE É MELHOR QUE A GENTE BLA BLA BLA..... pena que aqui uma galerinha xingando o hino de outro país numa clara demostração xonofóbica, se é que elas sabem o que significa isto....

  12. Guilherme Fedalto Postado em 30/Jun/2014 às 03:46

    A xenofobia existe e deve ser combatida. Entretanto, o hino francês foi escrito em 1792 e o sangue impuro refere-se a monarquia FRANCESA dominante da época, que foi subjugada e morta. Os ideais franceses dos patriarcas da revolução são de uma república mista, não há intenção de racismo nos ideais dos intelectuais que compuseram a Marselha. O que há, nesta notícia, é uma interpretação errada do texto do hino. Erro que não ocorreu apenas neste site.

    • Bruno Garcia Postado em 15/Jan/2015 às 14:35

      Na verdade existe uma atualização do mesmo conceito de impureza. A intenção original do autor é irrelevante, uma vez que o hino, muito bem apontado por La Pen, é francês por excelência e esse sangue "impuro" é interpretado como o dos imigrantes. Não há erro no site, uma vez que é assim que a realidade se coloca.

  13. Fagundes Postado em 30/Jun/2014 às 10:07

    É bom lembrar que o hino do Rio Grande do Sul fala numa parte: " sirvan nossas façanhas de modelo a toda terra" . Até hoje os gaúchos do pampa estão procurando onde estão "as façanhas" proclamadas pelo hino gaúcho dos tradicionalistas. Até porque o estado está financeiramente falido e não é o mundo que copia o Rio Grande do Sul, pelo contrário....é o Rio Grande do Sul que precisa do mundo....

  14. Carneiro Postado em 03/Jul/2014 às 02:49

    No final das contas, todos eles lá perfilados estarão dando seu sangue e seu suor em homenagem ao único deus que adoram: o Dinheiro.