Eric Gil
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Colunistas 10/Jun/2014 às 09:57
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Brasil, um país em greve

greve dos metroviários são paulo
Metroviários de SP em greve (divulgação)

Eric Gil*

Às vésperas da Copa do Mundo da FIFA, o Brasil borbulha de norte a sul e parece prestes a estourar.

Um ano atrás, iniciava-se o que ficou conhecido como as Jornadas de Junho, uma série de manifestações onde milhões de pessoas tomaram as ruas do país, fazendo com que quase todos os aumentos de tarifa de transporte público coletivo fossem revogados, o que resultou em uma taxa de inflação do transporte público praticamente de 0%.

Muitos analistas, na ocasião, lembraram de um fato relevante, o qual aconteceu anteriormente às Jornadas, desmistificando a tese de que as grandes manifestações foram totalmente espontâneas e desconectadas de um contexto anterior: o aumento da quantidade de greves. Em 2012, segundo o balanço divulgado pelo DIEESE, esta marca foi de 873 paralisações pelo país, a maior desde 1997, e 58% a mais do que o ano anterior.

Infelizmente o DIEESE ainda não atualizou estes dados para este ano, o qual nos impossibilita a análise comparativa. No entanto, a Folha de São Paulo lançou, recentemente, uma ferramenta de contabilidade de protestos em dez das principais cidades do país, o “protestômetro”. Segundo esta ferramenta, desde 31 de março deste ano, estas dez cidades já presenciaram 400 protestos em suas ruas.

Mas uma greve é o símbolo do momento que o país vive, a dos metroviários do estado de São Paulo. Em greve desde a meia-noite do dia 04 para 05 deste mês, a qual suspenderam ao menos por dois dias, os trabalhadores do metrô seguem o exemplo dos garis cariocas, e enfrentam grande repressão do governo por ganhos reais mais significativos, ao invés da proposta oficial. Diferente de anos anteriores, os trabalhadores lutam não mais pela manutenção dos seus salários, e sim por verdadeiros ganhos reais, realmente acima da inflação.

Com apoio de 80% da população, segundo o R7, parece ser natural que as pessoas achem estranho que falte dinheiro para aumento salarial dos metroviários – que hoje têm um piso de R$1.323,55 e pedem aumento de 12,2%, o que daria um crescimento real de 5,83%, se considerarmos o IPCA de maio, até então o governo só cedeu 8,7% – pois o metrô de São Paulo foi pivô de um escândalo que, segundo o Ministérios Público, o prejuízo gira em torno de R$2,5 bilhões. Além disto, a esperança ainda vem de meses antes, quando os garis cariocas arrancaram 37% de aumento nos seus salários.

O saldo desta greve, até então, é digno do selo Geraldo Alckmin: demissões, acidentes de trabalho, repressão e imposição – a assembleia que ocorreu nesta noite do dia 09, aceitou a proposta dos 8,7%, mas definiu uma nova assembleia para quinta-feira, com possibilidade de paralisação. Em uma medida absurda, o secretário estadual de Transportes Metropolitanos do estado de São Paulo, Jurandir Fernandes, anunciou a demissão de 42 grevistas, alegando que as “demissões [foram] por justa causa, [e contaram com] aqueles que já foram catalogados, com provas materiais de vandalismo, aqueles que barraram fisicamente, que incitaram a população a pular a catraca”. Além disto, hoje ocorreu a morte de um operário nas obras do monotrilho da linha 17 – ouro do metrô, o qual deixam claras as condições de trabalho dadas para as obras públicas. Nenhuma surpresa para quem protagonizou tragédias como Pinheirinho e tiros de bala de borracha em jornalistas.

Em mais uma tentativa de desmoralizar o movimento, Jurandir Fernandes ressuscitou o argumento de que não existe “almoço grátis”, ao falar da proposta do Sindicato dos Metroviários para a Catraca Livre em meio à greve. O secretário taxou como “baboseira”, e lembrou que o passe livre é algo romântico. Para ele, o passe livre, ou catraca livre, será pago pela Dona Maria lá do Pontal do Paranapanema, via impostos. Chamando de “criançada entusiasmada”, ele diz que isto seria “o auge de um orgasmo coletivo”. Bem, realmente não existe “almoço grátis”, o orçamento de SP, de quase 200 bilhões de reais, deve ir para algum lugar, e o que o passe livre propõe é que o orçamento da secretaria do Jurandir, que hoje equivale a 4,9% das despesas totais, seja ampliada (em detrimento de outras) para garantir que o transporte seja um direito (por isto a palavra “transporte não é mercadoria”, e sim um direito). A prioridade de para onde vai o almoço é uma disputa política. Mas será que Dona Maria que vai pagar? Ela já paga uma tarifa de, hoje, 3 reais. Mas o lucro está embutido aí, o que poderia fazer com que diminuísse a tarifa, caso não houvesse. Mas a Maria já paga sua tarifa de metrô ou ônibus para ir trabalhar além dos impostos. Quem vai pagar é o Carlos, do Morumbi, e não a Maria do Pontal do Paranapanema, que hoje paga em dobro (imposto e tarifa).

Enquanto isto, em todo o Brasil outras greves pipocam. Hoje, professores em greve do Rio de Janeiro e São Paulo fizeram atos. No Rio, metroviários decidirão nesta terça se também entrarão em greve. Em Curitiba, técnico-administrativos e trabalhadores da saúde, ambos em greve, fizeram um protesto contra a implementação da EBSERH. Em Natal, que também será cidade-sede, rodoviários decidiram entrar em greve na quinta-feira, dia que começa a Copa do Mundo. Em João Pessoa, trabalhadores da CAGEPA, Companhia de Água e Esgotos da Paraíba, entraram hoje em greve. E assim a lista parece não ter fim.

Se teremos, um ano depois, um “novo junho” não sabemos, mas que a Copa do Mundo propiciou um terreno de revoltas populares e greves em todo o país já é um fato. Bem, pelo jeito nesta Copa vai ter greve.

*Eric Gil é economista do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) formado pela Universidade Federal da Paraíba, mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná; escreve quinzenalmente para Pragmatismo Político

Leia aqui todos os artigos de Eric Gil

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Comentários

  1. Robson Postado em 10/Jun/2014 às 13:03

    Não acredito que seja revolta popular, mas sim que estão se aproveitando do momento. Haja vista que a copa do mundo é um dos eventos de maior visibilidade internacional, e sabendo disso as greves foram programadas para esse período acreditando-se que o governo negociaria de forma ágil para não passar uma imagem ruim. Particularmente acho que não é uma aposta boa, estão tão somente arranhando a imagem de suas respectivas categorias.

    • Leonardo Postado em 10/Jun/2014 às 14:18

      Uma greve de trabalhadores do metrô não é popular? O que seria uma greve popular então? Greve do senado????

      • Carlos Prado Postado em 10/Jun/2014 às 16:06

        Uma greve de populares, de trabalhadores? Sei não, uma greve de políticos sindicalistas não me parece tão popular, ainda mais quando a população não se simpatiza tanto.

  2. Thiago Teixeira Postado em 10/Jun/2014 às 13:07

    Greve do Metro no dia de estreia da Copa do Mundo ... entranho, não acham? Parece que somos um bando de idiotas. Mudei de opinião, tomara que a Copa seja um desastre e que esse país se afunde na lama do desemprego e fique mais uns 50 anos com o filme queimado para o resto do mundo, nós merecemos o pior e ser os piores pois somos vira latas.

  3. Milton Postado em 10/Jun/2014 às 14:55

    Eu acho que, além da copa do mundo, estão usando cada vez mais os anos eleitorais para reivindicarem. E acho válido, enquanto o desejo de ver melhorias na categoria for maior que o interesse político de alguns líderes dessas greves. No mais, autor do texto certamente não sabe onde é o Pontal do Paranapanema (que ele escreve "Parapanema")...

  4. mauricio augusto martins Postado em 10/Jun/2014 às 19:23

    Tem certos "detalhes" que faz com que a "fita" trave, existe toda uma linguagem específica para cada Categoria de Trabalhadores, e sobretudo algumas "gírias" utilizadas em Sindicatos, quando li na camiseta do Nobre Metroviário tipo assim "Queremos um salário padrão fifa"(?) Linguagem de Coxinha? e gente com camiseta da "força sindical", dá pra perceber que não é bem Dissídio Coletivo que pleiteiam, mais parece é "pelegada" mesmo, infelizmente sempre fora utilizado os Verdadeiros Movimentos Sindicais pela direitona-furiosa via pig, para "satanizar" o Trabalhador, pois Greves sempre existiram, umas mais e outras menos perceptíveis, devemos sempre separar o Joio do Trigo, pois a rapinagem da oposição vai fazer de tudo para levar no Golpe e no Grito, ganhar não ganham, mas a cada eleição, sobra um monte de Coxinhas para ficarmos esbagaçando, e dando Trabalho extra aos Coitados dos Professores, só servem para "implantar" preconceitos...maumau

  5. Ronaldo Postado em 11/Jun/2014 às 09:15

    Quando Aécio vencer, o novo título será: "Brasil, um País sem emprego..." Aí, eu vou rir e muitoooo!!!!

  6. Jão Da Silva Postado em 27/Jun/2014 às 12:57

    Se tiver mais "jornadas de junho"(no ano que vem, se for), já preparei a placa com a minha reivindicação: Fim Á Exportação de Ucraniano-brasileiros À Ucrânia Para Ensinar A Pintar Pêssanka(não sei como que escreve).