Redação Pragmatismo
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Barbárie 09/May/2014 às 19:26
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Quando a gente se dá conta da barbárie...

A barbárie chega aos poucos. Ela se instala quase sempre sem alarde. E quando a gente se dá conta, está matando uma mulher à pancada em plena rua, porque alguém disse que quem sabe teria sido suspeita de um crime que ninguém nunca viu

A barbárie chega aos poucos.

Ela se instala quase sempre sem alarde.

Na maior parte das vezes, por trás de motivos ditos imperiosos, circunstâncias extraordinárias e outras coisas pretensamente terríveis com que nos convencem a abrir mão de direitos.

Ela cresce sob a batuta do medo e a suposta necessidade de reagir, gerando ainda mais medo, naquele círculo vicioso de uma profecia que se autorealiza.

As pessoas vão se acostumando a romper os limites do que pensam e falam e como se tratam. Jornalistas e políticos abrem mão de seus protocolos e de seus princípios. Juristas acomodam e flexibilizam os conceitos do direito. E a histeria vai comendo a todos pelas bordas.

Quando a gente se dá conta, está matando uma mulher à pancada em plena rua, porque alguém disse que quem sabe teria sido suspeita de um crime que ninguém nunca viu.

Já faz tempo que vimos nos seduzindo por um discurso irresponsável e sensacionalista que prega, a partir do eterno mito da impunidade, a necessidade de mais polícia, mais pena, mais prisão, mais tortura, mais mortes.

A lógica do estado policial vai se instaurando como um vírus dentro do corpo social, porque interessa a muitos que combatem, às vezes abertamente, outras de forma sub-reptícia, a preservação do estado social.

Afinal, direitos são mais caros do que penas. E emancipam, não encarceram.

As soluções de todos os problemas passam, então, pela dinâmica criminal. Tudo é criminalizado e criminalização é cadeia e cadeia é, sobretudo, dor, sofrimento e morte.

E quando o direito penal não funciona, a culpa não é atribuído ao excesso, mas à escassez, resolvendo-se, então, em mais crimes, mais penas, mais prisões, mais torturas.

E o reclamo de que o estado é ineficiente, leniente, frouxo e que as pessoas tem “legítima defesa” para agir contra criminosos.

Pouco importa se a cultura do bandido bom, bandido morto resulta em uma contradição inconciliável –porque matar é um crime mais grave do que a maioria dos crimes atribuídos a esses “bandidos” que são mortos.

O importante é aumentar o tônus criminal, porque isso dá audiência, isso dá votos, isso dá ordem e disciplina, isso confirma uma linha imaginária (e, sobretudo, racista) que separa os bandidos dos homens de bem –criminosos em muitas outras órbitas, mas homens de bem assim mesmo.

E na toada vamos concordando com o aumento de penas, com o encarceramento desmedido, com o senso comum de que a impunidade cresce, paradoxalmente com o inchaço da população carcerária, e que, enfim, é preciso aceitar medidas drásticas para situações excepcionais.

E passamos a tratar criminosos como inimigos, manifestantes como terroristas, favelados como subumanos, e vamos admitindo as violências policiais, os estados de sítio implicitamente decretados nas decisões judiciais, e compreendendo a revolta de quem se vê, ou apenas se sente, vítima da criminalidade.

Aí a gente criminaliza a defesa, porque só atrapalha, culpa o habeas-corpus porque atrasa a justiça, responsabiliza os próprios presos pelas violências que sofrem, e admite prender garotos no poste, quando são flagrados no crime, porque, afinal de contas, nada funciona mesmo.

E quando a gente se dá conta, está matando uma mulher à pancada em plena rua, porque alguém disse que quem sabe teria sido suspeita de um crime que ninguém nunca viu.

Marcelo Semer, em seu blog

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 09/May/2014 às 14:48

    Excelente texto!

  2. Rafael Martini Postado em 09/May/2014 às 19:25

    Perdoem-me, mas prestigiar Sherazades, Datenas e Resendes da vida, em minha humilde opinião, é assinar o atestado de ignorância. Quanto ao texto, irretocável.

  3. Selton Postado em 09/May/2014 às 20:53

    Perfeito!

  4. Isadora Barros Postado em 09/May/2014 às 23:31

    Muito bom texto! É realmente lamentável esse caso da dona de casa, tão jovem, e morta de maneira tão brutal e covarde. Fiquei chocada com o vídeo, tudo isso é tão triste. Tantas pessoas assistindo alguém ser espancado daquela forma, e nada fizeram pra impedir. É inacreditável , imperdoável e inadmissível que um crime desse ocorra nos dias de hoje! A autotutela do direito é uma regressão na historia. Somente os ignorantes não enxergam isso!

  5. Elias Postado em 10/May/2014 às 01:20

    Texto fraco, a justiça no Brasil não existe é uma piada, trabalho nela, aqui assassinos não ficam presos nem 2 anos, menores são permitidos matar todos sabem, o Brasil é uma piada nesta área isso é dito em qualquer fórum de segurança principalmente nos internacionais, o Brasil vive a plena anarquia e o pior com a população desarmada a tendencia é piorar cada vez mais. Em países de verdade USA, China, qualquer um da Europa, prisão perpetua, pena de morte, leis contra terrorismo é isso que garante os verdadeiros "direitos humanos", isso é a base de um contexto muito maior, aquele que não respeita a lei não respeita mais ninguém se acha "livre" e condena todos a sua "liberdade" crimes em geral.

    • Rafael Martini Postado em 10/May/2014 às 15:46

      Seu comentário confirma o exposto no texto.

  6. Deisi Postado em 10/May/2014 às 10:19

    Texto perfeito nada a ser mudado ,hoje fico mais preocupada em ser confundida e ser linchada ,do quer ser roubada , com a nova tendência ,"justiças com as próprias mãos "; imperando todos estamos correndo grande risco . E com apoio de Dapena e Sherazedo e gente que acha que matar criminoso , não é crime , estamos muito próximo de muitas barbáries , e com aplausos de muitos .

  7. Antonio Carlos Bueno Postado em 10/May/2014 às 19:30

    Felizmente ainda existem pessoas lúcidas neste nosso Brasil. Parabéns Marcelo Semer pelo seu texto.

  8. Guilherme Ferreira Postado em 11/May/2014 às 15:53

    "eterno mito da impunidade" Em que país você vive? Idiota...

  9. Elias Postado em 11/May/2014 às 18:53

    http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2026752 Mortos da Ditadura o outro lado O "justiçamento" era a prática da tortura seguida de morte aos opositores dos guerrilheiros durante a época do regime militar de 1964. Ocorria, também, em diversos tribunais revolucionários espalhados pelo mundo, oriundos, em geral, de uma situação política excepcional que se instalava após o sucesso de um movimento revolucionário. Cada povo tem o governo semelhante a si mesmo.

    • Thiago Teixeira Postado em 11/May/2014 às 21:24

      Resumindo seu raciocínio, linchamentos é invenção dos comunistas. São práticas da esquerda. Trazendo para a atualidade, é culpa do PT. Mais além, culpa da Dilma. Parabéns, continue lendo os textos dos "jornalistas" da Veja.

  10. Alcides de Mello Caldeira Postado em 11/May/2014 às 21:05

    "Quem estiver livre de culpa, que atire a primeira pedra ...", como já disse Cristo, grande revolucionario do seu tempo, quando queriam apedrejar Maria Madalena ! Esses justiceiros calhordas, são incapazes de olhar para si proprios, pois pensam estar acima de tudo e de todos ! Covardes, alem do mais ...

  11. Pereira Postado em 12/May/2014 às 09:38

    Veja quem realemnte incita a violência no Brasil http://www.youtube.com/watch?v=4Z2V1803xZ8

  12. eu daqui Postado em 12/May/2014 às 14:02

    Linchadores lincham por que assim decidem e escolhem, não porque jornalistas apoiam este ou outro linchamento.

  13. felipe Postado em 12/May/2014 às 17:18

    Parabéns, Marcelo. Muito bom o texto.