Redação Pragmatismo
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Direitos Humanos 08/May/2014 às 09:43
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Jean Wyllys: uma reflexão sobre o linchamento de Fabiane Maria de Jesus

Que o defensor e praticante do linchamento consiga, num lampejo de lucidez, imaginar que, dado esse caldeirão de ignorância e ódio, a próxima vítima pode ser ele mesmo

Jean Wyllys

Não sou membro da Comissão de de Segurança Publica e de Combate ao Crime Organizado, mas, como deputado do PSOL – partido que apresentou à Procuradoria Geral da República uma representação contra a jornalista Rachel Sheherezade quando esta apoiou publicamente o linchamento como resposta à sensação de insegurança nas grandes cidades – e como parlamentar que recentemente aprovou requerimento na Comissão de Direitos Humanos e Minorias para discutir a situação da violência urbana no Rio de Janeiro, além de (e antes de qualquer coisa) como cidadão que se encontra estarrecido com os recentes casos de linchamento no país, não pude deixar de participar da audiência pública que nesta terça-feira à tarde debateu o tema “justiça com as próprias mãos”.

Um dos pontos que achei importante levantar em minha intervenção foi o de que, se não podemos tratar do racismo que hoje perpassa as relações sociais no Brasil sem levar em conta a escravidão que, por séculos, moveu a economia do Brasil; se não podemos caracterizar as elites de hoje sem pensarmos na aristocracia de outrora – e ambas têm a perspectiva dos privilégios e não do direito -, também não pormos tratar dos recentes linchamentos sem levar em conta nossa história mais recente.

As duas décadas da ditadura militar foram tempo suficiente para criar uma cultura na qual certas pessoas são desprovidas de dignidade a ponto de serem vítimas de um crime de lesa-humanidade como a tortura, que continua sendo praticada em delegacias, prisões e nas comunidades mais pobres onde a polícia tem uma presença maior ou onde vigoram estados paralelos como o tráfico e a milícia. Quando pensarmos no “justiçamento” hoje praticado no Brasil, não podemos nos esquecer no modelo de desenvolvimento implantado pela ditadura militar, que provocou migração de pessoas do campo para as grandes cidades, criando as grandes periferias urbanas e todos os problemas que elas enfrentam.

Em que pesem os avanços sociais inegáveis da chamada “era Lula”, o Estado ainda não pagou o débito em educação, saúde, moradia de qualidade, acesso à cultura e à justiça com esse contingente. Sobretudo o débito com a educação de qualidade, que, junto à cultura, tem papel central na construção da ‘vida com pensamento’ e do processo civilizatório. Podemos até ter massificado a educação, mas a qualidade da educação oferecida ainda é baixa. Só uma Educação de qualidade e um acesso amplo a equipamentos de cultura, esporte e lazer – algo a que a grande maioria da população não tem acesso – podem produzir a cultura do respeito à vida e à diversidade humanas.

Não se pode pensar nos linchamentos sem pensar em como a ausência do Estado permitiu, nas periferias, do início do anos 80 até os anos 90, a emergência dos chamados “embriões de Estado”: o narcotráfico e as milícias, que também promovem “justiçamento” à margem do Estado Democrático de Direito e no vácuo da legalidade.

O caldeirão cultural de violências decorrentes dessa negligência institucional também tem sua parcela de responsabilidade nesses atos de justiçamento.

Qualquer um de nós pode ser vítima de linchamento, mas, na prática, as pessoas mais pobres estão mais vulneráveis a ele porque, historicamente, foram alijadas de direitos e descartadas da comunidade de direitos por do ponto discursos que as desqualificam como humanos. Não há exclusão da comunidade de direito sem, antes, haver desqualificação das pessoas excluídas. Os telejornais e, antes, a mídia impressa desqualificam as populações mais pobres, associando-as à criminalidade e à violência urbana – o que justifica a presença apenas da polícia como braço do Estado nessas comunidades. Se estas pessoas são desqualificadas e expulsas da comunidades de direitos, a polícia, ainda que saindo dessa própria comunidade, não as respeitará como sujeitos. Isso fica muito claro quando lembramos dos casos Cláudia, arrastada em um carro da polícia, Amarildo, ambos ocorridos no estado do Rio de Janeiro.

Nós, parlamentares, juramos proteger os princípios da Constituição Cidadã no dia da nossa posse. Mas, a despeito deste juramento, muitos colegas levantam as bandeiras “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos são direitos de bandidos” com uma desonestidade intelectual e falta de discernimento – e isso, de alguma forma, tem relação com os linchamentos.

Algo que não podemos desprezar no linchamento do Guarujá, por exemplo, é o fato de a vítima ter sido, antes, alvo de uma difamação nas redes sociais digitais que a transformara em sequestradora de crianças para sacrifício em rituais de “magia negra”. Ora, além de a expressão “magia negra” ter uma forte conotação racista, já que cunhada pelos colonizadores brancos e cristãos para designar as práticas religiosas dos negros escravos, hoje ela é confundida no senso comum com as próprias religiões de matriz africana, graças à difamação e perseguição que estas sofrem por parte de muitos pastores e obreiros neopentecostais em cultos e telecultos. Ou seja, está claro que os linchamentos têm relação com a promoção da ignorância e com a decorrente prática da intolerância.

Se o governo federal já tivesse, por meio de uma articulação entre Ministério da Educação e das secretarias de Promoção da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, implementado a Lei 10.639 (que inclui o estudo e a valorização da herança cultural africana no currículo escolar), talvez – talvez – o linchamento do Guarujá não tivesse ocorrido. Se os percentuais do orçamento para educação e a cultura fossem maiores que o atuais (pífios!) e empregados em políticas públicas de qualidade nos três níveis da federação, talvez um contigente maior soubesse distinguir uma difamação nas redes sociais de uma notícia apurada ou denúncia fundamentada e não saísse espancando pessoas por causa de boatos que despertam seus preconceitos.

Não quero dizer, com isso, que a culpa seja só do governo federal. Eu seria desonesto e injusto se o dissesse. Os governos estaduais e municipais também são culpados, sobretudo porque gangrenados por esquemas de corrupção que desviam os recursos da educação e da cultura para enriquecimento privado. Como expliquei acima, o poder Legislativo também tem sua parcela de culpa; parte da mídia também (uma grande parcela!) e, claro, o poder Judiciário, que ainda funciona de maneira seletiva e exclui os mais pobres do acesso à justiça e à mediação de conflitos.

Mas jamais nos esqueçamos de que governos, poderes, mídia e instruções são pessoas; e de que, em última instância, colocar-se contra “justiçamentos” e linchamentos é um questão individual. Que o defensor e praticante do linchamento consiga, num lampejo de lucidez, imaginar que, dado esse caldeirão de ignorância e ódio, a próxima vítima pode ser ele mesmo. E aí?

originalmente publicado em CartaCapital

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Comentários

  1. Fran Postado em 08/May/2014 às 11:54

    Quem é influenciado pela opinião alheia falta capacidade de ter pensamentos próprios, formar sua própria opinião, capacidade de julgar se algo é, está, certo ou errado.... "É preciso aprender a velejar para dentro de nós mesmos e aprender com a dor a lapidar a nossa alma." Isto vale para tudo em nossas vidas. Devemos nos interessar por nós mesmos, investir nosso tempo em nós mesmos, assim nos tornamos aptos a ajudar e não a julgar, cometer injustiça, nos desviamos da cilada de acharmos que estamos acima do bem e do mal. Se o governo não oferece educação de boa qualidade, invistamos em nós mesmos, em vez de comprarmos um Iphone, invistamos em livros com bom conteúdo. Existem muitas desculpas para praticar a violência. Ser pobre não é desculpa para ser violento, existem pais pobres e sábios, que educam filhos para serem honestos, mansos, humanos. A humanidade somente será melhor quando tiver mais empatia, aprender o significado da palavra amor.

    • Allysson Wandeberg Postado em 08/May/2014 às 13:41

      Falou bem Fran. Fica para a nossa reflexão.

  2. Thiago Teixeira Postado em 08/May/2014 às 12:52

    Resumindo, muito EMBALÃO, turma do OBA OBA, Maria vão com as outras, e por ai vai.

  3. Rodrigo Postado em 08/May/2014 às 13:53

    Em resumo Jean cala-te faz um bem maior assim, o linchamento não foi pela magia negra em si, foi por pensarem que ela estava sequestrando crianças e praticando sacrifícios, agora querer colocar intolerância religiosa e racismo, é querer tirar proveito da tragédia. Aquilo foi um assassinato, mesmo se ela fosse realmente culpada ainda seria assassinato. E quanto ao senhor Jean, você é a prova viva que merda também sai pela boca.

    • Thiago Teixeira Postado em 08/May/2014 às 18:22

      Concordo, Jean é um bosta. Mas tem algum senador, além dele e de seu partido, preocupado com estas ocorrências? Ou com opiniões seja a favor ou contra?

  4. Walter Postado em 08/May/2014 às 15:41

    Vai existir a partir de agora muito OBA OBA em cima do caso punição que é bom nada , pois já havia ocorrido outros e ninguém alertou a não ser o pragmatismo político e rede sociais tanto que a sheira morte ganhará um programa de auditório no SBT ou vai fazer companhia com o Datena na BAND.

  5. Selton Postado em 08/May/2014 às 18:37

    Acho que ele cometeu um erro histórico: "não podemos nos esquecer no modelo de desenvolvimento implantado pela ditadura militar, que provocou migração de pessoas do campo para as grandes cidades, criando as grandes periferias urbanas e todos os problemas que elas enfrentam." O processo de periferização não se originou no período militar, mas sim no começo do século 20, quando o capital privado constituiu o primeiro pé da economia industrial. Como é óbvio, industrias precisam de trabalhadores; mais ainda na gênese do processo industrial. Fora isso, ele discorreu bem sobre o assunto.

  6. André Postado em 08/May/2014 às 21:08

    Ok, Jean! Tu vai pedir o voto agora ou esperar o segundo semestre???

  7. Elias Postado em 08/May/2014 às 21:43

    É mesmo? Estudem sobre a Quimbanda e o que ela ensina e seus valores, na própria umbanda existe um receio contra essa linha da religião, sou ateu não acredito em nada mas religiões Africanas possui uma moral completamente diferente e condenável dentro do cristianismo ou seja nossa sociedade e valores majoritários. Ensinar que macumba é bonito nas escolas não muda nada, o que muda é uma polícia e justiça que funcionem e a esquerda é contra isso.

  8. Angelica Postado em 08/May/2014 às 22:30

    Achei por algum motivo que essa página era visitada por pessoas um pouco mais politizadas e educadas e com um nível intelectual um pouquinho melhor..ledo engano, comentários esdrúxulos,

  9. Susana Postado em 08/May/2014 às 22:50

    Ai até que enfim um comentário que preste..concordo contigo Angélica, tive a mesma impressão ao ler comentários tão 'autênticos'.

  10. Pereira Postado em 09/May/2014 às 12:22

    "Se o governo federal já tivesse, por meio de uma articulação entre Ministério da Educação e das secretarias de Promoção da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, implementado a Lei 10.639 (que inclui o estudo e a valorização da herança cultural africana no currículo escolar), talvez – talvez – o linchamento do Guarujá não tivesse ocorrido." Ué !!! Pensei que o estado fosse laico. Agora querem colocar religião afro no currículo ? Estudo bíblico como Lula queria não pode, mas estudo de religiões afro pode ??? Laicidade é só para os cristãos ?

  11. Pereira Postado em 09/May/2014 às 12:24

    Esse sujeito achou um jeito de por a culpa nos evangélicos, é impressionante a desonestidade de certos políticos que legislam em causa própria, a saber Jean BBB wilis. Lamentável !