Redação Pragmatismo
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Ditadura Militar 18/Mar/2014 às 19:00
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O Brasil da mídia e o Brasil real

Há 50 anos, como agora, existiam dois Brasis: o real e o inventado pela mídia. Pesquisa do Ibope, feita à época, e só agora revelada, mostra que 72% da população brasileira apoiava o governo

Hoje, quando abrimos jornais, ouvimos o rádio e vemos as TVs comerciais, o retrato é de um país à beira do abismo, tudo vai mal. Situação de quase pleno emprego, milhões de pessoas retiradas da miséria pelo Bolsa Família, pacientes atendidos em cidades que nunca haviam visto um médico antes são apenas alguns exemplos do Brasil ignorado pelo jornalismo “independente”.

Em março de 1964, o quadro era semelhante, embora houvesse um fantasma a mais, além do descalabro administrativo: o “perigo vermelho” representado pelo comunismo. Para a mídia, ele estava às nossas portas.

A televisão e demais meios de comunicação se prestavam a esse serviço de doutrinação diária azeitados por fartos recursos vindos de grandes grupos empresariais canalizados por meio do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), em estreita colaboração com a agência de inteligência dos Estados Unidos, a CIA.

O principal mensageiro televisivo dos alertas sobre a “manipulação comunista” do governo Goulart era o jornalista Carlos Lacerda. Apesar de afinados ideologicamente com os golpistas, os veículos de comunicação não faziam isso de graça.

Segundo o economista Glycon de Paiva, um dos diretores do Ipes, de 1962 a 1964 foram gastos nesse trabalho de desinformação US$ 300 mil a cada ano, em valores não corrigidos. Os dados estão no livro O Governo João Goulart, As Lutas Sociais no Brasil 1961-1964, do historiador Moniz Bandeira.

“O Ipes conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública, através do seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados (poderosa rede de jornais, rádio e TV de Assis Chateaubriand, por intermédio de Edmundo Monteiro, seu diretor-geral e líder do Ipes), a Folha de S.Paulo (do grupo de Octavio Frias, associado do Ipes), o Estado de S. Paulo e o Jornal da Tarde (do Grupo Mesquita, ligado ao Ipes, que também possuía a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo)”, relata René Armand Dreifuss, no clássico 1964: A Conquista do Estado.

Foi um período longo de preparação do golpe, e quando ele se concretizou a mídia ficou exultante. O Globoestampou manchetes do tipo “Ressurge a democracia”, “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida”. Sob o título “Bravos Militares”, o jornal da família Marinho, no dia 2 de abril de 1964, dizia que não se tratava de um movimento partidário: “Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira”. O Estadão seguia na mesma toada, enfatizando “o aprofundamento do divórcio entre o governo da República e a opinião pública nacional”.

globo apoiou a ditadura
Capa de O Globo celebra o golpe militar de 1964 no Brasil. Folha de S.Paulo e Estadão também apoiaram o regime militar (Arquivo)

Foram necessários 50 anos para termos a confirmação que o tal divórcio não existia. Pesquisa do Ibope, feita à época, e só agora revelada graças ao trabalho do historiador Luiz Antonio Dias, da PUC de São Paulo, mostra que 72% da população brasileira apoiava o governo. Entre os mais pobres, o ­índice ia para 86%.

E se Jango pudesse se candidatar nas eleições seguintes, previstas para 1965, tinha tudo para ser eleito. Pesquisa de março de 1964 dava a ele a maioria das intenções de voto em quase todas as capitais brasileiras. Em São Paulo, a aprovação do seu governo (68%) era superior à do governador Adhemar de Barros (59%) e à do então prefeito da capital, Prestes Maia (38%).

Dados que a mídia nunca mostrou. Para ela, interessava apenas construir um imaginário capaz de impulsionar o golpe final contra as instituições ­democráticas.

Lalo Leal, RBA

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Comentários

  1. renato Postado em 18/Mar/2014 às 19:16

    Para mim só existe um. o que pode ser objeto de estudo é quantos tipos de brasileiros temos. Mas assim na boa............VIVA o BRASIL.

  2. Homer Postado em 19/Mar/2014 às 11:29

    Isso não quer dizer nada. Vide a aprovação e a quantidade de votos que recebem políticos como Jader Barbalho e José Sarney...

  3. Luiz Postado em 19/Mar/2014 às 14:15

    Pois é, a mídia que deveria servir de ferramenta para resolver conflitos sociais - como denúncia e, também, na resolução de conflitos - hoje, e ainda, visa interesses de uma minoria, e vai inculcando uma ideologia que "endeusa" o dinheiro, fragmentando desde as pequenas comunidades até os grandes centros urbanos... O individualismo que passa a ser alimentado por um temor de sair pra rua, de confiar em alguém e etc, aos poucos o outro se torna um suspeito, uma ameaça. E o sentido da vida se torna adquirir objetos, contemplá-los, pois viver certo, segundo os grandes meios de comunicação, é se adestrar nesse sistema desumano, onde a posse, o imediatismo e o irracional vão ganhando forma de convivência e boas maneiras. Os grandes meios de comunicação se sustentam assim, de política, são braços controlados por uma minoria, que não admite reconhecer um Brasil carente, pois isso acabaria com seu monopólio, promoveria um outro tipo de telejornalismo, mais comprometido com a superação da dor e do sofrimento humano... enquanto isso, a gente assiste esse show, que desvia a atenção do primário para introjetar conteúdo violento e preconceituoso.

  4. Tatiana Silva Postado em 19/Mar/2014 às 15:26

    Texto interessante sobre o golpe: "Por que 64?" da Profª Maria do Carmo Gautério http://mariabonitadosul.blogspot.com.br/2014/03/por-que-64_16.html