Redação Pragmatismo
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Literatura 17/Mar/2014 às 17:57
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Mia Couto: Um dia isto tinha que acontecer

“A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam”

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, … A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

Retratação: O texto acima não é de autoria de Mia Couto. A autoria original chama-se Maria dos Anjos, que escreveu:

Agradeço a divulgação do texto.
Já não posso agradecer que ele me seja usurpado e atribuído a outrém, neste caso Mia Couto, autor que, aliás, admiro (e que já se demarcou da sua autoria).
Não sei de quem partiu a ideia de associar este post ao escritor moçambicano. Eu é que não fui.
Cumprimentos.

MªAnjos

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 17/Mar/2014 às 18:58

    Cidade de Goiás o local da foto?

  2. Patrícia Caetano Postado em 17/Mar/2014 às 20:04

    Mia couto! Sensacional! Já dizia Içami Tiba, os pais de hoje foram educados com pulso firme, antes eram obrigados a deixar o peito e a coxa da galinha para seus superiores, hoje com pena de fazerem com os filhos o mesmo que fizeram com eles, dão aos coitadinhos a coxa e o peito da galinha e continuam, que dureza...a comer pescoço e asa desde sempre!

  3. Rafael Postado em 17/Mar/2014 às 22:59

    Grupo bem seleto de jovens este que ele fala. Para grande parte, sem família, mimos, estudo ou perspectiva (e não são poucos), a história é bem diferente.

  4. Daniel Postado em 17/Mar/2014 às 23:15

    Esse texto não é do Mia Couto. Basta procurar no google.

    • Administrador
      Administrador Postado em 18/Mar/2014 às 16:41

      Retratação: O texto acima não é de autoria de Mia Couto. A autoria original chama-se Maria dos Anjos, que escreveu: Agradeço a divulgação do texto. Já não posso agradecer que ele me seja usurpado e atribuído a outrém, neste caso Mia Couto, autor que, aliás, admiro (e que já se demarcou da sua autoria). Não sei de quem partiu a ideia de associar este post ao escritor moçambicano. Eu é que não fui. Cumprimentos. MªAnjos

  5. Teresa Vasques Postado em 17/Mar/2014 às 23:54

    Com todo o respeito e admiração que tenho pela obra de Mia Couto creio que vive num Mundo, e digo mundo e não País, diferente do meu e de todos os que trabalharam, educaram e criaram os seus filhos no paradigma do BEM. A miséria onde estão todos aqueles que não nasceram com um nome pomposo digno de constar do Geneallnet, nada tem a ver com educação, permissividade ou proteccionismo dos nossos filhos, embora seja verdade que nunca tenhamos chagado a comer a melhor parte do frango. Deve-se outro sim ao (des)Governo de quem foi pago para tomar conta da coisa pública e impunemente se apoderou dela e continua, perante a incredulidade de todos, a fazê-lo . A recolha de denúncias do "apodrecetuga" é interminável : http://apodrecetuga.blogspot.pt/2014/03/perguntas-que-eu-gostaria-de-fazer.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+NoVotemPensem+(N%C3%A3o+votem,+pensem.)#.UyepHvl_sU8 e a justiça não funciona! É preciso mudar o paradigma! Enquanto uma parte da humanidade se maravilhava em torno da espiritualidade, do belo e do natural, aperfeiçoando-se em nome de ideais de VIDA e de AMOR… … os cavalos de Tróia entravam pelas estruturas essenciais colocadas ao seu dispor: alimentação, saúde, educação, energia, justiça, capital, etc. Lobos vestidos em pele de cordeiros apoderaram-se e controlam agora tudo em nome da sustentabilidade e da CONFIANÇA. Só desviando o curso do rio que os alimenta, podemos recuperar o terreno que nos roubaram...

  6. caio Postado em 18/Mar/2014 às 00:34

    Essa é a geração da Pós-Modernidade, ou seja, nascidos a partir de 1985 (me incluo nessa). Com o fim da URSS os valores supremos que os pais transmitiram a seus filhos foram os valores do consumo, da competitividade, da individualidade, tudo para insuflar o ego. Fomos educados a assistir TV, frequentar o Shopping, NÃO USAR DROGAS (num critério seletivo bem duvidoso), ainda tivemos valores religiosos e muita visão de mundo burguesa. O resultado é esse aí mesmo conforme descrito no texto, porém faço uma ressalva sobre os parágrafos finais: Atribuir a culpa de tudo apenas aos pais é uma tremenda injustiça! A culpa é da sociedade e de sua total inversão de valores, pois essas coisas vão muito além das bolhas em que cada um foi criado. Na minha própria escola mesmo, de Ensino Médio, professores falavam que cada coleguinha sentado na carteira do lado é um competidor seu e não um amigo! "Na hora do vestibular e mercado de trabalho é cada um por si" rsrsrsrs faça-me rir! Mas tenho esperança numa parcela dessa geração,, são justamente os tais "jovens mais inflamados", parafraseando o texto.

  7. caio Postado em 18/Mar/2014 às 00:36

    faltaram valores mais consistentes e sobrou muitos bens materiais supérfluos!

  8. Guilherme Verri Postado em 18/Mar/2014 às 00:58

    "[...] mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada." Que juventude é esse da qual ele fala?! O mesmo poderia ser facilmente dito da geração passada, seus antepassados e assim consecutivamente. Esse conflito de gerações já virou demagogia há muito tempo. As gerações mais novas sempre terão melhores condições do que as anteriores, a não ser em situações de colapso e guerra. E isso não as torna piores do que aqueles que as antecederam, muito pelo contrário. É no avanço de geração a geração que o progresso é alcançado. Essa é a geração mais preparada, mais consciente, mais educada, mais liberal e também a geração que terá que enfrentar os maiores desafios, decorrentes das decisões falhas tomadas por seus pais e avós. O autor parece pegar sua experiência com jovens de classe média alta, mimados por pais ausentes, e aplicar à toda uma geração, cometendo o erro infantil da generalização.