Redação Pragmatismo
Compartilhar
Barbárie 19/Mar/2014 às 10:47
19
Comentários

Claudia Ferreira (1976-2014): Tratada como bicho

Claudia Silva Ferreira, negra, 38 anos, auxiliar de limpeza num hospital, mãe de 4 crianças que ficaram órfãs, que cuidava de outros 4 sobrinhos para a irmã ou cunhada poderem trabalhar. Quem vai gritar por ela?

claudia ferreira silva arrastada pm
Identidade de Claudia Ferreira da Silva (Foto: Jornal Extra)

Camilla de Magalhães Gomes, Blogueiras Feministas

2014 ainda está no início mas, após três meses, parecem proliferar as notícias que criam em nós a sensação de: “nunca vi coisa tão horrível”. Nunca vi, até que a próxima barbárie seja cometida e nos convença que isso deve mesmo ser apenas parte do cotidiano. Nesse caminho, ficamos anestesiados e acostumados, até que não se tenha mais nada a dizer, apenas um suspiro e um muxoxo: “mais um”.

Na manhã do dia 17 de março, começa a ser divulgado na internet o link de um vídeo com o título: Viatura da PM arrasta mulher por rua da Zona Norte do Rio. Apertei o play e não passei de dois segundos. Não recomendo. Mas a leitura da notícia é essencial. Mais do que isso: a leitura crítica do que ela representa é essencial.

Na descrição:

Eram cerca de 9h desse domingo, quando uma viatura do 9º BPM (Rocha Miranda) descia a Estrada Intendente Magalhães, no sentido Marechal Hermes, na Zona Norte do Rio, com o porta-malas aberto. Depois de rolar lá de dentro e ficar pendurado no para-choque do veículo apenas por um pedaço de roupa, o corpo de uma mulher foi arrastado por cerca de 250 metros, batendo contra o asfalto conforme o veículo fazia ultrapassagens. Apesar de alertados por pedestres e motoristas, os PMs não pararam. Um cinegrafista amador que passava pelo local registrou a cena num vídeo.

A mulher arrastada era Claudia Silva Ferreira, de 38 anos, baleada durante uma troca de tiros entre policiais do 9º BPM e traficantes do Morro da Congonha, em Madureira, enquanto ia comprar pão. Em depoimento à Polícia Civil, os PMs disseram que a mulher foi socorrida por eles ainda com vida, e levada para o Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, mas não resistiu. Já a secretaria Estadual de Saúde informou que a paciente já chegou à unidade morta. Ela levou um tiro no pescoço e outro nas costas.

Mãe de quatro filhos, Claudia, conhecida no Morro da Congonha como Cacau, era auxiliar de serviços gerais do Hospital Naval Marcílio Dias, no Lins. Nascida e criada em Madureira, ela ainda cuidava de quatro sobrinhos. A vítima faria 20 anos de casada com o vigia Alexandre Fernandes da Silva, de 41 anos, em setembro deste ano.

Uma polícia que atira sem quê nem porquê, que, ao ser interpelada sobre a brutalidade de arrastar uma mulher pendurada no carro, responde: “ela já estava morta”; perdeu sua legitimidade há muito tempo.

Essa também é a mesma polícia que debocha e produz factóides para justificar seus atos, como afirmar que Claudia estava em posse de quatro armas, quando todos afirmam que ela tinha ido comprar pão.

No mesmo fim de semana, também no Rio de Janeiro, um vídeo mostra um policial militar arrastando uma jovem pelos cabelos na Cidade de Deus. Nessa mesma operação, a gari Vânia Ferreira da Silva Corrêa, de 42 anos, foi baleada no quadril esquerdo quando estava na porta da sala de casa. Assim como Claudia, todas mulheres negras, moradoras de bairros pobres.

Quando o menino João Hélio foi arrastado e morto por criminosos, a comoção social gerada era de ensurdecer. Anos depois, dedicaram a ele o projeto do novo Código Penal — alvo de muitas críticas pela expressão do punitivismo e da indignação seletiva que viraram quase regra sobre o tema no país.

Quem vai gritar por Claudia? Quem vai saber seu nome além dos familiares e das pessoas de sua comunidade? Quem vai se insurgir contra os criminosos fardados, agentes do estado? Quem pedirá a responsabilização desses agentes? Por que o barulho diante dessa brutalidade perpetrada por agentes públicos é tão menor?

Por quanto tempo mais serão justificadas violências como essa, com falas como “o estado tem o monopólio da violência”, “o tráfico faz pior”, “temos uma guerra”? Quem ainda não consegue ver a responsabilidade do Estado e da Polícia na criação, fomento e manutenção dessa “guerra”?

A Polícia Militar do Rio de Janeiro divulgou, na tarde de segunda-feira, os nomes dos três policiais militares do 9º BPM (Rocha Miranda) que estão presos em flagrante. Eles prestaram depoimento e foram encaminhados para o presídio Bangu 8. Também serão desligados do 9º BPM (Rocha Miranda). Uma perícia feita na viatura em que o corpo de Claudia ficou preso e foi arrastado, constatou que a tranca da mala do veículo não estava com defeito.

Aqueles que argumentam usando as cartas da segurança pública e da política criminal deveriam se envergonhar de jogar a cartilha da lei e da ordem contra as garantias constitucionais.

Aqueles que argumentam dizendo que a crítica enfraquece a esquerda e dá elementos para a crítica da direita não perceberam que, nessa matéria, direita e esquerda tem tido historicamente as mesmas respostas repressoras e policialescas quando o assunto é segurança pública.

Os que rebatem a crítica perguntando o que colocaremos no lugar da Polícia Militar, deveriam começar desnaturalizando a militarização como essencial para a segurança e olhar para experiências que funcionam independente desse critério.

Vi tanta gente gritar por Santiago Andrade — o cinegrafista morto em uma manifestação. Queria vê-los gritar por Claudia Silva Ferreira. Mulher negra, 38 anos, auxiliar de limpeza num hospital, mãe de 4 crianças que ficaram orfãs, que cuidava de outros 4 sobrinhos para a irmã ou cunhada poderem trabalhar. Queria saber porque seu corpo vale menos ou porque poucos sabem seu nome.

Recomendados para você

Comentários

  1. renato Postado em 19/Mar/2014 às 11:06

    É nós que temos que começar, ou ajudar aos que já iniciaram o GRITO. Onde guardaram os direitos de Claudia Ferreira da Silva, quando a colocaram no camburão....aí já é obrigação do estado cuidar do bem estar do cidadão.. Mas não mais consideram o cidadão... Outra coisa são os Traficantes...Por que não vão para os centros das grandes cidades, saiam dos morros das favelas, das vilas.. Vocês não respeitam nem seus parentes.. E vocês que vão comprar drogas, que alimentam esta PORRA.. Voces são culpados tambem pela morte desta senhora.. São simmmmmmmm...os principais culpados pelas mazelas... do povo trabalhador e pobre, mas de muita educação do que seja uma família, voces destroem famílias...acabam com a esperança, de uma coisa maior e melhor...voces são uns putos..

    • José Ferreira Postado em 19/Mar/2014 às 11:21

      Como diz o Capitão Nascimento (agora coronel) para os "playboyzinhos": "Você que financia essa p%$ra toda"...

  2. Thiago Teixeira Postado em 19/Mar/2014 às 12:29

    Engraçados que os traficantes de Madureira não são citados, são totalmente inocentes no acontecimento. Muito menos quem financia o tráfico, que são aqueles que estão agora tacando pedra na Polícia. Se não tivesse nesse mundo maconheiro, cheirador de cocaína, casqueiro ou usuário de ácido, esses babaca que querem curtir a sua baladinha regada a drogas, bebida alcoólica e putaria, não existiria estes traficantes, os policiais não estariam lá combatendo o tráfico (como bem colocado pelo José Ferreira "arrumando a m$%&*rda que esses playboyzinhos fazem") e a Dona Claudia estaria viva. Mas não, o cara fuma uma baseado e escreve: "Essa brutalidade da POLÍCIA não tem limites". Bando de hipócritas safados.

    • José Ferreira Postado em 19/Mar/2014 às 13:41

      É fácil protestar contra a polícia. Quero ver protestar contra o traficante que venda a maconha que você fuma.

  3. Gustavo Postado em 19/Mar/2014 às 12:51

    Na moral, vocês acham mesmo que os policiais calcularam para que o porta-malas se abrisse e a moça ficasse dependurada exatamente só pelas roupas dela? Se os policiais não a levassem ao hospital, ou tentassem, quem a levaria naquela emergência? traficantes? Como dito na notícia era uma troca de tiros contra traficantes, logo não era uma policia que atira sem quê nem porquê. Pegam qualquer incidente que envolve a PM e já a acusam, mesmo de maneira indireta, para seu fim. Foi como no caso do jornalista da band morto.

    • Carla Postado em 19/Mar/2014 às 15:41

      Os policiais não poderiam ter colocado ela no porta malas !!! Teriam que leva-la no banco de tras e acompanhada, ela estava ferida e mesmo que ja estivesse morta, teriam que ter respeito por um ser humano !! Eles foram uns monstros sim !! Concordo que os verdadeiros culpados são os que consomem drogas, gente hipocrita que depois sai as ruas pedindo justiça e reclamando da violencia e do trafico ! Mas nada disso justifica a ação desses policiais ! Duvidooooooooo se fosse uma mulher branca, moradora de um bairro nobre, filha ou mulher de alguem importante, com dinheiro, se eles agiriam assim ! São uns covardes !!!

      • José Ferreira Postado em 19/Mar/2014 às 15:49

        Não existem guerras pelo controle do tráfico em áreas nobres. Geralmente esses que moram nas áreas nobres compram (ou mandam comprar) as drogas nas favelas. Isso quando não consomem drogas sintéticas.

      • Thiago Teixeira Postado em 19/Mar/2014 às 20:21

        Neste ponto você tem razão. A ação daquela patrulha foi totalmente desumana pelo fato da moça ser uma pessoa comum da periferia. Se fosse a Luana Piovani ali estirada no chão, nem iriam coloca-la no bando de traz, chamariam o SAMU e zelariam pela integridade da atriz até o socorro apropriado chegar. Bem observado.

      • José Ferreira Postado em 19/Mar/2014 às 22:26

        Artistas fazem que nem o Fabio Assunção, compram as drogas e posam de bonzinhos. Nóia é nóia.

      • Victor Ferreira Postado em 20/Mar/2014 às 13:11

        Você quer que o policial no meio do tiroteio chamasse a Samu e esperasse eles tentaram salvar a vítima ainda fizeram um papel q não é deles por isso que o tráfico ta assim porque tem muita gente que defende os traficantes

  4. Jhon Postado em 19/Mar/2014 às 12:55

    Direitos Humanos ? Ondem vocês se escodem ? Malditos protetores De Bandidos!

  5. Fred Postado em 19/Mar/2014 às 13:31

    Se o problema é a maconha, então é só legalizar, assim seria muito mais fácil plantar em casa e não precisar recorrer a traficantes. Mas dai quem os policiais iriam combater? Será que iriam arrumar alguma outra desculpa para matar inocentes? Alias, e os policiais corruptos que protegem os traficantes, com certeza são contra a legalização, pois assim perderiam a propina que recebem.Logo não são apenas os "drogados playboys" culpados pela criminalidade, políticos e policiais tb tem uma grande parcela da culpa.Não fumo maconha, então nem sequer vão poder me acusar de hipócrita safado.

  6. Daniel Postado em 19/Mar/2014 às 15:27

    Então foi o baseado que o pessoal fuma que matou a dona de casa? Quantas famílias não são destruídas pelo alcóol? Não vejo ninguém pedir a cabeça dos acionistas da IMBEV.

    • José Ferreira Postado em 20/Mar/2014 às 10:22

      Por mim poderia proibir também. O que tem de morte por causa de boçais bêbados no volante é algo que ficou até rotineiro, infelizmente.

  7. Daniel Postado em 19/Mar/2014 às 16:54

    Então ficamos assim. Quem pegou a arma e atirou não tem culpa de nada. A culpa é do cara que fuma um baseado.

  8. Maysa Postado em 19/Mar/2014 às 22:24

    Vocês acham mesmo que eles seriam tão ignorantes, ao ponto de deixar o porta malas aberto e ela pendurada, pra TODOS verem? Claro que não. A cena é chocante, mas os policiais não tem culpa disso. E concordo totalmente com o Gustavo, qualquer incidente que envolva a policia vocês já fazem um auê todo, e já querem se rebeliar contra a policia. Se reclama tanto da policia, veste uma farda e faz melhor!!!

  9. Cris Postado em 20/Mar/2014 às 09:00

    Como ainda pode ter quem tente justificar de todo jeito uma merda dessa em favor a PM?! Traficante não tem a função de cuidar das pessoas! A PM tem! Faça-me o favor! "Foi um acidente!" Sim, uma sequência de acidentes para descrever melhor: acidente 1: ela foi baleada; acidente 2: caiu da viatura; acidente 3: foi arrastada por mais de 200 metros. Indiferença, brutalidade, desprezo, irresponsabilidade... Qualquer palavra parece pouco para descrever a atitude repugnante da PM. É mais do que lamentável, realmente faltam palavras...

  10. Rafael Santos Postado em 20/Mar/2014 às 12:02

    Tratada como bicho???? Péssima essa definição. Desde que nascemos somos obrigados a aceitar a violencia aos animais como algo banal, comum e necessário. Ter dó da vaca, galinha, porcos e considerado viadagem. Não somos melhores q os animais. Afastar as pessoas do amor aos bichos reflete em uma sociedade desumana entre sua própria espécie. Deixar de amar um animal por uma imposição social cria humanos sem amor ao próximo. O resultado é esse da matéria acima: violência humana. Se considerarmos então o como as pessoas tratam os bichos, sim, nesse caso ela foi tratada igual. A causa do problema é mais complexo, diferente das propostas insistentementes divulgadas pela midia de q a solução é mais polícia ou melhores políticos. Precisamos mudar nossa cultura. Mais amor por favor

  11. Renato Postado em 20/Mar/2014 às 17:16

    Mais uma vitima da famigerada guerra as drogas. Se a maconha (e outras drogas) fossem legalizadas a policia nao teria que ficar atirando em traficante, pois nao teria traficante. Enfim, é lamentavel que o Brasil ainda tem essa postura antiquada em relacao a esse problema. Policial tem que se preocupar com crimes graves, como roubo, morte, estupro, corrupacao entre outros. Producao, comercializao e consumo de drogas nao deveria estar na preocupacao da policia. Descriminalizacao e educacao me parecem os melhores caminhos para uma melhorar nessa situacao.