Redação Pragmatismo
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América Latina 25/Feb/2014 às 12:10
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5 opiniões de venezuelanos sobre o que ocorre em seu país

O que querem os venezuelanos que estão nas ruas? Conheça 5 opiniões diferentes sobre as razões da nova crise e possíveis desenlaces

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Venezuela dividida. Opositores do chavismo (esq.) e apoiadores (dir.) saíram às ruas no mesmo dia (Reprodução: Populares / Ilustração: Pragmatismo)

Dividindo chavistas de um lado e opositores do outro, a polarizada disputa política na Venezuela voltou a ganhar características violentas nas últimas semanas.

Os protestos se acirraram após Leopoldo López, um dos dirigentes mais radicais do antichavismo, convocar a população às ruas para pressionar o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a renunciar.

Os protestos vêm sendo reprimidos pela polícia e, oficialmente, 13 pessoas já foram mortas – entre chavistas e opositores. Com um saldo de dezenas de feridos e detidos, as manifestações são diárias e envolveram o país em um clima de incertezas.

As marchas nas ruas marcam também uma disputa pela liderança da coalizão opositora. De um lado, está a ala moderada, liderada por Henrique Capriles – candidato presidencial por duas vezes e governador. De outro, está a ala radical, liderada por López, que foi preso na semana passada, acusado de formação de quadrilha, conspiração e incitação à violência.

Nas ruas, ainda dentro do panorama polarizado, há diferentes visões sobre as razões da nova crise e possíveis desenlaces. Confira 5 diferentes opiniões abaixo. Os entrevistados foram ouvidos pela BBC.

1. Leonardo Fernandes – Estudante de Cinema

Estudante de cinema na Universidade Nacional das Artes, Leonardo Fernandez, de 28 anos, acompanha com preocupação o nível de violência que têm alcançado os protestos dos estudantes opositores. De origem de classe média, ele conta sobre como ficou chocado ao saber da morte de um jovem que foi degolado ao cruzar, com sua moto, uma das armadilha feitas por opositores com arame farpado em diferentes pontos de Caracas.

Acionados pelas redes sociais e orientados por um general reservista, as armadilhas tinham como objetivo frear o acesso aos motoqueiros, categoria que é estigmatizada por apoiar o chavismo. “A situação está fora de controle. Estão acabando com a vida de pessoas com técnicas fascistas e protestos sem sentido”, afirmou.

Para Fernandez, o objetivo final dos dirigentes políticos que conduzem as mobilizações é o controle do petróleo, disputa que se arrasta há 15 anos, desde que Hugo Chávez chegou ao poder. Ele responsabiliza o governo, no entanto, por não aplicar de maneira eficiente a legislação e por não assumir de maneira eficaz a produção e distribuição de alimentos, para contornar o desabastecimento, um dos “combustíveis” utilizados por opositores “para desestabilizar o país”.

O jovem universitário diz temer que a situação fuja ao controle e afirma que o governo precisa, de imediato, paralisar os atos de violência de seus adversarios por meio do diálogo. “Se a oposição não faz propostas e o governo não baixa um pouco a soberba com algumas políticas, não poderemos mudar esse cenário de conflito”.

Ele acredita que o chamado por uma intervenção militar estrangeira por parte de opositores não é algo novo, porém, não deixa de preocupá-lo. “Eles devem ter em conta que as bombas gringas não distinguem chavistas de opositores, afetará a todos da mesma maneira. Eles querem ser armados pelos Estados Unidos, porque financiados já são, para converter a Venezuela numa nova Líbia”.

Para Fernandez, se as manifestações acabassem em um golpe de Estado, os chavistas não aceitariam a situação de braços cruzados. “Não acredito que esse povo que agora tem educação, saúde, trabalho, direito a se organizar deixará que isso tudo se perda. Somos milhões os que temos uma vida digna, sem importar nossa classe social ou econômica. Não queremos ser invisíveis outra vez”.

2. Monica Sánchez – Empresária

Segundo a empresária, seu desacordo com o governo é de natureza econômica. Ela diz estar irritada com o controle de câmbio – vigente desde 2003 – que estaria atrapalhando seus negócios no ramo de refrigeração. “Não há dólares no país, não há. Temos que inventar algo para conseguir salvar nosso dinheiro e importar.”

Ela concorda com a “saída rápida” defendida por López, cujo objetivo é levar a população às ruas para pressionar Maduro a renunciar. “Se outros países conseguiram, aqui também conseguiremos (derrocar o governo)”.

“Temos que aguentar nas ruas e ver se, sozinhos, podemos sair da crise. Se não, deveriam aplicar a Carta Interamericana (de Direitos Humanos da OEA) para que outros governos nos apóiem a sair disso, definitivamente”, afirmou.

No cartaz que carregava na manifestação realizada no sábado, em Caracas, Monica revelava não acreditar nos caminhos democráticos para promover mudanças políticas. Ela diz que para alcançar o objetivo de “expulsar” os chavistas, considera, inclusive, uma intervenção militar de tropas estrangeiras.

“Em última instância deveria haver uma intervenção militar, sim, porque queremos sair disso, queremos paz”.

3. Paola Jaramillo – Estudante de Arquitetura

A estudante de arquitetura Paola Jaramillo, de 25 anos, conta que está nas ruas desde o início dos protestos. “Reconheço muitas coisas boas que Chávez fez, mas também cometeu muitos erros e os dirigentes que estão agora no gabinete não estão agindo bem. Dizem ser de esquerda, mas assinam tudo com a direita”, afirma.

Aluna da Universidade Central da Venezuela, Paola quer que o governo de Maduro dê respostas aos problemas que afetam a maioria dos venezuelanos: insegurança, escassez e inflação.

Diferentemente da postura de muitos opositores, a estudante diz que sua manifestação é pacífica e seus objetivos, nas ruas, não estão vinculados aos protestos violentos que marcaram os focos das manifestações, desde seu início, em 12 de fevereiro.

“Não estou de acordo com incêndios, com que fechem as ruas, com armadilhas de arame farpado, não estou de acordo com nenhuma morte. Ninguém deve morrer”.

Nesse sentido, ela encontra no líder da aliança opositora de Capriles a liderança que, a seu ver, sintetiza as aspirações de uma disputa “democrática”. “Leopoldo (López) nos chamou às ruas, mas não propôs nada concreto.

Capriles no entanto diz que temos que nos manifestar para que o governo resolva os problemas, e não para derrubar o governo”.

Paola diz não estar de acordo com uma saída “golpista” para obrigar a Maduro a deixar Miraflores – sede do governo. “Me preocupa que alguns queiram isso, porque é algo que não pode ocorrer. Uma metade do povo sim que está com governo, temos que respeitá-los também. Se continuamos assim nunca chegaremos num acordo”.

Paola, que se diz ex-chavista, acredita que somente uma aliança entre opositores e governistas poderá dar solução aos problemas do país: “Temos que começar a falar com esses chavistas que não se dão conta da realidade. E quando eles abrirem os olhos, ai sim poderemos dizer: Ou o governo muda ou o povo muda o governo”.

4. Amari Velasquez – Arquiteta

Amari Velasquez, arquiteta de 28 anos, se uniu a uma manifestação convocada pelo governo “em defesa da paz”. “Somos muitos e enquanto eles estão queimando pneus nós continuamos trabalhando, enquanto eles estão do outro lado tentando paralisar a cidade, agredindo com manifestações violentas, nós continuamos construindo o socialismo”, afirma.

A jovem se diz preocupada com a situação e minimiza as demandas apresentadas pelos opositores para justificar os protestos. Amari acusa a oposição, que controla as redes de distribuição de alimentos, pela escassez de alguns produtos básicos. “Estamos conscientes de que a escassez é fruto do armazenamento. Foram encontrados dezenas de galpões com toneladas de comida apodrecendo. A responsabilidade é dos importadores e quem são os importadores? Os mesmos que estão nas ruas protestando”, afirma.

Emulando o argumento do governo, Amari afirma que há uma campanha midiática para maximizar a percepção de escassez e dos problemas do país, como o objetivo de insuflar uma rebelião. “O que nós vivemos dentro de casa é diferente do que os meios de comunicação e a oposição estão promovendo”, afirma. “A escassez não me afeta, eu não estou morrendo de fome. Em muitos lugares encontramos o que necessitamos e continuamos vivendo bem.”

A jovem considera que o que está em jogo na Venezuela hoje é a disputa de dois modelos de país, um socialista e o outro neoliberal. Ela exige, no entanto, que os opositores que estão nas ruas respeitem as regras do jogo
democrático e o voto da maioria que optou pelo primeiro modelo, nas eleições presidenciais de abril.

“A atitude deles é pouco inteligente, não ajuda em nada. Estamos numa democracia e somos maioria. Eles (opositores) precisam ir, votar e ganhar. Se eles não conseguem ser maioria, o que podemos fazer?”, questiona.

“Estamos num momento delicado, sem dúvida, mas não há uma ruptura, continuamos caminhando”.

5. Ricardo Paez – Ator e Corretor de Seguros

O ator e corretor de seguros Ricardo Paez, de 27 anos, diz ser contra os protestos violentos, porém, aposta na “via rápida” para derrubar Nicolás Maduro. “Quero que mude o governo, não que o governo mude”. O ator diz sentir-se excluído por pensar diferente. “Esse governo exclui quem não está ligado a sua maneira de pensar. É muito mais difícil conseguir um trabalho dentro da política, de algum ministério, se você não está a favor do governo”, afirmou.

Acompanhado de outros dois jovens atores, Paez se queixava da inflação e da redução de sua qualidade de vida desde que o chavismo assumira o poder. “É impossível pensar em comprar uma casa e se casar antes dos 30. Tudo está caríssimo”. Paez escreveu na camiseta branca que vestia problemas que lhe preocupam: insegurança, escassez e inflação. Na parte de atrás, o nome de alguns jovens opositores mortos durante os protestos.

O ator disse concordar que, sem o apoio da maioria da população, os protestos vão perder a força. A seu ver, a maioria da população que prefere não protestar ou que apoia o governo é formada por “ignorantes”.

“A classe média é a maioria nos protestos porque nós temos mais acesso à informação que as pessoas humildes, das favelas”, afirmou. “O outro setor da sociedade também está incomodado. Estou protestando para um país melhor para mim e para eles (chavistas)”.

Paez disse estar entusiasmado e inspirado com a situação da Ucrânia, cujos protestos levaram à queda do presidente Viktor Yanukóvich. “Se na Ucrânia foi possível, por que aqui não?

BBC Brasil

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Comentários

  1. Rafael Martini Postado em 25/Feb/2014 às 14:01

    Impressiona o fato de pessoas classificarem a Venezuela como ditadura. É reflexo da desinformação promovida pelo PIG. O próprio Capriles participou do pleito e, embora não eleito, não apoia esta tentativa de golpe, pois sabe que os resultados das urnas são respeitados. Tanto é que nos planos estaduais e municipais os governos de direita são maioria. O país tem sim problemas, mas os avanços dos últimos anos não podem ser jogados no lixo devido às insatisfações de alguns abastados (vide a empresária Monica Sánchez, por exemplo). Se conseguirem derrubar o governo, haverá contragolpe. O povo pobre não permitirá que o país volte a ficar à mercê dos interesses de poucos.

    • Ricardo Barcellos Postado em 25/Feb/2014 às 14:28

      Claro, o ator que falou ali deve ter esta opinião porque é um abastado corretor de seguros...

    • Danilo Henrique Postado em 25/Feb/2014 às 19:07

      O que qualifica uma democracia? Bem, podemos dizer que é a participação das forças populares no governo. E uma democracia representativa, tal como a Venezuela, ou o Brasil, o ou os EUA? É um regime aonde as forças populares escolhem seus representantes que deverão participar das decisões do país. Não é? Agora imagine um país aonde o representante popular é derrubado por forças alheias a vontade popular, como foi no Brasil. Teremos aí uma ditadura, correto? Isso porque o processo do poder foi tomado contra a vontade do povo para ser exercido de forma totalitária por um chefe de Estado Portanto, seu comentário está correto nesse ponto. A Venezuela não é uma ditadura nesses moldes. Seu chefe de Estado foi escolhido de forma democrática, via sufrágio universal Mas e se o governo, de forma legal, promove certas medidas que colocam o povo sob sua custódia? Sim, e se o governo mantém parte da população refém de suas decisões, através de programas que financiem diretamente a população Se o governo derruba preços a sua vontade, paga seu almoço, paga sua escola, paga suas contas. Você se torna dependente do governo, não podendo assim votar em outro representante. Aliás, podemos dizer que se inverte a situação Não é mais o governo que representa o povo mas sim o povo que representa o governo, pois é o governo que financia diretamente o povo Ora, podemos dizer que existe, em um tipo de governo desses, uma real democracia? Podemos dizer que o governo anda conforme os interesses do povo ou que o povo anda conforme os interesses do governo? O governo decide, na figura de um chefe de Estado, suprimir as liberdades individuais, em nome de um sistema o qual somente quem anda conforme os interesses de um governo se torna bem sucedido. Podemos chamar a isso de uma democracia? Ainda que o chefe de Estado seja eleito democraticamente, podemos chamar isso de regime do povo? Daí vemos que se o ideal de liberdade, e tão somente esse ideal, não for soberano nas decisões de um país, este, ainda que se utilize de um sistema democrático, não o será de fato, pois residirá nele algum interesse escuso que governará as massas Esse é perfeitamente o caso da Venezuela E não somente da Venezuela, mas também do Brasil

      • Rafael Martini Postado em 25/Feb/2014 às 20:07

        Então quer dizer que há vários casos de contêineres e galpões com mercadorias diversas estragando-se como uma represália ao governo venezuelano, governo esse que suprimiu as liberdades individuais de seus cidadãos? E isso inflamou os protestos de radicais da direita, tornando justificável a tentativa de golpe, com apoio da imprensa marrom venezuelana (suprimida de sua liberdade, tal como o povo) e internacional? E o mesmo ocorre no Brasil, que imagino, você se refira aos beneficiários de programas sociais, Bolsa Família, por exemplo? Hum... não, não creio que seja bem assim, Danilo. Mas de qualquer forma, agradeço por contrapor minha opinião, contribuindo para o debate.

  2. Antônio Postado em 25/Feb/2014 às 14:08

    O jogo da oposição venezuelana é bem simples, estoca-se alimento para aumentar os preços e graças a isso, a inflação fica descontrolada e afeta inclusive o índice de empregos, pois se não possui artigos para serem vendidos, para que ter muitos empregados. Esse é um jogo perigoso que certamente é arquitetado também pelos EUA, que é a sombra de todas as manifestações facista-liberais que estão pipocando pelo mundo.

  3. Felipe Postado em 25/Feb/2014 às 14:33

    Engraçado, vendo que mesmo com os fatos sendo esfregados na cara do povo venezuelano com as manipulações de imagens como a mídia mostra ainda assim continuam na rua apoiando pessoas que sempre viraram as costas para eles.

  4. Rafael Martini Postado em 25/Feb/2014 às 15:13

    Tem razão, o ator-corretor é um desvalido desde o Caldera e que agora passa fome neste governo chavista. Inclusive ele é contra a violência, mas "aposta na via-rápida para derrubar Maduro". Como fará isso? Fundando o Movimento Cansei Venezuelano.

  5. renato Postado em 25/Feb/2014 às 17:08

    Viva o Socialismo.. A direita mais perto se seu Pai, deve ser feroz. Força aos Venezuelanos...Vermelho na cabeça e no coração.... Dilma 13 2014.

  6. Thiago Teixeira Postado em 25/Feb/2014 às 18:33

    Sou da opinião da Amari Velasquez!