Redação Pragmatismo
Compartilhar
Religião 02/Dec/2013 às 12:45
7
Comentários

Religiosos prejudicam trabalho de prevenção à aids

Pressão de religiosos prejudica trabalho de prevenção a aids. Ao atender ao apelo fundamentalista e não priorizar comunicação e pesquisa científica, Brasil deixou posto entre vanguardas da prevenção

O Brasil precisa adotar uma postura mais incisiva na área da prevenção e da infecção por HIV para recuperar o protagonismo mundial no enfrentamento à doença. A opinião é do médico sanitarista e epidemiologista Pedro Chequer. Considerado um dos principais especialistas no tema no país, ele acredita que o Brasil sofreu um “grande retrocesso” nos últimos anos por, entre outras razões, ceder à pressão de grupos religiosos na condução das ações de resposta à epidemia.

Entre as medidas que simbolizam esse recuo, segundo ele, estão a suspensão pelo governo federal, em março deste ano, da distribuição de material educativo para prevenção da aids dirigido a adolescentes. O material – que foi apelidado de “kit gay” pelas frentes religiosas do país, inclusive no Congresso Nacional – era formado por revistas de histórias em quadrinhos, abordava temas como gravidez na adolescência, uso de camisinha e homossexualidade.

Leia também

“O Brasil pautou seu programa de aids na fundamentação científica e sempre foi exemplo para o mundo, promovendo campanhas de prevenção abertas, diretas e objetivas, voltadas principalmente às populações mais vulneráveis. De repente, vemos esse grande retrocesso e o Brasil sofre um revés político, deixando de ser vanguardista na área da prevenção e de campanhas”, disse Chequer, que coordenou a política de aids do Ministério da Saúde e dirigiu o Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV e Aids (Unaids) no Brasil.

Ele ressaltou que ainda não é possível calcular o impacto dessas medidas, já que, diferentemente de outras doenças como o sarampo ou o cólera, os sintomas da infecção por HIV podem levar um longo período para se manifestar. O especialista destacou, também, que o Brasil vem promovendo avanços para ampliar a oferta de tratamento gratuito contra a aids para todos os adultos que sejam diagnosticados soropositivos, independentemente do estágio da doença.

Há cerca de dois meses, o Ministério da Saúde submeteu à consulta pública um protocolo de atendimento prevendo que o tratamento seja fornecido ao paciente com aids, que tiver CD4 (células de defesa do organismo) acima de 500 para cada milímetro cúbico de sangue e que não apresentam os sintomas da doença. Pela regra atual, a rede pública de saúde fornece tratamento ao paciente com aids que tiver CD4 abaixo de 500 para cada milímetro cúbico de sangue.

Desde o início de 2013, também podem receber o tratamento casais sorodiscordantes – aqueles em que um dos parceiros tem o vírus e o outro não – com CD4 acima de 500 células para cada milímetro cúbico de sangue, pacientes que convivem com outras doenças, como tuberculose e hepatite, e pacientes assintomáticos com CD4 menor de 500.

A validação das proposições recebidas e a elaboração da versão final consolidada do protocolo será coordenada pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, que deve finalizar o documento ainda este ano. Segundo o ministério, estudos internacionais mostram que o uso precoce de antirretrovirais reduz em 96% a taxa de transmissão do HIV.

“Ampliar a cobertura de tratamento é fundamental porque na medida em que as pessoas são tratadas, elas praticamente não transmitem o vírus. Quando não há transmissão, não há novas infecções. Mas isso [só vai ocorrer] se forem implantados serviços [de saúde] nas regiões mais distantes e criados processos de mobilização com campanhas na mídia, nas redes sociais, nos serviços comunitários e de saúde para promover a testagem”, disse.

O Ministério da Saúde estima que atualmente cerca de 700 mil pessoas vivam com HIV e aids no país, mas 150 mil não sabem que têm o vírus ou a doença. Ao todo, 313 mil recebem tratamento com medicamentos antirretrovirais gratuitos. O Brasil registra, em média, cerca de 38 mil casos de aids por ano. Desde os anos 80, quando teve início a epidemia, foram contabilizados 656 mil casos. Procurada pela reportagem, a assessoria do Ministério da Saúde não comentou as críticas feitas pelo especialista.

Leia quadro explicativo:

aids-religiosos

Agência Brasil

Recomendados para você

Comentários

  1. Amanda Postado em 02/Dec/2013 às 13:58

    Eu ainda não consegui entender o que é o tal do kit gay. Alguns dizem que é pra crianças, e que estaria estimulando o homossexualismo delas, outras dizem que nao tem nada a ver, que é pra adolescentes... Não entendo nada... Alguem sabe explicar DETALHADAMENTE o que é isso? pq até agr ninguém explicou direito.

    • Diego Postado em 02/Dec/2013 às 15:31

      Até hoje não encontrei nenhum link ou pessoa que tivesse entrado em contato com o tal do "Kit Gay", mas o que eu sei é que seria um material direcionado a adolescente e pré-adolescentes, para falar sobre a existência dos gays e que não tem nada demais gostar de alguém do mesmo sexo, muito provavelmente seria como esse livro alemão: http://www.ideafixa.com/a-homosexualidade-segundo-um-livro-infantil-alemao/ A homossexualidade não é algo que possa ser estimulado, assim como ninguém se torna negro quando se aplicam medidas anti racismo e ninguém muda se sexo quando o machismo é combatido. Se muito o que mudará é que quem já nasceu gay terá mais liberdade para se assumir ao invés de passar a vida inteira no armário. Olhando num aspecto geral esse é o certo a ser feito, pois a longo prazo só trás efeitos benéficos (até pq ser gay não afeta a vida de ninguém além da própria pessoa e seu/sua parceiro/a.) Detalhe: segundo o que lembro Jean Wyllys, numa entrevista no "De Frente com Gabi", disse que o kit só seria distribuído em escolas onde fossem verificados casos de homofobia e em escolas que o solicitassem, não sendo uma distribuição nacional como foi divulgado. Agora, só pra esclarecer, houve muitas fraudes quanto aos "kit gay", normalmente vindo da parte mais religiosa e conservadora do país, onde espalharam boatos sobre o tal kit ser para doutrinar as crianças na pederastia, dizendo que o material se tratava de uma cartilha erótica e até, pasme, um caso onde um pastor apresentou a seus fiéis um filme erótico gay dizendo se tratar de parte do kit. Espero ter sido claro :)

      • Ricardo Postado em 22/Dec/2013 às 13:35

        Não entendi. Como pode alguém já nascer gay?

  2. Juniperos Postado em 02/Dec/2013 às 15:05

    O trabalho de prevenção já vem prejudicado do ninho. Emissoras poderiam fazer algo de útil se comprometendo com uma verdadeira campanha contra aids /violencia domestica/dst em geral/racismo, etc. Mas tudo que se vê são ridículas campanhas em tempos de festa, como se os humanos copulassem somente no carnaval. Não podem ir contra as drogas, por que tem medo de ameaça, não podem ir contra o racismo, por que tem medo de parecer elitista, não podem ir contra a violência domestica com medo de defender anônimos... Ou seja, não querem fazer realmente nada por medo. A campanha religiosa de desconstrução da consciência preventiva já é antiga. Nenhum padre ou pastor parece entender que o povo não parará de fazer sexo NUNCA, nem mesmo pelos argumentos porcamente éticos e infantilizados catequisados por eles. Alguém não se lembra do padre que disse que preservativos não protegiam contra aids, porque segundo ele, o vírus passaria pela “trama” do preservativo? Meu, o cara disse isso para jovens e adultos sem um pingo de vergonha na cara: ele não se sentiu mal por contribuir para o contagio e morte de pessoas, porque através de sua visão tortuosa, estava prestando um favor os fiéis...

  3. Rodrigo Postado em 02/Dec/2013 às 15:35

    O erro não é dos extremistas religiosos, mas de conceito: questão de saúde depender de consulta pública, referendo ou sanção. A bancada evangélica é numerosa e reflete a parcela de evangélicos na população brasileira. Se toda decisão do Ministério da Saúde for se pautar pela taxa de aprovação nós voltamos à Idade Média. Democracia não é votar tudo. Democracia é Direito Universal, queira a maioria ou não.

    • juniperos Postado em 03/Dec/2013 às 16:51

      Extremismo religioso já é um erro em si, mas isso é pura verdade: um problema de saude publica deve ser tratado como um problema da saude primariamente, não como problema religioso. Andaremos em circulo, rezando sentados em um barril de polvora para que o fogo se apague.

  4. Conceição Postado em 03/Dec/2013 às 00:13

    E Deus? Nas "consciências", onde fica? Deus mandou não pecar contra a castidade. Isso é MANDAMENTO, É ORDEM. A o bediência a Deus é proteção.Mass, quem está nem aí para os mandamentos de Deus? É por isso que o mundo está cheio de peste, como diz a Palavra de Deus. Mas, quem está preocupado em, pelo menos, ler a Palavra de Deus? A maioria procura mesmo é a "porta larga", fazer o que "acha" que é o mais lógico no olhar dos homens. Deus está esquecido por muitos, infelizmente...