Redação Pragmatismo
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Cultura 19/Dec/2013 às 11:35
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Quem tem medo de mulher pelada?

Azul é a cor mais quente: Rico em trama e criações estéticas, filme de Abdellatif Kechiche é atacado por suposto estímulo ao voyerismo. Alegação é tola

azul cor mais quente
Azul é a cor mais quente, Abdellatif Kechiche (2013)

José Geraldo Couto, blog do IMS

Assim como O último tango em Paris ficou famoso – e estigmatizado – por causa da “cena da manteiga”, Azul é a cor mais quente está ganhando fama e estigma por causa de uma longa cena de sexo entre as duas protagonistas, Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux). Falaremos dessa passagem mais adiante. Por enquanto, cabe dizer que o filme de Abdellatif  Kechiche é muito maior do que os tão falados minutos de sexo sáfico, mas não pode ser compreendido plenamente sem eles.

Reduzido ao entrecho mais básico, Azul é a cor mais quente conta uma história de amor quase trivial, do tipo “boy meets girl etc.”, só que mudada para “girl meets girl etc.”, o que faz toda a diferença. Mas não é só essa mudança de gênero, ou de orientação sexual, que torna o filme mais rico e interessante que um drama amoroso convencional. É, principalmente, o modo como ele observa os personagens e suas transformações – em particular Adèle, que começa a narrativa como uma menina e termina como uma mulher.

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Romance de formação

Esse processo de transformação se dá em paralelo – ou amalgamado – com a busca de identidade da protagonista. Identidade sexual, claro (pois ela encontra o primeiro grande amor numa mulher alguns anos mais velha, e muito mais vivida, depois de um experimento insatisfatório com um rapaz), mas também social, intelectual, político. Nesse sentido, é mais um “romance de formação”, ou uma “educação sentimental”, do que meramente uma história de amor.

O título original francês (La vie d’Adèle) é uma referência evidente ao livro que a protagonista lê na escola no início do filme (La vie de Marianne, de Pierre de Marivaux). E não deixa de ser interessante o paralelo subterrâneo que se estabelece entre a ascendência intelectual de Emma sobre Adèle e a ascendência intelectual desta sobre seu namoradinho de adolescência.

O bonito, no modo como Kechiche perscruta o desenvolvimento de Adèle, é deixar que ela mantenha suas zonas de sombra, sua opacidade irredutível. Apesar de ela estar em cena durante as três horas de filme, saímos da sessão não apenas com a impressão de não conhecê-la plenamente, mas também com a sensação de que ela própria não se conhece. Parece estar o tempo todo procurando sua turma, sem chegar a encontrá-la de verdade – e vai se construindo nesse processo de busca. Nos momentos em que Adèle se sente plena (como no parque, no primeiro encontro com Emma), uma luz estourada inunda tudo, ofuscando os contornos da personagem.

Igualmente notável é o frescor com que entra na tela o entorno da protagonista, quase à maneira de um documentário: a sala de aula, as boates GLS, a passeata política, a parada gay, os jantares em família, a escola maternal, a festa de artistas, tudo flui, tudo respira com uma naturalidade impressionante.

Sem cerimônia

Voltamos então às comentadas cenas de sexo entre Adèle e Emma. Militantes feministas e ativistas lésbicas protestaram, acusando o diretor de explorar os corpos das atrizes, oferecendo-os ao voyeurismo (supostamente masculino). Confesso que não entendo. Numa encenação em que tudo é filmado de muito perto e sem cerimônia – a ponto de os corpos dos atores quase sempre serem vistos parcialmente –, o que há de errado em mostrar as duas protagonistas se amando apaixonadamente na cama?

Em outros momentos Adèle aparece: limpando a boca com a mão ao comer um lanche; dormindo de boca aberta; chorando como uma criança, com catarro escorrendo do nariz; erguendo as calças pela cintura, feito uma menina caipira. Por que não poderia aparecer fazendo sexo com a mulher que ama? Omitir isso seria o cúmulo da hipocrisia. Edulcorar a cena com contraluzes, fusões, câmera lenta e música romântica seria, além de hipócrita, de péssimo gosto.

O incômodo causado pelas cenas de sexo de Azul é a cor mais quente, em particular pela mais longa, é análogo às reações suscitadas pela trepada quase explícita entre dois homens que está no centro de Tatuagem, de Hilton Lacerda. Nos dois casos, muita gente disse: “Isso não era necessário”. Ora, o que é “necessário” num filme?

Há algo errado num mundo que considera natural ver na tela corpos perfurados, mutilados, torturados, mas julga “desnecessária” uma cena de amor homoerótico.

Truffaut costumava dizer, talvez não totalmente de brincadeira, que o papel do diretor de cinema é “mostrar uma mulher bonita fazendo coisas bonitas”. Pois bem: Kechiche mostrou logo duas, fazendo a coisa mais linda que elas poderiam fazer. Quem não quiser ver, que mude de canal, ou melhor, de sala.

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Comentários

  1. Eduardo Abreu Postado em 19/Dec/2013 às 11:46

    ESTA MATÉRIA É MUITO BOA PRA MANDAR PARA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS, VAI DEIXAR DEPUTADO NERVOSO, POIS LÁ TEM QUEM TEM MEDO....

  2. Thiago Teixeira Postado em 19/Dec/2013 às 11:58

    Mulher se beijando é tudo de bom!

  3. juniperos Postado em 19/Dec/2013 às 12:02

    Sentimentos são abstratos, e elas vão ter que entender: o diretor fez o que pode filamndo-as. Será que não estão convenientemente adotando um ponto de vista de estetica machista para poder criticar o filme? Olhar uma cena de sexo do ponto de vista natural e igual para ambos os generos, o que se interpreta dela, não é culpa do diretor, ou de sua orientação sexual.

  4. Izis Postado em 19/Dec/2013 às 12:49

    Olha, comentei na Revista Fórum e duplico aqui: Acho que a questão não seria o que é mostrado ou não, mas para quem é. Várias lésbicas concordaram que o sexo entre elas muitas vezes não correspondia à realidade, e não poderia se esperar outra coisa, vindo de um diretor homem e duas atrizes heterossexuais, (claro que devem ter estudado, feito o laboratório e tudo mais), mas sem uma visão de alguém que realmente passa por isso dirigindo a coisa toda não há como escapar de uma visão já viciada em tantos filmes sobre "lésbicas fazendo sexo para homem ver". A comparação com o filme de Bertolucci também não foi muito feliz, visto que o próprio confessou que a Maria Schneider não sabia da cena de estupro e que o choro e desespero dela foram reais, o que fez a fez romper com o diretor. É inegável que houve e ainda há um machismo predominante por parte dos diretores, a afirmação de Truffaut só comprova isso. É inegável e temos inúmeros exemplos de atrizes sofrendo na mão de diretores. Se a cena do estupro fosse de um homem estuprando o Marlon Brando, com certeza Brando estaria totalmente ciente da cena dias antes. Não que atores também não sofram na mão de diretores, mas quando o assunto é mulher, sempre há um agravante..

  5. Marcio Postado em 19/Dec/2013 às 13:24

    Eu assisti ao filme e como uma das poucas pessoas hetero na sala, achei estranha a reação dos homossexuais. A cada cena de sexo, pareciam um grupo de garotos de 13 anos assistindo a American Pie pela primeira vez: gargalhadas e zombaria. Não vou generalizar e dizer que essa foi a opinião de toda a comunidade LGBT, mas os que assistiram ao filme comigo não pareciam ter sensibilidade mínima para apreciarem o filme. A propósito, "Tatuagem" não ficou muito longe de "Azul" em expliciticidade nas cenas e na sessão daquele não vi tanta alvoroço como na sessão deste.

  6. Gabi Postado em 19/Dec/2013 às 14:45

    "Voltamos então às comentadas cenas de sexo entre Adèle e Emma. Militantes feministas e ativistas lésbicas protestaram, acusando o diretor de explorar os corpos das atrizes, oferecendo-os ao voyeurismo (supostamente masculino). Confesso que não entendo. " Não entende MESMO. Se entendesse não teria falado tanta besteira... A cena é direcionada ao publico masculino SIM, pois não representa duas lésbicas de fato... Prova disso é este comentário do Thiago Teixeira, falando que beijo entre mulheres é tudo de bom. O autor do texto deveria ter tentado entender as feministas e as lésbicas antes de destilar o seu mansplaining... Será que o autor do texto sabe que a criadora dos quadrinhos que deram origem ao filme NÃO APROVOU A CENA DE SEXO??? Será que ele chegou a ler com atenção os textos feministas que criticam o filme??? Tudo indica que não. Deixo aqui dois links que ajudam a entender tudo isso: http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2013/06/06/autora-de-hq-que-inspirou-vencedor-de-cannes-diz-que-cenas-de-sexo-do-filme-sao-frias-e-brutais.htm e http://blogueirasfeministas.com/2013/12/azul-e-a-cor-mais-quente-e-o-cinema-de-violencia-e-falta-de-representatividade/

    • Thaís Postado em 26/Dec/2013 às 08:38

      É deplorável quando as cenas do filme não condizem com as ideias da criadora, e pior, as desrespeitam tão brutalmente. É a destruição de uma obra

  7. renato Postado em 19/Dec/2013 às 20:01

    Posso dar um endereço na internet para vocês! Que gostam de enfeitar " as merdas", com palavras do tipo PERSCRUTA, ZONAS DE SOMBRA,opacidade irredutível, Edulcorar.... Larga mão desse " frescor", é vai direto ao ponto.... A coisa é assim e assim e assim.. Se não for assim é assim e assim. Tá com medo.....depila...e poe tatuagem por cima..