Eric Gil
Colunista
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Racismo não 19/Nov/2013 às 21:42
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Sobre negros, violência e salários

Passados 125 anos da abolição da escravatura e a realidade da maior parte dos negros no Brasil continua a ser a exclusão e a exploração. Esse sofrimento é refletido em números de homicídios, salários e de educação formal

No dia 20 de novembro comemora-se o Dia da Consciência Negra. Este ano o assunto tomou destaque por várias câmaras municipais terem votado a sua oficialização como feriado e ter sido anulado, tal como em Curitiba, com o TJ-PR derrubando a lei por pressão da Associação Comercial do Paraná (ACP), que alegou perda de lucros, se houvesse tal feriado.

Já se passaram 125 anos da abolição da escravatura, mas a sociedade brasileira ainda sofre com imensos resquícios de uma realidade onde o negro é excluído e ainda mais explorado, com os reflexos em números de homicídios, salários e de educação formal. Vejamos alguns números referentes a isto.

Os negros e a violência

Segundo o Mapa da Violência 2012, no ano de 2010, a quantidade de pessoas negras vítimas de homicídios foi de 71,1% do total, enquanto que o de brancas foi de 28,5%. Mas o que mais impressiona é o seu crescimento. De 2002 a 2010, os homicídios na população branca caíram 25,5%, enquanto que na população negra houve um crescimento de 35,3%.

homicídio negros brasil

Se formos para a população jovem, esta proporção continua parecida. Enquanto que a juventude branca teve um decréscimo de 33% nos homicídios, a juventude negra sofreu um crescimento de 23,4%.
Os estados, segundo o Mapa, onde apresentam maiores taxas de homicídios de negros, no Brasil, são Alagoas, Espírito Santo e Paraíba, respectivamente.

Os negros e os salários

Já neste ponto utilizarei os dados compilados no belo trabalho do DIEESE, lançado neste mês, chamado de “Os negros no mercado de trabalho” e que pode ser acessado em seu sítio.

Segundo este estudo, que utiliza os dados do PED, coletados pela própria entidade nas sete maiores metrópoles do país, enquanto que em 2012 os não negros tiveram uma taxa de desocupação de 9,2%, os negros tiveram 11,9%. Se fosse uma mulher negra a coisa estava ainda pior, pois a taxa subia para 14,1%.

Mas o que mais impressiona não é a diferença de desocupação, e sim a diferença salarial. Os não negros tiveram, no biênio 2011-2012, uma diferença salarial enorme. O rendimento dos negros equivaleu a 63,89% dos não-negros, como pode ser visto na tabela abaixo.

salário negros brasil

O mais assustador, nesta tabela, é que Salvador, uma das cidades com maior presença negra do país, é a que paga menos aos negros, relativamente aos brancos. O negro tem um rendimento de apenas 59,86% de um branco, na capital baiana!

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Algumas variáveis podem explicar estas diferenças. Os negros ocupam, normalmente, postos de trabalho com menor remuneração, como a construção civil, enquanto que os brancos têm maior presença, por exemplo, no setor de indústria de transformação. Sem considerar, ainda, os cargos que ocupam dentro de cada setor. Para ilustrar, das capitais pesquisadas, só em Porto Alegre que verificou-se uma maior presença de não-negros na categoria “pedreiros, serventes, pintores, caiadores e trabalhadores braçais na construção”.

Outra variável explicativa pode ser o nível educacional. Segundo dados da Pnad 2011, enquanto que 35,8% dos estudantes entre 18 e 24 anos negros estavam no nível superior, para os brancos este número quase que dobrava, indo para 65,7%. Já para o ensino fundamental a relação era contrária, 11,8% para a população de estudantes nesta faixa-etária negra, e 4,5% da branca, o que demonstra o atraso educacional imensamente maior para os negros, relativo aos brancos.

Ainda parece ser pouco um dia da consciência negra

Diante de tantos números que comprovam que no Brasil o abismo entre negros e brancos ainda é enorme, é estranho causar polêmica um dia de luta contra tudo isto. Em um país de Danilos Gentilis e Rafinhas Bastos, que ainda demonstram seus primitivismos que denominam como comédia baseado em reproduções de racismo, homofobia, machismo e todas as opressões possível, é imediata a necessidade de uma data que seja exclusivamente dada ao combate do racismo.

*Eric Gil é economista do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) formado pela Universidade Federal da Paraíba, mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná; escreve quinzenalmente para Pragmatismo Político

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Comentários

  1. renato Postado em 19/Nov/2013 às 22:23

    Estou tentando entender a 2º tabela.??

  2. renato Postado em 19/Nov/2013 às 22:25

    Raça Preta????????? Na 1º tabela, estão de brincadeira????

    • Diego Postado em 20/Nov/2013 às 00:35

      Raça/Cor Está correto, a cor refere-se ao substantivo feminino PRETA!

  3. Marcos Postado em 20/Nov/2013 às 01:12

    A cor dos assassinos também é bom pesquisarem, a impressão que da que quem mata os negros são brancos, sendo que na verdade geralmente são negros mesmo.

    • Vanessa Postado em 20/Nov/2013 às 08:09

      Tá querendo dizer que só negros que matam? Explica isso Marcos, por favor. E me de provas...

    • Thiago Teixeira Postado em 20/Nov/2013 às 11:29

      A tabela fala "participantes e vitimados". Obviamente a participação de homicidas negros será maior pois grande parte das ocorrências ocorre nas periferias, onde "seus" brancos são minoria.

    • tamires alves Postado em 21/Nov/2013 às 11:58

      Marcos, os negros (como mostram as tabelas) são oriundos das classes mais baixas. Portanto, na maioria das vezes eles são tanto as vítimas quanto os executores. Todavia, o que importa não são os "assasinos" nessa escala do um pra um. A tabela discute todo o sistema que criminaliza a pobreza, não dá chances para que os negros subam de classe social, não lhes permite ter chances e empregos melhores, e que com isso, consequentemente mata muito mais negros do que brancos. Agora se formos contar com os desvios de verbas públicas que geram todo esse abismo social, não tenha dúvidas que somos nós, os brancos, que estamos puxando a esmagadora maioria de todos os gatilhos contra os negros do nosso país.

  4. Mandela Postado em 20/Nov/2013 às 06:36

    Marcos, realmente tem muito negro no crime e sabe porquê? Porque são vítimas de uma sociedade escravocrata da qual vc faz parte, que os segrega desde o nascimento.

  5. Thiago Teixeira Postado em 20/Nov/2013 às 11:26

    E tem pessoas preocupadas com a política de cotas do governo federal, mas tapam os olhos para esses números medíocres que retratam a realidade do negro no Brasil.

  6. Leonardo Postado em 20/Nov/2013 às 13:58

    O problema do Brasil é a dicotomia existente entre ricos e pobres. Implementar cotas diferenciando uma sociedade pela cor, em pleno século XXI, é medida puramente política, oportunista e que não resolve o problema, que é a educação. Ao invés de revolucionar a educação ficam tapando o sol com a peneira. Em uma sociedade como a nossa, em que é difícil estabelecer cores definidas por conta da miscigenação existente em nosso país, não vejo porque estabelecer um parâmetro de cor entre pessoas para fixar uma ação afirmativa. E outra coisa: esse "Dia da consciência negra" é ridículo. O mesmo se pode dizer em "Orgulho GLS" e semelhantes. Temos que olhar para os outros sem preconceito, coisa que os mesmos negros pensam delas mesmas em muitos casos. Deviam se preocupar em criar um dia universal e para o desenvolvimento da cultura e educação ao invés de ficar tentando definir tipos em nossa sociedade.

  7. Matheus B. Postado em 20/Nov/2013 às 15:56

    Quer dizer então que desde que os defensores das minorias e dos oprimidos subiram ao poder, os homicídios contra negros só aumentaram? Putz, aos que sobreviveram, tá na hora de arranjar outros para lhes defender...

  8. Flávia Postado em 20/Nov/2013 às 17:35

    Gente por favor, isso só quer dizer que temos mais pardos, ou seja, misturados, então por proporção o número fica bem maior, essa é uma matéria tendenciosa que tenta impor um ponto de vista, é muito difícil encontrar alguém que não tem nenhum parente, nem que seja dos mais antigos, descendente de negros ou índios!

  9. Cabocla Postado em 20/Nov/2013 às 22:55

    Em estudos estatísticos é sempre Interessante perceber a leitura forçada que se faz dos dados para se obter os resultados de acordo com a ideologia do pesquisador. Todo mundo sabe que a grande maioria do provo brasileiro é miscigenada (parda). Para as cotas, no entanto, se enquadram as pessoas em branca, negra, parda ou indígena. Nesse caso específico, para se ter volume de dados e resultados expressivos, juntou-se pretos e pardos. Então, numericamente, acho impossível um equilíbrio entre os dois grupos. Também acho que quando se trata sobre o assunto de racismo, há sempre aquela mensagem subliminar que a "culpa" de todo mal é do homem branco. Ah, antes que eu esqueça, sou amarela (cabocla/mistura de índio com branco) casada com um pardo.

  10. rosane rodrigues Postado em 21/Nov/2013 às 06:28

    http://www.sidneyrezende.com/noticia/220295+movimento+luta+para+inclusao+de+negros+na+diplomacia+e+pede+menos+elitizacao