Redação Pragmatismo
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Homofobia 14/Nov/2013 às 11:22
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O que encontraram os gays quando saíram do armário?

Você já parou para pensar por que você acha que homem com homem é uma coisa meio esquisita? Que homem usando saia é pra lá de estranho? E de onde vem sua certeza de que homem tem que ter cabelo curto e mulher, cabelo comprido?

gays armário homofobia
Charge: Carlos Latuff

Demouraesouza

Comecei esse texto pensando em falar de homossexualidade, mas percebi o quanto nos cobramos e nos policiamos se estamos ou não adequados à uma normalidade que é comentadíssima em qualquer esquina, daí me perguntei: da onde vêm os valores que fazem com que nos culpemos tanto por aquilo que queremos ser?

Lembrei que a sociedade é formada por indivíduos e instituições sociais, e que, dentre as muitas instituições sociais existentes, nenhuma delas interfere tão fortemente na vida dos indivíduos quanto a religião. E não só na vida de quem escolheu ter uma, mas na vida de todo o resto da sociedade, em especial na vida de quem está bem tranquilo jogando fora as chaves do armário de que acabou de sair (e por “sair do armário” eu quero dizer todos aqueles que querem ser o que são de verdade).

Existem crenças diferentes, sotaques diferentes, pratos de comida diferentes, métodos de ensino diferentes, cores de esmalte diferentes, modos de governar diferentes, impostos e contas diferentes, profissões diferentes, formas de se ganhar dinheiro diferentes e formas de se gastar dinheiro diferentes. Existe o candidato que escolhemos por vontade da maioria, e existe o corte de cabelo que você escolheu porque achou melhor pra você. E isso é um problema só seu.

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As instituições sociais, no caso, são entidades que desempenham funções específicas dentro de uma sociedade, como a escola, a religião, a política. Cada uma com uma função distinta. E a da religião – ou das religiões, ou da Igreja, como você preferir – simplesmente não é governar. Se na Idade Média ela determinava os livros que você podia ler e os hábitos que você podia ter, no século em que estamos ela apenas sugere, àqueles que fizeram a opção de seguir os ensinamentos de um deus tal, uma conduta considerada adequada por ela.

Mas você já parou para pensar por que você acha que homem com homem é uma coisa meio esquisita? Que homem usando saia é pra lá de estranho? E mulher com mulher então? E de onde vem sua certeza de que homem tem que ter cabelo curto e mulher, cabelo comprido? Dava pra fazer uma lista de coisas que você acha estranho e não sabe por quê. Assim como dava pra entrar numa questão toda profunda sobre gênero e sexualidade mas podemos falar sobre essas questões em outra oportunidade.

Para Vicente Darde (2008), “a cultura enraizada em nossa sociedade está tão intimamente ligada aos ensinamentos da Igreja, que eleva-se a homossexualidade à categoria de ‘pecado’ e prática ‘anti-natural’.” Darde é mais radical ao dizer que “a influência dos católicos e dos protestantes na visão da sociedade determinou que esta desenvolvesse uma homofobia, ou seja, uma aversão à homossexualidade”.

Ainda que a temática venha sendo abordada mais frequentemente pela mídia, nem sempre o debate promovido foge do senso comum, ou da a heteronormatividade, visão na qual o gay ainda é apresentado como um elemento estranho a uma normalidade. E se eu gosto de outra mulher, eu faço o quê? Me sinto mal? Me sentir mal por quem? Pra quem eu devo pedir perdão por ser o que eu sou?

E os gays não são os únicos atores nesse palco do Santo Ofício, não. De uma lista toda de coisas que eu posso por em um livro de proibições, se você fuma maconha, você ainda é o melhorzinho. Por mais que a evolução da história do homem mostre que muitos preconceitos surgiram pelo próprio cenário cultural de cada época (como a escravidão e marginalização do negro lá atrás), a religião contribui e muito, desde seu surgimento, para definir o que é certo e o que é errado na sociedade.

Ao lado de assuntos polêmicos como aborto, maconha e feminismo, a homossexualidade já passou da hora de ser vista como uma questão intrínseca e indissociável do indivíduo. Assuntos como esse nada têm que ser submetidos ao aval das religiões, sequer de governos que impeçam cada um de ter direitos sobre si próprio.

Esses assuntos são olhados com tanto estranhamento por qualquer cidadão desavisado que está andando pela rua, que, quando reunidos com os outros assuntos “polêmicos”, parecem um monte de aberrações e que, na verdade, nada mais são do que as liberdades individuais. São direitos do indivíduo sobre ele mesmo. E, não sei dizer pra quem, mas deve ser muito perigoso que nós saibamos que temos liberdades como sobre nossa própria vida.

Liberdade de escolha, de pensamento, de expressão e de explosão.

Preste mais atenção e veja se você não está abrindo mão de algo que só diz respeito a você mesmo.

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Comentários

  1. Rogério Postado em 14/Nov/2013 às 13:34

    Tendenciosa essa charge do Latuff. Mostra religiosos como monstros que praticam violência contra os gays. Não deixa de ser preconceito contra religião. Não se combate preconceito com preconceito. Tudo o que se reivindica em favor dos gays é prontamente negado aos ex gays, que por motivos religiosos, deixaram de ser. E são os próprios gays quem discriminam os ex gays, tornando a luta contra a homofobia praticamente em vão.

    • Paulo Abreu Postado em 15/Nov/2013 às 17:40

      a imagem da charge é apenas uma metáfora válida, inspirada em alguns grandes líderes religiosos presentes na mídia de massa, embora a influência das religiões possa fomentar atos de agressão física também. e "ex-gay" não tem comprovação científica.

    • Thais Postado em 17/Nov/2013 às 14:31

      tendencioso tudo o é. a imagem em si é um pouco forte, mas dá pra dizer que é mentirosa? experimente imaginá-la ao contrário, gays batendo em cristãos. faz algum sentido? não. só me resta concluir que, se há discriminação, há violência, e o propósito da tira é esse, e não uma agressão física, interpretada literalmente. "os próprios gays discriminam ex-gays"? isso soa tão absurdo quanto vc dizer que são os negros que são racistas com eles mesmos. simplesmente não há como um grupo discriminado (portanto não-privilegiado) discriminar alguém. dessa forma, todos os privilegiados (homens, brancos, heteros etc.) não teriam qualquer culpa do preconceito na nossa sociedade, ou seja, vc está livrando-lhes da culpa para jogá-la nas vítimas. percebe como soa ridículo?

    • Mira Postado em 18/Nov/2013 às 10:58

      Ex-gay, Rogério??? Ah filho, assim fica dificil...

  2. Amaral Postado em 14/Nov/2013 às 14:09

    ´"Concordo", Rogério. Faltaram aí a indicação das outras religiões, como o Islã e a Judaica, todas elas religiões de origem abraâmica e patriarcal, e da qual derivou essa aí. Nem gay sou, e discordo de você! Ex-gay?! Nunca vi um. Já vi foi muito ex-"macho". Alguns até com filhos já crescidos. Se você refere-se aqueles sujeitos (homens e mulheres) que vivem uma vida de aparências (apenas para agradar pessoas como você), sinto muito, não serve como referência. Só acredito na existência de "ex-gays", após eles terem passado por parâmetros científicos verificáveis. Ou você é algum ingênuo para acreditar em tudo que lhe dizem?! Meu caro, se há homens e mulheres (gays e lésbicas) que levam décadas escondendo sua própria sexualidade, por que isso deixaria de acontecer, ao fingirem (porque assim o desejam) algum tipo de cura? Quem quer fingir, que finja, quem quer "soltar o brioco", que solte. Agora parem de fiscalizar a vida privada alheia. Agora concordo em em ponto: temos que ter cuidado com grupos de qualquer natureza, gays, não gays, étnicos, políticos, econômicos, religiosos, e etc (porque é da natureza humana) quando crescem em demasia, e se tornam ditadores da pior espécie - aquela que elimina o contraditório.

  3. Thiago Teixeira Postado em 14/Nov/2013 às 15:21

    Frequentei muito tempo, desde que nasci uma igreja evangélica. Pequena, foi crescendo, crescendo, e lembro na década de 80 o ambiente era muito aconchegante, pois todos eram velhos conhecidos. Lembro que tinha um casal homossexual que frequentava, vinham juntos, todos sabiam e nunca foram hostilizados. Dos Jovens eu me lembro de 4 gays (3 garotos e uma garota), assumidos até, que sorriam para todos, brincavam nos corredores e escolas dominicais. Além disso, tinha um “irmão” que era casado com uma macumbeira, tudo numa boa. Chegaram meados da década de 90 e tiveram que comprar uma fábrica para instalar a igreja, ela cresceu muito. Vieram também, de repente, aqueles que se converteram recentemente. Esses eram os piores: choravam, gritavam, rolavam no chão, queriam estar no púlpito falando seus testemunhos. Nos hinos batiam palmas, pulavam, dançavam ... aquilo foi me cansando. Virou teatro, palhaçada, um querendo ser mais evangélico que o outro. Surgiram então novos pastores, estes com pregações agressivas, iniciando contra as religiões africanas (minha vó também era mãe de santo, e aquilo me destruía por dentro). Lembram-se do marido da macumbeira? Então, o cara sumiu, e eu também. Os pastores mais antigos foram se afastando, uns mudaram de país, foram montar outra igreja de mesma denominação, mas com o conceito único de adorar a Deus. E nesta atual igreja começaram a pregar contra abominações (gays), e soube que todos aqueles adolescentes gays, hoje adultos, nunca mais pisaram lá. Fui num casamento a dois anos atrás, de minha irmã, tive que entrar lá, e não reconheci ninguém das "antigas", hoje são aos milhares que recentemente moldaram a nova geração evangélica muito aquém do verdadeiro sentido da comunhão da igreja.

  4. willy Postado em 15/Nov/2013 às 21:26

    Eu não sou gay, mais tenho vários amigos que são, e por serem não deixam de ser meus amigos,e muitos deles frequentam a minha casa sim e eu a deles. O importante é o respeito que eles tem por mim, e eu por eles, respeito esse que muitas vezes não se vé naqueles que se denominam" Cristão" , como se só eles fossem e sendo tenham o direito de se achar melhor que os outros, esquecendo eles que todos tem o livre arbítrio de escolha. Realmente as Igrejas são as grandes fomentadoras da da descriminação a qual se referese , é so observar quais sã as pessoas que estão por tras dessa descriminação.

  5. ari Kailash Postado em 17/Nov/2013 às 17:34

    Muito ódio e violência em geral. Mas mesmo assim ninguém quer voltar para a escuridão, solidão e ostracismo do armário! A luta por respeito, direitos e por uma sociedade mais amorosa e alegra nao para.