Redação Pragmatismo
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História 08/Oct/2013 às 10:23
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Morre o maior gênio militar da história moderna

Morre, aos 102 anos, general vietnamita pivô da vitória contra os EUA. Vo Nguyen Giap foi fundamental para país expulsar franceses e norte-americanos de seu território e era um personagem admirado em todo o planeta

O general vietnamita Vo Nguyen Giap, estrategista militar e o comandante das históricas vitórias bélicas contra o colonialismo francês e o imperialismo dos Estados Unidos, morreu nesta sexta-feira, 4 de outubro de 2013, aos 102 anos.

Pai fundador do Exército Popular do Vietnã, cujas táticas guerrilheiras inspiraram combatentes no mundo inteiro, publicou dezenas de trabalhos e ensaios sobre estratégia militar.

O general Giap era, ao lado do venerado Ho Chi Minh, fundador do Partido Comunista do Vietnã, sendo ambos as personalidades mais admiradas pela juventude vietnamita. Em verdade, a admiração por Giap era universal, mesmo entre aqueles que o combateram.

Considerado um dos maiores gênios militares da história da humanidade, Giap foi o organizador da luta dos guerrilheiros nacionalistas vietnamitas contra a colonização francesa que culminou com a derrota das tropas vitória em Dien Bien Phu (1954). Torna-se então o dirigente militar do Vietnã do Norte, conduzindo a estratégia militar que levou à maior derrota da história dos Estados Unidos, depois de uma terrível guerra que dizimou boa parte do povo vietnamita. Giap era ainda considerado um gênio da logística e um político mobilizador de massas.

Com a vitória contra o exército norte-americano, Giap assistiu em 1975 à reunificação do país. Depois disso, o Vietnã teve ainda que se proteger da vizinha China, com Giap ainda à frente da pasta de Defesa, garantindo a manutenção da soberania nacional.

Vo Nguyen Giap vietnã militar
Vo Nguyen Giap, líder vietnamita foi um dos maiores gênios da história militar (Arquivo)

Vo Nguyen Giap continuou no Buró Político do Comitê Central do Partido Comunista do Vietnã até 1982, quando se retirou da atividade política.

Era filho de um camponês que, embora sem terra, sabia ler e escrever e lutara a vida toda contra o regime colonialista imposto ao seu país.

Jovem estudante, em 1926, começou a luta pela libertação do Vietnã. Aderiu ao Menh Dang do Tan Viet e, dois anos mais tarde, ao Quoc hoc, organizações clandestinas que se opunham à ocupação estrangeira.

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Em 1933 entrou para a universidade de Hanói, de onde foi expulso dois anos mais tarde por realizar agitação revolucionária. Lá conhece Dang Xuan Khu, pseudônimo Truong Chinh, o principal ideólogo do comunismo vietnamita, quem o recrutou para o Partido Comunista da Indochina.

Depois de concluir seus estudos de Direito, publica em 1939, juntamente com Truong Chinh, o seu primeiro livro, “A questão camponesa”, no qual analisam o papel que os assalariados rurais devem desempenhar no processo revolucionário.

Quando em 1940 o Partido Comunista da Indochina é posto na ilegalidade, Giap foge para a China, onde conheceu Ho Chi Minh. Estuda as teses de Mao Zedong sobre a guerra popular prolongada e a guerra de guerrilha, que viria a aplicar posteriormente.

Mas a polícia francesa prendera a sua mulher e a sua cunhada para utilizá-las como reféns. A repressão foi feroz: a cunhada foi guilhotinada e a mulher condenada a prisão perpétua, vindo a morrer na prisão ao cabo de 3 anos em consequência de brutais torturas. Os carrascos assassinaram também seu filho recém-nascido, o pai, duas irmãs e outros familiares.

Em maio de 1941, na conferência de Chingsi (China), funda, juntamente com Ho Chi Minh, o Dong Minh (Liga Vietnamita para a Independência), conhecido como Vietminh, para unir as forças anti-japonesas numa frente única de libertação nacional.

Nesse mesmo ano Giap se desloca para as montanhas do interior do Vietnã a fim de dar início à guerra de guerrilha. Inicia a organização do Tuyen Truyen Giai Phong Quan, um exército em condições de expulsar o ocupante francês. Converte camponeses em guerrilheiros combinando o treino militar com a formação política. Em meados de 1945 dispunha já de cerca de 10.000 homens sob o seu comando e pode passar à ofensiva contra os japoneses que ocupavam todo o sudeste asiático.

Em agosto de 1945, juntamente com Ho Chi Minh, Giap dirigiu as suas forças para Hanói e, em setembro, Ho Chi Minh pode proclamar a independência do Vietnã, com Giap como comandante do exército revolucionário.

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Na guerra contra o colonialismo francês que se seguiu, Giap demonstrou a superioridade da guerra popular sobre as forças colonialistas, alcançando, em 7 de maio de 1954, uma espetacular vitória na decisiva batalha de Dien Bien Phu, um vale situado a cerca de 300 quilómetros a oeste de Hanói onde as forças francesas se tinham entrincheirado, confiantes na proteção das montanhas circundantes. Não imaginavam que as forças de Giap fossem capazes de fazer subir peças de artilharia por de encostas quase inacessíveis.

Após quase seis meses de cerco, dos 15.094 soldados franceses concentrados em Dien Bien Phu, apenas 73 conseguiram escapar, enquanto cerca de 5 mil foram mortos e 10 mil, capturados. Giap e o general Denhg lançaram o assalto final que conduziu à expulsão definitiva dos franceses da Indochina. O exército de Giap sofreu baixa de 25 mil combatentes.

Giap e Denhg derrotaram os franceses graças a uma acumulação logística extraordinária e uma utilização eficaz e bem protegida da artilharia. Os 60 caças-bombardeiros B-29 norte-americanos enviados em apoio ao efetivo francês fracassaram em seu objetivo, o que levou o almirante norte-americano Radford e o general francês Naverre a pensarem em lançar bombas nucleares contra as forças revolucionárias.

A campanha de Dien Bien Phu foi a primeira grande vitória de um povo colonizado e feudal, com uma economia agrícola primitiva, contra um experiente exército apoiado por uma indústria bélica pujante e moderna. Os mais conhecidos generais franceses (Leclerc, De Lattre de Tasigny, Juin, Ely, Sulan, Naverre) fracassaram, um após outro, perante tropas constituídas por camponeses pobres, mas inteiramente decididas a lutar pelo seu país.

O Vietnã foi dividido ao meio e Giap, nomeado ministro da Defesa do novo governo do Vietnã do Norte que, ao mesmo tempo em que prosseguia a guerra popular de libertação, se esforçava por construir uma nova sociedade socialista.

Como comandante do novo exército popular, Giap dirigiu a luta contra os novos invasores norte-americanos no sul do país, que de novo teve início como guerra de guerrilha. Os primeiros soldados norte-americanos a morrerem resultaram do ataque a uma base militar Bien Hoa, a noroeste de Saigon, realizado pelo Vietcong em 8 de Julho de 1961. Nesse ano foram abatidos pelos guerrilheiros mais de mil soldados dos EUA.

Quatro presidentes norte-americanos sucessivos mantiveram a agressão contra o Vietnã, deixando o rastro de 57.690 soldados norte-americanos mortos, enquanto do lado vietnamita caíram 600 mil combatentes. Em 1973, os Estados Unidos foram finalmente obrigados a, de forma dramática, abandonar o país: um tanque do exército guerrilheiro rompeu a vala de proteção da embaixada norte-americana em Saigon enquanto os últimos funcionários e militares a abandonavam precipitadamente, fugindo de helicóptero do telhado do edifício.

O general Giap não foi apenas um mestre na arte de dirigir a guerra revolucionária, mas também escreveu sobre ela, publicando em 1961 a sua famosa obra “Guerra popular, exército popular”, manual baseado na sua própria experiência. Nela estabelece os três fundamentos básicos de que necessita um exército popular para alcançar a vitória: direção, organização e estratégia.

Definiu a guerra popular como “uma guerra de combate para o povo e pelo povo, enquanto a guerra de guerrilha é apenas um método de combate. A guerra popular corresponde a uma concepção mais geral. É uma concepção de síntese. É uma guerra simultaneamente militar, econômica e política”. A guerra popular não é realizada apenas pelo exército, por mais popular que este seja, mas sim por todo o povo, que deve participar e ajudar na luta, que necessariamente será prolongada.

Giap sabia que o sucesso, quando existe uma desproporção de forças muito grande, se baseia na iniciativa, na audácia e na surpresa, o que exige que o exército revolucionário esteja continuamente em movimento. Destacou-se como um gênio da logística, capaz de movimentar continuamente importantes contingentes militares, segundo os princípios da guerra de deslocamentos. Fê-lo contra os colonialistas franceses em 1951, infiltrando um exército inteiro através das linhas inimigas no delta do rio Mekong, e repetiu-o antecipando a ofensiva do Tet em 1968 contra os norte-americanos, quando posicionou milhares de homens e toneladas de aprovisionamentos para um ataque simultâneo contra 35 centros estratégicos do sul.

A batalha de La Drang, entre 19 de outubro e 27 de novembro de 1965, foi uma das mais decisivas para ambas as forças no decurso da guerra de libertação. O general William Westmoreland estava convencido de que a mobilidade aérea e a potência de fogo em grande escala seriam a resposta adequada à estratégia de Giap. Mas este colocou os seus efetivos tão próximos das linhas norte-americanas que os B-52 largavam as bombas em cima das suas próprias fileiras.

As táticas de guerrilha de Giap constituem ainda hoje uma das mais importantes fontes de informação do exército norte-americano para esmagar as forças revolucionárias. Os imperialistas dispõem de toda a informação, mas falta-lhes o mais importante: as massas. Estão conscientes de que se as massas se integram na guerra revolucionária não conseguirão vencer.

As vitórias do “Napoleão Vermelho”, como o denominaram os jornais ocidentais, sobre exércitos de grandes potências, amplamente mais bem-equipados do que suas forças, ajudaram a pôr fim ao colonialismo europeu em todo o mundo e a consolidar o regime comunista no Vietnã.

Baixo e franzino, o autodidata militar Giap era uma lenda no Vietnã e no mundo. Para os historiadores, era um general equiparável aos maiores generais da história. Suas habilidosas estratégias e táticas astutas resultaram em vitórias contra inimigos cujos recursos faziam seu Exército de camponeses parecer insignificante. “Rendição” não é uma palavra do meu vocabulário, ele chegou a dizer certa vez. Nas palavras de Giap, qualquer exército lutando por liberdade “tem a energia criativa para alcançar coisas que seus adversários nunca poderiam esperar ou imaginar”.

Max Altman, Opera Mundi

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Comentários

  1. Thiago Postado em 08/Oct/2013 às 13:17

    Endeusar um indivíduo que jogava WAR com seres humanos é digno de desprezo. Seja ele americano, vietnamita, francês, russo, o que for. Enquanto houver essa cultura guerrista no mundo, nada vai evoluir. Ê raça humana: fadada à implosão.

    • Victor Hugo Molinar Postado em 08/Oct/2013 às 15:54

      Concordo. Vangloriemos aqueles que se dedicaram à fraternidade, ao bem mútuo, a igualdade social e a justiça.

    • Roberto Postado em 08/Oct/2013 às 20:10

      Cara, você não conhece a história ? Os vietnamitas estavam em suas terras, foram invadidos e colonizados e lutaram pela liberdade de seu povo, esse General conduziu um povo a vitória, o preço foi alto, mas a outra opção era o dominio. Levante sua indignação para os invasores, sem eles não há guerra ...

    • Brigadista Postado em 09/Oct/2013 às 12:53

      Concordo Thiago, porém esse seu pensamento passifista não muda o mundo em nada, enquanto isso muito lutam e morrem para que você tenha paz.

    • Iank Postado em 10/Oct/2013 às 02:40

      "Cultura guerrista", foi o que te trouxe até os dias de hoje. Quem garante que você teria a liberdade de usar os seus direitos sem as guerras do passado? Ê raça humana: sempre criticando.

    • Carlos Postado em 24/Oct/2013 às 14:37

      As pessoas nesses comentários são tão ignorantes que chega a dar medo. Há uma grande diferença entre o fato e a representação do mesmo para as diversas pessoas. Enquanto alguns veem este homem e seus feitos como um uma história de "humanos ceifados" e um homem que "brinca de WAR com vidas", outras o verão como um salvador. Os fatos são: 1 - Ele é um excelente militar. 2 - Fez seu país independente. 3 - Ele venceu batalhas importantes para seu país e seu povo. Há muita diferença entre fatos e opiniões, só porque vidas foram perdidas não significa que o cara era um monstro, que os soldados são coitadinhos e que ninguém deveria prestar consideração para esses conflitos. Se eu fosse vietnamita e meu pai tivesse morrido na guerra, com certeza eu estaria triste por não ter meu pai, mas também estaria orgulhoso em saber que meu pai participou da emancipação do meu país. Hoje está na moda um olhar "vitimista e moralista", que vai de conflitos ("estão errados porque se perderam x vidas"), às explicações de subdesenvolvimento econômico ("somos pobres porque fomos colonizados e explorados"). Pensamentinho medíocre, mas que é útil para nos confortar, visto nosso legado histórico.

  2. Tiago Postado em 08/Oct/2013 às 15:46

    Sou contra a violência, porém quando alguém me agride eu sou forçado a me defender!

  3. Eduardo Postado em 08/Oct/2013 às 17:32

    tem uma parte do texto que diz que "Quatro presidentes norte-americanos sucessivos mantiveram a agressão contra o Vietnã, deixando o rastro de 57.690 soldados norte-americanos mortos, enquanto do lado vietnamita caíram 600 mil combatentes." 657690 seres humanos ceifados...grande vitória seja lá de que lado foi...será se perguntarmos as mães, pais, irmãos, irmãs, amigos e amigas, será que acharão o mesmo? Duvido, não acredito que a morte de tantos entes queridos possa ser considerada uma vitória. Hoje tem um pais que é contra o uso de armas quimicas, e no vietnan usaram napalm (gasolina em gel)...é mole.

  4. Fernando Postado em 08/Oct/2013 às 21:45

    Engraçado q voce se esqueceu de dizer que ele também ajudou a enfrentar o exército chines que se opôs a incursão vietnamita no Cambodja para derubar o Khmer Vermelho.

  5. Marcos Postado em 08/Oct/2013 às 23:06

    O Grande erros dos USA foi colocar soldados americanos para lutar contra os comunistas do Norte e não fazer com que o próprio povo derrube os comunistas, esse erro foi fatal.

  6. Nicolas Postado em 09/Oct/2013 às 21:33

    Essa guerra não era pra ser vencida, apenas mantida. Imagina o lucro que os banqueiros tiveram com ela assim como tiveram nas duas primeiras grandes guerras.