Redação Pragmatismo
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Direita 18/Oct/2013 às 11:07
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Matheus Pichonelli: A luta de Almeidinha contra o "Bolsa Esmola"

Na Suíça, o Bolsa Família recebe o "Nobel" da seguridade social. Aqui, há campanha para suspender o título de eleitor de seus beneficiários

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Almeidinha faz campanha no Facebook para a suspensão dos direitos políticos dos beneficiários do Bolsa Família (Reprodução)

O programa Bolsa Família recebeu, na terça-feira 15, o 1º prêmio Award for Outstanding Achievement in Social Security, espécie de Nobel concedido a cada três anos pela Associação Internacional de Seguridade Social (ISSA), entidade com sede na Suíça. É o mais importante reconhecimento de um programa responsável por ajudar a quebrar no País um ciclo histórico de fome e miséria. É o reconhecimento, também, de que a aposta em promover a autonomia dos beneficiados por meio de um cartão magnético passou longe de um mantra brasileiro quase pré-histórico: o de que dinheiro na mão de pobre é, na melhor das hipóteses, desperdício; na pior, um mero instrumento de troca de apoio e voto.

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A notícia, em meio à tensão pré-eleitoral, deixou a turma do Almeidinha em polvorosa. Nas mesas de bar, do trabalho ou em memes de Facebook, a reação ao prêmio foi quase previsível. Houve uma avalanche de revolta e cusparadas contra o que chamam de Bolsa Esmola. Uma das montagens é uma peça-rara: uma enxada e outros utensílios de mão-de-obra rural com os dizeres “no meu tempo, Bolsa Família era quando os pais de família trabalhavam” (algo assim). Uma outra mostrava a confusão em uma agência da Caixa após os boatos sobre o fim do benefício: “Brigar por esmola é mais fácil do que brigar por saúde, emprego e educação”. Outra, um “apelo ao fim do voto de cabresto”, questionava a legitimidade dos beneficiários em participar das eleições. O raciocínio é de uma sofisticação invejável. A vítima do cabresto, afinal, é sempre o pobre. E pobre, de barriga cheia, é incapaz de pensar por si: automaticamente, devolve a esmola com a gratidão em forma de voto vendido. (O cabresto, para quem não sabe, é a correia fixada na cabeça de animais, como as mulas, para amarrá-los ou dirigi-los; o uso da expressão, a essa altura do campeonato, diz mais sobre a consciência e os pressupostos do autor do que sobre o sistema político que ele finge combater).

Críticas ao programa, como se sabe, existem. Muitas delas são justificadas, entre as quais a dificuldade de fiscalização e o seu uso, em discursos de campanha, como arma de terrorismo eleitoral (“se fulano ganhar, acabou a mamata”).

Até aí, normal. O que espanta, nas manifestações de ódio, é a precariedade dos argumentos. A turma do Almeidinha, ao latir contra uma política de transferência de renda (que, vale dizer, não é uma invenção brasileira), não demonstra apenas a sua ignorância sobre as contrapartidas do programa. Demonstra o completo desprezo em relação a quem, até ontem, topava limpar, lavar, passar e cozinhar na casa grande por algum trocado e a condução. É como se passasse um recibo: é preferível deixar a população desassistida, sem vacina, sem alimento e sem escola, do que depender de política pública para dar o primeiro passo.

A bronca da patrulha é compreensível: a autonomia do explorado é o desarme do explorador. E ao explorador não resta outra alternativa se não espalhar seus próprios preconceitos aos ventos. Segundo esta visão turva sobre o mundo, a capacidade de raciocínio do pobre se limite a comer e beber. Não difere da de um animal. Um animal que se contenta em receber um complemento de renda para se acomodar – e não, como ele, batalhar por uma vida melhor que extrapole o teto do benefício.

O modelo do self made man só serve para ele, e é uma questão quase moral não depender de ninguém. No mundo em que a educação, até ontem, era objeto de luxo das mesmas famílias, os Almeidinhas mais bem alimentados preferem ignorar os fatos e propagar a sua própria visão de mundo: um mundo segundo o qual a limitação do pobre não é material, mas humana; sua complexidade existencial se limitaria assim a acordar, sacar o benefício, comer (sem talheres), dormir e procriar. Decerto a trupe de Almeidinha só conhece o mundo fora de sua bolha por ouvir dizer. Para ele e seu classe-média-sofrismo, refinamento é passar os dias (e a vida) repetindo chavões sem base empírica. É espalhar no Facebook mensagens sobre o que desconhece ao lado de frases jamais escritas pelos autores que nunca leu. O resto, para ele, é pura ignorância. A ignorância que atrasa o progresso da nação.

PS: Em dez anos, o Bolsa Família beneficiou mais de 50 milhões de brasileiros e tirou 22 milhões de pessoas da miséria, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social. Para entrar no programa, o beneficiário deve cumprir uma série de contrapartidas, entre elas o acompanhamento da frequência escolar, da agenda de vacinação e nutrição dos filhos e o pré-natal de gestantes. Com o benefício, o comércio em localidades historicamente legadas à miséria se movimentou e a evasão escolar arrefeceu. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), para cada real investido pelo programa, há um retorno para a economia de 1,78 real. Não é por menos que, em época de eleição, candidatos de diferentes partidos saem no tapa para proclamar a paternidade do programa. Uns se declaram idealizadores da experiência pioneira. Outros, da sua ampliação. Ganha quem apostar que em 2014 não haverá um só candidato capaz de sugerir o fim do benefício).

Matheus Pichonelli, CartaCapital

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Comentários

  1. Eduardo Postado em 18/Oct/2013 às 13:15

    DEPOIS VÃO PRA MÍDIA DIZER QUE É OBRA DO PT...TEM DEPUTADO QUERENDO TIRAR O DIREITO DE LGBT FRENQUENTAR TEMPLOS, AGORA ESTE QUER TIRAR DIREITO POLÍTICO, ESTES SÃO OS QUE QUEREM GOVERNAR NO LUGAR DE DILMA.... NÃO PENSAM NO COLETIVO E SIM APENAS NUMA PARTE DA SOCIEDADE, TIPO (PURIFICAÇÃO DA RAÇA) QUE HOUVE NUM REGIME DO PASSADO QUE MATOU MAIS DE 5O MILHÕES DE PESSOAS. CIDADANIA É DIREITO PARA TODOS, LIBERDADE E OBRIGAÇÕES DE FORMA IGUAL.

  2. Thiago Teixeira Postado em 18/Oct/2013 às 13:50

    Além do bolsa família fornecer dignidade aos beneficiários, há uma grande movimentação da economia. Claro, tem gente que não precisa e ganha, tem aqueles que deixam de trabalhar, mas são casos atípicos que os reacionários generalizam.

    • renato Postado em 18/Oct/2013 às 15:25

      Tiago, eles não sabem o que fazem....o que dizem...o que pensam...o que leem.. eles não sabem o que é "O" bolsa família. Perdoe-lhes, esta bem. Bom final de semana. A todos, e preferencialmente aos Bolsários. Domingo galinha com macarrão pessoal.

  3. Peterson Silva Postado em 18/Oct/2013 às 19:07

    Quem diabos é Almeidinha?

  4. Feminist Girl Postado em 18/Oct/2013 às 22:54

    A maioria dos criticos do bolsa família, ou são direitistas reacionários, ou alienados com a cabeça doutrinada pela direita.

  5. Victoria Postado em 18/Oct/2013 às 23:09

    Olha, eu já esgotei meus argumentos com os "Almeidinhas"....se essa história de compra de voto fosse verdade, aqui na minha cidade, Marroni (PT) teria vencido as eleições para prefeito. No entanto, foi eleito o Dudu Milk [apelido carinhoso] (PSDB) e em grande parte das casas do meu bairro de periferia tinha o adesivo do tucano; no meu bairro, mais de 80% das familias são beneficiárias do programa... Mas, infelizmente, não há argumentos suficientes para convencer as pessoas, é triste essa visão inflexível que algumas pessoas tem em relação aos programas sociais!

  6. Luis Postado em 18/Oct/2013 às 23:33

    Não que eu seja contra o bolsa família, mas ganhar prêmio da Suiça - um país que se sustenta com a grana da corrupção do mundo todo - não tá com nada

    • Ednaldo Postado em 20/Oct/2013 às 08:17

      Quando um parente seu ficar doente e precisar de tratamento médico, faça uma pesquisa e veja se quem descobriu o tratamento e a doença receberam o prêmio Nobel, se confirmar aplique essa sua regra.

      • Luis Postado em 20/Oct/2013 às 23:35

        Se vc acha que em ciência tudo tem um "pai", é melhor vc começar a estudar mais. Pode começar lendo "A estrutura das revoluções científicas" de Thomas Kuhn. Fora isso, não acho que isso justifique o dinheiro que os corruptos do mundo inteiro mandam para lá. Se esse dinheiro não fosse roubado, haveriam muito mais cientistas e menos doenças.

  7. Renata Vasques Postado em 20/Oct/2013 às 14:00

    Não tenho duvidas que a princípio o programa auxiliou milhares de pessoas, infelizmente não tem como negar que muitos se acomodam, veem no parir uma forma de conseguir dinheiro fácil sem esforços, as crianças podem estudar mais o exemplo vem de casa. De que adianta estudar ter boas notas se os pais mostram que o mais fácil para ser alguém é depender de esmolas? Segue uma reportagem bem interessante: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/sem-porta-de-saida

    • Marcelo Postado em 20/Oct/2013 às 15:27

      Da Revista veja? esta publicação por diversas vezes demonstrou parcialidade.

    • laercio aciole Postado em 20/Oct/2013 às 18:49

      Essa reportagem da veja, deve ter sido ditada por carlinhos cachoeira......

    • Eduardo Postado em 20/Oct/2013 às 21:26

      revista o que???? esta deveria vir com um vidrinho de desinfetante para os germes da direita contrária a tudo que é pró povo, principalmente se este é pobre.

    • Thiago Dias Postado em 22/Oct/2013 às 08:07

      não veja na Veja, se não você pode perder parte da visão.

  8. Johnny Postado em 20/Oct/2013 às 14:06

    Almeidinha=Coxinha.

  9. Maria Aparecida Jube Postado em 20/Oct/2013 às 16:13

    Quem merecia perder o direito de votar é quem vendeu as riquezas do Brasil a preço de banana podre, é quem estava prometendo entregar o pré-sal para a Chevron, são os que há vinte anos vem comandando o trensalão paulista, etc. etc. etc. Os lixos que estão tentando cassar a cidadania dos pobres são os mesmos que não quem que eles tenham assistência médica decente, pobre para eles é a escória da sociedade, serve somente para fazer trabalho escravo para eles.

    • Nina Postado em 20/Oct/2013 às 17:35

      ... e quem se baseia na Veja pra tratar de assunto sério como fez a colega acima. Valei-nos! Tire o direito a voto desse povo, Jaya!

  10. Vinicius Postado em 20/Oct/2013 às 16:28

    Confesso que comecei a ler a matéria com um pré conceito. Esperava mais um texto cegamente baseado na discussão rasa de esquerda x direita, o que é tão fácil de se achar aqui no Pragmatismo Político (a favor da esquerda, óbvio). Mas conforme meus olhos iam descendo e acompanhando a matéria, percebi que é bem embasada, honesta e, embora alfinete aqui e ali, bem fiel a realidade. Concordo com o texto! Abraços,

    • Eduardo Postado em 20/Oct/2013 às 21:34

      Felizmente amigo sua concordância ou a minha discordância pouco vale nesta questão, visto que tirar direitos por estar recebendo auxilio do Estado não é uma coisa legal e nem constitucional Graças a Deus, e não a estes ilustrados escritores que veem solução simples no ferrar com os pobres. Ou seja os opositores de Dilma são incompetentes(vide exemplo de SP) aí querem tirar o direito de votar dos que recebem o Bolsa Família, aí pergunto ao amigo, eu tenho empréstimo consignado, as grandes empresas tem créditos do BNDES e dos Bancos Oficiais com juros menores, não seriam estes também sujeitos a não ter o direito de votar também... o recurso público é o mesmo. E, os donos de bancos que receberam o PROER...tinham que perder o direito até de ser brasileiros pelo texto.

  11. Professora Elaine Tex Postado em 20/Oct/2013 às 19:18

    Seria interessante incluir no Bolsa Família não só a frequencia escolar, mas também o desempenho expresso em notas bimestrais,isso pq, infelizmente, há muitos alunos que vão a escola só para receber o bolsa família, mas não fazem nada na escola, nem abrem o caderno, só conversam, por vezes só atrapalham a aula.

  12. Robson Lopes Postado em 20/Oct/2013 às 19:23

    Eu concordo, e acho que além do pessoal beneficiário do bolsa família, os servidores públicos das 3 esferas, os políticos, os terceirizados, quem presta serviço para o governo, quem estuda em escolas ou universidades públicas, os policiais, os médicos do SUS, ahh, e as pessoas que se utilizam do SUS também, esqueci mais alguém, aí só quem deve votar, são, deixe-me ver, ninguém, os políticos serão eleitos por W.O., perfeito.

  13. Luiz Benedito Ponzeto Postado em 20/Oct/2013 às 19:48

    Talvez muita gente não se lembre da época da indústria da seca no nordeste, o que é muito bom. Mas o bolsa família e outros projetos bem sucedidos, nessa região, foram os responsáveis por essa mudança radical, que, de quebra, ajuda a diminuir o voto de cabresto e os currais eleitorais.

  14. Reginaldo C. Jr. Postado em 20/Oct/2013 às 22:22

    Sou completamente contra proibir quem recebe bolsa família de votar, mas sou a favor de acabar com o voto obrigatório para todos!!! Além disso, duas mudanças são necessárias: 1. valor único a todos, não importando quantidade de filhos, pois não incentiva o povo colocar mais gente no mundo sem ter condições de criar, 2. contra partida com trabalho, por exemplo, um mês no ano prestando serviço em horta comunitária, escola, construção de casa popular ou etc. Um dos raríssimos políticos que admiro: - Seria uma tragédia se o Brasil de hoje não tivesse a Bolsa Família. E será uma tragédia se, daqui a 20 anos, a gente continuar precisando da Bolsa Família. E a saída é a educação - discursou Cristovam Buarque.

  15. Vanessa Postado em 21/Oct/2013 às 02:49

    Bah citar a Veja é fim de carreira.

  16. Danilo Postado em 21/Oct/2013 às 11:18

    Em relação a Suíça, toda notícia tem seus dois lados... do mesmo jeito que aqui discutimos sobre a bolsa-família e suas consequências no Brasil os suíços também discutem, o país também é dividido entre aqueles que apoiam e os que não apoiam, quase que igual a aqui. Todo país tem sua versão da "bolsa-família", e as discussões sempre são as mesmas. Ninguém achou uma solução ideal.

  17. Lucas Postado em 21/Oct/2013 às 22:20

    "Para entrar no programa, o beneficiário deve cumprir uma série de contrapartidas, entre elas o acompanhamento da frequência escolar, da agenda de vacinação e nutrição dos filhos e o pré-natal de gestantes" huahuahuahu.. tu é inocente pra caralho meu... e quanta fraude não existe ai? Pq o governo não abre industrias estatais e bota essa gente pra trabalhar? Falou muito e não argumentou nada, sinto muito.