Redação Pragmatismo
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Homofobia 26/Sep/2013 às 12:04
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"Livremos o Brasil dos gays. Campanha, mate um viado"

Cartazes pregando o "orgulho hétero" e fazendo apologia ao assassinato de homossexuais puderam ser vistos na UFCA. Discursos de ódio e casos de racismo, homofobia e misoginia são frequentes nas instituições de ensino

Jarid Arraes, questão de gênero

Na última semana, vem sendo divulgada nas redes sociais uma foto tirada na Universidade Federal do Cariri, onde é possível ver duas mensagens escritas na porta de um banheiro. A primeira mensagem é parte de uma manifestação e crítica contra a homofobia; a segunda é uma resposta à primeira e faz apologia ao assassinato de gays: “Livremos nosso país da escória gay! Campanha ‘mate um viado’!”. Enquanto discursos de ódio e casos de racismo, homofobia e misoginia são frequentes nas instituições de ensino, essa já não é a primeira ocorrência na UFCA: em 2012, cartazes exaltando o “orgulho hétero” com fotografias de mulheres peladas foram colados por todo o campus sem que houvesse identificação de seus autores.

homofobia ufca
Manifestações de homofobia e misoginia ocorrem na UFCA desde 2012 (Divulgação)

Segundo o professor Alexandre Nunes, as colagens vieram como reação a uma atividade do curso de Jornalismo, onde foram espalhadas pela faculdade imagens do Translendário – um calendário com atores travestidos reproduzindo iconografias da cultura clássica, como a Santa Ceia e a Monalisa. Foi publicada uma nota de repúdio no blog do Grupo de Estudos de Gênero e Mídia, do qual o próprio Alexandre Nunes é coordenador, e foram realizadas atividades de conscientização social no campus da Universidade. Ainda assim, os responsáveis pela campanha do “orgulho hétero” permanecem impunes, assim como o autor da mais recente mensagem proclamando morte “aos viados”. O anonimato é a máscara escolhida por quem já entende que está cometendo um crime, não é por acaso que os homofóbicos da UFCA não expõem a cara.

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Segundo Alexandre, “as portas dos banheiros são historicamente locais das mais diversas expressões sociais e a possibilidade de anonimato parece fazer com que os indivíduos exponham todas suas questões não elaboradas; dentre elas, o discurso de ódio. O desafio da Universidade é promover a visibilidade e o debate do conflito entre as diferenças, para que estes discursos não cheguem às portas dos banheiros e nem aos corredores do campus.”.

Enquanto é evidente que a questão da homofobia em espaços universitários está longe de ser resolvida, é interessante perceber que esse não é o único tipo de intolerância que contamina as instituições de ensino. A misoginia é tão frequente e perturbadora quanto a homofobia ou a transfobia nas universidades e pode-se dizer que esse ódio infundado aos gays, na maioria massiva das vezes, tem origem no ódio ao feminino. Ainda é comum, por exemplo, a ideia de que gays são “menos homens”, ou que desejam ocupar um papel social feminino. A repulsa às mulheres está profundamente enraizada em nossa cultura e várias ocorrências de misoginia passam despercebidas, sem que sejam identificados como casos de intolerância direta ou indireta.

Pablo Soares, estudante do curso de Jornalismo na UFCA, explica o nível de ódio: “o medo na faculdade é o mesmo medo que teríamos em qualquer lugar público.” Não porque o que acontece na UFCA passe como algo menos grave, mas sim porque todas as áreas da nossa sociedade reproduzem a misoginia. Uma união maior e mais frequente entre os movimentos LGBT e Feminista podem garantir os primeiros passos para transformações sociais significativas, mas o trabalho subjetivo que cada pessoa precisa fazer – buscando identificar e eliminar de si traços machistas – é muito necessário. Afinal, a sociedade é formada por indivíduos que criam e reproduzem a cultura.

Para a maioria das pessoas, o ódio ao feminino já está tremendamente naturalizado. Quase que instintivamente, a cultura leva as pessoas a acreditarem que tudo o que é “de mulher” é inferior, fútil, ridículo, fraco, manipulável, burro ou inadequado. É notável que, para um homem, ser heterossexual não é nenhuma prova anti-misoginia: na verdade, na maioria das vezes esse “gostar de mulher” se limita à crença de superioridade às mulheres e objetificação feminina. Fora da exploração sexual e coisificação, a mulher é tão socialmente repudiada que qualquer ato que possa sugerir qualquer assimilação de valores considerados “femininos” por um homem é fortemente rechaçado. Para muitas pessoas, os homens não podem se “rebaixar” quando se relacionam com outros homens e jamais devem usar adereços considerados femininos; por isso, para que um homem gay seja aceito, deve manter a aparência tipicamente masculina.

A própria dificuldade para conseguir enxergar toda essa misoginia é sintoma do problema. Enquanto o ódio ao feminino não for extirpado de nossa cultura, jamais haverá uma realidade sem ódio a gays, lésbicas, travestis e transexuais.

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Comentários

  1. Felipe Postado em 26/Sep/2013 às 12:37

    Só rindo mesmo desses White Pardos

  2. luacy Postado em 26/Sep/2013 às 18:53

    essa reportagem tenta mostrar que todo hetero quer matar um gay. Eu nao quero quero que sejam felizes.

  3. renato Postado em 26/Sep/2013 às 19:29

    Só rindo mesmo, são todos.... Não vou escrever, acabo sendo preso..

  4. André Postado em 26/Sep/2013 às 19:42

    "Matar" alguém por sua opção sexual é ir longe de mais. Porém, acho um absurdo falarem de que as pessoas não podem expressar seu "Orgulho Étero". Eu, como étero me sindo discriminado quando vejo homossexuais gritando pelas ruas no dia do "Orgulho Gay", expressando assim sua opção sexual, seus ideais e princípios, e ver que nós, éteros temos que ficar calados, pensar duas vezes antes de falar, porque qualquer coisa que dê uma conotação mais agressiva é homofobia. Acontece que já vi tratamentos muito mais agressivos de parte do movimento "Orgulho Gay", e nem por isso eles são acusados por "éterofobia". Aliás, nunca ouvi um jornal falar de éterofobia. Por que a opção sexual deles é mais importante do que a minha? Porque merece mais respeito do que a minha? Se querem ser reconhecidos igualmente, temos que tratá-los de forma igual, não colocá-los num pedestal e adorá-los.

    • Pedro Grem Postado em 05/Oct/2013 às 03:25

      Caro Andre, diante de seu comentário torna-se patente o seu desconhecimento sobre os estudos de gênero e as relações de gênero na sociedade contemporânea, exatamente por isso, presto-me a oferecer-lhe alguns esclarecimentos. Em primeiro lugar não existe nenhuma supervalorização da cultura gay, muito pelo contrário, a sociedade ainda tem muitos tabus diante da população gay. por exemplo: é comum ouvir pessoas se queixando quando avistam um casal homossexual em manifestações de afeto, por outro lado, nunca vi ninguém desferindo criticas a um casal heterossexual que andasse de mãos dadas, por exemplo. Não precisamos de um dia do orgulho Heterossexual exatamente porque a heterossexualidade é tida como regra, como o padrão normal de comportamento. vc diz que já viu muitos tratamentos mais agressivos por parte do orgulho gay, bom ... eu fico imaginando o que seria isso. Vc já viu gay agredindo e ameaçando heterossexuais só por serem heteros? vc já viu gays perseguindo e ameaçando heteros por demonstrarem afeto em público??? ou talvez o comportamento ofensivo a que vc se refere seja uma cantada de um gay para alguém aparentemente hetero??? Vc jamais deveria se sentir ofendido com o dia do orgulho gay, é um movimento politico, um manifesto em luta de igualdade de direitos (como o de poder andar de mãos dadas como fazem os casais heterossexuais). O dia do orgulho gay não é uma tentativa de subverter a orientação sexual das pessoas, tampouco de menosprezar os relacionamentos heteroafetivos simplesmente porque tal conduta não tem o menor sentido. alguma vez vc já viu alguém sendo discriminado por ser heterossexual? ou alguém sentir vergonha em assumir sua heterossexualidade? ou então alguém que teve medo de contar aos pais que era hetero??? Pense que da mesma forma que existe o dia do orgulho gay existe o dia da arvore, o dia do índio, o dia da mulher, o dia da independência, o dia dos trabalhadores ... são datas para se lembrar e refletir sobre as injustiças e relações de dominação e preconceito em nossa sociedade. Talvez, seu receio quanto ao dia do orgulho gay seja uma forma velada de preconceito, pois afinal, vc tem a liberdade de gozar todos os direitos e liberdades inerentes a sua heterossexualidade, os gays ainda não têm essa liberdade e exatamente por isso eles lutam. Por fim uma última reflexão: qual seria o sentido do dia do orgulho hetero??? o que seria comemorado? a liberdade que temos de expressar nossa sexualidade e sermos aceitos? comemoraríamos o privilegio de gozar da sexualidade "correta",ou para os religiosos a sexualidade natural??? propor um dia do orgulho hetero não é apenas inócuo como também ofende aqueles que lutam por direitos iguais é como se estivéssemos zombando dos demais grupos.

    • Rogerio Postado em 13/Nov/2013 às 16:15

      Só humilhar alguém por ser gay já é absurdo e as pessoas hoje condenam. Mas o mesmo preconceito combatido contra os gays é prontamente e com o máximo esmero aplicado aos ex gays. A homofobia vai reinar absoluta por muito tempo, enquanto gays é simpatizantes continuarem alimentando preconceitos.

  5. Otávio Postado em 26/Sep/2013 às 20:30

    Cariri, onde fica isso? Tem "Universidade" lá? Bem pelo discurso dos alunos já se vê o nível de civilidade deste lugar.

    • Pedro Grem Postado em 05/Oct/2013 às 03:27

      O preconceito de origem é tão abominável quanto qualquer outra forma de preconceito

  6. Juliana Postado em 26/Sep/2013 às 21:07

    É bom o texto, só acho que se desviou um pouco do assunto

  7. rich Postado em 27/Sep/2013 às 21:49

    ja pensou se livrar o Brasil dessas atitudes erradas, também deveriam livrar dos maconheiros, beberrãos, assasssinos, e de tudo que for contra a palavra de Deus. Porém. não devemos usar a violência. pois na bíblia está escrito que não é por força, nem por poder, mas pelo Espírito. Existe a cura gay também. Mais uma vez me refiro a Espiritual. Marcos 2.17

    • Lucas Forte Postado em 01/Oct/2013 às 14:58

      Engraçado você citar a Bíblia, rich, como base para nos "livrar" de maconheiros, beberrões e gays. Primeiro que na Bíblia diz que Deus criou as árvores, plantas e ervas para que o homem usufruisse de seus frutos... agora pasme! Maconha é uma erva criada por Deus! E os beberrões? Jesus bebia vinho pra caramba! Até fez milagre transformando água em vinho. Já sobre o homossexualismo, condenado no livro de Levítico, eu te pergunto se vc segue as outras regras desse evangelho, que dizem para não usar roupas que não seja de algodão, não comer carne de porco, não tocar em mulheres menstruadas, apedrejar adúlteros, etc. É muito fácil basear nossas opiniões na Bíblia escolhendo o que seguir ou não. A definição dessa atitude só pode ser uma: hipocrisia.

  8. Shuma Postado em 27/Sep/2013 às 23:22

    "A própria dificuldade para conseguir enxergar toda essa misoginia é sintoma do problema. Enquanto o ódio ao feminino não for extirpado de nossa cultura, jamais haverá uma realidade sem ódio a gays, lésbicas, travestis e transexuais." Ah, sim, claro. Agora qualquer um que seja masculino tem, automaticamente, ódio ao feminino. Me pergunto se esse tipo de pensamento não é revanchismo exarcebado ou só pura demagogia.

  9. Ever Postado em 28/Sep/2013 às 02:42

    Pelo menos já descobriram quem é o "escritor de banheiro". Î

  10. Adalberto Postado em 02/Oct/2013 às 11:21

    E estes serão os profissionais de "nível superior"...