Redação Pragmatismo
Compartilhar
Racismo não 26/Sep/2013 às 10:35
14
Comentários

Copacabana e o mito da democracia racial

Jornalista alemão desmente mito da democracia racial na orla carioca: crença serve para "ofuscar" injustiças. Segundo ele, bairro reúne todos os clichês associados ao Brasil no exterior

democracia racial copacabana
“Desigualdades não somem na praia”, diz autor de livro sobre Copacabana (Arquivo)

‘Mito da democracia racial praiana só serve para ofuscar as desigualdades ainda obscenas que existem no Brasil’

O jornalista e pesquisador Dawid Danilo Bartelt considera Copacabana um resumo do Rio de Janeiro, e o Rio, um resumo do Brasil. No livro Copacabana – Biographie eines Sehnsuchtortes (Copacabana – Biografia de um lugar do desejo, em tradução livre), recém-lançado na Alemanha, o autor conta as origens de uma das praias mais famosas do mundo e traça também um instantâneo de um pedaço de areia que, segundo ele, resume o estilo de vida brasileiro.

Um trecho da costa carioca onde classes e raças se misturam, seja torrando a barriga ao sol, jogando futevôlei e mesmo trabalhando pesado, na venda de mate gelado e picolé.

Diretor do escritório da Fundação Heinrich Böll no Rio de Janeiro, o alemão contesta, entretanto, a tese, muito difundida, de que na orla ocorreria, na prática, a chamada “democracia racial” brasileira. “Essa igualdade, na verdade, não existe. O fato de haver um acesso igual para todos não leva necessariamente à igualdade. As desigualdades não somem quando entramos na praia”, diz.

Leia também

Bartelt argumenta que o tal mito da democracia racial praiana só serve para “ofuscar as desigualdades ainda obscenas que existem no Brasil”.

O senhor escreveu um livro tanto contando o passado de Copacabana, quanto mostrando o que a praia e o bairro são hoje em dia e como vivem seus habitantes. Qual o fascínio que aquele trecho de orla exerce no imaginário alemão e europeu?

Dawid Danilo Bartelt: Copacabana, no âmbito cultural ocidental, provoca uma associação no mundo inteiro, tanto nos Estados Unidos, como na Alemanha e Europa em geral, com praia, calor, trópicos e erotismo. Cito no meu livro um guia turístico que afirma que sobre o Brasil flutua uma nuvem pesada de erotismo, calor, aventura e música. Essa é uma mistura de clichês, mas também os clichês trazem muita verdade. Isso tem muito a ver com a Copacabana que está no imaginário alemão.

Há quem diga que a praia é um lugar onde a tal democracia racial brasileira se realiza. O senhor rebate essa ideia.

Na Europa, nós conhecemos praias em que é necessário pagar para frequentar. Os brasileiros se escandalizam com isso, com essa organização classista de praia, onde praticamente só rico entra. Isso não existe nessa forma no Brasil. E os brasileiros se orgulham desse acesso generalizado à praia. Mas essa generalidade não corresponde ao princípio da igualdade, no ponto de vista social. Aliás, o acesso é igual para todos, mas nem tanto. Quando o então governador Leonel Brizola finalmente inaugurou linhas de ônibus ligando a Zona Norte às praias da Zona Sul, houve protestos.

A igualdade, de fato, não existe. As desigualdades não somem quando entramos na praia. Dizer que há uma democracia racial na praia só serve para ofuscar as desigualdades ainda obscenas que existem no Brasil. Ofusca os conflitos sociais que existem e podem ser vistos de forma clara na praia, onde muitos estão a lazer, enquanto outros trabalham.

Muitos alemães não entendem um lugar onde o arrojado biquíni fio dental é algo normal, enquanto o topless é proibido. A relação com o corpo dos frequentadores da praia também é um aspecto do seu livro?

Cada sociedade tem suas morais duplas. Um capítulo que escrevi sobre esta questão aborda a cultura do corpo e o culto ao corpo. Copacabana é um dos palcos principais disso no Brasil. Mas Copacabana também tem sido um lugar onde se inventaram vários esportes, como o frescobol, o jogo de peteca.

Um antropólogo francês disse, um dia, que na França a roupa serve para modelar e camuflar. No Brasil, o corpo é que veste a pessoa. A roupa acentua as formas corporais. Chamo esse princípio de “menos dois”: as mulheres vestem sempre roupa dois números abaixo do seu tamanho. Como nem todos conseguem manter a forma ideal, alguns acentuam ainda mais seus defeitos, mostram as barrigas de forma absurda. E isso é proposital, os homens valorizam isso, não fica uma coisa ridícula. Faz parte do jogo erótico.

Quanto ao fio dental, me lembro que quando minha cunhada brasileira, do Rio, veio me visitar em Berlim, nos anos 90, ficou escandalizada com as pessoas que faziam nudismo e quis ir embora do lugar onde estávamos. Já nós, alemães, nos escandalizamos quando vemos o fio dental. Parece que não tem calcinha.

É uma moral dupla. Com o fio dental, a mulher está nuamente vestida. No Brasil, se a mulher tem o mamilo coberto já está vestida, embora esteja nua. Mas totalmente nua, não pode. Já com o fio dental, a bunda está nua, mas a mulher não está nua, está ainda vestida. Isso é uma coisa específica do brasileiro, que temos que aceitar.

O senhor diz acreditar que o futuro de Copacabana está no morro. Como é isso?

Talvez esteja exagerando um pouco. Mas turisticamente, socialmente não há mais um potencial de mudança no asfalto. A estrutura social do bairro não vai mudar, os velhinhos continuam em seus apartamentos pequenos, a classe média baixa também. Os ricos foram embora e não vão mais voltar. O dinamismo potencial vem agora das favelas. Elas ainda não passaram a ser um lugar de cidadania efetiva – embora sejam um território especial agora, com o evento das chamadas UPPs, que já são um avanço, uma mudança.

As favelas entraram apenas agora no imaginário do bairro. Durante mais de cem anos, elas não faziam parte de Copacabana. Eram espaços brancos nos mapas oficiais do bairro. As autoridades se queixaram, por exemplo, que elas receberam atenção demais quando foram registradas pelo Googlemaps.

DW

Recomendados para você

Comentários

  1. Lauro Portela Postado em 26/Sep/2013 às 11:46

    Esse jornalista alemão não sabe o que são as UPPs. Saem os traficantes e entra a PMERJ com sua truculência e "banda podre".

  2. Modesto Postado em 26/Sep/2013 às 11:58

    Copacabana seria um resumo do Brasil... e depois o preconceituoso sou eu. Independentemente da existência ou não de uma suposta "democracia racial", um cara que conhece tão pouco do Brasil a ponto de generalizar o país a partir de Copacabana e achar que está bombando não tem credibilidade.

    • Carlos Prado Postado em 26/Sep/2013 às 13:42

      Só por esta frase não dá para dizer muito do trabalho do cara. Esta é uma frase de efeito que chama a atenção, mas pode nos enganar facilmente. O que parece que ele quer dizer é que os aspectos sociais que ele está estudando e podem ser encontrados em todo o Brasil estão caricaturadamente mais explícitos nas relações sociais presentes em Copacabana.

      • Jean Carlos Haandlykken L Postado em 26/Sep/2013 às 14:06

        Sim. o potencial clichê que o Rio dos turistas carrega consigo como um resumo ideológico do Brasil para estrangeiro ver. Quem vive no exterior entende bem o que significa este resumo...

    • Lucas Teixeira Postado em 26/Sep/2013 às 13:55

      Modesto, concordo muito contigo. Enquanto lia o texto pensei nisso. É irritante esses gringos generalizarem o Brasil inteiro a partir de pequenas regiões. Eu sou do sul, e aqui não é um "país tropical". Essa associação do Brasil com calor sempre me incomodou também.

    • Daniel Postado em 26/Sep/2013 às 14:04

      Ainda tem o piscinão de Ramos, e o porque verdadeiro dele ter sido construído, acho que esse Alemão teria uma grande surpresa.

  3. Andréa Postado em 26/Sep/2013 às 14:02

    O tema me pareceu interessante, mas, pela entrevista, me pareceu uma análise mais moral do que social.

  4. Marcos Postado em 26/Sep/2013 às 14:50

    Upps é um grande avanço, mas sem um governo sério e uma legislação capaz de intimidar o trafico e bandidos em geral o povo do Rio vai continuar vivendo no meio de uma guerra civil.

  5. daivid Postado em 26/Sep/2013 às 15:11

    Gostei do falso moralismo brasileiro. Pra mim já tomou o lugar do nosso" jeitinho".

  6. tatiana Postado em 26/Sep/2013 às 16:18

    Mas, a primeira linha de onibus q ligava zona norte a zona sul n foi criada pelo brizola, tá falando do que não sabe

  7. José Danti Postado em 26/Sep/2013 às 20:42

    Que pais e esse?

  8. Tony Postado em 27/Sep/2013 às 01:44

    Penso eu que o alemão está falando do ponto de vista de um estrangeiro que realmente não sabe muito o que é o sul do Brasil ou as montanhas frias de Minas Gerais. Mas na Alemanha, França ou Inglaterra a idéia que ainda chega sobre o Brasil é o clichê carioca da bossa nova classe média (chatíssima) e da democracia racial praiana. Acho que ele está demistificando isso justamente pro Gringo cair na real. E a sacada de que a mulher brasileira fica pelada "sem ficar" (aham....) foi genial, desmascarou a hipocrisia.

  9. Fialho cesar Postado em 27/Sep/2013 às 04:23

    Somente a cidadania plena conduz a democracia. Não ha outra forma de ser cidadão que não seja atravès da educação ideologica e politica. Este é o problema de todo brasileiro . De todas as classes sociais ou raças. È o q impede o seu progresso social e lhe rouba a credibilidade aos olhos do mundo q ja consegue vêr a sua verdadeira essëncia e descodificar os seus codigos q durante seculos esconderam

  10. luiz carlos ubaldo Postado em 03/Oct/2013 às 16:08

    Lembrar de Copacabana é reviver toda minha infância e juventude, os fins de semana no lido, menino simples do Santo Cristo com sua turma, pegar o ônibus na rua America as 10 da manhã e não pagar passagem já era uma aventura por si só, chegar a praia e ir direto pra quele marzão de Deus pegar um jacaré, jogar volei, correr até Ipanema pra ver o top les da mulherada, o povão fumando maconha e na volta pular da pedra do posto 1, talvez por ser tão jovem nunca presenciei qualquer ato discriminatório, mesmo porque as coisas costumavam se resolver na porrada quando alguém cometia qualquer ato de discriminação, ninguém gostava dos farofeiros que sujavam nossa praia, mas a convevência era pacifica, quem quizesse sossego para farofar que fosse para o Flamengo ou botafogo, é bem verdade que não sabiamos que ali existiam favelas. isso porque conviviamos na maior harmonia com os irmãos, agora esse alemão deve saber do que esta falando, deve ter passado varios revelions em Copa, é bem facíl pra ele descrever o que leu em livros de autores miopes de conhecimento a respeito de nosso povo, hoja amadurecido pelos anos, posso dizer que se pudesse viveria tudo de novo!