Redação Pragmatismo
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Geral 11/Sep/2013 às 10:20
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Classe média adere ao funk ostentação

Sem crítica social, funk de ostentação cai no gosto da classe média. Popularização do estilo criado na periferia de São Paulo cresce, mas não o livra da criminalização

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Funk ostentação cresce entre jovens de classe média (Reprodução)

Quando deixou para trás o cavaquinho e as letras melosas de pagode para cair no universo do funk de ostentação Nego Blue viu sua vida mudar. Começou a assinar o nome com a sigla MC, seus shows mensais antes restritos às comunidades passaram a ocorrer cinco vezes por semana em boates da classe média e o dinheiro aumentou.

Nego Blue é estrela de um ritmo que ganha cada vez mais adeptos. Nele, tudo parece mais glamoroso: em vez de letras que exaltam armas, drogas e sexo explícito, prevalece a apologia a uma vida regrada a champagne, uísque, Camaros e mansões. “Estamos quebrando barreiras”, conta entusiasmado MC Nego Blue, nascido em Cidade Tiradentes e morador de São Mateus, zona leste de São Paulo. “O funk de ostentação me levou onde nunca sonhei estar. Quando me vi no Hard Rock Café, em Belo Horizonte, onde só para entrar são 200 reais, fiquei bobo. Não sabia se olhava os carros pendurados no teto ou para o público cantando”, lembra.

Mas a que se deve tamanha aceitação desse “novo funk” – até ontem “de preto, pobre e favelado”, como diz a música tocada exaustivamente pelo DJ Marlboro nas festas de classe média? “As pessoas ficam menos escandalizadas ao ouvir músicas sobre marcas de roupa do que sobre drogas e crimes”, explica Danilo Cymrot, doutorando em criminologia pela USP que estuda o movimento de criminalização do funk. “No entanto, o que fortaleceu essa emergência do ostentação foi a repressão de um outro tipo de funk”, reforça.

O som mais “light”, que abre mão da crítica social – marca do rap e dos antigos proibidões – vem ganhando terreno em meio a uma onda que reprime os bailes funks em vias públicas. Em abril, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou o projeto de lei 2/2013, dos vereadores Conte Lopes (PTB) e Coronel Camilo (PSD), que proíbe a realização de bailes funk em vias públicas, praças e parques, além de qualquer outro tipo de evento musical não autorizado. A proposta faz lembrar a Resolução 013/2007, assinada pelo secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, que dava plenos poderes para a polícia proibir ou autorizar eventos culturais, sociais ou esportivos de acordo com seus próprios critérios. A medida foi revogada em agosto e será reformulada depois de ter sido taxada de antifunk. Mas, por seis anos, coube à polícia militar dar aval a qualquer festa nas favelas “colonizadas” pelas UPPs.

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“As manifestações culturais afrobrasileiras na nossa história sempre receberam um olhar criminalizante, como já foi com a capoeira e com o samba”, lembra Vera Malaguti Batista, professora de criminologia da UERJ e secretária geral do Instituto Carioca de Criminologia. “Já é tradição olhar as expressões culturais dos pobres, principalmente dos afrobrasileiros, com esse olhar.”

Maratona. Em São Paulo, embalado pelos cinco ou seis shows por semana, Nego Blue se vê envolto em fama e uma longa fila de meninas que esperam para tirar foto depois de um show no Club A Moema, que abriu espaço na agenda de música eletrônica para receber noites de funk de ostentação.

“As músicas do Nego Blue falam de sonhos que todo mundo quer ter: estar em lugares melhores, ter roupas boas, perfumes, bebidas caras”, observa seu produtor Ronaldo Dias. “E a classe alta gostou porque fala de uma visão sobre o mundo deles, um mundo que todos querem provar.”

Os números comprovam o sucesso. Um dos maiores hits do MC Nego Blue, a música É o Fluxo contabiliza 939.377 de visualizações no Youtube. Já o videoclipe de Na Pista Eu Arraso, do colega MC Guime, alcançou 15.384.559 visualizações em pouco mais de 3 meses.

“Vejo o estilo como uma consequência natural de uma cultura de massa em uma sociedade consumista”, observa Guilherme Pimentel, fundador da Associação de Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk). “A ostentação é uma forma mais agressiva do jovem se sentir inserido nessa sociedade de consumo preconceituosa, que dá mais valor ao que você tem do que ao que você é. Esse estilo só vai perder força na cultura artística depois de perder força na sociedade.”

O interesse crescente, no entanto, não livra o estilo da criminalização que o ronda. A morte de MC Daleste em cima de um palco durante um show em julho mostra que, mesmo sendo melhor assimilado, o funk de ostentação não consegue livrar seus protagonistas do preconceito que os agride rotineiramente. “Se eu disser que não há discriminação pela cor, estou mentindo”, diz Nego Blue. “Basta eu colocar as naves [carros de luxo] na rua para tomar um enquadro atrás do outro.”

Marsílea Gombata, CartaCapital

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 11/Sep/2013 às 11:13

    Na minha particular opinião - do quê muitos podem discordar, o que é óbvio e democrático - uma das maiores críticas sociais está no trecho de um funk, que diz: "é som de preto, de favelado, mas, quando toda, ninguém fica parado". A sempre observável conduta do crítico "por esporte", que se faz de "cult", inteligente, mas aproveita para se divertir com uma música que seria "atribuível" a uma periferia, ao nordeste, ao norte, a Goiás. À parte a pertinente discussão quanto à (falta de) qualidade de algumas composições (as que remetem a pedofilia, à apologia ao crime etc.), ao fim a melodia acaba "contagiando" a muitos. Como postaram no facebook esses dias: "Enquanto você assiste Big Brother, um corrupto está roubando.", que era prontamente respondido com "E daí? Enquanto você assiste a um filme iraniano, esse político continua roubando". Assim, o "som de preto, de favelado" vai tocando e agremiando, em festas, em comemorações, muitos críticos, sejam das "classes" A, B, C, D ou E. Reflexão possível? Em vez de "acabem com o funk", "acabem com determinado partido", "acabem com determinada classe", por que não buscarmos reformulações, fomento (que não deve ser resumido ao econômico) para melhorias? A cultura é espontânea, livre e, como qualquer atividade humana, situa-se dentre extremos de exageros e completa serenidade, também o direcionamento podendo ser pernicioso.

  2. marcelo couto amado Postado em 11/Sep/2013 às 21:29

    infelizmente o OSTENTAÇÃO é apenas uma propaganda de consumo, q além de não trazer nenhum alento a juventude, ora negra e explorada e massacrada das periferias do Brasil; traz o consumismo extremo como unica forma de "felicidade" possível.Se a intenção é vender mais e atingir os "bochechas rosadas" das boates e condomínios de classes abastadas, podemos comparálos ao mercenários q trocavam escravos negros por mercadorias, taí uma possível, alegoria da tragédia brasileira. Defender a cultura do funk, do rap, do hip hop e de tantas outras vozes da juventude e dos trabalhadores em morros, guetos, comunidades, favelas, subúrbios e periferias, é nossa obrigação. Mas defender essa ideia de consumo acima de tudo, da comercialização do sexo, do machismo e alienacao? Poderíamos coloca-la no mesmo patamar da Teologia da prosperidade q assola os templos(mas esse assunto está fora da pauta por agora). Sou professor de Arte e sempre trabalhei nas periferias de São Paulo e Guarulhos, por tudo, tenho dito.

  3. Marcos Postado em 11/Sep/2013 às 22:58

    Funk é um lixo fruto de má qualidade na educação musical do país que é praticamente inexistente é só isso.

    • Eduardo Postado em 12/Sep/2013 às 11:17

      Bem nessas. Funk é um LIXO!

      • Isaias Postado em 12/Sep/2013 às 13:42

        Não necessarimente, há funks com críticas social, só que este tipo de funk está no ostracismo faz tempo.

  4. Danilo Postado em 12/Sep/2013 às 11:15

    Pode ser que "a nova classe média" que aderiu ao funk, mas na verdade nada mudou, temos que lembrar do histórico de malandragens do governo (independente do partido). Se considerarmos como classe média o que o governo considera "é quem vive em famílias com renda per capita de R$ 291 a R$ 1.019". No final a mesma turma que gostava de funk antes é a que gosta hoje. O que mudou é que essa reclassificação do IBGE (ou sei lá quem faz essas regras malucas) que dá a impressão que houve uma maior adesão da classe média ao funk.

    • Souza Postado em 12/Sep/2013 às 15:06

      Danilo, leia a matéria inteira. Ou você acha que essa tal classe média que você cita, frequenta o Hard Rock Café? Assim como sertanejo universitário que prega as mesmissimas coisas em suas letras, o funk é o som do momento, doa o que doer.

  5. Rogério Marques Postado em 12/Sep/2013 às 12:30

    O funk assim como outras manifestações ''artísticas'' populares (nacionais e internacionais) reflete nossa sociedade contraditória, consumista, decadente, sem maiores referenciais éticos, morais e intelectuais. E seria redundante afirmar, sem educação de qualidade. Não digo que o funk carioca não seja uma manifestação cultural legítima, mas não deve ser considerado bom e digno de respeito só por isso. Mesmo essa vertente absurda que é o funk de ostentação é sim, legítimo. Não se questiona isso. Mas como todos os outros estilos ele pode e deve ser analisado e criticado. O funk de ostentação paulista é a versão brasileira (aqui dificilmente se cria algo) para o hip hop norte-americano cuja vertente mais lucrativa também deixou de lado letras contestadoras e de crítica social para a pura e simples enaltecimento das vantagens do dinheiro e poder. Onde está o talento em se subir em um palco e berrar palavrões ou fazer propaganda de marcas de carros, bebidas enquanto um bando de ‘’modelos e atrizes’’ fazem movimentos eróticos? Qual a diferença entre um baile funk e um show de striptease em um puteiro? O ‘’artista’’ popular, seja o funkeiro ou sertanejo é tão imbecil que nem ele mesmo tem ideia disso. Talvez o número de mulheres igualmente estúpidas, mas gostosas que fazem fila para transarem com eles compensem sua mediocridade intelectual. Vale ressaltar que no Brasil, mediocridade é compensada com milhões na conta bancária.

  6. Danilo Postado em 12/Sep/2013 às 17:16

    Vamos lá..., o porque achei incoerente: Segundo a classificação oficial uma família de classe média ganha até $1.734(atualizei), logo com uma faixa de renda dessas alguém de classe média não frequentaria o Hard Rock Café..., então provavelmente o público alvo que estamos falando é o classe C pra cima e não classe média como diz o título da postagem. Seria mais coerente falar que o funk encontrou espaço na alta-socienda, poré que eu me lembre já vi reportagens sobre bailes "vip's" tocando funk desde 2011..., então nada mudou, só a classificação do IBGE..

  7. Dário Postado em 12/Sep/2013 às 18:55

    Olha, precisamos entender que toda mensagem, seja ela de que tipo for ou através de qual for a mídia, necessariamente ela traz, faz, sugestiona, impressiona, e cria opiniões, conceitos ou pré conceitos, e crenças que se transformarão futuramente em ações e atitudes dos receptores destas mensagens. Ou seja, a palavra, seja através da música ou não, é fator de contribuição para situações e condições diversas. Porra ! A maioria dos jornalistas sabem disso ! Eles têm e dão uma contribuição enorme para formarem opinião positiva para coisas esdrúxulas e imorais se assim obtiverem algum tipo de ganho pessoal ! E tem um monte de babacas que não fazem um mínimo de exercício mental e aceitam qualquer mensagem ( tocada, escrita, coreografada, encenada, esculpida, etc.) como verdade absoluta ou como algo positivo e que deve ser cultivado. Decididamente, o funk está entrando cada vez mais na sociedade, em todas as classes sociais, por muitas e diversas razões_ uma delas e talvez a principal é o fato de vivermos uma época de decadência moral_, e, entre estas, está a tácita propaganda jornalística.