Redação Pragmatismo
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Desigualdade Social 25/Sep/2013 às 16:07
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Fernando Brito

"Bolsa Família" dos EUA mata a fome de 40 milhões de americanos

Pouca gente sabe, mas os EUA também têm o seu “Bolsa Família”, que ajuda 40 milhões de americanos de baixa renda a se alimentarem. Lá, como cá, o conservadorismo critica o programa dizendo que ele “ensina a não trabalhar”

Pouca gente sabe, mas os EUA também têm o seu “Bolsa Família”.

Lá, é o SNAP – Supplemental Nutrition Assistance Program – que ajuda 40 milhões de americanos de baixa renda a se alimentarem, no mesmo esquema de cartão magnético do nosso aqui, com a diferença que o benefício não pode ser sacado, mas utilizado eletronicamente nas lojas cadastradas, o que é fácil frente ao uso de computadores generalizados em todo o comércio do país. Ele, aliás, substitui os antigos “food stamps”, tíquetes de alimentação que existem há décadas nos EUA.

Lá, como cá, o conservadorismo ataca o SNAP, dizendo que ele “ensina a não trabalhar”, acomodando as pessoas.

Contra isso, e para analisar os benefícios do “Bolsa Família” gringo, o economista Paul Krugman, Prêmio Nobel de 2008, escreveu o artigo abaixo, publicado no The New York Times de ontem e republicado pelo site da Folha.

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Acomodação de beneficiários do Bolsa Família é mito, revela estudo

É triste ver que a mediocridade é universal e que, não importa a língua, a elite sempre se parece em crueldade.

Livres para passar fome

Paul Krugman

Múltiplos estudos econômicos cuidadosamente conduzidos demonstraram que a desaceleração econômica explica a porção principal da alta no programa de assistência alimentar. E embora as notícias econômicas venham sendo em geral ruins, uma das poucas boas notícias é a de que o programa ao menos atenuou as dificuldades, impedindo que milhões de norte-americanos caíssem à pobreza.

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E esse tampouco é o único benefício do programa. Há provas esmagadoras de que os cortes de gastos aprofundam a crise, em uma economia em desaceleração, mas os gastos do governo vêm caindo. O SNAP, porém, é um programa que foi expandido, e dessa forma ajudou indiretamente a salvar centenas de milhares de empregos.

Mas, dizem os suspeitos habituais, a recessão terminou em 2009. Por que a recuperação não reduziu o número de beneficiários do SNAP? A resposta é que, embora a recessão tenha de fato acabado oficialmente em 2009, o que tivemos desde então é uma recuperação de e para um pequeno número de pessoas, no topo da pirâmide de distribuição nacional de renda, e nenhum dos ganhos se estendeu aos menos afortunados. Considerada a inflação, a renda do 1% mais rico da população norte-americana subiu em 31% de 2009 a 2012, enquanto a renda real dos 40% mais pobres caiu em 6%. Por que o uso da assistência alimentar se reduziria, assim?

Mas será que o SNAP deve ser considerado uma boa ideia, em termos gerais? Ou, como diz o deputado Paul Ryan, presidente do comitê orçamentário da Câmara, ele serve como exemplo de transformação da rede se segurança social em “rede de varanda que convence pessoas capazes de trabalhar a levarem vidas de dependência e complacência”.

Uma resposta é, bem, não é lá uma rede muito confortável: no ano passado, os benefícios médios da assistência alimentar eram de US$ 4,45 ao dia. E, quanto às pessoas “capazes de trabalhar”, quase dois terços dos beneficiários do SNAP são idosos, crianças ou deficientes, e a maioria dos demais são adultos com filhos.

bolsa família eua snaps
Paul Krugman, Prêmio Nobel de 2008, diz que SNAP é um exemplo de política pública em sua melhor forma (Reprodução)

Mas mesmo desconsiderando tudo isso, seria de imaginar que garantir nutrição adequada para as crianças, que é grande parte do que o SNAP faz, torna menos, e não mais, provável que essas crianças sejam pobres e necessitem de assistência pública ao crescer. E é isso que as provas demonstram. As economistas Hilary Hoynes e Diane Whitmore Schanzenbach estudaram o impacto dos programas de assistência alimentar nos anos 60 e 70, quando eles foram gradualmente adotados em todo o país, e constataram que, em média, as crianças que recebiam assistência desde cedo se tornavam adultos mais produtivos e mais saudáveis do que as crianças que não a recebiam – e que também era menos provável que recorressem a ajuda do governo no futuro.

O SNAP, para resumir, é um exemplo de política pública em sua melhor forma. Não só ajuda os necessitados como os ajuda a se ajudarem. E vem fazendo ótimo trabalho durante a crise econômica, mitigando o sofrimento e protegendo empregos em um momento no qual muitas das autoridades parecem determinadas a fazer o oposto. Assim, é revelador que os conservadores tenham escolhido este programa como alvo de ira especial.

Até mesmo alguns dos sabichões conservadores consideram que a guerra contra a assistência alimentar, especialmente combinada ao voto que aumentou o subsídio agrícola, prejudicará o Partido Republicano, porque faz com que os republicanos pareçam mesquinhos e determinados a promover uma guerra de classes. E é isso exatamente que eles são.

Fernando Brito, Tijolaço

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 25/Sep/2013 às 19:13

    A principal função do ESTADO é essa, ajudar os que mais precisam com suas políticas sociais.

    • Hugo Postado em 25/Sep/2013 às 21:23

      Ou deveria ser

    • Stella Duarte Postado em 25/Sep/2013 às 23:03

      O Estado NÃO ajuda os que mais precisam, essa forma de pensar se configura em assistencialismo e, as políticas sociais são desenvolvidas com os recursos dos tributos que todos nós pagamos, inclusive as pessoas que dela usufruem.

      • Elaine Postado em 29/Sep/2014 às 19:25

        Stella, você já ouviu falar em bem estar social?

    • VALANDRO FERREIRA Postado em 20/Mar/2014 às 10:25

      ESTA AJUDA NADA MAIS É DO QUE COMPRA DE VOTOS, O CARA QUE RECEBE "AJUDA" JAMAIS VAI TER QUE TRABALHAR, TEM TUDO NAS MÃOS... ALIÁS O TRABALHO DEE É DE QUATRO EM QUATRO ANOS, ISTO É: VOTAR NO GOVERNO QUE LHE PAGA O "SALÁRIO"... OU ESTOU ERRADO?!

  2. Antonio Carlos Postado em 25/Sep/2013 às 20:24

    Eu acredito que os americanos sejam mais sensíveis em diferenciar esmola com auxílio social , aqui no brasil parte da população deixam se influenciar por auxílios do governo.

    • Gustavo Postado em 26/Sep/2013 às 18:37

      Pela experiência de quem já viveu nos EUA, posso afirmar que brasileiros e americanos são essencialmente iguais, principalmente quando são pobres, marginalizados pelas sociedade e pelo mercado, sem oportunidade de estudo e sem um sistema de saúde universal, caso de EUA e Brasil.

  3. guilherme Postado em 26/Sep/2013 às 13:28

    se voce tem uma populacao pobre e sem emprego, ela vai querer trabalhar a qualquer custo, mesmo abaixo do salario minimo. Agora, se tu tiver um programa de auxilio, a populacao nao vai aceitar ser explorarada. Portanto, para continuar explorando a populacao, os conservadores tem de ser necessariamente contra qualquer auxilio.

  4. Bruno Postado em 26/Sep/2013 às 23:46

    Olha mãe,um bom texto sobre o EUA num site Super-Esquerda!Bom,voltou citar um outro "Bolsa-Família" do EUA que é as bolsas de estudos para jovens de baixa renda,um "ProUni" dos EUA,que assim como o Snap é mais dinâmico porque como diz o velho ditado "dá a Vara,e ensina a pescar"É Claro que o texto não faz essa comparação.A Economia do Nordeste vem crescendo,é mais pessoas subiam de classe,a classe dominante hoje é a Classe C,devido a muitos brasileiros sairem da Pobreza,Ou seja,o tiro do PT saiu pela curaca.Afinal,O Governo Dilma já nos mostrou,como o principal objetivo desse governo é agradar gregos e troianos,para está na cadeia em 2014 novamente.

  5. Calvin Postado em 27/Sep/2013 às 09:02

    Quem era contra bolsa escola, vale gás e etc. era o Lula, que dizia que "antes caía uma chuvinha o povo corria prá plantar macaxeira, agora, fica esperando bolsa disso, bolsa daquilo...."

    • Adalberto Postado em 30/Sep/2013 às 17:43

      Mas foram essas "bolsas" que o reelejeram, assim como sua testa de ferro, Dilmandona.

  6. vinicius Postado em 20/Nov/2014 às 19:24

    E ainda tem babaca que fala que não tem assistencialismo nos EUA!