Luis Soares
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Política 13/Aug/2013 às 14:39
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Carlos Latuff: ameaça de morte ganha repercussão internacional

Al Jazeera repercute ameaças sofridas por cartunista Carlos Latuff. Jornalista recebeu mensagens após fazer provocação por caso de morte de famílias de PMs em São Paulo

Opera Mundi

carlos latuff ameaça de morte

Cartunista Carlos Latuff concedeu entrevista à Al Jazeera após ameaça de morte (Foto: Reprodução)

A rede de televisão árabe Al Jazeera repercutiu na última sexta-feira as ameaças de morte realizadas contra o cartunista brasileiro Carlos Latuff após sua recente provocação contra a violência da Polícia Militar. Latuff concedeu uma entrevista de cinco minutos à emissora, em que afirmou temer ser assassinado ou agredido, principalmente após receber ameaças explícitas no Facebook.

Os trabalhos de Latuff têm grande repercussão no Oriente Médio e no Norte da África, principalmente após os levantes populares ocorridos no início de 2011 durante a Primavera Árabe. Muitas de suas charges eram levadas em cartazes pelos manifestantes durante os protestos, em especial no Egito, durante a queda do regime de Hosni Mubarak (1981-2011).

As ameaças começaram depois de terça-feira (06/08), quando ele comentou o recente caso da morte de um casal de policiais e de toda sua família em São Paulo – as investigações apontam até agora, como único suspeito, o filho de 13 anos do casal, que também morreu (as investigações cogitam que ele teria se suicidado). “Garoto mata seu pai, que era policial da ROTA…esse menino precisa de duas coisas: atendimento psicológico e uma medalha”, postou.

Vídeo:

Na entrevista, ele afirmou que está acostumado a sofrer ameaças na carreira e que no Brasil isso é comum para quem critica a brutalidade policial. “Essa não é a primeira vez que estou envolvido ao denunciar a brutalidade policial. Tenho recebido ameaças de morte durante minha carreira. Mas agora está mais claro, porque eles estão mais organizados, não só a polícia, mas os fascistas estão organizados em comunidades no Facebook, incitando pessoas a me matarem, me atacarem, agredirem fisicamente. Há uma oportunidade mais objetiva para me atacarem, inclusive nas ruas”, afirma.

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“O problema não é apenas minha segurança, mas mostrar que a brutalidade policial no Brasil é tratada como um tabu. Você pode estar em perigo ou ser morto ao denunciá-la. Ok, podemos dizer que meu comentário foi de mau gosto, mas esse tipo de ameaças de morte mostram que no Brasil isso é algo que você não pode falar”, disse o cartunista. “Meu comentário foi provocativo, minha intenção era desvelar uma discussão. “E acho muito importante abordar esse tema e sobre liberdade de expressão especialmente após os protestos em junho e julho”.

Além da entrevista na AL Jazeera, Latuff recebeu moção de solidariedade na Sérvia e de vários grupos progressistas no Brasil. Na última quarta-feira, ele divulgou uma carta aberta em que falou sobre as ameaças. Ele também pediu o fim da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar), de São Paulo, e do Bope (Batalhão de Operações Especiais), do Rio de Janeiro, o que chama de esquadrões de extermínio oficiais, “que só fazem matar pretos e pobres”.

“Isso não é novidade pra mim. Desde 1999, quando fiz meu primeiro protesto contra a violência policial, realizando uma exposição virtual de charges intitulada ‘A Polícia Mata’. Ao longo dos meus 23 anos de profissão como cartunista, já fui detido três vezes por desenhar contra a truculência da polícia brasileira e já recebi inúmeras ameaças, seja de judeus sionistas por conta de minhas charges em favor dos palestinos, seja de extremistas muçulmanos pelas minhas charges sobre a questão egípcia e síria. Portanto, ameaças fazem parte do meu trabalho”.

Antecedentes

Como o próprio cartunista lembra, esta não é a primeira vez que ele tem problemas em razão de sua obra. Latuff, de origem libanesa, já chegou a ser criticado via Twitter pelo governo do Bahrein, em abril de 2012, quando ele criticava a repressão às manifestações pela abertura democrática no país ao mesmo tempo em que a ilha organizava uma etapa do Grande Prêmio de Fórmula 1.

Na ocasião, a IAA (sigla em inglês para Autoridaade para Assuntos de Informação) pediu ao brasileiro que refletisse sobre a “integridade jornalística” e a “falta de neutralidade” de seus desenhos.

“Nós do IAA estamos preocupados com seus desenhos. Embora sejamos defensores da liberdade de expressão, seus desenhos ultrapassam o limites dessa liberdade com acusações infundadas e uma representação desequilibrada dos eventos ocorridos no Bahrein. Muitos de seus cartuns possuem erros jornalísticos e factuais graves. Pedimos que você reflita sua arte através da integridade jornalística”.

Em seu site, o cartunista ironizou o recado: “É curioso que uma instituição governamental como a do Bahrein use termos como ‘integridade’ e ‘liberdade de expressão’, valores que definitivamente não se aplicam ao regime de Hamad [bin Isa al Kalifa, rei do Bahrein]”, rebateu o brasileiro, citando em seguida relatório da Anistia Internacional denunciando violações de direitos humanos por parte do regime.

Em dezembro do ano passado, o Instituto Simon Wiesenthal o colocou em uma lista “dos 10 maiores antissemitas do mundo”, por suas charges contra ações do governo de Israel. A acusação foi prontamente repudiada por Latuff em artigo.

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Comentários

  1. Marcos Postado em 13/Aug/2013 às 14:57

    Latuff mantém a posição agora que tudo indica que os assassinatos foram queima de arquivo? Os assassinos dos pais e do menino também merecem medalhas? Elogiar assassinos é válido quanto as vítimas são nossos inimigos?

  2. Thiago Postado em 13/Aug/2013 às 15:48

    É claro que não concordo com o tipo de ameaça que o Latuff recebel, mas o Marcos está completo de razão em seus questionamentos.

  3. Thiago Postado em 13/Aug/2013 às 15:48

    É claro que não concordo com o tipo de ameaça que o Latuff recebeu, mas o Marcos está completo de razão em seus questionamentos.

  4. Altair Ahad Postado em 13/Aug/2013 às 16:01

    força ao cartunista...

  5. Geane Postado em 13/Aug/2013 às 16:12

    Eu acredito que o Marcos não sabe distinguir uma ironia… A “medalha” ele colocou no sentindo irônico.. =*

    • CRISTIANO Postado em 09/Sep/2013 às 21:00

      POUCOS ENTENDERAM AMIGO!

  6. Vinicius Postado em 13/Aug/2013 às 17:14

    Sentido irônico? Puxa, pensei que fosse de verdade mesmo. ¬¬ Gosto do Latuff, porém a frase foi infeliz e desnecessária. O que, obviamente, não justifica as ameaças que ele vem sofrendo.

  7. gilberto Postado em 13/Aug/2013 às 17:34

    Há certas coisas que não devem ser ditas, como há coisas que não devem ser feitas. Certos temas não são adequados para cartun.

  8. Pamela Postado em 13/Aug/2013 às 17:55

    Não há dúvidas do despreparo e estupidez de muitos policiais por aí, entretanto, usar de um assassinato de uma família inteira para debochar e incitar violência é no mínimo desrespeito. Não concordo com as ameaças, muito menos com o comentário infeliz do cartunista.

  9. Marcos Postado em 13/Aug/2013 às 20:43

    Frase infeliz e completamente desnecessária, se o policial morto fosse um colega de trabalho meu e esse cartunista estivesse na minha frente eu teria pena dele, a ROTA é uma exemplo de polícia por sinal quem tem coragem de trabalhar na ROTA no Brasil, esquerdistas? Quem tem coragem de patrulhar as piores ruas de SP a noite sem sabe se volta para a casa durante 25 anos? Enfrentar o crime organizado por R$ 2000, morrer por um país falido em diversas áreas, ser vilanizado, crucificado por uma mídia tendenciosa, perder diversos amigos e colegas durante anos de profissão, receber ameaças constantes de bandidos, trocar tiros contra criminosos todo ano. Que profissão faz isso pelo Brasil? Carlos Latuff nunca ira chegar aos pés de um PM comum, um da ROTA então pobre coitado.

  10. Nell Barros Postado em 13/Aug/2013 às 22:08

    Não por acaso a ONU recomendou ao Brasil a extinção da polícia militar. Acho que muitos, especialmente aqueles que defendem cegamente as corporações policiais, nunca foram próximos das margens sociais em sentido humano, para entender como funciona a ação destes grupos em favelas ou bairros pobres. Lá, assim como onde moramos existem pais trabalhadores, crianças e toda a gente transitando pela rua, sendo alvos da truculência de todo dia. Sou mulher, minha ascendência é branca e como tal pude observar a imensa discrepância no tratamento entre mim e meus colegas negros, pardos e mestiços. Se por um lado há infelicidade no discurso do colega Latuff por outro há o escancarado cunho da "exemplar" ROTA.

  11. Luis Postado em 14/Aug/2013 às 13:31

    Querer proibir um cartunista de ser exagerado é o mesmo que querer proibir um policial de ser corrupto. Ops...

  12. Marcos Postado em 14/Aug/2013 às 14:55

    Geane, ironia é quando você diz uma coisa querendo dizer o oposto (exemplo: "que belo exemplo de civismo o aumento de salário que os deputados se concederam"). O Latuff pode ter tentado, sei lá, uma hipérbole (um exagero). Mas aí as ameaças que ele recebeu também poderiam ser enquadradas assim.

  13. jonas Postado em 14/Aug/2013 às 15:55

    MEU DEUS! quanta gente que não entende uma ironia! quando o cartunista fala em ganhar a medalha, ele está ironizando o fato da policia ter acusado um menino de planejar friamente a morte de quatro familiares, sendo que dois são policiais e um inclusive da unidade de elite da policia, pior, depois ele se mata. Por isso que para o Latuff ele merece uma medalha, pois existem acusações de queima de arquivo e a policia parece que não está muito disposta a investigar essas acusações. Enfim, não é uma medalha para o assassino, mas uma ironia endereçada a policia, por isso as ameaças pela internet.

  14. Marcos Postado em 15/Aug/2013 às 04:24

    "Sou mulher, minha ascendência é branca e como tal pude observar a imensa discrepância no tratamento entre mim e meus colegas negros, pardos e mestiços." Comentário interessante, a polícia é reflexo do povo assim como os políticos, talvez o povo brasileiro não goste muito da polícia pois são os espelhos deles.Como se a população brasileira fosse um exemplo para o mundo também, sinceramente se tem um país que tem pouca moral para criticar a polícia é o Brasil.