Redação Pragmatismo
Compartilhar
Rio de Janeiro 08/Aug/2013 às 11:52
23
Comentários

Afinal, quem é Amarildo?

Da Rocinha, histórias do pedreiro sorridente, herói na infância e pescador nas horas vagas, que desapareceu após ser detido numa “Unidade de Polícia Pacificadora”

Anne Vigna, APublica

Não é preciso passar muito tempo junto à família de Amarildo para entender que a UPP da Rocinha se envolveu em um problema bem grande. Amarildo não é uma pessoa que poderia desaparecer sem que sua família perguntasse por ele, não é o pai de quem os filhos esqueceriam facilmente, não é o sobrinho, tio, primo, irmão, marido por quem ninguém perguntaria: onde está Amarildo?

Neste pedaço bem pobre da Rocinha, onde nasceu, cresceu, viveu e desapareceu Amarildo, “muitos são de nossa família”, diz Arildo, seu irmão mais velho, apontando os quatro lados da casa. Em uma caminhada pela comunidade na companhia de um sobrinho de Amarildo, a repórter da Pública conheceu algumas primas, depois umas sobrinhas, tomou um café com as tias lá em cima, de onde desceu acompanhada de irmãos e filhos de Amarildo. De todos ouviu a descrição de Amarildo como “um cara do bem” que, por desgraça, tornou-se famoso – e não por sua característica mais marcante, o bom coração.

amarildo pedreiro rocinha

Familiares se desesperam com desaparecimento de Amarildo, o querido pedreiro da Rocinha (Foto: Divulgação)

As casas são ligadas por escadas antigas, feitas possivelmente por seus avós que vieram da zona rural de Petrópolis para o Rio com os três filhos ainda bem pequenos. “A Rocinha nessa época ainda era mato e poucas casas de madeira, uns barracos como se diz, e nada mais”, diz Eunice, irmã mais velha de Amarildo.

A curiosidade da repórter sobre o passado da família é o suficente par que ela pegue o telefone, para ligar para uma tia avó, “a única que pode saber alguma coisa sobre a história é ela”, diz. A tia-avó, que também vive na Rocinha, confirma por telefone o que Eunice já sabia: a “tataravó era escrava, possivelmente em uma fazenda de Petrópolis, mas não se sabe mais do que isso”.

Eunice diz ter retomado as origens familiares ao fazer de sua casa um centro de Umbanda. É aqui, na parte de baixo da casa, a mais silenciosa, que ela recebe as pessoas que querem saber de seu irmão. “Temos a mesma mãe, mas nosso pai não é o mesmo. Minha mãe gostava de variar”, comenta, rindo.

Leia também

Ali, na casa construída por ela, moram pelo menos 10 pessoas, entre crianças e adultos. Na cozinha, as panelas são grandes como numerosas são as bocas. No primeiro quarto, três mulheres comem sentadas na cama. Em outro quarto, duas sobrinhas estão em frente ao computador, trabalhando na página do Facebook feita para Amarildo, seguindo os cartazes virtuais de “onde está Amarildo?” que vêm de várias partes do país.

Entre onze irmãos

A mãe de Amarildo teve 12 filhos e trabalhou muito tempo como empregada doméstica na casa de uma atriz famosa do bairro do Leblon. “Essa atriz quis adotar um de nós mas a minha mãe nunca quis”, lembra o irmão Arildo, 3 anos mais velho do que ele. Sobre o pai de ambos, não se sabe onde nasceu, apenas que era pescador, com barco na Praça XV, no centro do Rio, onde conheceu a sua esposa. Os netos não se lembram como nem quando, mas ele se acidentou em um naufrágio e acabou morrendo em consequência de um ferimento na perna. Amarildo tinha um ano e meio. Mas, adulto, Amarildo, tinha paixão pela pesca. “Era a única coisa que ele fazia na vida, quando não estava trabalhando ou nos ajudando: ia pescar sozinho ou com um primo nas rochas de Sao Conrado. Voltava com muitos peixes”, conta orgulhoso, Anderson, o mais velho dos seus seis filhos.

As varas de pescar de bambu, que ele mesmo fazia, estão encostadas em casa desde o dia 14 de julho, um domingo, quando os policias da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o levaram “para verificação”. Ele tinha acabado de limpar os peixes trazidos do mar e Bete, apelido de Elizabete, sua esposa há mais de 20 años, esperou que ele voltasse da UPP para fritar os peixes “como tantos domingos”, ela conta, o olhar perdido. Foram 20 anos de união, seis filhos, a vida dividida em um único cômodo que servia de dormitório, cozinha e sala.

Semanas após o desaparecimento do marido, Bete se esforça para conseguir contar como conheceu o “meu homem”, ela diz, evocando a lembrança do jovem que se sentou ao lado dela em um banco em Ipanema: “Eu não saía muito desde que cheguei de Natal (Rio Grande do Norte) para trabalhar como empregada em uma família. No domingo, ia caminhar um pouco no bairro. Ele veio conversar comigo, nos conhecemos, e ele me trouxe para a casa de sua mãe aqui na Rocinha. Nunca mais saí”, conta.

Bete trouxe os dois filhos que vieram com ela do Nordeste sem criar problema com Amarildo. “Ele adora crianças”, ela diz. O que as duas menorzinhas da família confirmam: “É o tio Amarildo que nos leva para a praia de de Sao Conrado, ele que nos ensinou a nadar”. Ela apenas sorri, sempre fumando, e sem disfarçar a tristeza conta que está preocupada com a filha mais nova, de 5 anos. “Ela sempre estava com o pai”, suspira. No começo, Bete lhe disse que o pai tinha ido viajar e que, por ora, ele não voltaria. A pequena conserva a esperança de filha que sempre acreditou nas palavras do pai, e ele lhe prometeu um bolo grande no próximo aniversário.

“Era um menino e pulou no fogo”

Aos 11 anos, Amarildo se tornou o heroi da comunidade ao se meter em um barraco em chamas para salvar o sobrinho de 4 anos. “Era um menino, e pulou no fogo. Me salvou e também tentou salvar a minha irmã, que tinha 8 anos. Não conseguiu tirá-la de lá, ela morreu, e eu fiquei meses no hospital”, lembra Robinho, hoje com 34 anos, a pele marcada pelas cicatrizes desta noite de incêndio.

Aqui, Amarildo é conhecido por todos como “Boi”, por ser um homem forte que carregava as pessoas que precisavam de socorro para descer as escadas e chegar com urgência a um hospital. “Uns dias antes de desaparecer, ele carregou no colo uma vizinha, e a salvou. É uma ótima pessoa, sempre ajudava os outros – numa emergência ou numa mudança”, conta a cunhada Simone, sem conter as lágrimas. “Eu tenho muita saudade dele, principalmente do seu sorriso. Meu marido não fala nada, mas eu o conheço, está com muita raiva. Na primeira noite, ficou debruçado na janela a noite toda, esperando o irmão voltar”, diz, emocionada.

Toda a família está com raiva. E dessa vez ninguém quer ficar quieto, mesmo sabendo dos riscos da denúncia. Vários familiares foram ameaçados por policiais. “Por que foram atrás dele? Estamos voltando à ditadura?”, pergunta a prima, Michelle. “Ele trabalhou toda a vida, quando não trabalhava, nos ajudava, ou ia pescar para a sua família. Ninca se meteu com ninguém”, comenta, revoltada.

Boi era pedreiro havia 30 anos e ganhava meio salário mínimo por mês. “Por isso, às vezes carregava sacos de areia aos sábados para ganhar um pouco mais”, comenta Anderson, mostrando os tijolos que o pai comprou com o dinheiro extra para fazer um puxadinho no segundo andar na casa: “Na verdade, ele ia ter que voltar a fazer a fundação aqui de casa porque está caindo, eu e meu irmão íamos ajudar”, detalha.

“Ele era meu pai, irmão, amigo, era tudo para mim”, diz, escondendo as lágrimas quando chega a irmã mais nova, de 13 anos.

Os familiares vivem em suspense, à espera das notícias que não chegam. Não desistem: organizam-se como podem com vizinhos, amigos e outras vítimas da polícia. Negaram uma oferta do governo do Estado do Rio de Janeiro para entrar no programa de proteção à testemunha. Preferiram continuar na Rocinha, sua comunidade. Na próxima quinta-feira, dia 1 de agosto, farão mais uma manifestação na Rocinha, onde estarão presentes familiares de outros desaparecidos por obra de outros policiais em outras favelas. “Temos que lutar para que essa impunidade não continue. Queremos justiça por Amarildo e para todos nós que convivemos agora com essa polícia”, revolta-se a sobrinha Erika.

Aos 43 anos, Amarildo desapareceu sem que a família tenha direito sequer a uma explicação oficial, como tantos outros de tantas favelas brasileiras vítimas de violência policial. Mas dessa vez, ninguém vai se calar. Onde está Amarildo?

Como levaram Amarildo

A Operação Paz Armada, que mobilizou 300 policiais, entrou na Rocinha nos dias 13 e 14 de julho para prender suspeitos sem passagem pela polícia depois de um arrastão ocorrido nas proximidades da favela. Segundo a polícia, 30 pessoas foram presas, entre elas Amarildo. Segundo uma testemunha contou à reporter Elenilce Bottari, do Globo, ele foi levado por volta das 20 horas do dia 14, portando todos os seus documentos: “Ele estava na porta da birosca, já indo para casa, quando os policiais chegaram. O Cara de Macaco (como é conhecido um dos policiais da UPP) meteu a mão no bolso dele.

Ele reclamou e mostrou os documentos. O policial fingiu que ia checar pelo rádio, mas quase que imediatamente se virou para ele e disse que o Boi tinha que ir com eles”, disse a testemunha.

Assim que soube, Bete foi à base da UPP no Parque Ecológico e chegou a ver o marido lá dentro. “Ele me olhou e disse que o policial estava com os documentos dele. Então eles disseram que já, já ele retornaria para casa e que não era para a gente esperar lá. Fomos para casa e esperamos a noite inteira. Depois, meu filho procurou o comandante, que disse que Amarildo já tinha sido liberado, mas que não dava para ver nas imagens das câmeras da UPP porque tinha ocorrido uma pane. Eles acham que pobre também é burro”, contou Bete ao Globo.

O caso está sendo investigado pelo delegado Orlando Zaccone, da 15ª DP (Gávea), ainda sem conclusão.

Recomendados para você

Comentários

  1. Carlos John Postado em 08/Aug/2013 às 12:49

    malditos porcos fardados

  2. Anon Postado em 08/Aug/2013 às 14:42

    Já está morto provavelmente =/, nojo dessa "Polícia"

  3. renato Postado em 08/Aug/2013 às 18:07

    Tem que achar o Amarildo, tem que achar a Engenheira que caiu com carro na ponte. Tem que achar a Elisa. Jesus, a lista é enorme. Portanto achem o Amarildo, no Rio de Janeiro. E em São Paulo achem o Ricardo.

  4. Mirna Postado em 08/Aug/2013 às 18:14

    Tens razão Renato,é muita gente,isto até parece brincadeira,não acredito no que leio ou escuto,até quando vai esta barbárie?

  5. Rodrigo Postado em 08/Aug/2013 às 21:33

    no brasil o que existe é estado da marginalidade

  6. Laura R. Postado em 08/Aug/2013 às 22:40

    Agora querem transformar vc em um bandido, Amarildo! Pobre de vc e sua família, seus pobres..., pobre serve para isso mesmo, além de darem votos em dia eleição, fora isso... Quem reclamará pelo corpo? O povo? Porque a família já fugiu com medo.. E cale a boca, Amarildo! Aliás, nem precisa..., morto não fala!

  7. Marcos Postado em 09/Aug/2013 às 00:43

    Interessante que um rapaz foi torturado por traficantes na mesma comunidade que possuía ligação com Amarildo, sinceramente bandido desaparecido é lucro e não o contrario. A mulher da "vitima" já tinha MP contra ou seja deveria ta presa e não em passeata só no Brasil.

  8. Marcos Monteiro Postado em 09/Aug/2013 às 08:44

    Como que uma anta dessas é meu xará? Agora vou ter que usar meu sobrenome aqui também, pra não ser confundido com você, seu preconceituoso -- e burro, já que pelo visto comenta sem ler o texto

  9. indiana Postado em 09/Aug/2013 às 08:57

    eu não consigo entender, tem gnt que fala "mais tem os caras bons na policia", como um SER HUMANO pode se vestir com um uniforme e se achar no direito de cometer atrocidades aos proximos? FASCISTAS! alguem me indica algum estudo sobre como funciona a mente de um fascista ...isso nãio é SER HUMANO! não é! como conseguem dormir em paz?

    • Alfieri Postado em 20/Sep/2013 às 20:11

      vigiar e punir - Michael foucault, O príncipe - Maquiavel

  10. Frederico Postado em 09/Aug/2013 às 10:37

    Texto com caráter emotivo; um fato que, infelizmente, já está sendo usado por alguns até como plataforma política... E, como o colega Renato perguntou, onde estão os milhares de "Amarildos" que desaparecem em condições inexplicáveis diariamente por forças públicas? Amarildo foi, e se foi, mais um frente às essas tristes estatísticas. Já tem Delegado auxiliar afirmando que o cara tinha envolvimento com o tráfico. Essa informação sequer existe no relatório preliminar elaborado pelo Delegado do caso. Enfim, muitas ainda são as dúvidas e a verdade poderá ou não vir à tona. E se não vier, sabemoas desde já que, infelizmente, muitos Amarildos ainda desaparecerão em circunstâncias misteriosas.

  11. Marcos Postado em 09/Aug/2013 às 17:47

    Um dos motivos da polícia ser tão atacada no Brasil pela esquerda é a completa e total falta de ação d a polícia contra todas essas calunias, ou as polícias param de trabalhar para o caos reinar no Brasil e com isso a esquerda perder credibilidade, ou serão saco de pancada ideológico por tempo indeterminado.

  12. Marcos Souza Postado em 09/Aug/2013 às 22:17

    Acabou. O traficante Amarildo foi morto pelo traficante Catatau. Ponto. Agora querem transformar um bandido em vítima da sociedade. Culpem o Catatau e seus comparsas. A culpa não é de mais ninguém. Pago meus impostos (e muitos). A civilização abandonou o RJ em 1960. Ponto.

  13. Marcos Souza Postado em 09/Aug/2013 às 22:27

    Entendi. Culpar a polícia pode render uma boa indenização à mulher traficante do Amarildo. Se culpar um traficante, o tráfico, além de não dar indenização, mata. Faz sentido.

  14. Marcos Souza Postado em 09/Aug/2013 às 22:32

    É o Estado (a gente) pagando indenização pra família de traficante. Pense.

  15. Marcos Silva Sousa Postado em 11/Aug/2013 às 14:57

    Acabou. O traficante Amarildo foi morto pelo traficante Catatau. Querem culpar alguém? Culpem os sucessivos governos, por serem corruptos e não investirem em educação, infra-estrutura e segurança pública. Milhares morrem todos os dias nesse país, vítimas de um Estado ineficiente.

  16. Larissa Postado em 14/Aug/2013 às 19:42

    Concordo com o marcos. Nós não podemos nos deixar levar pela fatalista e sensacionalista imagem que a mídia oportunista construiu de Amarildo ( suposta " vítima" ) . Relatórios policiais são passíveis de contestação, mas como a investigação ainda não foi encerrada, não há razão para afirmar " pobre rapaz, mais um injustiçado pelo sistema". Tolo é quem se abstém do senso crítico para acreditar em explicações " meramente ilustrativas" que as equipes de reportagem ( altamente engajadas com a questão partidária ) desenham desse caso, que sem dúvida é lamentável, por se tratar de um homem aparentemente " honesto" e imensuravelmente amado por todos os familiares e amigos...

  17. Cubana de Miami Postado em 15/Aug/2013 às 11:40

    Se ele era bandido ou não, é irrelevante. Suponhamos que seja. E aí? Apenas no Código Processual Penal Global isso motivaria o abandono das investigações sobre seu desaparecimento. Por acaso cabe a um policial ou a um traficante ou a qualquer pessoa executá-lo? O uso arbitrário das próprias razões é crime, e não consta na lei que o envolvivento com o narcovarejo seja punido com pena capital. Garanto que se fosse comprovado pela Mídia Ninja - a esta altura a única fonte de informação "confiável", "isenta", o que denota a indigência do jornalismo brasileiro - que o senhor Amarildo é (ou era) um criminoso, boa da parte dos que estão indo às ruas perguntando "Cadê o Amarildo?" voltaria às suas casas e, novamente, daria de ombros para a questão mais óbvia: a aplicação das leis vigentes, que implica respeito aos direitos e cumprimento dos deveres). Se queremos um país "padrão Fifa", é bom que nos tornemos "cidadãos padrão Fifa". Comecemos pelo amor à justiça e não pela apologia à barbárie.

  18. Neri Leonhardt Postado em 23/Oct/2013 às 02:15

    Mas até hoje não entendi... quem é Amarildo, o que ele fazia. Com certeza não morreu de graça Eu odeio a imprensa que fica fazendo sensacionalismo em cima disto. Não guento mais pagar a conta