Luis Soares
Colunista
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Preconceito social 19/Jul/2013 às 14:26
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Lojas quebradas comovem a imprensa, mas mortos da Maré foram esquecidos

A imprensa comovida e indignada com as lojas quebradas no Leblon é a mesma que é indiferente ao sangue que jorra do pobre favelado

Mario Magalhães, em seu blog

O Rio se comoveu com o quebra-quebra ocorrido no Leblon na virada de 18 para 19 de julho de 2013. Balanço da baderna: depredação de orelhões, placas e 25 lojas.

protesto favela maré

Protesto pelos assassinados no complexo da maré. “A polícia que reprime na avenida é a mesma que mata na favela” (Foto: Divulgação)

O Rio não se comoveu com a morte de pelo menos dez pessoas na Maré na noite de 24 e na madrugada de 25 de junho, menos de um mês atrás.

O Rio em questão é o retratado pelo jornalismo mais influente. Danos ao patrimônio no bairro bacana, paraíso onde vivi por tantos anos, receberam muito mais atenção do Estado, dos meios de comunicação e de parcela expressiva da classe média do que a perda de vidas na favela Nova Holanda, no complexo da Maré.

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É muita covardia. Contra quem? Contra os de sempre, os mais pobres.

Os crimes contra o patrimônio na zona sul foram obra de bandidos, de fascistoides, de ultra-esquerdistas, incluindo pseudo-anarquistas, de pequenos burgueses vagabundos e de alguns miseráveis desejosos de trajar roupas de grife (alguém viu um operário vandalizando?). Como queimam o filme dos protestos e beneficiam o governo estadual com o verniz de vítima, talvez haja infiltrados de origem nebulosa. Cometeram crimes, têm de ser punidos escrupulosamente, nos termos da lei.

Na Maré, o Bope invadiu a favela contra a vontade dos policiais que lá estavam. O efetivo era minúsculo, pois o grosso do batalhão estava cuidando de reprimir manifestações políticas. Resultado: uma bala provavelmente disparada por traficante de drogas matou um sargento da tropa de elite.

Em seguida, sobreveio a vendeta, com a invasão massiva. Nove moradores locais mortos e nenhum PM ferido gravemente. Confronto? Isso tem outro nome: chacina. No mínimo, dois jovens não tinham antecedentes criminais, um deles de 16 anos. A legislação penal brasileira não prevê pena de morte, para qualquer crime, ainda que seja o de assassinato.

Na Maré, o grosso do jornalismo não informou nem a identidade dos mortos, com exceção da do PM. No Leblon, os personagens tinham nome, sobrenome e lágrimas de quem perdeu alguns bens. Na favela, o pranto das mães que perderam seus rebentos quase não saiu no jornal.

A cúpula da segurança do Estado convocou uma reunião de emergência horas depois de os vândalos detonarem no Leblon. Alguém sabe de um encontro dessa natureza para tratar do morticínio na Maré?

Há mais diferenças além da essencial, entre crime contra a vida e crime contra o patrimônio. No bairro das adoráveis novelas do Manoel Carlos, aprontaram criminosos que devem responder judicialmente por si mesmos. Na Maré, atuaram agentes públicos. Se não se sabe ao certo qual foi o comportamento deles, a responsabilidade é do Estado, que deveria investigar para valer, e não encenar apurações.

As agências bancárias com vidros estilhaçados e as butiques dilapidadas costumam estar protegidas por seguros. Que seguro haveria de confortar os irmãos do pessoal morto na Maré?

Acadêmicos, jornalistas, autoridades e politiqueiros que não pronunciaram uma única sílaba sobre a Maré agora posam de valentões bradando contra a desordem no Leblon. Eles só saem em defesa dos mais ricos, os pobres que se danem. São covardes, não valentes.

Merece respeito o sofrimento de tantos antigos vizinhos meus que se assustaram com o pega pra capar. Mas a vida seguiu. Na Maré, para tantos pais, a vida seguiu sem seus filhos. Já cantou Chico Buarque, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu _teria um quarto ou dormiria no colchão da sala o adolescente que mataram?

O farisaísmo não reconhece limites. Às vésperas do desembarque do papa, celebra-se a existência. Mas muitos corações, que nojo, abalam-se apenas com a perda de patrimônio, e não de vidas. O que diria Francisco?

O recado das últimas semanas é que, para muita gente, crime contra a vida não é nada diante de crime contra o patrimônio.

Isso não é só covardia. É barbárie.

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Comentários

  1. Pedro Câmara Postado em 19/Jul/2013 às 14:43

    Acho um grande equivoco esse parágrafo: "Os crimes contra o patrimônio na zona sul foram obra de bandidos, de fascistoides, de ultra-esquerdistas, incluindo pseudo-anarquistas, de pequenos burgueses vagabundos e de alguns miseráveis desejosos de trajar roupas de grife (alguém viu um operário vandalizando?). Como queimam o filme dos protestos e beneficiam o governo estadual com o verniz de vítima, talvez haja infiltrados de origem nebulosa. Cometeram crimes, têm de ser punidos escrupulosamente, nos termos da lei." Esta fazendo o mesmo que a rede Globo: Maniqueísmos que desmerecem de qualquer maneira os movimentos. Cuidado para não se tornar o mesmo da velha mídia.

  2. Ariane Postado em 19/Jul/2013 às 15:13

    Esta é a moral e a educação recebida pelo povão que se hipnotiza nas luzinhas coloridas e nos plim plins da grande mídia nacional. Pensando nisso... continuamos como os índios que se hipnotizaram com espelhinhos...

  3. Fagner Postado em 19/Jul/2013 às 16:18

    Como é o nome do filme mesmo? Ah, Tropa de Elite. "Entra na favela pra deixar corpo no chão", "Bandido bom é bandido morto". Um filme brasileiro, que nada mais faz do que reforçar preconceitos, que mostrar o quanto a polícia é suja e covarde !! lixo

  4. renato Postado em 19/Jul/2013 às 18:33

    Eu vi onze no chão.

  5. renato Postado em 19/Jul/2013 às 18:38

    Ninguém fala dos policias feridos e bem feridos, quando estes chegam em casa. Para abraçar seus filhos. Como é que sente-se um homem deste, que sai de casa e também não sabe se volta. Só existe um lado que é patriota e brasileiro. Sabemos que há bandidos em todos os setores até do nosso lado, as vezes dentro de casa. Como é que fica, jogamos uma garrafa com gasolina em cima dele na certeza de voltar para casa E se ele quiser também por todo a lei, voltar para casa neste dia. E este cara que cuida do meu sono, e o da minha família, e esse cara que quero do meu lado, quando sou assaltado. Não é o Juiz nem o Advogado......Nem o médico..

    • Rafael Postado em 20/Jul/2016 às 15:12

      Meu amigo você tá insinuando que a polícia vai te ajudar se você for assaltado? Você ou é inocente ou é um coitado. A polícia não defende os interesses do povo, apenas os bens da elite e a tarifa do governo. Acorda queridão a sua segurança tá por sua conta e a polícia não sabe nem quem é sua família, apenas fiquem fora do caminho deles.

  6. Maria de Lourdes Cardoso Postado em 19/Jul/2013 às 18:39

    Eu li "El capital" de Marx e nas pesquisas feita por ele que remontam o início da História da humanidade, o patrimônio valia mais que o ser humano. Os relatos sāo muitos feitos por ele. O trabalho nas noites geladas por menores na Grā Bretânia era visto pelos burqueses e pelo clero como uma forma de nāo deixar que estes pensassem bobagens. Na França denunciada por Zolla em Germinal, os donos das minas de carvāo perdiam os mineiros para a fome, mas nāo perdiam a produçāo diária. Precisou morrer crianças e mineiros para despertar para uma liberdade. Aqui, lamentavelmente já morreram pessoas na luta por uma igualdade e sabemos o quanto é difícil fazer uma revoluçāo pacífica.

  7. Thiago Teixeira Postado em 19/Jul/2013 às 19:57

    Policial é lembrado quando algo de valor é tirado da gente ou quando sentimos ameaçados. Fora isso, é só critica, discriminação, preconceito idiota e tudo de ruim com uma classe assalariada que coloca a própria vida para defender a ordem. Vá queimar um fuminho com o traficante quem discorda.

  8. Marcos Postado em 19/Jul/2013 às 20:30

    Se forem bandidos os mortos deveria estar ocorrendo uma comemoração, por sinal cada bandido morto no Brasil deveria ter uma a nível nacional a sociedade não aguenta mais sair de casa e ficar sabendo que mais um vizinho foi morto em assalto, quem sera amanha?

  9. Elizabeth Aquino Marques Postado em 20/Jul/2013 às 11:43

    Que falso moralismo, comparar um fato com outro, os dois são terríveis...Os dois tem que ser investigados , e seus responsáveis presos...

  10. Nazaré Postado em 20/Jul/2013 às 12:54

    Quem está comparando e tornando tudo igual é vc Elizabeth! Como assim? Os dois são terríveis. Um é, indiscutivelmente muito, mas muito pior que o outro sim. Agora um teve mídia, dor e muita atenção, outro mal foi comentado. Que diabos! Alguém ainda acha que existe alguma explicação pra isso? Ah... valores...

  11. Rodrigo Postado em 05/Aug/2013 às 15:34

    Celso Daniel e Toninho do PT também foram rápida, quiçá convenientemente, esquecidos...

  12. Marcos Postado em 23/Aug/2013 às 22:59

    Bandidos do Rio de Janeiro foram combatidos com o exército, acho que não preciso escrever mais nada. Cidade falida moralmente, exigir segurança publica naquela guerra civil é no minimo piada.