Luis Soares
Colunista
Compartilhar
Direita 19/Jun/2013 às 15:26
13
Comentários

Os perigos da "pátria amada"

“Estamos preocupados com o rumo que esse levante popular pode tomar e com a associação dele a um discurso midiático vazio”

Camila Petroni e Débora Lessa*, Brasil de Fato

O intuito da pequena reflexão que segue não é desmoralizar os atos ocorridos em diversas cidades brasileiras, que começaram contra o aumento das tarifas de transportes públicos, no início de junho, e, hoje, apresentam “pautas” variadas. É justamente a pulverização dessas motivações que nos preocupam. Quais são os motivos da luta mesmo?

direita protestos

Infiltração conservadora nos protestos pode desvirtuar o movimento (Imagem: Divulgação)

Na página virtual (Facebook) do Quinto Ato, marcado para o dia 17 de Junho e com mais de 240 mil pessoas com presença confirmada (já esperando os ataques bárbaros da Polícia), as enquetes conseguem fazer qualquer queixo que se preze cair. Em uma delas, que perguntava qual bandeira deve-se levantar após a baixa dos preços das passagens (se houver), algumas das propostas colocadas como motivo de mobilização (mesmo que não muito votadas) são: cancelamento da Copa do Mundo 2014 (um tiro no pé, com todo o investimento já feito), Reforma Política (que reforma?), Segurança (mais PM nas ruas?), Diminuição da maioridade penal (sem comentários), Fim do Funk (projeto higienista manda um “Oi!”), a favor do Estatuto do Nascituro (sem comentários, de novo), CCC – Campanha Corruptos na Cadeia (não tinha um nome melhor? Quase um CCC – Comando de Caça aos Comunistas – de 1964), dentre outras propostas que preferimos não imaginar o que aconteceria caso ganhassem força.

Se por um lado, a heterogeneidade de propostas e a falta de uma liderança nos movimentos representa a possibilidade de uma relação horizontal entre os sujeitos; por outro, a falta de direcionamentos aponta para o risco de causas conservadoras se tornarem as principais do movimento agora sem nome. Não consideramos o quadro atual da manifestação como anárquico, classificação feita em algumas análises, mas como preocupante, nesse sentido.

Leia também

Outro ponto bastante incômodo em relação às pessoas se organizando para o ato (e a fim de formar um movimento – longe de estar unificado), é o (perigoso) nacionalismo proposto por boa parte dos manifestantes, e presente principalmente na ideia de entoarem o Hino Nacional em coro. Em uma enquete, feita também na página de organização do ato da segunda-feira (17), a maioria esmagadora era a favor de que cantassem o Hino em massa. A verdade é que sentimentos ufanistas assustam, sobretudo por sabermos, historicamente, que nunca geraram bons frutos. Estudos apontam que o ideário nacionalista brasileiro, em sua trajetória, poucas vezes chegou às classes populares (por que será?), pertencendo aos militares. Um comentário bastante sensato feito na mesma enquete, colocou que o “hino é um instrumento que forja uma falsa unidade nacional”. Se a mundialização do capital está posta, a necessidade da mundialização da luta é latente. Para isso, nada de bandeiras do Brasil em volta de nossos corpos, nada de “pátria amada, idolatrada”.

É batido, mas Marx já justificara por A + B que “os operários não têm pátria” e, por mais que devamos lutar pelas condições horrendas as quais nos coloca o capitalismo, isso não tem a ver com o “orgulho de ser brasileiro”, mas com o orgulho de sermos humanos.

E aqui nasce uma nova preocupação: até ontem pairava no ar um espectro do oportunismo da “grande” mídia, que, aparentemente, pareceu ter sido desmistificado com as recentes publicações da Globo e seus atores com olhos pintados fazendo uma alusão à jornalista acertada covardemente com uma bala de borracha no olho, depois nos deparamos com um link a ser compartilhado nas redes sociais que trazia dicas de “Moda para protesto, roupa de guerra” – a estilista pop global, Gloria Kalil, já havia soltado no site dela opções de roupas (sic!) para ir ao ato. Agora, qualquer dúvida que ainda tínhamos sobre um possível oportunismo ficou clara ao nos depararmos com – o sempre tão incisivo – Arnaldo Jabor voltando atrás em relação a quando deslegitimizou as primeiras manifestações comparando-as com ações do PCC, vitimizando os policiais e ressaltando a ignorância política dos manifestantes. Ele se redime e depois compara o movimento ascendente com o, exaltado pela própria Globo, Caras Pintadas (o movimento pode ter se originado de uma indignação, mas logo foi absorvido pela maior rede de TV do Brasil… Ah! A mesma emissora que ajudou na eleição do Collor). Daqui a pouco, veremos propagandas de refrigerantes convocando o Brasil pras ruas, presenciado o maior “jogo” já visto… A arte de mercantilizar a revolução.

protestos brasil conservadores pátria amada

(Imagem – Reprodução)

Pra não dizer que não falamos dos espinhos, ter os povos nas ruas, em massa, não é sempre sinal de mudança popular. Em 1964, os setores conservadores da sociedade tremeram com a “ameaça comunista” (ainda com Jango no poder), que representava, na verdade, uma “ameaça” à propriedade privada e foram às ruas, em meio milhão de pessoas, com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Dias depois, instaurada a Ditadura Militar, um milhão de pessoas marcaram presença na Marcha da Vitória, comemorando o início de duas das piores décadas que já vivemos. Estamos preocupados com o rumo que esse levante popular pode tomar e com a associação dele a um discurso midiático vazio.

Não queremos ver uma marcha à la TFP, com pessoas vestidas de branco, cantando o hino e levantando bandeiras com os dizeres “Cansei”. Precisamos de sujeitos engajados em uma luta comprometida com os movimentos sociais e populares, aliados aos anseios dos trabalhadores!

Reiteramos, mais uma vez, nosso ânimo e contentamento em viver tudo isso, mas mantenhamos os pés no chão para não defendermos um discurso uníssono no qual o senso comum pode se misturar com o que deveria ser um discurso crítico e de esquerda.

Camila Petroni é historiadora pela PUC-SP, Assistente Editorial e mestranda em História Social pela PUC-SP. 

Débora Lessa é socióloga pela PUC-SP, Professora de Sociologia e mestranda em Ciência Política pela PUC-SP.

Recomendados para você

Comentários

  1. Vander Postado em 19/Jun/2013 às 17:27

    Os comunas estão com as barbas de molho....

  2. Rodrigo Postado em 19/Jun/2013 às 21:11

    Vander, deixe de ser idiota. Você é detentor do capital, possui grandes propriedades, é banqueiro? Já tem um monte de babaca reacionário tentando cooptar as manifestações, não de mais apoio ao tipo de gente que visa esvaziar os protestos de dentro, é uma oportunidade única.

  3. Caio Postado em 19/Jun/2013 às 21:38

    Eu não entendo por que algumas pessoas da esquerda ainda tentam negar o INEGÁVEL.....como assim "Caça aos Comunistas de 64"? Então todo mundo que foi perseguido politicamente tem alvará pra fazer o que bem entende? Aliás, se eles ainda são comunistas eu sou a Carmen Miranda..... Aceitem, eles são traidores, vendidos! Parem de defender esse bando de traidores! De resto o texto é perfeito!

  4. Henrique Postado em 19/Jun/2013 às 23:15

    O governo de Minas Gerais - PSDB - Antonio Anastasia - foi o único que procurou a JUSTIÇA para impedir os movimentos sociais de se manifestarem e de realizar atos de protesto nas ruas. O TJ de Minas, SURPREENDENTEMENTE atendeu ao pedido da medida ANTI-DEMOCRÁTICA e de puro arbítrio, no melhor estilo das DITADURAS. A decisão de proibir manifestação nas ruas de Minas Gerais foi agora cassada pelo STF através do Ministro Luiz Fux. SERÁ QUE ISTO É A DEMOCRACIA DO PSDB? INTERESSANTE, NÃO!?

  5. Vander Postado em 20/Jun/2013 às 10:54

    Rodrigo, Não sei se você percebeu... quem esta cooptando o movimento das ruas é a ESQUERDA vigarista (se bem que não existe esquerda que não seja. Basta ver a manifestação que o PT esta promovendo hoje pra tomar as redeas do movimento.

  6. Cacique Postado em 21/Jun/2013 às 10:07

    Uma ressalva. A coluna de Glória Kalil (http://chic.ig.com.br/les-chics/noticia/moda-para-protesto-roupa-de-guerra) não traz dicas de moda. Traz dicas de segurança. Por exemplo: "Deixe acessórios em casa - brincos, colares, piercings -, para evitar acidentes. Mas pense em algo para proteger os olhos, como óculos de natação, e luvas para as mãos." Não foi um bom exemplo de apropriação das manifestações pela elite conservadora.

  7. Osvaldo Aires Bade Comentários Bem Roubados na "Socialização" - Estou entre os 80 milhões Postado em 22/Jun/2013 às 11:30

    QUEM ACREDITA QUE A “DITAMOLE”, NO BRASIL, NÃO TINHA PARTIDO É BANDIDO http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/06/quem-acredita-que-ditamole-no-brasil.html

  8. Osvaldo Aires Bade Comentários Bem Roubados na "Socialização" - Estou entre os 80 milhões Postado em 22/Jun/2013 às 11:31

    A mentira tem perna curta nove dedos e chifre do diabo Pra ruas como um leão e pra urnas como um jumento TERRORISMO NO BRASIL! http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/06/terrorismo-no-brasil-apos-parecer-de.html

  9. Osvaldo Aires Bade Comentários Bem Roubados na "Socialização" - Estou entre os 80 milhões Postado em 22/Jun/2013 às 11:31

    A VAIA DE ESPANTAR NELSON RODRIGUES MOSTROU A DILMA A CARA DO BRASIL REAL http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/06/a-vaia-de-espantar-nelson-rodrigues.html

  10. Osvaldo Aires Bade Comentários Bem Roubados na "Socialização" - Estou entre os 80 milhões Postado em 24/Jun/2013 às 03:10

    O QUE REALMENTE ESTÁ POR TRÁS DAS MANIFESTAÇÕES NO BRASIL? http://cinenegocioseimoveis.blogspot.com.br/2013/06/o-que-realmente-esta-por-tras-das.html

  11. Marcos Postado em 16/Jul/2013 às 06:03

    No país dos analfabetos funcionais o que vale é o que se ouve e o que se vê. Aqui ninguém pensa. Entretanto, aqui, somente com isso, já se sente e já se move. Estamos vivendo uma verdadeira evolução da revolução, o que, certamente, trará mudanças.

  12. Marcos Postado em 22/Aug/2013 às 19:52

    Esquerdalha treme diante da democracia, vide a historia.

  13. Leo Postado em 29/Aug/2013 às 12:19

    Aos imbecis sonhadores com um estado militarizado: Vão estudar!!!! No tempo da ditadura também tinha corrupção, ou vocês acham que a ponte Rio-Niterói não foi superfaturada???????? Querem viver num país sem direitos às liberdades individuais básicas, otários????????