Luis Soares
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Contra o Preconceito 27/May/2013 às 20:41
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Quais são os seus preconceitos?

Segundo especialistas, todo mundo tem preconceitos. O problema é não enxergá-los, deixar de superá-los e permitir que se tornem atitudes criminosas. Aprenda a reconhecer os seus

Estabelecer um conceito sobre algo antes mesmo de conhecer o assunto a fundo é uma defesa do ser humano contra experiências potencialmente arriscadas, sejam quais forem. Mas, ao contrário da impressão geral, preconceito e discriminação não são sinônimos.

O preconceito tem a ver com ideias que temos sobre alguma coisa, concebidas no nosso imaginário a partir do que aprendemos na escola, da forma de criação, formação cultural, entre outros fatores. Já discriminação é agir de acordo com esse conceito pré-concebido em sua mente.

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Mariana Cabral se viu afastando sua filha de um menino deficiente físico, mas decidiu mudar de atitude ao observar o marido (Foto: Edu Cesar)

“A discriminação é o preconceito em prática. Quando suas ideias viram atitude ou você usa uma característica, muitas vezes arbitrária, para definir a forma de tratamento que dá a alguém”, explica o diretor do Centro de Pesquisas Quantitativas em Ciências Sociais (CPEQS) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Jeronimo Oliveira Muniz.

Segundo o professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), José Leon Crochik, em uma cultura que exige respostas rápidas como a nossa, a tendência é todo mundo desenvolver preconceitos.

Se criar preconceitos é inerente à natureza humana, não superá-los faz com que o indivíduo enxergue o mundo apenas a partir da sua própria visão, muitas vezes incorrendo em desrespeito ao diferente e atitudes criminosas.

Para o chefe do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG, Andrés Zarankin, é importante não só saber que existem outras visões de mundo, mas também respeitá-las e reconhecê-las como tão válidas quanto as nossas. “Se uma mãe disser que os ciganos, por exemplo, roubam crianças, o filho vai repetir esse preconceito, a menos que uma educação do Estado ou um grupo social permita a ele enxergar o mundo de outra forma”, afirma.

De olho no próprio preconceito

Tornar-se consciente de seus próprios preconceitos previne que eles se tornem atitudes discriminatórias. Mas identificar um preconceito em si mesmo é um desafio. Por serem características socialmente indesejáveis, só notamos estes erros nos outros.

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A analista de sistemas Angélica Silva* se viu sendo preconceituosa quando descobriu que um de seus amigos de infância ia casar com uma ex-prostituta. “Fiquei chocada! Toda defensora da moral e dos bons costumes. Ainda mais por eles terem se conhecido em um programa. Achava um absurdo ele casar com ela”.

Angélica cortou relações com o amigo. Não foi ao casamento e passou a não frequentar mais os mesmos lugares que o casal. Aos poucos, foi se dando conta da própria atitude.

“Ninguém me obrigou a rever meus conceitos sobre eles. Com o tempo caí em mim: o processo de reflexão durou uns seis meses. Simplesmente vi que nada daquilo era da minha conta. Eu não tinha nada a ver com o relacionamento deles e resolvi quebrar essa barreira”, conta.

A analista de sistemas resolveu reencontrar o amigo e se desculpou por sua atitude. Atualmente, eles convivem normalmente. “A meu ver, agi mal. Pedi desculpas, ele aceitou e disse que se colocou no lugar dos amigos e ele próprio não sabia como teria reagido à mesma situação. Achei que ele teve uma grandeza de espírito enorme ao lidar com tudo isso”.

Conviver com o diferente

Por outro lado, todo mundo acaba sendo alvo de preconceitos em algum momento da vida – o que também ajuda a ignorar, em nossas próprias atitudes, gestos que não gostaríamos que tivessem conosco.

De acordo com Andrés Zarankin, do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG, o etnocentrismo é um dos responsáveis por esse comportamento. É preciso pensar como o outro. “É fundamental ter a experiência de nos colocarmos do outro lado. Enquanto olharmos o mundo acreditando que não existe outra possibilidade, o preconceito vai continuar existindo, se fortalecendo e não haverá mudança”, explica.

Para viver a experiência do outro, começamos por conviver com ele. Foi o que fez a bióloga Mariana Scabora Cabral, que se viu afastando sua filha de um menino deficiente físico, de 6 anos, e decidiu fazer diferente.

Ao fazer compras em um hipermercado da capital paulista, Mariana, que estava acompanhada da filha de quatro meses, encontrou um menino cadeirante no local, que se encantou com sua bebê.

O marido prontamente levou a bebê para perto do garoto, mas ela se sentiu relutante. “Ele estava sentado em um balcão e assim que viu a minha filha quis pegar. Ficou com ela por quase uma hora, beijando e abraçando. Todo contente. E eu tive receio, fiquei com um pouco de medo”, confessa.

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A convivência com a diversidade aumenta as chances de superar um preconceito (Getty Images)

Hoje Mariana decidiu mudar e não quer mais que esse tipo de situação aconteça. Prefere que sua filha conviva com o menino, seu vizinho, para aprender que existem pessoas diferentes no mundo e isso é normal. “Ele é um menino muito feliz, veio para ensinar muita gente. Tem uma alegria imensa. Não quero que minha filha tenha uma atitude como a minha”, explica.

A força da lei

A conscientização é uma parte importante do processo de quebra de estereótipos e preconceitos, mas há também práticas sociais e legais que devem estar envolvidas. “Tem uma prática social de não legitimar o outro como sendo inferior ou hierarquicamente inferior. E tem a prática legal: hoje, há várias leis para punir o preconceito. Quando existe a lei, as pessoas tomam mais cuidado com isso. Começam a ver práticas discriminatórias como coisa errada, como algo que vai ter consequências individuais”, afirma Muniz.

Foi para coibir uma prática discriminatória que a professora Priscilla Celeste e o consultor Ronald Munk criaram a página “Preconceito Não é Mal-Entendido” depois que o vendedor de uma concessionária da BMW, na zona sul do Rio de Janeiro, tentou expulsar o filho do casal, adotado e negro, da loja.

A família tentou obter, sem sucesso, uma retratação extrajudicial. Então resolveu processar a concessionária, pedindo uma retratação e uma indenização, que será doada para uma instituição de combate ao preconceito.

O caso teve repercussão em todo o País e a página do Facebook, com mais de 100 mil seguidores, virou fonte de desabafo, informação e debate sobre o tema.

“Hoje [a página] já nem é mais minha. Mas o que nos moveu foi esse episódio. Comecei a ver as histórias das pessoas, os detalhes que elas contam, a dor de ter sofrido aquilo”, conta Priscilla Celeste, que prefere tornar o espaço virtual um fórum colaborativo, tirando o foco apenas da própria história.

Mas os detalhes mais marcantes no coração da professora são, sem dúvida, os da própria história. De início, os pais pensaram que o filho não tivesse percebido a situação, mas não foi o que aconteceu. “Um mês depois, ele disse para a gente que queria trocar de pele”, relembra. “Ele tem só sete anos. Dói muito. Ele tem um suporte enorme da família e a gente vai caminhando. Não foi a primeira vez e certamente não será a última”. Mas pode ser um acontecimento cada vez menos frequente, se aprendermos a lidar com nossos próprios preconceitos.

* Nome alterado a pedido da entrevistada

Carla Sasso Laki, iG

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Comentários

  1. sheilla Postado em 28/May/2013 às 01:54

    sei bem essa dor....tenho um filho de 11 anos com paralisia cerebral...at uns 2 anos atras ele nao se sentia diferente, pelo suporte que toda a familia e anigos da a ele..contudo nos ultimos meses, por uma serie de mudanças - escola, hoemonios, entre outras, tudo que ele quer " eh ser um deles mae, normal"....

  2. Rafael Postado em 28/May/2013 às 09:50

    Preconceito, na minha opinião, é uma palavra equivocada. Discriminação é a palavra certa. Eu ter preconceito sobre alguém ou algum lugar, apenas me deixa distante daquilo ou daquele. E isso é problema meu. Eu posso ter uma relação de trabalho com um gay, um drogado ou alguém que fere as leis, mas eu não quero ter nada além de uma relação profissional com ele. Logo, isso é preconceito? Ou isso é ter um conceito já formado sobre as atitudes da pessoa e querer se afastar? A discriminação, a intolerância e a violência contra as minorias devem ser extintas. A minha opinião com relação à outrem deve permanecer e eu devo achá-la adequada ou não.

  3. cacique Postado em 28/May/2013 às 13:18

    Rafael, preconceito não é uma palavra equivocada. É simplesmente uma tendência natural do ser humano de formar um conceito prévio das coisas antes de ter informação suficiente para formar um conceito mais completo. Isso tem que ter um nome, e o nome é preconceito. Não vejo outro nome melhor. Equivocado é achar que um preconceito não pode mudar. Por exemplo, eu já tive preconceito contra pagodeiro. Achava que eram pessoas em geral fúteis e alienadas, com menos estudo e sem assuntos interessantes para conversar. Hoje eu mesmo gosto de ouvir um pagode de vez em quando. Mais equivocado ainda é achar que todo preconceito gera discriminação. Outro exemplo. Eu acredito que pessoas de ideologia de direita tendem a ser mais egoistas e ambiciosas. É um conceito prévio, ou preconceito, que eu formulo antes de conhecer melhor as pessoas. Mas eu não acho que elas devam ser combatidas, eliminadas, que não tenham direito de ser o que são. Eu nem sequer as trato mal. Ou seja, não as discrimino. Preconceito e discriminação são duas coisas diferentes mas ao mesmo tempo muito próximas.

  4. Leila Postado em 28/May/2013 às 19:18

    O meu preconceito mesmo é contra religiosos, eu tento trabalhar isso, mas, como bem explicou o Cacique (e também tenho a mesma ideia sobre pessoas de direita), eu não acho que devam ser combatidas, não desejo o mal e, inclusive algumas poucas fazem parte do meu convívio e trato com respeito. Enfim, ainda assim eu sei que é um preconceito.

  5. Jânio Postado em 31/May/2013 às 09:10

    Eu tenho preconceitos. Mas trabalho com eles usando meu respeito, pois sou obrigado a respeitar qualquer um e não a gostar de tudo!

  6. Marco Bueno Postado em 31/May/2013 às 12:43

    Confesso que quando me deparei com esse site pela a internet, não senti muita seriedade nas chamada dos artigos, mas ao ler os conteúdos, percebi que os assuntos são mais do que pragmáticos, são profundos, e o texto acima demonstra um pouco isso. Pois bem. Falar de mudança ou transformação, é pensar educação. E pessoas educadas não são preconceituosas, ou não deveriam ser, ao menos na teoria. Refletir dessa maneira demonstra que a nossa noção de verdades e mentiras encontram-se muito desatualizadas. Apregoamos uma coisa e agimos de outra forma. Por exemplo, se você perguntar a uma pessoa se ela é preconceituosa ou tem preconceito de algo, muito provavelmente ela irá dizer que não, ou transferir a “culpa” a fatores externos. Não que esses fatores não existam, mas a partir do momento em que nós adultos vamos tomando consciência das circunstâncias, deixamos de ser inocentes. Devido ao sistema social doente que sustentamos, criar preconceitos pode até ser inerente à natureza humana, ainda. Mas não se esforçar para supera-lo, é egoísmo.

  7. Lu Gomes Postado em 07/Jun/2013 às 18:02

    Muito legal o texto, pq trás um ótima reflexão de tilidade pública. Parabéns.

  8. Hudson Moraes Postado em 17/Jun/2013 às 19:23

    Uma coisa que me incomoda, e muito, é que não vejo ninguém dizendo, em alto e bom som: todo mundo tem o DIREITO de ter seus preconceitos! Isso é mais que óbvio. É simples consequência do direito que cada ser humano tem de pensar como bem entender. Mais ainda: além do direito de ter os preconceitos que quiser ter, cada um também tem o sagrado direito de EXPRESSÁ-LOS. A isso se dá o nome de liberdade de expressão, outro direito sagrado que os norte-americanos tão bem sabem valorizar, ao contrário dos brasileiros. O que a Lei (e o público) tem o direito de restringir é a DISCRIMINAÇÃO, que é coisa bem diferente. Discriminação é o preconceito posto em prática. Transformado em ações. Mas as pessoas no Brasil agem, principalmente pela internet, como se não tivessem a mínima noção da diferença que existe entre preconceito e discriminação. Falam como se fosse tudo a mesma coisa. Isso só demonstra a miséria cultural em que vive a grande maioria do povo brasileiro. Infelizmente. Em tempo, não lamento que ninguém ouse combater a confusão entre preconceito e discriminação porque eu valorize os preconceitos ou tenha apreço por algum deles, mas simplesmente porque valorizo muito a liberdade de expressão.

  9. Joelson Norel Postado em 18/Jun/2013 às 04:13

    Realmente, repito a voz da maioria aqui, gostei muito do texto. Inclusive separei ele aqui pra trabalhar com meus alunos, afinal que época melhor que a adolescência pra falar disso! Acho que pode render uma discussão excelente.

  10. Ivana Postado em 30/Jun/2013 às 20:26

    Excelente texto!!! Acredito que quanto maior o grau de instrução menor deveria à tolerância ao preconceito, já que, como a própria palavra diz são conceitos pré-estabelecidos antes de um estudo maior sobre o assunto em questão.

  11. Fernanda Postado em 23/Aug/2013 às 13:17

    O meu preconceito é contra religiosos fanáticos também. Infelizmente. Talvez seja, na verdade, um pós conceito. Depois de analisar muito tenho minhas opinião a respeito. Tem um outro que to descobrindo. Não sei se chega a ser um preconceito racial, mas não gosto dos chineses que têm imigrado para o Brasil. Não gosto do comportamento deles. Eles vêem ganhar a vida em nosso país, prosperam, e mal se esforçam para falar nossa lingua, são extremamente grosseiros e mal educados. Acho que eles agem de forma extremamente ingrata conosco, brasileiros, que, historicamente, recebem pessoas de outras raças e culturas para ganhar a vida aqui.

  12. eu daqui Postado em 20/Jan/2014 às 16:04

    O convivio com o diferente só leva à tolerancia quando o diferente também está disposto a nos tolerar. Sem essa reciprocidade, o convivio levara ao odio.

  13. eu daqui Postado em 27/May/2014 às 11:40

    Preconceber é mecanismo normalmente humano necessário de sobrevivencia e defesa diante do desconhecido. Quem diz não ter preconceito é um fracassado sem um mínimo de independencia nem pra assumir a si mesmo. O que não é absolutamente necessário é fazer do preconceito uma arma do cerceamento gratuito do direito.

    • márcia soares Postado em 17/Sep/2014 às 20:58

      pra nao ter preconceito eu me ponho no lugar das pessoas, como me sentiria se fosse vítima de preconceito?