Luis Soares
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Ditadura Militar 27/Mar/2013 às 22:01
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Luis Fernando Verissimo pede punição aos coniventes com a tortura

Veríssimo menciona depoimento do ex-marido de Dilma à Comissão da Verdade, que “lembrou a participação de empresários na repressão” praticada durante a ditadura militar; “pode-se punir militares torturadores, mas o papel conivente da Oban e da Fiesp permanecerá esquecido no passado”

O escritor gaúcho Luis Fernando Veríssimo pede, em artigo publicado no jornal O Globo nesta quinta-feira, punição a quem foi conivente com a tortura praticada durante a ditadura militar. E não apenas nesse episódio, mas também no esquema montado por PC Farias para canalizar todos os negócios com o governo através de sua firma, o que acabou derrubando o ex-presidente Fernando Collor. Nos dois casos, o mesmo silêncio do empresariado. A analogia, diz Veríssimo, só é falha porque não se compara empresários que gozam vendo tortura e que querem apenas fazer bons negócios, se submetendo ao esquema de corrupção vigente.

Os coniventes

Por Luis Fernando Verissimo

O ex-deputado estadual e ex-marido da Dilma, Carlos Araújo, não é um ex-ativista político, pois recentemente voltou à militância partidária no PDT, apesar de limitado pela saúde. Quando militava na resistência à ditadura foi preso, junto com a Dilma, e os dois foram torturados.

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Luis Fernando Veríssimo: “Pode-se punir militares torturadores, mas o papel conivente da Oban e da Fiesp permanecerá esquecido no passado”

Depondo diante da Comissão Nacional da Verdade, esta semana, sobre sua experiência, Araújo lembrou a participação de empresários na repressão, muitas vezes assistindo à ou incentivando a tortura.

Que eu saiba, foi a primeira vez que um depoente tocou no assunto nebuloso da cumplicidade do empresariado, através da famigerada Operação Bandeirantes, em São Paulo, ou da iniciativa individual, no terrorismo de estado.

SAIBA MAIS: O envolvimento dos empresários com a tortura no Brasil

O assunto é nebuloso porque desapareceu no mesmo silêncio conveniente que se seguiu à queda do Collor e à revelação do esquema montado pelo P. C. Farias para canalizar todos os negócios com o governo através da sua firma, à qual alguns dos maiores empresários do país recorreram sem fazer muitas perguntas.

A analogia só é falha porque não há comparação entre o empresário que goza vendo tortura ou julga estar salvando a pátria com sua cumplicidade na repressão selvagem e o empresário que quer apenas fazer bons negócios e se submete ao esquema de corrupção vigente. Mas a impunidade é comparável: o Collor foi derrubado, o P. C. Farias foi assassinado, mas nunca se ficou sabendo o nome dos empresários que participaram do esquema.

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Nunca se fez a CPI não dos corruptos, mas dos corruptores, como cansou, literalmente, de pedir o senador Pedro Simon. No caso da repressão, talvez se chegue à punição, ou no mínimo à identificação, de militares torturadores, mas o papel da Oban e da Fiesp e de outros civis coniventes permanecerá esquecido nas brumas do passado, a não ser que a tal Comissão da Verdade siga a sugestão do Araújo e jogue um pouco de luz nessa direção também.

A comparação nossa com a Argentina é quase uma fatalidade geográfica, somos os dois maiores países da America do Sul com pretensões e vaidades parecidas. Lá o terrorismo de estado foi mais terrível do que aqui e sua expiação — com a condenação dos generais da repressão — está sendo mais rápida. Mas a rede de cumplicidade com a ditadura foi maior, incluindo a da Igreja, e dificilmente será julgada. Olha aí, pelo menos nessa podemos ganhar deles.

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Comentários

  1. sergio luís Postado em 28/Mar/2013 às 10:04

    Precisamos responsabilizar todos que tiveram participação direta ou não com esse período de trevas. Muitas empresas participaram diretamente no aparelhamento da repressão e até hoje nada foi dito. A Comissão da Verdade precisa iluminar a nossa história com um olhar atento e com uma investigação sem restrições. Façamos um levantamento sério para averiguarmos as empresas contratadas pelo Governo de então e as concessões cedidas no mesmo período, assim chegaremos aos algozes e seus mecenas.

  2. Roberto Locatelli Postado em 28/Mar/2013 às 10:32

    Que todos os que participaram da ditadura sejam punidos. Não é só uma questão de justiça, mas também de prevenir eventos futuros. Na América Latina, o golpe está sempre ali, virando a esquina.

  3. Yuri Alexandre Postado em 28/Mar/2013 às 21:28

    é CONIVENTE

  4. carlos henrique chaves Postado em 28/Mar/2013 às 22:25

    O espectro de um novo golpe pode estar a rondar a America Latina. Dos dez paises que fazem parte do continente Sul Americano a metade são de Governos que não se alinham a ideologia neoliberal. Eles estão de olho nos paises do Bric que estão se organizando politica e economicamente.

  5. Athos Eichler Cardoso Postado em 02/Apr/2013 às 10:06

    Militei durante 36 anos no Exército Brasileiro. Estava em Porto Alegre durante a legalidade. Participei, no Batalhão da Guarda Presidencial, da queda do Jango. Assisti horrorizado o amaldiçoado 13 de dezembro 68 num quartel do centro oeste e me apresentei preso ao sub comandante por não concordar com o absurdo. Fui poupado de cassação. Era um bom oficial e fora o primeiro a apoiar o 31 de Março (o que em salvou...). Tenho analisado profundamente a hecatombe política que os militares da "linha dura" e "os comunistas fanáticos" criaram neste Brasil e que raras pessoas preocupam-se em estudar com isenção. Há exemplos de historiadores e a figura insuspeita do Gabeira que o fazem. O resto é panfletário, demagogo e mentiroso.

  6. MUDDY WATERS Postado em 14/May/2013 às 12:16

    Se pudessem, à época da repressão, os torturadores usariam suas fardas com a logomarca estampada dos seus patrocinadores, qual um jogador de futebol de hoje! A tortura foi patrocinada pelo Capital e pela elite, é fato! Em muito a história recente deste país está impregnada de fumo e fumaça, encobrindo os verdadeiros algozes do povo brasileiro. Muitos são os barões de famílias ditas quatrocentonas, latifundiárias, grileiras de terras públicas, "empreiteiros bem sucedidos", assassinos dos tempos que hoje posam na revista Caras com ar bonachão distribuindo simpatia.