Luis Soares
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Homofobia 18/Feb/2013 às 18:20
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Pablo virou Isabelle e agora luta para usar banheiro feminino

O preconceito contra transgêneros: Isabelle chegou a parar de estudar, mas retornou e, com força de vontade, percorre todos os dias 15 quilômetros de bicicleta até a escola

Vamos a uma daquelas histórias repetidas, que poderiam ser resolvidas sem traumas, mas por conta das convenções ganha um valor enorme na vida de algumas pessoas. Resumidamente, há um ano Pablo virou Nell Isabelle e agora quer ser tratada como tal.

Os pedidos são simples, ser chamada pelo nome de menina na escola e poder usar o banheiro feminino no colégio Joaquim Murtinho, em Campo Grande. Antes de tentar, pediu autorização, mas a resposta foi “não”.

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Nell Isabelle em foto do Facebook.

Disseram que eu poderia constranger alguém se usasse o banheiro feminino. Isso me foi dito pela Direção. Preciso de documentos mostrando que me chamo Isabelle para ser chamada de Isabelle e preciso que os documentos constem ‘feminino’ para usar o banheiro”, conta.

Na hora da chamada, apenas quatro professores utilizam o nome social de Nell. “Hoje, ao conversar com uma professora, ela concordou em me chamar pelo meu número”, conta considerando uma evolução. Isso significa que no momento de Nell Isabelle, a professora dirá apenas “26” e o rapaz que virou moça passou a ser um número.

Com as colegas, a situação é mais tranquila, pelo menos entre as meninas, ninguém parece incomodada, garante. “Começamos as aulas semana passada, hoje uma garota veio puxar assunto comigo no intervalo e me apresentar para mais duas outras garotas da nossa sala.”

No ano passado, aos 17 anos, já havia tentado estudar, mas era tão difícil aceitar ser chamada como homem que desistiu. “Até março do ano passado eu me vestia como menino e vivia isolado. Quando me assumi, desisti de estudar”.

Esse é o maior problema para quem resolveu ser transgênero, diz a presidente da Associação de Travestis de Mato Grosso do Sul, Chris Steffany. “Tem muita menina que desiste, deixa de estudar porque é muito constrangedor. Elas têm uma identidade que não é respeitada”, reclama.

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Não há uma lei específica sobre o uso do nome social ou do banheiro. Apenas uma Comunicação Interna foi expedida há alguns anos, orientando diretores a respeitarem as solicitações das travestis matriculadas. “Mas a secretaria nunca teve pulso firme para cobrar isso”, avalia Chris.

A presidente conta que, por meio da Associação, 20 pessoas de uma vez entraram com pedido judicial de mudança de nome na Carteira de Identidade, para evitar constrangimento. Mas mesmo quem não tomou essa atitude merece respeito, cobra Chris.

“Há uma lei estadual que impede qualquer constrangimento à travesti, sob pena de multa administrativa para funcionários públicos e até afastamento. Quem for constrangida, deve procurar o Ministério Público”, recomenda.

A transformação

Nell estuda mesmo porque é guerreira. Todos os dias percorre 15 quilômetros de bicicleta até a escola. Sai de casa, na Coophavilla 2, às 5h30 para chegar cedinho e trocar a roupa no banheiro feminino, sem reclamações da diretoria.

Esquecer Pablo para assumir Nell demorou um tempo. “Eu tinha sandálias, há 1 ano e meio utilizava somente calcinha, havia abolido as cuecas de minha vida. Desde o dia 9 de janeiro de 2012 estava fazendo uso de hormônios”.

Três meses depois resolveu falar sobre sua decisão aos avós, com quem morava junto do pai. “Então me assumi numa noite de sexta-feira para meus avós. Eles disseram que me amavam e que nada ia mudar. Pensei ter recebido certa aprovação, falsa aprovação. Meu pai já sabia parcialmente da situação e provavelmente meus avós intimaram ele a se mudar. Tínhamos casa própria, mas estava alugada. Da noite pro dia, cheguei em casa e meu pai disse que iríamos para nossa casa. Nos expulsaram por minha condição”, lamenta.

O “batismo” como Isabelle é uma adaptação a Isabella, diz Nell. “Nome que minha mãe me daria se eu fosse menina. Detalhe: ela não demonstra aceitar a situação. Meu pai me trata no masculino, mesmo eu sendo uma ‘garota’, mas ele me respeita…quando todos disseram não, ele me acolheu para que eu não fosse pras ruas…”.

Na sexta-feira passada, Nell foi ao Fórum buscar informações sobre os procedimentos em relação à postura da escola Joaquim Murtinho. “Mas fui informada que tenho de procurar a Defensoria Pública que só funciona de segunda a quinta.”

Hoje, escreveu uma solicitação em tom formal que espera entrar à diretoria da escola, pedindo oficialmente o uso do nome social e do banheiro feminino. “Quando pararem de olhar a vida dos outros, se darão conta de seus problemas”, resume Nell.

Na escola estadual Joaquim Murtinho, o diretor não foi encontrado para falar sobre o assunto.

Campo Grande News

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Comentários

  1. Rita colaco Postado em 19/Feb/2013 às 11:12

    Caso ela tenha interesse em se transferir a outro estado, com melhores oportunidades de vida e estudo, como o Rio, entre emccontato.

  2. Yure Costa Postado em 19/Feb/2013 às 13:15

    Rita colaco, a muito tempo não leio comentários como esse. Parabéns. E Lamentável a postura da escola, espero que de tudo certo Nell e que você possa ser chamada como deseja e não por um numero, e com direito e deveres iguais como qualquer outro cidadão. São atitudes como dessa escola que demonstrar a fragilidade e ao mesmo tempo a necessidade de incluir a temática LGBT nas escolas, principalmente, para o corpo docente. Costa

  3. Guilherme R Postado em 03/Mar/2013 às 19:04

    Parabéns a esse pai, sei que é muito importante o apoio dos pais após o momento em que nos assumimos, acho que pra ela deve ter sido até mais difícil assumir a transexualidade do que para mim (no meu caso a homosexualidade). Enfim, assim o jovem não se sente só no mundo e sabe que tem alguém com quem contar, o que pra mim é essencial para o desenvolvimento de um ser humano...

  4. Figueiredo Postado em 06/Mar/2013 às 13:54

    K, Está bem, apenas um estado "desenvolvido" como o RIO em TODAS AS ESCOLAS TODOS SÃO TRATADOS BEM E COMO IGUAIS... Gentinha arrogante!

  5. PROF. VILSON BAGATINI Postado em 20/Mar/2013 às 07:45

    SABES QUE EU NÃO CONSIGO ENTENDER COMO É QUE AS PESSOAS SE PREOCUPAM COM CERTAS COISAS. UMA VEZ FUI PA SANTOS E TODOS COMEÇARAM A ME CHAMAR DE GAUCHÃO 70. NIGUEM SABIA O MEU VERDADEIRO NOME ..E SABE OQUE MUDOU? NADA..EU SIMPLESMENTE ERA O GAUCHÃO 70...VOLTEI PRA O SUL E UM DIA UM DESSES AMIGOS CHEGOU EM PORTO ALEGRE, PROCUROU PELO GAUCHÃO 70 E NIGUEM CONHECIA..CLARO, FOI SÓ MOMENTANEO , ESSE NOME ERA EM SÃO PAUO. ENTÃO CHEGUEI A CONCLUSÃO..MARIA, VTÓRIA, LAURO, OU NEGRO ,OU BRANCO, OU JAPONES, OU TURCO, OU NÃO IMORTA O QUE É. OQUE TEM QUE HAVER É RESPEITO ENTRE AS PESSOAS. ACEITAR COMO ELA É POR QUESTÃO DE JUSTIÇA E NÃO POR PIEDADE. PORTANTO: TUDO ESTÁ CERTO E TUDO ESTÁ ERRADO, DEPENDE DE CADA UM. FALEI..PROF. VILSON BAGATINI.

  6. anonimo Postado em 30/Mar/2013 às 22:57

    deve ser muito triste para os pais ter um filho assim!...

  7. Anonymous Postado em 05/Apr/2013 às 14:02

    É sempre um risco ir contra a maioria politicamente correta, ainda mais quando se concorda com tudo que esta diz e, além disso, se faz parte dela. No meu caso sou defensor dos direitos dos travestis e a favor da igualdade entre gêneros, sejam estes quais forem, mesmo que seja apenas por palavras. Nunca tentei me desviar disso. Mas sinto que não consigo concordar com meus companheiros quando se trata de casos parecidos com o desta moça, a Nell Isabelle, no que diz ao uso do banheiro feminino ou não. Entendo que não podemos partir da premissa de que, pelo simples fato de ela ser travesti, ela seja promiscua ou que seus comportamentos quanto a sua orientação sexual sejam incorretos ou inconvenientes, este é um discurso homofóbico e reacionário e, por mais que muitos que leiam esta resposta que eu estou escrevendo venham futuramente a achar que eu estou mentindo, eu realmente não sou homofóbico. Porém, também não podemos partir da premissa que todos os travestis sejam santos. Eu fico pensando quantas mulheres ficariam constrangidas de ter que dividir o banheiro com um travesti que, independente de sua identidade sexual, ainda mantém a genitália masculina. Imagina como seria levar a sua linda garotinha de 5 anos a um banheiro e encontrar um travesti com o pênis de fora, escorado num mictório qualquer, assoviando uma música sertaneja qualquer enquanto urina, obviamente, em pé. Pois então, oque acho mais engraçado é que, pelo menos até agora, eu não vi nenhum tipo de reivindicação por parte de lésbicas, mulheres transexuais ou até mesmo travestis para que estas façam uso do banheiro masculino. Pois bem, reflita bem você que é lésbica e que acha que eu estou sendo um homofóbico desprezível: Você se sentiria a vontade de dividir o banheiro com homens, conviver diariamente e, até o fim de sua vida, com esse ambiente extremamente machista que, diga-se de passagem, guarda péssimos hábitos e, com certeza, é muito mais desagradável do que o mesmo ambiente em versão feminina? Você tomaria banho em um vestiário masculino, obviamente que sem roupa, tendo que mostrar sua genitália feminina e se deparando com diversas genitálias masculinas, irremediavelmente, pelo resto de sua vida? Pois bem, minhas perguntas não foram feitas afim de serem respondidas, mas sim, para que aqueles ou aquelas que vierem à ler reflitam sobre isso. Se as respostas para as duas perguntas forem: Sim, eu faria, não tenho problemas maiores com isso, muito pelo contrário, quem sabe até posso até pedir pra medir o tamanho do clitóris com o pinto do japonês, vai ser uma boa forma de dar umas risadas e me enturmar com a galera... Bom, se esta for sua resposta vou ser obrigado a admitir que estou meio ultrapassado para este mundo, porém, se a resposta para isto for uma auto-indagação com uma pitada de repulsa resultada pela imagem da situação permita-se a entender que a resposta de muitas mulheres para a proposta do caso da Isabelle foi a mesma.

  8. Josué Guarani Kaiowá Borges Postado em 03/May/2013 às 02:30

    Vontade de chorar, é esse o país que rejeita chamar-se laico pois diz-se cristão mas não conhece o Evangelho?