Luis Soares
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Racismo não 03/Jan/2013 às 17:19
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"Aprendi novamente neste natal que racismo mata... e como mata"

Sapatos contra o racismo. O natal em que fui barrado na portaria da Rádio Nacional

Por Marcos Romão

Neste dia de natal, acordei pontualmente às 6 horas da manhã. Planejara dormir até mais tarde, para aproveitar o feriado, depois de ceiar com a família no Brasil, pela primeira vez em minha casa depois de 22 anos.

Muito suco, pernil feito pela minha filha Moema, com pouco sal como o papai precisa, e sobretudo muito carinho.

Estamos no dia 25, são 6 horas da manhã e a pressão sanguínea e o coração, me alertam, e me acordam intranquilo. Como não sou peru de natal, saio mesmo depois da véspera, para caminhar, e meditar sobre o que me incomoda e penso:

marcos romão racismo rádio nacional

O jornalista e sociólogo Marcos Romão. (Foto: divulgação)

O que a gente não faz para estar no Programa Tema Livre na Rádio Nacional, com o amigo Luiz Augusto Gollo e convidados para um papo estimulante no dia 24, na véspera do natal?

A gente bota o despertador prá tocar às 6 da manhã, bota a cozinha nos conformes com todos os ingredientes, para que minha filha Moema Petri Romão inicie o preparo da Ceia;

Olha no computador os temas que deseja falar na retrospectiva de 2012;

Acorda a outra filha Papoula Sofie que deseja filmar o programa e partimos sem tomar café, para a sede provisória da Rádio Nacional, abrigada agora lá no quartel da TV Brasil, na Gomes Freire;

Anda em 2 ônibus e uma barca para o Rio de Janeiro, em um dia daqueles quentíssimos, em que peixe sai de casa com abanador e guarda-sol;

Na pressa e excitação, como se fosse um marinheiro de primeira viagem, esqueço-me de tomar o remédio para pressão alta. Não tem problema, acompanhado por minha filha nascida na Alemanha e no Brasil, me sinto como pintinho no lixo em minha terra natal.

Suo contente em minha camisa colorida como um Obama havaiano.

Como de praxe em todo programa ao vivo que participo, 15 minutos antes do programa ir ao ar, adentro com minha filha o recinto da TV Brasil, na Gomes Freire e atual abrigo provisório da Rádio Nacional, e desejamos um feliz natal para todos que lá estão trabalhando. Sinto prazer em ver funcionários públicos exemplares, que em pleno dia meio de feriado, assinam o ponto para engrandecer o sistema de comunicação popular brasileiro.

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Aí, começa a história.

Não havia ninguém na mesa de recepção, só uns prováveis funcionários sentados em um banco de espera a uns 3 metros de distância, um segurança postado ao lado da catraca de entrada e duas mocinhas atrás de mim, sentadas e levando um bom papo.

Ainda meio aparvoado pela viagem e excitação pelo programa que vinha, olhava para os lados aguardando, que alguém viesse de algum banheiro para me atender.

Meus olhares indagadores para o segurança junto à catraca de entrada, replicavam nas paredes surdas, e os prováveis funcionários à minha direita, estavam tão entretidos numa algazarra natalina e comentando sobre as festas do dia anterior, que não me atrevia incomodá-los.

Minha pressão sanguínea já dava sinais de alarme, e eu respirava pausado e meditativo, como me rcomendara minha companheira e professora deYoga, Ortrun Gutke, para me manter calmo e me concentrar para falar sobre direitos humanos, em um programa que seria ouvido por milhões de pessoas.

Já se passavam 5 ou mais minutos, quando chegou um rapaz provavelmente mais simpático e menos suado e cabeludo que eu, e uma das mocinhas que estavam sentadas atráde mim, levantou-se e assentou-se em seu posto de serviço.

Foi rápido, não mais que 5 segundos o atendimento ao outro visitante, respirei fundo e entreguei minha identidade, junto com minha carteira alemã de jornalista, olhei para minha filha e percebi que ela não cruzou com a mocinha.

Eu tinha pressa, precisava chegar no estúdio, não podia me ocupar em reclamar pelo péssimo atendimento.

A mocinha me perguntou para onde eu ia e pegou o telefone. Apesar de eu dar o nome de tres pessoas, inclusive do diretor da rádio nacional do Rio, o Marcos Gomes, ela me disse que não encontrava ninguém.

Mais 5 minutos se passara. Pedi então para subir, pois ia Luis Carlos Gollo já deveria estar no estúdio com os convidados e o programa estava prestes a começar.

Meus 5 telefonemas para os celulares da produção só batiam em telefones desligados, como acontece em todo programa ao vivo.

Foi aí então que ela me informou que eu não poderia entrar, porque estava de sandálias havaianas, que nos meus tempos chamavam-se sandálias -de-dedo.

Pedi que telefonasse para o chefe da segurança, que abrisse uma exceção, pois era uma emergência e não havia sido informado desta exigência. Ela me respondeu que já o fizera;

Tive que respirar bem fundo. Então todos estes telefonemas em que enquanto ela falava, ela perguntava, o que eu era, o que eu queria fazer lá e só naõ peguntou qual era a cor de minhas cuecas, eram telefonemas que ela estava dando para o segurança e não para a produção e a direção da rádio, como eu pedira e imaginara que ela esta fazendo?

Já eram 10 horas, o programa iniciara, quando caiu minha ficha, estava de volta à casa natal e era um turista havaiano, para o qual não valia nem apresentar um crachá alemão em um prédio do seviço público brasileiro.

Eram ordens do chefe de segurança da casa, a moça dizia e comandou que eu falasse com “a segurança”, em um escritório fora do prédio, mais próximo da Chefatura de Polícia no antigo prédio do DOPS na rua da Relação. Já me esquecera até do calor e suava frio.

Caminhei até lá me sentindo nú, querendo esconder meus pés pretos, das pessoas que olhavam para mim, pensei até em andar plantando bananeiras, mas imaginei que as solas dos meus pés já deveriam estar também pretas da fuligem das ruas, não ia dar certo.

Em lá chegando e informando ao enfadado segurança, a minha situação de emergência e que o programa já estava no ar, ele me disse que eu deveria pedir à recepção que telefonasse para a produção pedindo autorização para que se abrisse uma exceção.

Adentrei novamente o recinto pouco receptivo e solicitei à repecionista, que finalmente se comunicasse com a produção.

Com produção ao telefone, por não saber ler e pronunciar direito o meu nome “romão”, que deve ser tão difícil quanto falar “alemão”, a recepcionista me passou o telefone direto do estúdio, e a gentil produtora do programa , a jornalista Luciana, pediu-me que aguardasse um momento.

Exatos tres segundos depois, a recepcionista, já com cara de anjo de porta de presídio, sem me olhar e mirando de soslaio o agente da portaria, ordenou, “você pode entrar”.

Recitei o mantra dos Deuses quando querem cavalgar sua ira, engoli o “você” em seco e passei a me concentrar no programa ansiosa e tão duramente conquistado. Minha filha, também de sandálias, me seguiu, sem que lhe pedissem documentos, quase branca alemã que é, não sem antes comentar, “mas que “Tootsie” papai, deu vontade de rodar a bahiana”.

O programa foi uma maravilha e mesmo chegando atrasado pela discriminocracia institucional, aprendi bastante com os convidados, ao conversamos durante o tempo que me restava, sobre direitos humanos e sobre o fato de vivermos em uma sociedade em que o “zelador”da esquina está acima de nossa cidadada.Tem mais poder.

Não falei no programa sobre o incidente. “Não queria roubar a cena”, afinal antes de ser um discriminado, sou um jornalista e sociólogo ativista dos direitos humanos, tenho que engolir sapos enquanto o show continua.

Ao comentar o final do programa sobre o incidente desagradável, Gollo respondeu na bucha, ” mas se me avisassem eu poderia empresta meus sapatos”.

Aprendi hoje também uma coisa que já tinha ouvido, o cidadão discriminado ou violentado costuma morrer quando cai a ficha. É no estar dormindo que a raiva e os sapos engolidos durante o dia ou são digeridos ou entopem as veias de nosso pensamentos.

Descobri mais uma vez que racismo mata. E como mata. O número de corações de amigos de minha faixa etária que explodiram nos últimos anos, já esgotam as estatísticas dos mortos em meus arquivos. Quanta” Inteligência Morta” se acumulam nas paredes dos museus de nossas inconsciências…

Qual o momento para falar e qual o momento para guardar o sentimento de ira gerado por uma violência sofrida?

Apliquei 1/4 de meu dia de natal refletindo e escrevendo sobre tudo isto. Me sinto desopilado e amo minha gente em volta.

Guardo entretanto minha ira santa. Já me perdoei por ter ficado calado. Cabe ao racista se perdoar.

Cada pessoa é responsável pelos seus atos.

Hoje cumpri minha parte.

De mim nenhum racista receberá perdão.

Isso só será possível quando descer pela minha guela, o mantra da auto-anulação.

Aprendi mais uma coisa que me lembraram meus amigos árabes; Da próxima vez, quando eu for visitar um prédio público, vou com um “par” de tres sapatos. Para utilizar o sobressalente no caso d´eu encontrar um racista de plantão pela frente.

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Comentários

  1. João Postado em 03/Jan/2013 às 21:28

    Que chororô do cacete. Bota a porra do sapato, porra.

  2. Thiago Postado em 03/Jan/2013 às 21:55

    Parece que ninguém na Rádio Nacional se incomodou com os absurdos ocorridos.

  3. KETDENEUVE Postado em 04/Jan/2013 às 05:29

    NEM IREI ME APROFUNDAR. O TEMA ME REPUGNA, PQ NAO TEM NADA MAIS NOJENTO DO QUE O RACISMO. QUEM TIVER ESSE TIPO DE ANOMALIA DEVERIA PROCURAR UM TRATAMENTO, PQ DEVE HAVER MUITA COISA ERRADA NUM CEREBRO QUE ACEITA TER ESSE TIPO DE CANCARO.

  4. Yure Costa Postado em 04/Jan/2013 às 10:10

    A melhor parte do texto foi Gollo respondeu na bucha, ” mas se me avisassem eu poderia empresta meus sapatos”, como se o problema fosse os sapatos. Marcos Romão o Brazil continua QUASE o mesmo.

  5. Victor Emmanuel da Rocha Couto Postado em 04/Jan/2013 às 11:25

    "” mas se me avisassem eu poderia empresta meus sapatos”, como se o problema fosse os sapatos. " Concordo em gênero, número e grau. O problema está na educação. O Brasil é um país em que a educação é relegada a segundos, terceiros, quartos e demais planos.

  6. Julio Postado em 04/Jan/2013 às 14:09

    muito mimimi mesmo hein, regra é regra, se nao pode entrar sem usar sapato, nao pode e ponto final, ainda conseguiram abrir exceção para o cara e mesmo assim fica chorando cheio de mimimi se fazendo de vítima?? ahh da um tempo. se fosse em minha empresa, pode ser roxo, branco, preto, amarelo, verde, pobre, multimilionario que nao entra sem os malditos sapatos. regras sao feitas para serem obedecidas e respeitadas. tudo começa por organização, se ninguém respeita as regras, vira baderna e anarquia. tudo agora é racismo mimimi, o cara faz cagada, vai de chinelo em um lugar/evento tao importante e quer que todo mundo se rasteje pra ele? faz favor!

    • Rafael Ferraresso Postado em 04/Jan/2013 às 14:18

      O pior do racismo no Brasil é que além de tudo ele sempre foi extremamente burguês. Branco de havaiana é alternativo e contestador; preto de havaiana é trombadão e miserável. E ai de quem parecer miserável nesse país.

  7. Julio Postado em 05/Jan/2013 às 11:23

    o cara passa por cima das regras e mesmo assim chora. hoje em dia tudo é mimimi racismo sou coitadinho e é racismo semelhante a Israel exterminando na maior crueldade os palestinos (porque somos vitimas do holocausto mimimi entao aprendemos com hitler e estamos utilizando os mesmos métodosd e crueldade)

  8. Rita Maria Postado em 05/Jan/2013 às 14:16

    Vcs que estão reclamando, alegando que regra é regra e tal e coisa, leram a parte em que a filha dele, de tez alemã, não foi sequer questionada, estando ela a usar sandálias de dedo também?

  9. Rita Maria Postado em 05/Jan/2013 às 14:22

    Fora o início dos fatos, hein? Ele entra e fica esperando atendimento e ninguém se manifesta, sequer para avisá-lo de que o acesso sem sapatos é proibido? Quem reclama de vitimização, que racismo não existe mais, é gente sem nenhuma empatia pelos sofrimentos de seus semelhantes. É claro que haverão casos que sejam julgados como racismo erroneamente, sempre há enganos, mas neste, pelos detalhes do relato, não há dúvida.

  10. Rafael Postado em 06/Jan/2013 às 17:48

    Não vi nada de racismo ai! O cara vai parecendo um "ligeira" (e não por ser negro e sim por estar com um péssimo traje) num evento da Radio Nacional quer um tapete vermelho somente pq é um jornalista alemão! "O pior racismo é o que nasce da suposta vítima!"

  11. KAREN Postado em 07/Jan/2013 às 10:38

    Racismo é preconceito contra a raça, então não entendi: fizeram racismo com a raça do chinelo??? Foi isso??? Me poupe, né? Concordo com o Rafael, o Julio e o João. O cara tem baixa auto-estima e fica aí de mimimi por nada.

  12. Rogério Aparecido Clemente Postado em 09/Jan/2013 às 22:27

    "O dia em que pararmos de nos preocupar com Consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com consciência humana, o racismo desaparece." Morgan Freeman

  13. Leandro Coelho Postado em 10/Jan/2013 às 11:01

    Também não achei um caso de racismo, mas de usual incompetência das pessoas que lidam com o público. Eu já fui barrado em hotéis e prédios públicos por estar de bermudas, e sou branco como um palmito, e, para minha infelicidade, meus amigos ainda dizem que tenho cara de rico (só a cara mesmo..rs.). Sou contra códigos de vestimenta mas, se o imbecil e reacionário diretor da rádio ainda tem um pensamento medieval, paciência, as regras devem ser seguidas ( mas também isso não significa que o sujeito possa querer entrar em andrajos). Acho que, no caso do jornalista, ele estava vestido a contento, mas não seguiu as regras (infelizes) e teve problemas, não por sua cor, mas pelo código de vestimenta. Faltou a ele sapatos, sobrou ressentimento, e levou a situação para o lado errado.

  14. Danilo Postado em 10/Jan/2013 às 16:33

    Me veio a dúvida, se isso era racismo ou apenas uma funcionária rabugenta, quer dizer, não ficou claro (ao menos que não foi passado todos os detalhes no artigo, mas me pareceu bem escrito) se foi racismo ou não, isso me parece mais um trabalho mal feita de uma funcionária mal-preparada e rabugenta por causa do natal. Agora, na minha profissão (consultor informática) costumo ir em mtas empresas diferentes, e posso dizer que o jeito de se vestir já dá uma impressão diferente, as vezes não vou de social para as empresas, principalmente se for período noturno, e é sempre uma enrolação na portaria, podemos dizer que você possa ter sofrido um tipo de racismo sim, mas acho que social e não de cor. A sua filha entrou direta pois estava acompanhada de vc e provavelmente atendente deve ter tomado bronca...

  15. marcelo Postado em 11/Jan/2013 às 01:42

    Acho que poucas pessoas leram o texto com atenção... Aos amigos, o amor Aos inimigos, a lei. Os amigos em geral são brancos...os inimigo em geral são pretos...

  16. Nil Postado em 30/Jan/2013 às 08:11

    Sou negro, mas reconheço um certo tipo intelectualzinho q soh lembra d ser negro para lutas em seu próprio bem... qndo tah na proa olha soh pra brankinhos e casa com alemã pra embrankecer...

  17. Alexandre Ztrahal Postado em 09/Mar/2013 às 07:26

    Meus Deus, quantos reacionários vomitando seu racismo e sua ignorância. Sequer leram todo o texto com atenção. Se é possível achar um pior, então, muito provavelmente é este Nill (impossível chamá-lo de SR.). Declara-se negro, todavia por inveja, por recalque não importa-se de "torpedear" alguém que ele entende ser melhor socialmente, aliando-se aos reacionários.Justificar regras idiotas e criadas para impor a vontade de um ignorante sobre os demais. Reacionários afirmando que regras imbecis devem ser cumpridas, mesmo que tudo mais deva parar. É verdade uma apresentação num programa de rádio e o "cara" vai de sandálias havaianas ( aquelas que são moda na Europa), o que dirão os ouvintes do programa em suas casas "vendo" alguém sem sapatos. É provavelmente pensaram; este Sr. não tem "conteúdo" intelectual.

  18. Wand Postado em 09/Mar/2013 às 21:53

    Não percebi racismo algum na situação descrita... apenas um cara confuso, mal vestido e cheio de trauma. Já fui barrado em BAR por causa de roupa, o estabelecimento não aceitava bermudas... obviamente que fiquei puto da vida, mas não achei que ninguém estivesse me discriminando por qualquer motivo que fosse, essas regrinhas de que roupa utilizar existem em vários lugares... quanto mais em um prédio público. Quanto ao péssimo atendimento, isso acontece com todo mundo todos os dias em praticamente todos os lugares. Bem-vindo ao Brasil.