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Revista Veja 16/Oct/2012 às 20:47
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Historiadores detonam matéria da Veja sobre Eric Hobsbawm

Associação Nacional de História: “Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada”

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Revista Veja classificou o historiador marxista Eric Hobsbawn como um “idiota moral” (Foto: Divulgação)

No dia 1º de outubro, o mundo despediu-se de Eric Hobsbawn. O historiador marxista, tido como um dos maiores intelectuais do século XX, faleceu aos 95 anos.

Três dias após a morte do historiador, a revista Veja publicou em seu site a matéria, A imperdoável cegueira ideológica de Hobsbawm, onde logo na primeira frase classifica o autor como um “idiota moral”.

Na última sexta-feira (5), a Associação Nacional de História (ANPUH) publicou uma nota, por meio de sua página no Facebook, na qual repudia a crítica da Veja ao historiador inglês. A nota afirma que o tratamento dado pela Veja a Hobsbawn foi desrespeitoso, irresponsável e ideológico.

“Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada”, finalizou a entidade.

Leia também

Leia abaixo a íntegra da nota de repúdio

Resposta à revista VEJA

Eric Hobsbawm: um dos maiores intelectuais do século XX

Na última segunda-feira, dia 1 de outubro, faleceu o historiador inglês Eric Hobsbawm. Intelectual marxista, foi responsável por vasta obra a respeito da formação do capitalismo, do nascimento da classe operária, das culturas do mundo contemporâneo, bem como das perspectivas para o pensamento de esquerda no século XXI. Hobsbawm, com uma obra dotada de rigor, criatividade e profundo conhecimento empírico dos temas que tratava, formou gerações de intelectuais.

Ao lado de E. P. Thompson e Christopher Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo. Deu voz aos homens e mulheres que sequer sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo festas que organizavam, estavam a fazer História. Entendeu assim, o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista. Mas Hobsbawm não foi apenas um “acadêmico”, no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de aula ou da pesquisa documental.

Fiel à tradição do “intelectual” como divulgador de opiniões, desde Émile Zola, Hobsbawm defendeu teses, assinou manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que considerava mais justo, mais democrático e mais humano. Claro está que, autor de obra tão diversa, nem sempre se concordará com suas afirmações, suas teses ou perspectivas de futuro. Esse é o desiderato de todo homem formulador de ideias. Como disse Hegel, a importância de um homem deve ser medida pela importância por ele adquirida no tempo em que viveu. E não há duvidas que, eivado de contradições, Hobsbawm é um dos homens mais importantes do século XX.

Eis que, no entanto, a Revista Veja reduz o historiador à condição de “idiota moral” (cf. o texto “A imperdoável cegueira ideológica da Hobsbawm”, publicado em www.veja.abril.com.br). Trata-se de um julgamento barato e despropositado a respeito de um dos maiores intelectuais do século XX. Veja desconsidera a contradição que é inerente aos homens. E se esquece do compromisso de Hobsbawm com a democracia, inclusive quando da queda dos regimes soviéticos, de sua preocupação com a paz e com o pluralismo. A Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil) repudia veementemente o tratamento desrespeitoso, irresponsável e, sim, ideológico, deste cada vez mais desacreditado veículo de informação.

O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto “historiador esquerdista”, dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo. E é assim em toda a “análise” acerca do falecido historiador. Nós, historiadores, sabemos que os homens são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e como cidadão do mundo. Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada.

São Paulo, 05 de outubro de 2012

Diretoria da Associação Nacional de História

ANPUH-Brasil

Gestão 2011-2013

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Comentários

  1. João Postado em 17/Oct/2012 às 00:03

    A carta fala, fala e não diz nada. A resposta deles é, basicamente "ei, isso foi bastante grosseiro". Será esse o nível dos "educadores" deste país?

    • Gustavo S Postado em 17/Oct/2012 às 00:14

      Particularmente gostei da carta.

    • Laercio Postado em 10/Jun/2014 às 18:34

      Você tem q aprender a ler novamente....ou só entendeu a matéria da mulher do zeze

    • Laercio Postado em 10/Jun/2014 às 18:40

      A veja, hoje é a pior revista q temos. Virou uma revista caras. Pena......falta uma oposição coerente. Depois q apareceu nas páginas amarelas a mulher do zeze.....perdi a esperança. Não preciso de uma revista opinativa, mas sim informativa.......

  2. Philipe Ben Postado em 17/Oct/2012 às 00:34

    (João) É lógico que a carta fala, fala e diz alguma coisa... lê direitinho, seu argumento básico, foi muito básico sobre o texto.

  3. Paulo Lobo Postado em 17/Oct/2012 às 01:02

    A carta fala sim, caro Joao. Ela diz " ei, isso foi bastante grosseiro" o q eh o importante em resposta a materia da revista. Esperava o q mais?

  4. Thiago Postado em 17/Oct/2012 às 02:09

    Fala e não diz nada? Será esse o nível dos leitores deste país?

  5. Anônimo Postado em 17/Oct/2012 às 04:44

    João: Não sei ao que se refere como "nível dos educadores", já que nem todo historiador é necessariamente um educador, mas considero a carta enviada pela ANPUH uma resposta válida e contundente ao artigo publicado na revista Veja.

  6. reginaldo Postado em 17/Oct/2012 às 12:35

    Não esquecer que o autor do artigo sobre Hobsbawm é Eurípedes Alcantara, o mesmo do famoso artigo da Veja sobre o boimate, considerando como trabalho cientifico uma brincadeira feita por alguns gaiatos sobre um animal criado a partir da fusão genetica de bovinos com tomates. O que se pode esperar de um "jornalista" deste quilate? Nada a não ser fazer o que a Veja fez: nomea-lo como editor chefe.

  7. Marcos Venícius Postado em 17/Oct/2012 às 13:15

    Eu acho que a carta não responde as acusações da Veja. Ela só fala que foi grosseiro e diz que Eric teve fundamental importância. Não explica O PORQUÊ de as palavras da Veja acerca dele estão erradas.

  8. Sérgio Henrique Marchiori Postado em 17/Oct/2012 às 13:18

    Eu já usei muitos textos de Hobsbawn em trabalhos, e obviamente, como todo e qualquer ser realmente pensante, suas idéias parecem em muitos momentos, e em muitas momentaneamente absurdas. Mas, o que realmente importa é suscitar no sujeito a reflexão...e isto ele sempre soube fazer de forma fabulosa? A propósito, veja ainda é revista? Ler Veja é o mesmo que assistir Jornal Nacional, e usar as "matérias" para fazer discussões de vanguarda

  9. Sérgio Henrique Marchiori Postado em 17/Oct/2012 às 13:20

    -> correção Eu já usei muitos textos de Hobsbawn em trabalhos, e obviamente, como todo e qualquer ser realmente pensante, algumas de suas idéias podem parecer momentaneamente absurdas. Mas, o que realmente importa é suscitar no sujeito a reflexão…e isto ele sempre soube fazer de forma fabulosa! A propósito, veja ainda é revista? Ler Veja é o mesmo que assistir Jornal Nacional, e usar as “matérias” para fazer discussões de vanguarda

  10. Aline Postado em 17/Oct/2012 às 15:22

    Ao Sr. Marcos Venícius e outros que acharam que a carta não explicou o porque de a Veja estar equivocada em suas críticas, leiam o 2º parágrafo: "Ao lado de E. P. Thompson e Christopher Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo. Deu voz aos homens e mulheres que sequer sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo festas que organizavam, estavam a fazer História. Entendeu assim, o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista. Mas Hobsbawm não foi apenas um “acadêmico”, no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de aula ou da pesquisa documental."

  11. Ismael Postado em 17/Oct/2012 às 19:23

    A morte inevitável de Hobsbawn deixou um vazio moral e intelectual, historiográfico na humanidade. Já não se farão historiadores como ele; mas seu legado, sua escola permanecerão ad infinitum. Quanto Veja, a última vez que botei minha mão limpa naquele lixo asqueroso eu pensava que existiam reportagens e jornalistas isentos, imparciais na grande mídia. Não acredito mais em bicho-papão.

  12. Regiane Postado em 18/Oct/2012 às 19:40

    Por favor, dizer que a carta da Anpuh é vazia!! Logo fica perceptível que muita gente não identificou quais os argumentos utilizados pela associação para explicar a grande contribuição de Hobsbawm para a sociedade.

  13. Jamilton Postado em 19/Oct/2012 às 08:55

    Um dos historiadores mais importante do século XX deixando uma obra inestimável para toda humanidade. Não precisa discutir a qualidade moral e intelectual do homem que foi Eric Hobsbawm, isso fica a critério de análises dos "nossos intelectuais". O que incomoda esses pseudojornalistas do PIG é que "Hobsbawm defendeu teses, assinou manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que considerava mais justo, mais democrático e mais humano".

  14. guto Postado em 20/Oct/2012 às 09:21

    Resposta direta e simples. Muito boa. Acho só um pouco ingênua por chegar a considerar que a "revista" emite tal opinião em compromisso com a verdade e não com a simples tarefa de doutrinar seu leitor típico.

  15. Xavier Postado em 26/Oct/2012 às 10:15

    Pela maioria dos comentarios posso concluir que: Sao comentarios dos que leem e se orientam pelas coisas dos" rei naldo, jardins e jabus"; portanto, torna-se necessário que os textos neste blog se façam acompanhar de desenhos para facilitar o entendimento desses comentaristas.

  16. Saueressig Postado em 26/Oct/2012 às 22:34

    Veja o João, em 17 de outubro de 2012 às 0:03 disse: "A carta fala, fala e não diz nada. A resposta deles é, basicamente 'ei, isso foi bastante grosseiro'. Será esse o nível dos 'educadores' deste país?" Ora João, isto é ser educado; Tratar esse tema de outra forma é para pessoas mal educadas !!!

  17. Guilherme Postado em 03/Nov/2012 às 20:49

    E o João evidencia bem o nível dos 'leitores' deste país. Shame on you... talvez pra ele a matéria da Veja então fala e diz tudo!

  18. Prof Fernando Lima Postado em 13/Nov/2012 às 03:36

    Infelizmente tudo está banalizado e por isso não culpo o João, haja vista que como diria Marx ele é mais um produto do meio ou falando para ele entender melhor mais um alienado. Hobsbawn em "A Era dos Extremos " já previa isso no século XXI e justamente por isso disse que sua maior felicidade foi ter nascido no século XX, uma época onde o povo tinha uma maior preocupação com a sociedade e não reproduzia o que a mídia julgava ser a verdade absoluta. Pra não complicar mais a cabeça do João encerro como ele disse sem dizer nada...

    • Noeli Wirmond Postado em 10/Jun/2014 às 23:04

      Segundo meu professor de antropologia, os humanos possuem uma lente construída com os valores e experiências que obteem ao longo da vida. O visão desse historiador era a do bem da coletividade. Sem detalhes, certamente ele possuía um bom coração e queria o bem da humanidade. Sofria com o sofrimento do seu próximo. Isso é humano. Se acertou ou errou, isso é humano. O que faltava para ele, naquele tempo, era entender como realmente funciona a alma humana. Aliás, pouquíssimos conhecem.

  19. andrea Postado em 08/Dec/2012 às 16:46

    Complicada a alienação e falta de senso crítico de algumas pessoas que comentam aqui. Você queria que a ANPUH respondesse como? Com um pacotinho de pseudo críticas ofensivas, só para não deixar passar a oportunidade? Isso, meu caro, é coisa de VEJA. Quem minimamente pensa neste país não precisa disso.

  20. Emanuel Fernandes Postado em 10/Jun/2014 às 10:44

    Adorei seu comentário minha cara Andrea. Quem concorda com essas aberrações que a veja escreve,e aqui coloco não só essa reportagem, mas como a de Niemeyer, torna-se medíocre a alienado. #Veja fora

  21. Marconi Postado em 06/Apr/2015 às 16:18

    Acho que ninguém aqui se deu o trabalho de procurar saber do verdadeiro motivo do jornalista Eurípedes Alcantara tecer comentários asneiros sobre o historiador filosofo Eric Hobsbawn, claro que a revista o escalou pra produzir tais asneiras depois de saber o publicado em jornais/revistas na Europa onde o nobre historiador teceu elogios ao LULA e que ainda fez questão de se deslocar para o local em Londres onde o LULA estaria fazendo palestra para apertar a mão pessoalmente, foi isso que causou tanta IRA da revista e desvairadamente escrever qualquer detrito.