Redação Pragmatismo
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Revista Veja 12/Sep/2012 às 14:02
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Revista Veja: a criminosa tradição das 'entrevistas' inventadas

Não é de hoje que Veja é criticada por utilizar artifícios estranhos aos mais elementares princípios éticos do jornalismo. Entre eles, a descontextualização, ou mesmo a pura e simples invenção de declarações

Uma revista publica um pingue-pongue – entrevista em formato de perguntas e respostas – com um jornalista que imediatamente denuncia em seu blog o “engodo”, porque não teria dado entrevista alguma; a revista responde reafirmando a autenticidade do texto e tudo fica por isso mesmo, a palavra de um contra a da outra.

Aconteceu recentemente. A edição 2284 da Veja Rio, que começou a circular no fim de agosto, trazia, na coluna “Beira Mar”, uma suposta entrevista com o colunista esportivo Renato Maurício Prado, do Globo, sobre o fim de seu contrato com a SporTV, depois de uma discussão ao vivo com o apresentador Galvão Bueno, durante um programa de debates nos últimos Jogos Olímpicos.

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Dois dias depois, na nota “Pingo nos is”, ao pé de seu blog, reproduzida no dia seguinte em sua coluna no caderno de Esportes do jornal impresso, Renato afirmava que não dera entrevista: teria apenas atendido ao telefonema da repórter e explicado que não queria falar, “até por entender que nós, jornalistas, não somos notícia”.

Ressaltava inclusive um erro na menção à sua participação num programa de rádio, já extinto havia mais de dois anos, e lamentava a utilização de uma foto sua, feita para sua coluna no Globo, pois, para o leitor, ficava a impressão de que ele teria posado para Veja.

Em nota oficial, publicada na sequência da resposta de Renato Maurício prado, a revista rejeitava o desmentido.

O que se diz no contestado pingue-pongue não tem qualquer relevância para além do previsível noticiário sobre “celebridades e personalidades do Rio”, que é o tema dessa seção da revista. A questão do método, sim, é que é de extrema relevância, independentemente do assunto, da importância das fontes ou da parcela do público a que se destina esse tipo de informação. Ou fraude.

A farsa da reportagem

Não é de hoje que Veja é criticada por utilizar artifícios estranhos aos mais elementares princípios éticos do jornalismo. Entre eles, a descontextualização, ou mesmo a pura e simples invenção de declarações.

veja mente

Revista Veja tem longa tradição das “entrevistas” inventadas. Publicação da Abril cai em descrédito ano após ano. Foto: reprodução

Recordo aqui, apenas para ilustrar, um caso de grande repercussão ocorrido há pouco mais de dois anos: o texto intitulado “A farra da antropologia oportunista“, publicado em maio de 2010, que acusava pesquisadores de forjar a existência de comunidades indígenas ou quilombolas em proveito próprio – das ONGs das quais participavam – e em detrimento das perspectivas de desenvolvimento do país.

Para tanto, utilizava supostas afirmações de dois antropólogos, Mércio Pereira Gomes e Eduardo Viveiros de Castro, que argumentariam no sentido pretendido pela revista.

A farsa da reportagem foi denunciada em pelo menos três artigos neste Observatório e na resposta do professor Gomes (“Resposta a uma matéria falsa“), que recusava à Veja “o falso direito jornalístico” de atribuir-lhe “uma frase impronunciada e um sentido desvirtuante” daquilo que pensava sobre a questão indígena brasileira.

O protesto de Viveiros de Castro também circulou amplamente pela internet e provocou uma troca de mensagens entre ele a revista, na qual ficava evidente a inexistência de entrevista e a deturpação dos argumentos do pesquisador, retirados de um artigo seu.

O mais curioso é que Veja concluía sua resposta dizendo que o antropólogo a havia autorizado a utilizar o tal artigo “da forma que bem entendesse”. O que, a rigor, jamais poderia ocorrer, porque evidentemente nenhum texto pode ser utilizado de qualquer jeito: precisa ser citado de acordo com a sua própria coerência interna, conforme o contexto em que foi escrito.

O elogio da fraude

Criada em 1968 por Mino Carta, Veja passou por uma série de mudanças ao longo dessas mais de quatro décadas, e só um estudo detalhado poderia apontar o que a levou a se distanciar progressivamente da prática rigorosa do jornalismo para enveredar por uma política editorial que pretende amoldar a realidade às suas pautas, utilizando quaisquer recursos para a obtenção dos resultados previamente definidos. O recente episódio que envolveu o colunista esportivo seria, portanto, apenas uma derivação social e politicamente irrelevante de um processo incorporado há muito tempo.

Entretanto, nesse processo há um aspecto essencial e aparentemente inocente que deveria chamar a atenção, sobretudo de jovens aspirantes a jornalistas, especialmente agora que a discussão a respeito da adequada formação retorna, com o debate sobre a exigência do diploma universitário: é que as regras elementares do método jornalístico não são tão elementares assim. Pois que mal faz inventar entrevistas, desde que elas sejam simpáticas às fontes?

Em Notícias do Planalto, lançado em 1999 e prestes a ser reeditado, Mario Sergio Conti relata a esperteza de Elio Gaspari, então em início de carreira:

[Gaspari] estava numa agência de notícias no Galeão. O aeroporto era o ponto de passagem dos poderosos da República. Os políticos, ainda em trânsito da antiga para a nova capital, embarcavam nos voos matutinos para Brasília. No Galeão desembarcavam as celebridades estrangeiras que visitavam o Rio. Como se podia entrar na área da alfândega, os jornalistas circulavam e faziam entrevistas. Os repórteres da agência tinham de falar com os passageiros famosos, redigir as matérias na sala de Imprensa, tirar cópias num estêncil a álcool e mandá-las para os jornais. Gaspari logo constatou que o tempo médio de embarque e desembarque, vinte minutos, era escasso. Enquanto entrevistava um deputado, perdia outros três que entravam no avião para Brasília. Passou a acordar de madrugada para ler os jornais e, com base neles, escrever pequenas entrevistas de políticos comentando os assuntos do dia. Se concordavam com as respostas, passavam a ser os entrevistados de fato e de direito. Assim, podia mandar aos jornais três, quatro entrevistas, em vez de uma. Os entrevistados agradeciam porque, além de estarem nos jornais, às vezes pareciam mais inteligentes ou engraçados do que realmente eram.

Esses políticos jamais poderiam sonhar que algum dia lhes cairia no colo um assessor tão bom, e ainda por cima gratuito. Conti prossegue, muito divertido:

Em Veja, o método foi refinado e usado anos a fio. Gaspari inventava um raciocínio para avivar uma matéria, geralmente de madrugada, no calor do fechamento, e mandava um repórter achar alguém famoso que quisesse assumir a autoria. A frase “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual” nasceu assim, proposta por Gaspari ao carnavalesco Joãozinho Trinta. O truque era puro Elio Gaspari. Tinha algo de molecagem, mas ficava nos limites das normas jornalísticas, na medida em que ninguém era forçado a encampar uma declaração. O seu fim último era levar um fato novo ao leitor (…)”.

Então ficamos assim: inventar declarações e atribuí-las a terceiros faz parte das normas jornalísticas, desde que sejam favoráveis a essas fontes. Nada impede, tampouco, que se recorte um artigo e nele se insiram perguntas, para dar a impressão de um pingue-pongue. Terão razão, afinal, certos teóricos que dizem que jornalismo é ficção?

Essas coisas as escolas – pelo menos, as escolas de qualidade – não ensinam. Pelo contrário, refutam e denunciam. No entanto, renomados jornalistas – nos quais, naturalmente, muitos jovens se miram – praticam e enaltecem o que deveriam combater. E a fraude só causa revolta quando contraria os envolvidos.

Mas nem por isso deixa de ser o que é.

Sylvia Debossan Moretzsohn, Observatório da Imprensa

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Comentários

  1. Vera Postado em 14/Sep/2012 às 00:45

    Engodo! A revista Veja é uma excelente revista. Quem deprecia, manipula, distorce informações é a esquerda intelectual que tem mania de perseguir a revista só porque ela não comunga com o socialismo. Que feio isso, vivemos num país democrático. Perseguição ideológica é para perdedores.

    • Antônio Fraga Postado em 06/May/2014 às 14:27

      Leitora-fã-nática ultracoxinha da nãoveja detectada!!! Vai lavar louça, passar roupa e varrer o quintal e depois venha falar de "perseguição ideológica"!!! HAHAHAHAHA!!!

  2. Wesley Postado em 14/Sep/2012 às 13:16

    Veja? "Deus me livre e guarde de você". P.S.: Eu não acho que a Veja é um assessor tão gratuito assim não... Essa "excelente" revista deve receber muuuuita propina e tráfico de influências em troca de umas matérias chulas.

  3. caetano Postado em 14/Sep/2012 às 13:49

    Vera ! Pior cego o que não quer enxergar.......... Eu mesmo já participei de uma entrevista a esta revistinha, a qual foi publicada de maneira totalmente diferente ! Por ora maior idiota é aquele que paga para ler 10 paginas de materia ( sempre desconfiaveis) numa revista de 150 paginas.

  4. AnaLee Postado em 29/Oct/2012 às 11:43

    Vera: excelente revista pq sua preguiça em pensar é grande.

  5. Rafael Mendes Postado em 22/Nov/2012 às 13:45

    O que dizer de Ryszard Kapuscinski (1932-2007), jornalista polonês que angariou fama, hoje sabemos, escrevendo matérias jornalísticas recheadas de ficção? Trata-se de recorrer às técnicas literárias para comunicar uma verdade de forma mais profunda? Ou então, de usar a imaginação para cobrir as lacunas que a realidade sempre deixa? Ou ainda: lançar mão de imagens retóricas para, ao fim e ao cabo, transmitir o que o acontecimento sugere ao jornalista?

  6. Rafael Mendes Postado em 22/Nov/2012 às 13:52

    Afinal de contas, a importância do método -- como sugere o caso de Gaspari relatado por Conti --, deve depender do nível de eficácia que ele garante para a prática? Gaspari, se não conseguiu dar conta da realidade tal como aconteceu, missão sempre difícil, pelo menos atingiu a verossimilhança. Os entrevistados não disseram isso ou aquilo, mas poderiam e gostariam de tê-lo dito. Isso basta para dizer que a declaração é, portanto, verossímil, isto é, que tem uma aparência de verdade? Será que mesmo a técnica de copiar e colar uma informação garante a fidelidade aos fatos?

  7. JAIRO Postado em 06/Dec/2012 às 11:48

    A justiça brasileira não tem autoridade e nem gabarito pra fechar a editora" AGORA ME PROVEM AO CONTRÁRIO"

    • Alberto Jackson Postado em 24/Dec/2013 às 22:19

      Concordo plenamente. Fui assinante de Veja e já cancelei há mais de quinze anos e até hoje insistem em me oferecer vantagens como assinante. Atualmente a Editora é alimentada pela oposição ao governo junto com grande parte da mídia.

  8. freitas Postado em 22/Dec/2012 às 12:51

    Vera é melhor vc rever seus conceitos porque nas últimas eleições no mundo quem vem sendo vencedor é o socialismo, ou veja a esqueda

  9. Roozevelt Vieira Postado em 23/Feb/2013 às 09:46

    O negócio é grana! Quem paga mais tem destaque! O governo deve aprender e $er mais genero$o com a Veja.

  10. Rom Freire Postado em 11/Jun/2013 às 10:41

    E o que a VEJA faz não seria "perseguição ideológica", Vera?

    • Antônio Fraga Postado em 06/May/2014 às 14:31

      Essa Vera coxinha é tipo aquelas dondocas que perderam suas empregadas domésticas e que fizeram dondocas e dondocos ficarem com medo porque terão de lavar pratos e passar as roupas (lembra dessa capa terrorista da revistinha, insinuando que uma vez empregada, sempre escrava?). Por isso, tanto catupiri numa só resposta...

  11. Luciano Postado em 03/Oct/2014 às 11:36

    Os generais e o exercito estão articulando um novo golpe militar. Estão disseminando pelo face através do militar Roberto Mezian o terror e o medo e convocando a nação para realizar o feito. Estão, pelo visto articulados e prontos para a guerra. É assustador. Entre na página deste indivíduo no face e vejam por vocês mesmos, Roberto Mezian. É assustador o que se encontra lá.