Redação Pragmatismo
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Ditadura Militar 11/Jun/2012 às 20:33
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A chocante entrevista de Cláudio Guerra, matador de Presos Políticos

Se nesse depoimento houver mentira, é a mentira mais próxima e vizinha da pior verdade que existe. Aquela verdade à qual nos recusamos, mas que ainda assim avança, sem respeitar o nosso horror.

cláudio guerra alberto dines

Cláudio Guerra (esquerda) é entrevistado pelo jornalista Alberto Dines (direita)

Urariano Mota, Direto da Redação

Confesso que fui ver para não acreditar no que veria. Fui ver a entrevista de Alberto Dines com o ex-policial Cláudio Guerra com maus olhos, com um espírito prévio para apontar as falhas, as mentiras no depoimento do matador de presos políticos. Mas esse preconceito, ou seja, a visão antes da experiência, longe estava de uma pose. Não. É que a inteligência, a sensibilidade da gente possui uma defesa contra o horror. Temos sempre uma região de conforto que recusa e se recusa à zona mais escura, aquela em que nos dizemos: “até aqui vai a dor – daqui não passarás”.

Então, de imediato, naquela atitude anterior à visão, na entrevista pude ver um Alberto Dines crédulo, como se ele não fosse um repórter experimentado. Aparecia nele uma sombra de assentimento, como é típico de qualquer repórter de televisão para um entrevistado, “sim, sim, sim”, a concordar com o queixo.

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Parecia nele não haver uma suspensão para a dúvida. E enquanto assim via, eu me afirmava: o matador arrependido age contra a Comissão da Verdade, na medida em que insinua “não procurem mais corpos desses militantes, porque foram queimados”. E mais me dizia: como o entrevistado Cláudio Guerra pode relacionar certos cadáveres a nomes? Qual a certeza de suas lembranças para os corpos de subversivos que ele fez sumir?

Ah, essas perguntas Dines não faz, eu me dizia, ele é um crédulo. Como é possível um cara ter, como o entrevistado fala, duas contas em um banco, numa, de nome falso, para receber o dinheiro extra por assassinatos, noutra, real, somente para a remuneração de funcionário? O repórter perdeu o ritmo, continuo a me dizer, pois existe uma tensão dramática em qualquer gênero, até mesmo em um trabalho jornalístico. E mais grave, o repórter pula a denúncia do terror. Ele salta o essencial, vou me dizendo. Então chego ao minuto e tempo 32.48, até o ponto 38.16 do vídeo da entrevista. E da voz do policial escuto, contra o que eu não queria ver e escutar, quando ele conta o estado em que encontrou pessoas de militantes, antes de jogá-las ao forno de uma usina:

“As mordidas (em Ana Rosa) eram mordidas humanas. Ela estava muito machucada… Eu creio que foi asfixia. O corpo dela sangrava, o corpo sangrando. Estava estourada por dentro. O marido, Wilson Silva, estava sem as unhas da mão, todo arrebentado”. E mais, como um acúmulo de evidências, neste preciso ponto de verdade, que pela percepção sabemos da memória de relatos dos necrotérios na ditadura:

“Todos os cadáveres que eu recebi eram seminus. Era um tipo assim, mais parecido com um calção que uma bermuda, não é? Porque as pessoas eram torturadas nuas, pau de arara era nu. As torturas ali de choque, nos órgãos genitais, muitos foram até castrados. Eram seminus, todos eles… O caso de Capistrano ele não estava todo esquartejado não. Ele estava com o braço direito decepado. Tinham arrancado o braço dele, de Capistrano. Os outros, na maioria eram fraturas expostas ao longo do corpo, com os ossos aparecendo, entendeu? A maioria. Na maioria era assim. Olha, são cenas que eu, é, pra mim me deixam fora, muito abalado narrar isso aqui. Pra mim é a pior época da luta de que eu participei foi essa aí”.

Nesse preciso instante, há uma verossimilhança terrível no que o Matador de Presos Políticos Cláudio Guerra fala. Ele bate com tudo que pesquisamos e contra a nossa vontade aprendemos. E concluo, enfim: se nesse depoimento houver mentira, é a mentira mais próxima e vizinha da pior verdade que existe. Aquela verdade à qual nos recusamos, mas que ainda assim avança, sem respeitar o nosso horror.

Assista ao vídeo da entrevista completa, abaixo:

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Comentários

  1. Maria Zenilda Ramos de Assis Postado em 18/Jul/2012 às 20:25

    Fico impressionada como esses elementos não foram condenados, presos... Convivendo por aí, como se nada tivesse acontecido, não tivessem feito nada de mais. O que essas pessoas, os presos políticos, fizeram de tão errado para merecer o inferno? E mesmo que tivessem feito algo tão errado, mereciam essas atrocidades em seus corpos, em sua dignidade? Como, praticamente, confessam seus delitos hediondos e só são " Senhores entrevistados que relatam o período de torturas, na ditadura brasileira". A tortura pareceu um beliscão, uma palmadinha qualquer, na palavras desse monstro solto pelas ruas dessa cidade. Pior é que eu posso entrar na padaria para comprar pão e ele pode estar lá, tomando cafezinho do meu lado! Isso é Brasil, infelizmente. Ai de mim, como professora da rede pública, que me defenda, rispidamente, de uma agressão ríspida verbal de um aluno que tire nota baixa na prova. Ai de mim que reprove esse mesmo aluno...

  2. Margarida Castro Postado em 25/Jul/2012 às 16:49

    Eu creio em conversão e arrependimento, sim. Mas falta ainda a este senhor, a paga justa dos seus crimes confessos.Foram atrocidades , barbaridades que foram cometidas.Não podem ficar impunes.

  3. Mozart Postado em 09/Jan/2013 às 00:41

    Margarida, ele perdeu a mulher (de um casamento de 18 anos) por publicar o livro. Acredito que ele não está impune ao que fez.