Luis Soares
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Ditadura Militar 24/May/2012 às 14:40
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Investigação comprova existência de 'Voos da Morte' antes de ditadura militar argentina

Durante o regime militar, milhares de presos foram atirados ao mar vivos e drogados, de aviões militares

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O antropólogo forense Carlos Somigliana aproveitou o anúncio para convocar familiares de desaparecidos a deixar amostras sanguíneas no banco genético do Arquivo Nacional da Memória

Em 1976, cadáveres começaram a ser encontrados no litoral uruguaio. Com indícios de que sofreram violência, por apresentarem feridas, hematomas e fraturas ósseas, os corpos foram enterrados como “anônimos” na cidade de Colônia. Em um período em que o Uruguai vivia sob uma ditadura perpetradora de crimes contra presos políticos, peritos alegaram que não havia elementos suficientes para saber quem eram as vítimas.

Nesta quarta-feira (24/05), 36 anos depois da chegada destes corpos à orla uruguaia, a identificação de um deles foi anunciada. Trata-se de Roque Orlando Montenegro, um jovem argentino de 20 anos que foi sequestrado em sua casa um mês antes do golpe de Estado em seu país, em 1976. Militante peronista, Montenegro foi brutalmente torturado em uma prisão clandestina ao lado da mulher, Hilda Torres, com quem participava da luta no período prévio à ditadura.

Após a exumação e repatriação do corpo, no ano passado, a análise dos antropólogos forenses levou a uma descoberta que comprova que Montenegro foi vítima de uma prática de extermínio da ditadura argentina, conhecida como “Voos da Morte”, na qual prisioneiros políticos eram jogados, do alto de um avião, em alto mar. E revela que ela teve início antes mesmo de que os militares assumissem o governo do país e ficassem até 1983.

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As descobertas foram anunciadas pela filha da vítima, Victoria Montenegro, em uma entrevista coletiva. Levada a uma prisão clandestina quando tinha apenas 13 dias de vida, e apropiada ilegalmente pelo coronel que assassinaria seus pais, a mulher de 36 anos foi encontrada em 2000 pelas Avós da Praça de Maio, que lutam pela identificação dos cerca de 500 bebês nascidos em cativeiro e adotados ilegalmente por outras famílias durante a repressão.

“Precisei de vários anos para assumir minha identidade e tentar acomodar minha história. Meu apropriador tinha me dito, em relação aos meus pais, que tinham sido abatidos em um combate ocorrido em 1976”, afirmou Victoria ao revelar a identificação do pai, concluindo que a análise da Equipe Argentina de Antropologia Forense comprova “a existência de um plano sistemático [de extermínio] anterior ao golpe de Estado”.

Estela de Carlotto, presidente da organização das Avós, por sua vez, afirmou, estar em um conflito de sentimentos com os resultados do exame de DNA que comprovaram a identidade de Roque Montenegro, e pela “dor” provocada pela revelação do paradeiro de somente um dos cônjuges, já que Hilda Torres continua desaparecida. Segundo ela, a descoberta “não faz mais que constatar que a repressão começou previamente ao golpe de Estado”.

“Milagre”

Victoria, que foi registrada sob o nome de María Sol Tetzlaff, como filha do falecido coronel do Exército Hérman Tetzlaff, que liderou uma um centro clandestino de prisão e tortura conhecido como “El Vesubio”, classifica a identificação sanguínea de seu verdadeiro pai como “uma milagre”, pois pôde ser feita apesar de os militares “terem feito tudo para que não aparecessem”.

Em uma entrevista à Rádio Continental, quando relatou em detalhes sua experiência ao descobrir, aos 24 anos de idade, que seus verdadeiros pais não eram os que diziam ser, Victoria afirmou que, em princípio, não acreditava na história de seu sequestro: “Demorei muitos anos para entender. Para mim, todos eram culpados, menos ele. Todos: as Avós, meus pais biológicos, a história, todos”, explicou.

O antropólogo forense Carlos Somigliana aproveitou o anúncio para convocar familiares de desaparecidos a deixar amostras sanguíneas no banco genético do Arquivo Nacional da Memória, garantindo que aqueles que tiveram seu paradeiro omitido pelos agentes de repressão ainda podem ser encontrados. “Sabemos que muita gente não poderá ser identificada, devido ao mecanismo perverso dos vôos, que foi eficiente para o desaparecimento de pessoas. Mas há milagres e podem haver mais”, disse.

Opera Mundi

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