Redação Pragmatismo
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Racismo não 05/Jan/2012 às 16:33
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Racismo no restaurante Nono Paollo abre feridas e deixa profundas lições

O menino negro era o único "ponto escuro" entre os clientes do restaurante e para esse "ponto escuro" há lugares socialmente predeterminados dos quais restaurantes de áreas consideradas "nobres" da cidade de São Paulo estão excluídos

Sueli Carneiro

Sueli Carneiro

Há coisas essenciais sobre o racismo no episódio ocorrido no restaurante Nonno Paolo com um menino negro.

Eu não estava lá, mas pela reação de indignação da mãe da criança e seus amigos é lícito supor que a criança em questão, seja amada e bem cuidada, portanto, não estava suja e maltrapilha como costumam estar as crianças de rua que encontramos cotidianamente na cidade de São Paulo.

Então, a “confusão” de quem a tomou, em princípio, por mais uma criança pedinte se deveu ao único traço com o qual a define a mentalidade racista: a sua negritude. Presumivelmente, o menino negro era o único “ponto escuro” entre os clientes do restaurante e para esse “ponto escuro” há lugares socialmente predeterminados dos quais restaurantes de áreas consideradas “nobres” da cidade de São Paulo estão excluídos.

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Para o racista a negritude chega sempre na frente dos signos de prestígio social. Por isso Januário Alves de Santana foi brutalmente espancado por não ser admissível para os seguranças do supermercado Carrefour que ele fosse proprietário de um Ecosport dentro do qual se encontrava no estacionamento a espera de sua mulher que realizava compras. Por isso a cantora Thalma de Freitas foi arbitrariamente revistada e levada em camburão para uma delegacia por ser considerada suspeita enquanto, como ela disse na ocasião, “porque a loura que estava sendo revistada antes de mim não veio para cá?”. Por isso Seu Jorge além de múltiplas humilhações, sofridas na Itália foi impedido, em dia de frio europeu, de entrar em uma loja com o carrinho no qual estava a sua filha, “confundido” como um monte de lixo. São apenas alguns exemplos de uma lista interminável de situações em que são endereçadas para pessoas negras mensagens que tem um duplo sentido: reiterar o lugar social subalterno da negritude bem como desencorajar os negros a ousarem sair dos lugares que desde a abolição lhes foi destinado: as sarjetas do país.

O episódio indica portanto, que uma criança, em sendo negra e, por consequência “natural” , pobre e pedinte, pode, “legitimamente”, ser atirada à rua, sem cerimônia. É, devolvê-la ao seu devido lugar. Indica, ademais, que essa criança não desperta o sentimento de proteção (que devemos a qualquer criança) em relação aos perigos das ruas, pois ela é, para eles, uma das representações do que torna as ruas um perigo!

Essa criança, por ser negra, também não é abrigada pela compaixão, pois, há quem vê nelas a “semente do mal”, como o fez certa vez, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, defendendo a descriminalização do aborto para mulheres faveladas, pois seus úteros seriam “fábricas de marginais.”

Há os que defendem a atitude do funcionário que expulsou a criança do restaurante sob o argumento de a que região em que ele está localizado costuma ser assediada por crianças pedintes que aborrecem a clientela dos estabelecimentos comerciais. Na ausência do poder público para dar destino digno a essas crianças, cada um age de acordo com sua consciência, via de regra, expulsando-as. Outros dizem que a culpa pelo ocorrido é dos pais que deixaram a criança sozinha na mesa. O subtexto desse discurso é revelador e “pedagógico”: pais de crianças negras deveriam saber que elas podem ser expulsas de restaurantes enquanto eles se servem porque elas são consideradas pedintes, ou menor infrator! O erro não estaria no rótulo ou estigma e sim nos desavisados que não compreendem esse código social perverso!

Os que assim pensam pertencem à mesma tribo de indignados que consideram que espaços até então privativos de classes sociais mais abastadas começam a serem tomados de “assalto” por uma gente “diferenciada”, fazendo aeroportos parecerem rodoviárias ou praças de alimentação. Aqueles que não se sentem incomodados com a desigualdade e a injustiça social. Aqueles que reclamam que agora “tudo é racismo” porque, para eles, o politicamente correto é dizer que nada é racismo.

Esses são, enfim, aqueles que condenam o Estatuto da Criança e do Adolescente, que advogam pela redução da maioridade penal, que revogariam, se pudessem, o inciso constitucional que define o racismo como crime inafiançável e imprescritível ou a lei Caó que tipifica e estabelece as penalidades por atos de discriminação; conquistas da cidadania brasileira engendradas por aqueles que recusam as falácias de igualdade de direitos e oportunidades em nosso país.

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O aumento da inclusão social ocorrida nos últimos anos está produzindo deslocamentos numa ordem social naturalizada na qual cada um “sabia o seu lugar” , o fundamento de nossa “democracia racial’. O desconforto que esse deslocamento provoca faz com que os atos de racismo estejam se tornando cada vez mais frequentes e virulentos.

Atenção gente negra! Eles mudaram! O mito da democracia racial está revelando, sem pejo, a sua verdadeira face. Então, é hora de se conceber e empreender novas estratégias de luta!

Sueli Carneiro, Geledes

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Comentários

  1. Mariangela Postado em 06/Jan/2012 às 20:30

    me emocionei quando li "O episódio indica portanto, que uma criança, em sendo negra e, por consequência "natural" , pobre e pedinte, pode, "legitimamente", ser atirada à rua, sem cerimônia. É, devolvê-la ao seu devido lugar." o racismo me dói, mesmo eu não sendo negra, me dói porque sou gente, porque SOMOS gente.

  2. Aspirante a Servo Inútil Postado em 07/Jan/2012 às 15:56

    Prezada Sueli, essa realidade é insuportável, e seu texto é irretocável.

  3. Febrageo Postado em 08/Jan/2012 às 11:32

    às vezes tenho vergonha de se branca...

  4. la viea mon avis Postado em 09/Jan/2012 às 13:26

    ...até quando vamos ver esse tipo de coisas...tanto preconceito!!!

  5. A VIDA NUMA GOA Postado em 10/Jan/2012 às 08:45

    O texto é muito bom, com exceção deste trecho:

    "Esses são, enfim, aqueles que condenam o Estatuto da Criança e do Adolescente, que advogam pela redução da maioridade penal, que revogariam, se pudessem, o inciso constitucional que define o racismo como crime inafiançável e imprescritível ou a lei Caó que tipifica e estabelece as penalidades por atos de discriminação"

    Essas generalizações são nefastas e não ajudam em nada o debate.

  6. Confessional Postado em 12/Jan/2012 às 17:57

    Aqui em Salvador, como dizem a Roma Negra, o racismo é constante. Negro de paletó e gravata é confundido como segurança. Professores negros não são aceitos por alunos negros. Lojas e Centros Comercias de luxo ao notar presença de negros em conjunto partem do pressuposto que é uma quadrilha. qui o trabalho intelectual cabem aos brancos. Os manuais, pesados, aos negros. Sou pofessor de História. Eu ouvi em sala de aula, terceiro ano colegial (ensino médio) uma aluna negra afirmar: "Para mim todo negro é ladrão..." Até o Carnaval aqui mudou: negros somente como "artistas" sobre o trio. Os blocos afros, somente pela madrugada. No asfalto, o negro. Nos camarotes uma pseudo elite. Aqui muitos e muitos não aceitam ser negros. Foram contaminados...

  7. Grupo de Representação Tridimensional Postado em 27/Jan/2012 às 15:15

    To me questionando aqui, ninguém viu essa família entrar unida? Ninguém viu que o garoto estava acompanhado, estavam todos cegos de preconceito, isso sim! Pobre, rico, pedinte, o que fosse ,essa criança deveria ter sido tratada com respeito!
    Já vi muito absurdo, mas esse foi demais, que tipo de individuo é esse que com a maior cara dura coloca a vida de uma criança em risco por puro preconceito!?

  8. Luana Garcia Postado em 28/Feb/2012 às 22:31

    Sueli Carneiro, sou socióloga e tive muita sorte de frequentar alguns cursos sobre a realidade da juventude negra no Brasil, por isso devo confessar que seu texto está dentre aqueles que deveriam ser lidos, analisados e discutidos. Nada como verdadeiras palavras retiradas da realidade para subsidiar e dar legitimidade a teoria. Parabéns.

  9. Valdete Lima Postado em 08/Mar/2013 às 13:19

    Sugiro que esse texto seja sujeito à análises e debates em currículos escolares em todos os níveis.

  10. Radazz Kiol Postado em 05/Dec/2013 às 15:22

    Já Falei uma Vez e Falo de novo e de novo e de novo pode até existir RACISMO no Brasil porem existe Muito mais CLASSICISMO do que o Preconceito e o Racismo.... do jeito que o barco vai daqui a algumas décadas o termo RACISMO ira se referi a preconceito de outras raças ao Negro do Pais. Sim existe muito preconceito [Explícito] lá fora porem não ficarem com de longas aqui, e reafirmo novamente... AQUI EXISTE MUITO MAIS O CLASSICISMO DO QUE O RACISMO!!!